Análise, torcida

O GP de Suzuka passou e deixou um rastro que parece solidificar a disputa pelo título da temporada entre apenas três pilotos, Webber, Alonso e Vettel, separados por 14 pontos. Mas ainda é cedo para tirar a dupla da McLaren da contenda. O atual sistema de pontuação mantém 75 pontos em jogo nas três últimas provas (Coreia, Brasil e Emirados Árabes) e Button, o quinto classificado, está apenas 31 atrás do líder Webber. Alguns já queimaram a língua neste ano, ao descartarem apressadamente as chances de Alonso. Raikkonen, em 2007, num sistema muito menos favorável a reviravoltas, provou que não está morto quem peleia. Ganhou um título perdido. Portanto, sem pressa com o andor.

Isso posto, sinto a necessidade de me posicionar abertamente sobre a briga. Webber faz um campeonato praticamente sem erros, é veloz e regular com uma constância admirável. Merece a atual liderança e será um justo campeão. Mas, se isso acontecer, não poderei negar minha frustração. Não admiro o estilo Webber, assim como não sou dos adoradores do estilo Button. São grandes pilotos, aptos ao título mundial – Button é o atual campeão -, mas lhes faltam a chama do arrojo que diferencia os destemidos, loucos para alguns, e que direciona minha torcida.

Vettel é ainda um moleque afobado, que compromete a si e a adversários em corridas e mais corridas. Isso, para alguns, retira dele o merecimento do título. Não para mim. Vettel é claramente mais rápido do que o companheiro Webber, tão mais que, mesmo com todas as lambanças, continua próximo à liderança. Mantendo as comparações históricas que gosto de fazer, Vettel está para Webber assim como Senna estava para Prost. Numa época de raros momentos de arrojo, de uma chatice sem tamanho entre os pilotos, impossível não torcer por um dos poucos que dão graça ao espetáculo.

Alonso é do mesmo time do jovem alemão, mas mais tarimbado. Mais regular e, por isso, melhor. O show que impõe ao pobre Massa desmoraliza o brasileiro desde o início da temporada, a ponto de obrigar o nosso compatriota a reconhecer a superioridade do espanhol. Quem conhece piloto, sabe o quanto isso machuca o ego, a honra. Admitir a inferioridade só mesmo em última instância. Massa chegou a ela. Alonso atualmente é quem mais bem conjuga o arrojo de Vettel, de Hamilton, à frieza de Webber, de Button. Tem um carro claramente inferior à RedBull – Massa que o diga – e, mesmo assim, continua vivíssimo.

Mérito por mérito, fico com a completude de Alonso. Muitas vezes amoral, aética. Como em todos os grandes campeões da história. Se não for ele, que seja Vettel. Ou Hamilton.

Fórmula 1 na Copa

Pelo jeito nossos queridos amigos Daniel Marchi e Marcelo Cerri abandonaram de vez o projeto Fórmula (3 em) 1. Não há de ser nada. Seguimos daqui.

O GP da Valencia já seria naturalmente menos concorrido, disputado em meio à concorridíssima Copa do Mundo. Mas não precisava ser tão menos concorrido assim. Tudo bem que a pista não favorece nem um pouco ultrapassagens. Mas Kobayashi provou que era, sim, possível passar, quando voltou babando dos boxes, já no fim da prova, e se impôs sobre Alonso e Buemi. Faltou sangue nos olhos dos demais.

Webber foi um caso à parte. Saindo da segunda posição, teve uma largada horrorosa, terminou o primeiro giro em 9º e, quando começava a tentar uma improvável recuperação, encheu a traseira de Kova, provocando a entrada do safety car e as mudanças que se mantiveram quase que totalmente até a bandeira quadriculada.

Vale lembrar o que se escreveu sobre Webber aqui, duas corridas atrás, quando vencera em Mônaco e alcançara a ponta do campeonato:

Se continuar no mesmo ritmo, Webber será campeão, não há dúvidas. Mas o “se” ainda alimenta desconfianças nada irrelevantes. Primeiro, porque no ano passado, mais ou menos à mesma altura do campeonato, Webber chegou a despontar como grande rival de Button na disputa pelo título e depois se perdeu pelo caminho. Segundo, porque não é coisa simples o salto de categoria, dos bons para os campeões, do qual estamos falando.

