Libertadores em revista

Como bom viciado em futebol de folga, passei os últimos dias reforçando o músculo que circunda o umbigo, em frente à TV assistindo a tudo que é jogo. Liga dos Campeões, Liga Europa, Libertadores, Copa do Brasil, o cardápio foi bastante variado. Treze jogos em três dias, oito completos e cinco em flashes.

Dos cinco jogos brasileiros na Libertadores, acompanhei quatro por completo. Apenas o do Flamengo, por ser simultâneo ao do Corinthians, ficou relegado aos melhores lances. Impressões daqui, impressões dali, eis uma rápida revista sobre todos os tupiniquins no torneio continental, organizada em acordo com o aproveitamento de cada um até aqui.

Flamengo

Até agora com 100%, o mais querido tem apresentado o melhor futebol entre os brasileiros, mas se beneficia por estar também no grupo mais fácil e por ainda não ter enfrentado o adversário mais forte, Univesidad de Chile. O aspecto que preocupa nas duas primeiras partidas é o mesmo que torna as atuações elogiáveis. Em ambos os encontros, o rubro-negro passou boa parte do tempo com um jogador a menos, mostrando estar entre os que confundem jogo duro com jogo desleal – o Cruzeiro é, até agora, o primeiro da turma neste quesito -, mas, mesmo assim, conseguiu sedimentar as vitórias com autoridade, o que, a despeito da qualidade dos rivais, é digno de boas notas – em comparação, o Cruzeiro conseguiu apenas dois dos nove pontos disputados com um (ou mais) a menos durante parte do jogo, mesmo contra adversários tão (ou mais) fracos quanto os do Flamengo: Real Potosí e Deportivo Itália. Ainda alvissareiro para o carioca é o ótimo início de temporada de Vágner Love, que virá especialmente ao caso se Adriano continuar a representar mais problema do que solução para a equipe.

Corinthians

De longe o mais badalado antes do torneio, por conta do centenário, o time paulista ainda não se encontrou, sofrendo com a indefinição do time. O comportamento no primeiro jogo fora dos domínios faz crer que a satisfação será enorme se terminar a primeira fase com 12 pontos (3 vitórias em casa e 3 empates fora), o que garante a classificação, de fato o mais importante num torneio em que ficar com a melhor ou a pior campanha na primeira fase faz pouca ou nenhuma diferença. A escalação de Mano Menezes mostrou que o treinador está muito menos convicto do que aparentava em relação a Danilo e Tcheco juntos num meio-campo que tende a se tornar lento e, principalmente nos jogos fora, pode optar por alguém mais combativo na faixa central de campo – Jucilei, na quarta. Em teoria faz sentido, na prática foi injusto por ter sido Tcheco, ao lado de Elias, os melhores em campo contra o Racing, no Pacaembu. Surpreendentemente, o alvinegro pode se tornar vítima de sua maior arma, Ronaldo. Verdadeiro rei-momo em campo, o craque, se não recuperar logo o ritmo de jogo – em 2009, com o mesmo número de jogos e a mesma massa corporal, estava fazendo gols a valer -, tem tudo para se tornar, com o perdão da palavra, um peso em dobro para o time: a movimentação paquidérmica deixa a equipe com um a menos em campo e tirá-lo do time parece inimaginável para o pobre Mano, refém, como o Corinthians, da marca Ronaldo. Pode complicar os anseios alvinegros.

