Vettel 2010, Senna 1988

A Fórmula 1 tem um novo príncipe: Sebastian Vettel, 23 anos e alguns poucos meses, o campeão mais jovem, e um dos mais talentosos, de todos os tempos. Com a vitória no belo mas modorrento circuito de Abu Dabi, o alemão fechou com chave de ouro uma temporada em que foi esculachado por muitos afoitos de plantão. O motivo? Ser arrojado demais.

Felizmente, este espaço sempre criticou os críticos. Criticou por acreditar que a Fórmula 1 ressente-se hoje justamente do arrojo que a marcou e imortalizou em passado não tão distante. Criticou por crer que o acidente em busca de uma vitória é muito mais atraente, espetacular e instigante do que o contentamento com uma segunda colocação. Criticou por lembrar críticas muito parecidas, e também absolutamente fora de propósito, a um certo Ayrton Senna, pelos idos de 1988. Criticou, e hoje se sente intimamente realizado, com a razão como acompanhante.

Vettel foi, de longe, o piloto mais rápido da temporada. As dez pole positions comprovam. Se precisou de uma improvável combinação de resultados na última corrida para ser campeão, foi pelos (louváveis) excessos pessoais, aqui e ali, e pela pouca confiabilidade de sua Red Bull, lá e acolá. As semelhanças com o mito Senna continuam. Em 88, Ayrton também reinou à frente de todos em termos de velocidade – fez simplesmente 13 poles, em 16 provas -, mas quase perdeu o seu primeiro caneco por descuidos relativamente frequentes. Felizmente, tanto daquela vez quanto desta, o melhor venceu.

Voltando um pouco mais, e para finalizar a seção cara de um, focinho de outro, é impossível deixar de mencionar a analogia quase perfeita entre a primeira vitória de Vettel, com a Toro Rosso, na molhada Monza, em 2008, e o primeiro triunfo de Ayrton, com a Lotus, em meio ao temporal de Estoril, em 1985.

O mais rápido de 2010, o campeão de 2010. Vettel, grande

A temporada se fecha e exige alguns outros apontamentos, todos secundários frente ao talento de Vettel:

1. Alonso: comportou-se mal hoje. Não é fácil perder, sobretudo para quem tanto gosta de ganhar. Ao contrário de muitos, não acho que o asturiano tinha a obrigação de, imediatamente após a corrida, cumprimentar o novo campeão. Ora bolas, o cara havia acabado de perder o título mundial! No mínimo, estava espumando debaixo do capacete. Com sangue espanhol nas veias, então… Nada, porém, justifica a reclamação contra Petrov, que fez simplesmente o que qualquer piloto deve fazer quando está à frente em disputa por posição: tentar manter-se à frente. Deslize à parte, a temporada de Alonso esteve muito além do que permitia a limitada Ferrari – Felipe Massa que o diga. O tricampeonato do espanhol, houvesse acontecido, seria totalmente merecido. 

2. Webber: em poucas palavras, para não repetir o que já foi dito aqui outras vezes: não tem estofo para ser campeão mundial. Nunca terá. Um Coulthard.

3. Red Bull: acabou premiada por não fazer, em nenhum momento, jogo de equipe a favor de Webber, que liderou o time durante quase todo o certame, em detrimento de Vettel – se tivesse ordenado a troca de posições em Interlagos, o que parecia bastante razoável, hoje o campeão seria Alonso. Mas, antes de glorificar a atitude do time austríaco, é preciso lembrar que, se não houve o tal jogo de equipe, foi muito menos por conta da pretensa desportividade e muito mais pelo fato de o preferido da equipe, e o melhor na pista, Vettel, estar sempre circunstancialmente atrás de Webber na pontuação. Se fosse o oposto, custo a crer que o tal espírito esportivo seria tão grande.

4. Ferrari: para variar um pouco, errou em quase todas as estratégias ao longo da temporada. Quase, pois teve apenas um grande acerto, suficientemente destrinchado aqui: a troca de posições entre Massa e Alonso, no GP da Alemanha.

5. Os irmãos: Massa e Schumacher, temporada para ser esquecida. A partir de certo momento, passaram a colocar nas costas dos pobres pneus toda a culpa pela lavada que levavam de seus companheiros. É esperar para ver se os Pirelli confirmam a tese dos dois, em 2011. Truco.

6. Tabu: com a derrota de Alonso, permanece uma curiosa escrita: em todos os anos de Copa do Mundo, nunca o campeão mundial de Fórmula 1 foi do mesmo país campeão mundial de futebol.

E que Vettel continue rumo ao posto que parece seu de direito. Ao lado das maiores lendas do automobilismo em todos os tempos.

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A nova velha dupla

Ofuscada pela Copa do Mundo, a corrida de hoje em Montreal manteve o bom nível de quase todas as etapas anteriores da Fórmula 1 neste ano. Lewis Hamilton conseguiu a segunda vitória consecutiva, capaz de, apesar dos insucessos no início do campeonato, fazê-lo ultrapassar de uma só tacada Webber e Button na classificação, chegando ao primeiro posto.

A dobradinha da McLaren no Canadá – também segunda consecutiva – poderia bem ter sido não em primeiro e segundo, mas sim em segundo e terceiro, caso Alonso não pecasse duas vezes em momentos de ultrapassagens sobre carros menos velozes. Na primeira, quis a qualquer custo ultrapassar Buemi ao invés de esperar a parada que o suíço obrigatoriamente teria de fazer e que lhe daria a liderança. Não passou, abriu espaço para Hamilton e, quando Buemi se encaminhou para os boxes, ainda na mesma volta, viu o britânico, já à sua frente, assumir a ponta.