Pois é. Não é nada simples. E parece que muito alto para Webber.

De toda forma, pelo menos no acidente de hoje, Webber foi o menos culpado. Errou mais que ele Kovalainen, que ziguezageou à frente com uma carroça. Errou mais que os dois a FIA, que permite às carroças dividirem o grid com carros que se prezam e chancela, em consequência, qualquer tragédia que venha a ocorrer por conta disso.

Outros merecem menções. Vettel, pela vitória. Button, por mais uma vez ter se mostrado a cabeça mais pensante do circo, o que é bom, mas também por ter ficado inacreditavelmente acomodado atrás de Kobayashi durante 451 voltas, o que é péssimo. Barrichello, por ter levado a frágil Williams a um quase pódio, comprovando pela enésima vez que é bom. Alonso, Massa e Ferrari, de tão apagados, nem menção merecem.

Ao contrário de Hamilton. Em Valencia, novamente o inglês nos fez lembrar grandes campeões, aqueles que tentam se utilizar de todas as brechas possíveis para ganhar segundos que façam a diferença, mesmo que a legalidade de tais brechas sejam discutíveis. Senna chegou a testar passar pelos boxes em vez de pela pista em Mônaco, quando não havia limite de velocidade nos pits, certificando-se de qual caminho seria mais rápido. Salvo engano, fez o mesmo em Donnington. Schumacher chegou a terminar corrida passando, e vencendo, também por dentro dos boxes, para cumprir uma punição e não perder o tempo que perderia se o fizesse antes, quando teria de voltar lento para a pista.

Hamilton hoje ultrapassou o safety car quando não podia. Se seguisse olimpicamente as regras, ficaria atrás do carro de segurança e exatamente à frente de Alonso, mais ou menos na oitava posição. Ao se fazer de desentendido, continuou em segundo e, mesmo punido depois com um drive thru, conseguiu voltar à pista ainda no mesmo posto.

São essas pequenas coisas que os diferenciam dos normais. Quando aprender de vez a lidar com situações de pressão, Hamilton estará definitivamente na galeria dos maiores.

Fórmula (3 em) 1

Menino maluquinho

por Daniel Marchi

E o GP de Constantinopla foi uma delícia. Carros próximos nas primeiras posições e pilotos com vontade de vencer. Não fosse a bobagem histórica protagonizada por Vettel, já teríamos muito a comentar. Por exemplo, para minha surpresa, a estratégia ótima nas corridas tem sido fazer apenas uma parada. Pelo o que conhecemos da FIA, ela deve solicitar para que o fabricante de pneus do próximo ano (chute: Pirelli) produza compostos menos duráveis.

No quadro de forças vemos Red Bull e McLaren, nessa ordem, ocupando as primeiras colocações. Estão consistentes e não devem ser ameaçadas no próximo terço de campeonato. Na seqüência, a Ferrari está fazendo uma força danada para ser superada pela Mercedes. Se não reagir logo vai ficar atrás até da Renault, fato que já vem acontecendo em algumas classificações. Para completar a fase nada boa, Massa está apagado e Alonso vem cometendo erros anormais para o seu padrão de desempenho.

Voltando aos acontecimentos do final da prova. Sebastian Vettel fez um grande favor ao tornar este GP inesquecível. De imediato não me lembro de uma bobagem tão grande cometida por um piloto de alto nível numa equipe de ponta. Calculou muito mal a ultrapassagem sobre Webber e, pior do que isso, mostrou que tem miopia quando observa o campeonato como um todo.

Não percebe que está com o melhor equipamento do ano e que tem capacidade para reagir à excepcional fase vivida pelo companheiro de equipe e resolver as coisas sem assumir riscos tão grandes. Ainda, mostrou imaturidade e falta de profissionalismo ao sair do carro, indicando com a mão que Webber era maluco (não obstante eu, torcedor, achar o máximo quando isso acontece). Resumindo, fez molecagem, no mal sentido.

PS: Um domingo de automobilismo em dose calavar. F-1, Indy 500 e Coca-Cola 600, na Nascar.

