Nadal: sangue, suor e talento para a História

Rafael Nadal acaba de conquistar US Open. Ao bater com autoridade o sérvio Novak Djokovic, por 3 sets a 1, o espanhol ratificou sua posição de melhor tenista da atualidade e, muito mais importante, continuou a rechear com espantosa fartura seu invejável currículo.

O taça nos Estados Unidos foi o nono título de Nadal no Grand Slam, circuito que reúne os quatro principais torneios do tênis mundial. Além do troféu de hoje, já são incríveis cinco triunfos no saibro de Roland Garros, dois na grama de Wimbledon e um na quadra dura do Australian Open.

Para se ter uma primeira ideia do que significa tal feito, na chamada Era Moderna, em que os torneios são jogados numa variedade de superfícies – saibro francês (lento), quadra dura australiana e norte-americana (rápida) e grama inglesa (muito rápida) – que em muito dificulta a conquista cumulativa, apenas outros dois jogadores conseguiram o feito: Andre Agassi e Roger Federer. Nem Pete Sampras, para alguns – que eram muitos até aparecer Federer – o maior de todos os tempos, chegou lá. Faltou Roland Garros.

Mas não é só. Para ficar apenas em Federer, a lenda, o homem que faz parecer fácil qualquer golpe no jogo de tênis, tido e havido atualmente como o mais completo da História, o aparentemente impossível se verifica: Nadal tem números melhores que os do suíço quando este possuía os mesmos 24 anos que o espanhol completou em 3 de junho. À época, em 2005, Federer, hoje recordista de Grand Slams, com 16, tinha “apenas” seis conquistas. Chegou a nove no ano seguinte, já com 25 primaveras.

A seguir no ritmo que vem apresentando nas últimas temporadas, algo que parece provável, nada leva a crer que Nadal não consiga superar o recorde de títulos de Federer, mesmo considerando que o suíço ainda tenha conquistas pela frente. Ao contrário, o número de 16, de 20 Grand Slams, parece hoje absolutamente palpável ao Touro Miúra.

Nadal com o US Open: maior de todos os tempos?

Nadal está longe das jogadas embasbacantes de Federer, que demonstram uma habilidade absolutamente impensável para humanos comuns. Mas está também longe de Federer quando os quesitos são fibra, preparo físico, vontade de vencer, sangue nos olhos. Nisso, é ele, Nadal, o embasbacante, que dá banho em qualquer dos grandes que até hoje surgiram.

Provalvemente esteja aí, no conjunto dessas características com doses generosas de talento e regularidade, o segredo que poderá fazer de Nadal o maior da História. Pelo menos em termos de grandes conquistas.

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Viva a “burguesia”!

Em mais uma das suas, o presidente Lula deu o ar da graça em vídeo amador que circula pela rede. Numa conversa informal com um jovem que reivindica uma quadra de tênis para treinar, Lula, de forma não muito polida, diz para o meninão, bem crescidinho e nutrido, diga-se de passagem, treinar outra coisa, pois “tênis é esporte da burguesia”.

Bastou para o alvoroço. A grita seria de todo correta se girasse em torno do palavreado do presidente, que foi acompanhado no tom pelo governador do Rio, Sérgio Cabral. Também poder-se-ia criticar Lula por estabelecer quem deve praticar uma ou outra modalidade, de acordo com a posição social.

Mas não. Para pasmar aqueles que ainda conseguem tal proeza num mundo cada vez mais fora da ordem, a maioria dos revoltados veio a público refutar o rótulo de “burguês”, bradando que jogavam sim tênis, mas não admitiam apenas por isso serem chamados de burgueses. Como se tal alcunha fosse sinônimo de hediondo crime.

Ora, no sentido marxista utilizado por Lula, a “burguesia” representa aqueles com melhores condições de vida ou, para continuar no marxismo, os donos dos meios de produção. Os ricos, grosso modo. E aqui devo, por respeito à minha consciência, concordar com o presidente. O tênis, sem sombra de dúvida, é um esporte que exige certa condição financeira de seus praticantes. Não tanto como o automobilismo ou o iatismo, mas uma raquete, das mais simples, não sai por menos de R$ 200,00. A hora-aula, a preços módicos, R$ 30,00. Só nisso já vai uma quantia proibitiva para a maior parte dos brasileiros.

São, pois, os “burgueses” que costumam jogar tênis. Em geral, podem hoje dar suas raquetadas cá e acolá porque trabalharam para isso. Não conseguiram sua riqueza graças a alguma chuva de dinheiro, mas sim por um grande esforço recompensado pela justa remuneração. Merecem os parabéns por serem “burgueses”. Não têm de se defender por serem bem-sucedidos, por poderem jogar tênis, viajar anualmente para o exterior ou fazer qualquer outra coisa que exija dinheiro.

Devem ser admirados, imitados, servirem de inspiração àqueles que não estão à mesma altura. Que um ou outro aloprado pelo socialismo surja com disparates é até bastante esperado. Que os próprios “burgueses” se coloquem em posição de indignada defesa é de um absurdo atroz.

Triste sinal de nossos dias. Em que é feio, em que causa vergonha, estar entre os melhores. A pessoa sente-se quase obrigada a pedir desculpas. Condenada por se dar bem na vida. A criminalização do sucesso.

Bonito é ser carente. Grandioso é viver de esmolas. Vender drops no sinal. A ode à mediocridade. O império do pensamento socialista.

Esperando o dia em que esse verdadeiro racionalismo às avessas tenha fim, só me resta o grito tênue, quase afônico em meio à turba: viva a burguesia!

Incrível

Possivelmente já tenham lido em algum canto a notícia, mas fiquei tão boquiaberto com ela que vou abrir um pequeno parênteses na Copa.

Terminou na manhã desta quinta-feira a maior partida da história do tênis. Disputada em Wimbledon (o torneio mais tradicional e importante do circuito), a partida não foi a maior por reunir os dois melhores jogadores da História e sim por ser a mais longa de todos os tempos. O estadunidense John Isner (nº. 19 do ranking) e o francês Nicolas Mahut (nº. 148 do ranking) ficaram nada menos do que 11 horas e 5 minutos em quadra até que Isner conseguisse fechar o duelo em 3 sets a 2, fazendo, acreditem se quiser, 70 a 68 no set decisivo. Não, não digitei errado não, foram 70 games a 68 games no quinto set. Quem joga tênis, mesmo por brincadeira, como eu, não sabe mas consegue imaginar o que é isso.

Antes, o jogo mais longo havia durado “apenas” cerca de 6 horas e meia, o que dá uma medida da façanha conseguida pelos atletas, que tiveram de ficar três dias em quadra para completar o confronto. Nem a luz natural conseguiu ir até o fim em uma só viagem.

Outros números extraordinários da batalha: 980 pontos disputados; 215 aces (pontos diretos de saque), sendo 112 de Isner e 103 de Mahut – o croata Ivo Karlovic detinha o recorde de aces em uma partida: “míseros” 78; o número de games apenas do quinto set (138) foi maior do que o agora antigo recorde para uma partida completa (112).

E o mais legal é que a partida foi tão longa, mas tão longa, que enquanto era disputada deu tempo de preparar todas as homenagens que foram feitas aos jogadores após o duelo. Placas entregues pelos ex-tenistas ingleses Tim Henman e Ann Jones.