São Paulo

O tricolor paulista tem o elenco que permite as maiores variações táticas durante um jogo. Poucos pauzinhos são necessários movimentar para que o time se torne mais cadenciado, com mais posse de bola, ou mais insinuante, privilegiando a velocidade e os contra-ataques. Se a Libertadores fosse disputada no segundo semestre, seria meu favoríto ao título, mas, com o escasso tempo de pré-temporada e a indefinição de Ricardo Gomes em relação aos 11 titulares – muito maior que a de Mano para com os seus -, o feitiço pode virar contra o feiticeiro, na forma do desentrosamento até agora demonstrado. O jogo de ontem, contra o fraquíssimo Nacional, no Paraguai, ratificou Richarlyson como fundamental no esquema de Ricardo Gomes, insubstituível, justamente por ser a peça que permite ao treinador, sem mais nem menos, passar do 4-4-2, com os laterais mais recuados, quase formando uma linha quádrupla atrás, para o 3-5-2, liberando os alas e recuando o próprio Richarlyson para pouco à frente da zaga. Displicente, Marcelinho Paraíba, em mais uma atuação desastrosa, deve ter garantido sua saída do time, oram os tricolores, abrindo vaga para Cléber Santana. Outra alternativa muito desejada pelos torcedores é um tridente ofensivo, às custas de Santana, com Dagoberto voltando um pouco para marcar e Fernandinho e Washington mais à frente. Agrada-me, mas, pelo menos por enquanto, essa opção parece estar no leque de Ricardo Gomes apenas em casos excepcionais, em que o time estiver atrás no placar ou necessitar de um resultado mais vitaminado. O time não empolga, mas tem potencial.

Internacional

Os jogos do meio da semana – e também a estréia do time gaúcho – destacaram o colorado como aquele com mais “espírito de Libertadores” entre os postulantes brasileiros. O time joga com gana entusiasmante – pólo oposto ao que se tem visto no São Paulo -, simbolizada pelo argentino Guiñazú, verdadeiro leão em campo. Porém, tem sérios problemas na linha de defesa, que ficaram notórios ontem, quando não perdeu para o apenas esforçado Deportivo Quito devido à enxurrada de chances desperdiçadas pela péssima pontaria dos equatorianos. A presença do uruguaio Jorge Fossati no banco e do argentino Pato Abbondanzieri no gol são positivas. Ambos gozam de um passado relevante na competição e de boa imagem entre os sulamericanos, quesitos que não costumam ser irrelevantes para a conquista de uma Libertadores.Vale dizer que, apesar de importantes, apenas vontade e cartaz não dão títulos a ninguém e o Inter não está num grupo dos mais fáceis. Jogar na altitude do Equador vem há tempos sendo um pesadelo para os brasileiros, é verdade, mas o empate contra o penúltimo colocado do campeonato local, associado à vitória na bacia das almas contra o Emelec, no Beira-Rio, preocupa. Bom abrir os olhos. O Inter é forte, mas a eliminação do então campeão na primeira fase de 2007 ainda está fresca na memória dos gaúchos.

Cruzeiro

Outro que ainda não se encontrou no torneio, talvez fruto da mesma árvore que justifica os desempenhos pouco vistosos de Corinthians, São Paulo e Inter, o rodízio de atletas. Para piorar, o alviceleste está no grupo mais difícil entre os brasileiros, com o forte Vélez e o perigoso Colo-Colo, e perdeu dois pontos imperdíveis ontem, dominado no empate diante do fraco Deportivo Itália. No cenário de hoje, a primeira preocupação dos mineiros não deve ser conquistar o título, mas se classificar para a segunda fase. O time apresenta atletas capazes de decidir – Kléber, Roger, Gilberto -, mas, conforme mencionado, tem sofrido – desde o Brasileiro do ano passado, diga-se de passagem – com expulsões bobas e altamente prejudiciais. Ao contrário do que acredita o pachequismo de alguns, o Cruzeiro, assim como todos os demais partícipes nacionais, não é tão favorito assim ao título. Está – também assim como todos os rivais brasileiros – entre os fortes candidatos, pelo bom e bem treinado time que possui e pela experiência acumulada em 2009, mas tirar da mesma lista times como o atual campeão Estudiantes, o Vélez e até mesmo o aguerrido Banfield, para ficar no mínimo, soa como desconhecimento de causa e amnésia para um país que perdeu as três últimas finais continentais para adversários estrangeiros.