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Saudosos Malucos

por Thiago Barros Ribeiro

Ok, Vettel foi afoito e acabou pagando caro pelo excesso de arrojo num momento inadequado. A sua maior pena foi justamente perder, no mínimo, os 18 pontos que faria ao terminar em segundo e que muito o ajudariam na disputa pelo título.

Isso posto, discordo plenamente de qualquer crítica mais dura ao jovem e talentoso alemão. Discordo por ser incoerente. Não podemos criticar um piloto por ser mais arrojado do que o normal para os padrões atuais se vivemos reclamando da falta de emoção e do modorrento bom mocismo que há tempos predomina na enfadonha Fórmula 1.

Quantos de nós – eu muitas vezes – não lembram saudosamente dos malucos da década de 80, de pilotos que quase se matavam dentro da mesma equipe em busca de uma vitória, de um ponto a mais que fosse? Eram os adoráveis Piquet e Mansell na Williams, os brilhantes Senna e Prost na McLaren, que levavam à risca a máxima de que o maior rival é aquele que dirige na mesma equipe. Camaradagem entre eles? Jogo de equipe? Nem por brincadeira.

E aí, aparece um Vettel, um Hamilton – e hoje até um Button – que fazem lembrar os bons e velhos tempos, que têm sangue quente nos olhos e nas veias, que erram sim, como erravam Senna, Mansell – erros por vezes próximos do absurdo, como o de Vettel hoje. Erram por querer demais. E vamos criticar? Devemos é glorificar.

Em tempo, é importante notar um aspecto que tem sido decisivo para essa nova postura dos pilotos, agora com tanta vontade de vencer. Se antes a mínima diferença de 2 pontos entre os dois primeiros- 10 ante 8 – tendia a acomodar um piloto na segunda colocação, hoje a quase abissal distância de 7 pontos entre eles é que faz com que Vettel, Button e todos os outros vejam a vitória com tanta água na boca. Bela alteração.

Quanto ao campeonato, a Ferrari parece que subiu no telhado. Se tudo continuar na mesma toada, os quatro de RedBull e McLaren, e apenas eles, ainda vão brigar muito e oferecer não menos espetáculo na contenda.

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Gênios podem ser loucos, mas não são burros

por Marcelo Cerri

O GP da Turquia foi mais uma mostra de que vivemos um dos melhores anos da história da F1. Falaremos de 2010 aos nossos filhos com aquele mesmo saudosismo que nossos pais nos falam dos anos 80. Além de mudanças nas regras que proporcionaram corridas mais combativas, temos também pilotos que têm sangue quente nas veias, que buscam a vitória a qualquer custo. Em alguns momentos esses gênios parecem ter enlouquecido, agem como irresponsáveis. Mas qual grande campeão não tem no currículo uma meia dúzia de maluquices? Qual grande campeão não teve brigas memoráveis com seus companheiros de time? Que eu me lembre, somente Schumacher nunca teve grandes arranca rabos com seus companheiros, o que ajudou a fazer de seus anos de reinado os mais chatos que a F1 já vivenciou.

Vimos ontem duas brigas entre companheiros que permanecerão na memória de todo grande admirador de automobilismo. Hamilton e Button protagonizaram um momento mágico, pensei até que fossem se tocar e acabar em lambança. Talvez o final trágico tenha sido evitado pelo que acabara de acontecer aos dois pilotos da Red Bull, o que deve ter feito com que Martin Whitmarsh ordenasse o fim da brincadeira. Mas a grande polêmica do dia foi o acidente entre Sebastian Vettel e Mark Webber. À primeira vista, parecia que o garoto alemão tinha enlouquecido: já estava quase à frente do companheiro quando, de repente, joga o carro para a direita acertando em cheio o inocente e experiente australiano. Mas antes de crucificar o geniozinho incauto, partamos do princípio que gênios erram por excesso de arrojo, por riscos desmedidos, mas não por burrice.

