“Ele é malandro, além de tudo.”

O futebol que os meninos do Santos têm apresentado encanta a todos os que gostam de futebol. Em sendo um deles, fico, pois, encantado. Puxando pela minha memória futebolística, apenas o Palmeiras do primeiro semestre de 1996, com Luxembrugo no comando fora de campo, e Djalminha, Rivaldo e Müller dentro dele, conseguiu o mesmo brilhantismo. O desafio do clube praiano é superar o alviverde na curtíssima duração do tempo áureo.

Gostar do que os moleques fazem em campo não me obriga, contudo, a gostar ou concordar com o comportamento deles fora das quatro linhas. Não vou com a cara e com a índole de nenhum dos três atores principais do time, Robinho, Neymar e Ganso, e fico profundamente incomodado com o fato de até a parte que considero séria na imprensa esportiva dar uma espécie de carta branca a todas as atitudes dos jovens – Robinho nem tão jovem assim – simplesmente pelo fato de jogarem um belo futebol.

Ontem, assistia a Santos e Atlético-MG, pela ESPN Brasil, quando Fabiano, do Atlético, acertou sem querer a mão no peito de Ganso. Incontinenti, o santista levou as mãos ao rosto e caiu como se fora esmurrado, provocando a expulsão do adversário. Paulo Vinícius Coelho, um dos comentaristas que mais admiro, pelo conhecimento e independência com que se apresenta, foi então ao microfone e disse, tom elogioso, “Ele é malandro, além de tudo.”

Decepção em dose dupla. Primeiro, por PVC se deixar levar pela nefasta mania brasileira de achar que ser “malandro” é legal. Fôssemos menos “malandros”, seríamos mais ricos, mais desenvolvidos, mais cultos, menos sofridos. Ele deveria saber disso e jamais poderia falar o que disse. Segundo, pela tal alforria, ou pior, pela graça que se enxerga em tudo o que os malandrinhos do Santos fazem. Se qualquer jogador normal fizesse o que Ganso fez – como Rivaldo fez contra a Turquia, na estreia do Brasil na Copa de 2002, quando foi acertado pela bola no joelho e caiu com as mãos no rosto – seria criticado, senão por toda, ao menos pela porção que merece respeito na imprensa esportiva. Como foi o Ganso, até essa porção acha que é bonito, que é elogiável enganar a arbitragem.

Algo parecido aconteceu domingo passado, quando Ganso simplesmente se recusou a ser substituído contra o Santo André, na final do Paulista. Ao ver a placa com o seu número subir na lateral do campo, falou que não ia sair e ponto final. Dourival Junior, seu treinador, que se resolvesse com seus próprios miolos.

Na minha época, isso se chamaria insubordinação e mereceria críticas, a despeito de a decisão do treinador ser acertada ou não – de fato, não era. Fosse Serginho Chulapa, Edmundo, Adriano a fazerem gesto semelhante, não seria exagerado pensar em crucificação em praça pública. Mas Ganso… bom, Ganso mostrou maturidade, experiência, segurança, qualidades admiráveis para um jovem da sua tenra idade.

Com Neymar e o seu irritante cai-cai não é muito diferente. Sempre o menino está certo e os adversários errados. O fato de o futebol ser um esporte de contato se esquece em nome da vítima.

Robinho tem o próprio passado a seu desfavor. Não conseguiu esquentar lugar – na verdade, esquentou apenas os bancos de reservas mesmo – em qualquer clube da Europa (será porque lá, ao contrário daqui, a malandragem tem o seu devido lugar como um defeito e não uma virtude num ser humano?). Depois de um começo tão glorificado como o de Neymar, apagou-se e teve de voltar para a casa com o rabinho entre as pernas.

Neymar, se não aprender que futebol se joga em pé e não perceber que apenas no Brasil se apitam tantas faltas inexistentes, poderá ter a mesma trajetória do colega mais velho.

Ganso não parece correr o mesmo risco. Mostra-se, sem dúvida, mais esclarecido que os outros dois. Não participa, por exemplo, de atitudes de baixo valor, mau-gosto e provocativas, como as péssimas dancinhas ou o coro contra Vanderlei Luxemburgo, que, nos últimos tempos, perdeu apenas para a ausência total de sanidade que tomou conta de Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras, ao puxar um grito de guerra pela morte de torcedores do São Paulo em plena quadra de uma torcida uniformizada do Palmeiras. Elas realmente precisam desse tipo de incentivo, afinal não têm qualquer tendência natural à violência.

Voltando a Ganso, tem tudo para brilhar forte na Europa. O único risco mais latente, no caso dele, é se tornar um tanto insuportável, nutrindo a sensação de que tudo pode. De que tudo o que faz está certo. Se isso ocorrer, os culpados serão os sábios de nosso futebol, que, de tão embasbacados pela categoria do menino, perderam a capacidade crítica de separar as coisas.

Anúncios