Na segunda, bobeou quando chegou para colocar mais uma volta em Chandhok, piloto da tartaruga Hispania. Quando se deu conta, Button já estava ao seu lado e, com mais ação de motor, não teve maiores dificuldades para jantar o segundo lugar.

Mesmo com as duas mancadas, Alonso saiu com algum lucro da América do Norte. Na quarta posição, definitivamente passa a ser o único fora do quarteto de McLaren e RedBull com alguma condição de chegar ao título. Apesar de ter um carro pior, conta com duas forças a seu favor: (i) a péssima temporada de Massa na Ferrari, que facilita e apressa a tarefa dos italianos de passar a concentrar forças no carro de Alonso – e por falar em Massa, por mais que tente, não consigo entender a opção ferrarista pela renovação por mais dois anos com ele, e com tamanha antecedência; (ii) possíveis brigas internas em McLaren e RedBull, que possam tirar pontos das favoritas e despejá-los no colo do asturiano. Embora não seja o mais provável hoje, pode acontecer.

E, no momento nostalgia, lembro o quanto a dupla Hamilton-Button na McLaren atual me traz à memória a dupla Senna-Prost, na McLaren de 88/89. Hamilton, assim como Senna, é reconhecidamente mais talentoso, mais espetacular, mais piloto com as mãos e os pés. Button, assim como Prost, é mais cerebral, mais frio, calcula melhor o desenvolvimento do carro ao longo da corrida, é mais piloto com a cabeça.

Button (Prost) dificilmente vai ganhar do rival interno quando o negócio tiver de ser resolvido unicamente em disputas de retas e freadas na pista. Mas vai ganhar muitas beneficiado por quebras e excessos do concorrente. Hamilton (Senna) corre mais. Button (Prost) pensa mais. Hamilton (Senna) é coração. Button (Prost) é cabeça.

Eu sou coração.

Fórmula (3 em) 1

Hoje excepcionalmente não contaremos com as contribuições do Marcelo e do Daniel para o blog. No GP da Turquia eles voltam.

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Será?

por Thiago Barros Ribeiro

Aos olhos de todos os que acompanham a Fórmula 1, Mark Webber é mais um daqueles pilotos competentes, em alguns momentos até um pouco mais do que isso, mas sem a pitada a mais do talento, do brilhantismo, da estrela que constrói os campeões. Está na mesma categoria de outros bons, mas não extraordinários, pilotos da história, como Berger, Patrese, Barrichello e Coulthard.

Nas duas últimas semanas, porém, Webber se credenciou a saltar deste para o degrau acima, onde se localizam os campeões. Sobrou na pista tanto em Barcelona quanto em Mônaco. Além dos 50 pontos e da liderança do campeonato agora no bolso, o feito ganha ainda mais relevo por dois motivos: as pistas espanhola e monegasca têm nada em comum, o que mostra a versatilidade do australiano, e Vettel, o companheiro que comeu poeira em ambas, não é um piloto qualquer.

Se continuar no mesmo ritmo, Webber será campeão, não há dúvidas. Mas o “se” ainda alimenta desconfianças nada irrelevantes. Primeiro, porque no ano passado, mais ou menos à mesma altura do campeonato, Webber chegou a despontar como grande rival de Button na disputa pelo título e depois se perdeu pelo caminho. Segundo, porque não é coisa simples o salto de categoria, dos bons para os campeões, do qual estamos falando. Lembro-me apenas de dois que conseguiram realizá-lo: Jenson Button e Damon Hill. Ambos nunca tiveram pinta de campeão. Até serem campeões. Será Webber o terceiro?

Aproveitando o GP de Mônaco, e mudando totalmente o rumo da prosa, é sempre nessa pista que me lembro – e tenho a convicção de que estou certo -, por que considero Ayrton Senna o maior de todos os tempos. As ruas do principado são as únicas na Fórmula 1 que permitem a um carro constantemente mais lento chegar à frente dos mais rápidos. É, pois, a única em que o braço de um piloto pode fazer uma diferença a ponto de significar uma vitória diante de bólidos mais velozes.

Senna venceu 6 vezes em Mônaco. Em três das vitórias, levou um carro reconhecidamente inferior aos dos rivais ao primeiro posto. A Lotus de 87 e as McLaren de 92 e 93 não teriam condições de vencer não fosse Ayrton o condutor. Isso sem falar na fraca Toleman de 84, que, nas mãos de outro chofer, jamais chegaria próxima à façanha de vencer, antes da interrupção pela chuva.

Desde Ayrton, nunca mais um piloto em clara inferioridade de equipamento conseguiu vencer regularmente, como ele fazia em Mônaco. Pode ter acontecido vez ou outra, com um ou outro. Mas nunca se tornou regra como era com o brasileiro em Mônaco. Ele, o maior de todos e que tanta falta faz.

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Em tempo, Daniel não vai escrever hoje, mas informa que a ultrapassagem de Schumacher sobre Alonso será revertida. Ao que parece, como a corrida só pode ser considerada reiniciada pra valer quando o primeiro colocado passa pela linha de chegada, e neste caso quando o primeiro colocado passou a corrida terminou, não valeu nada. Pra completar, o comissário da prova, Damon Hill, não deve ter ficado muito triste por tirar pontos de Schumacher. Alonso fica a apenas três da dupla da RedBull na disputa pelo campeonato.