Muitos estão dizendo que Webber permaneceu em seu traçado, não mexeu o carro, portanto não cometeu erro algum. Mas os dois não estavam em uma reta infinita: havia uma curva à esquerda logo à frente, o que os obrigaria a fazer a tomada à direita. Entretanto o piloto experiente resolveu não fazer a curva e permanecer espremendo o menino afoito na parte interna. Tudo bem, Vettel errou ao achar que Webber fosse fazer a tomada. Mesmo que estivessem no limite para tal, não se pode prever o que o outro fará. Porém, se o alemão tivesse permanecido em linha reta, os dois não fariam a curva, espalhariam, e seriam ultrapassados pelas duas McLaren que vinham babando atrás. Portanto, para se defender do companheiro, Webber teria dado as duas primeiras posições aos adversários. Isso sim é que é loucura! Concluindo, o erro de Vettel foi não prever que seu companheiro de equipe fosse maluco. Seus gestos pós-acidente, mesmo que indevidos, não foram por acaso.

Fórmula (3 em) 1

Hoje excepcionalmente não contaremos com as contribuições do Marcelo e do Daniel para o blog. No GP da Turquia eles voltam.

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Será?

por Thiago Barros Ribeiro

Aos olhos de todos os que acompanham a Fórmula 1, Mark Webber é mais um daqueles pilotos competentes, em alguns momentos até um pouco mais do que isso, mas sem a pitada a mais do talento, do brilhantismo, da estrela que constrói os campeões. Está na mesma categoria de outros bons, mas não extraordinários, pilotos da história, como Berger, Patrese, Barrichello e Coulthard.

Nas duas últimas semanas, porém, Webber se credenciou a saltar deste para o degrau acima, onde se localizam os campeões. Sobrou na pista tanto em Barcelona quanto em Mônaco. Além dos 50 pontos e da liderança do campeonato agora no bolso, o feito ganha ainda mais relevo por dois motivos: as pistas espanhola e monegasca têm nada em comum, o que mostra a versatilidade do australiano, e Vettel, o companheiro que comeu poeira em ambas, não é um piloto qualquer.

Se continuar no mesmo ritmo, Webber será campeão, não há dúvidas. Mas o “se” ainda alimenta desconfianças nada irrelevantes. Primeiro, porque no ano passado, mais ou menos à mesma altura do campeonato, Webber chegou a despontar como grande rival de Button na disputa pelo título e depois se perdeu pelo caminho. Segundo, porque não é coisa simples o salto de categoria, dos bons para os campeões, do qual estamos falando. Lembro-me apenas de dois que conseguiram realizá-lo: Jenson Button e Damon Hill. Ambos nunca tiveram pinta de campeão. Até serem campeões. Será Webber o terceiro?

Aproveitando o GP de Mônaco, e mudando totalmente o rumo da prosa, é sempre nessa pista que me lembro – e tenho a convicção de que estou certo -, por que considero Ayrton Senna o maior de todos os tempos. As ruas do principado são as únicas na Fórmula 1 que permitem a um carro constantemente mais lento chegar à frente dos mais rápidos. É, pois, a única em que o braço de um piloto pode fazer uma diferença a ponto de significar uma vitória diante de bólidos mais velozes.

Senna venceu 6 vezes em Mônaco. Em três das vitórias, levou um carro reconhecidamente inferior aos dos rivais ao primeiro posto. A Lotus de 87 e as McLaren de 92 e 93 não teriam condições de vencer não fosse Ayrton o condutor. Isso sem falar na fraca Toleman de 84, que, nas mãos de outro chofer, jamais chegaria próxima à façanha de vencer, antes da interrupção pela chuva.

Desde Ayrton, nunca mais um piloto em clara inferioridade de equipamento conseguiu vencer regularmente, como ele fazia em Mônaco. Pode ter acontecido vez ou outra, com um ou outro. Mas nunca se tornou regra como era com o brasileiro em Mônaco. Ele, o maior de todos e que tanta falta faz.

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Em tempo, Daniel não vai escrever hoje, mas informa que a ultrapassagem de Schumacher sobre Alonso será revertida. Ao que parece, como a corrida só pode ser considerada reiniciada pra valer quando o primeiro colocado passa pela linha de chegada, e neste caso quando o primeiro colocado passou a corrida terminou, não valeu nada. Pra completar, o comissário da prova, Damon Hill, não deve ter ficado muito triste por tirar pontos de Schumacher. Alonso fica a apenas três da dupla da RedBull na disputa pelo campeonato.