Por que o PSDB não ouve FHC?

Fernando Henrique Cardoso traz ideias bastante interessantes em seu artigo dominical de hoje. Embora ainda menos retumbante do que creio eu fazer jus a ocasião, o ex-presidente, em suma, expõe e ataca a democracia casca de ovo que vivemos atualmente, uma casa muito bonita por fora, mas vazia por dentro e, adiciono eu, facilmente quebrável ao primeiro toque um pouco mais forte.

FHC comete alguns deslizes. Quando subestima a força do pensamento único já presente no Brasil, que, a despeito de não ser extremamente majoritário em termos quantitativos, o é em termos qualitativos, travestindo-se de verdade absoluta para jogar por terra qualquer sentimento ético de respeito, num vale-tudo maniqueísta de intimidação aos opositores do “bem”. Ou quando não percebe – ou finge não perceber – que o seu partido também está englobado por esse pensamento único, o que se expressa cabalmente no aparente sonho de José Serra em ser adotado por Lula, em ser Lula – chegou a se comparar ao pobre Lula de 89, no recente episódio de devassa fiscal que vitimou sua filha.

FHC também pegou muito leve quando deixou apenas na hipótese os erros crassos que o PSDB insiste em cometer desde as eleições de 2006, que entregou em bandeja de prata para o PT. E também se esqueceu de lembrar que uma das evidências mais claras e perigosas da tal hegemonia/alienação por que passamos é o fato de não termos sequer um candidato à presidência que se coloque digna e ideologicamente na posição de oposição real ao atual governo.

Apesar disso, que não é pouco, o PSDB estaria bem melhor se tivesse FHC como coordenador estratégico da campanha. Mas vai entender o PSDB…

A seguir, o artigo, que vale a pena ser lido, na íntegra, retirado do sítio eletrônico do Diário Catarinense.

Democracia virtual

Fernando Henrique Cardoso

Vivemos uma fase de democracia virtual. Não no sentido da utilização dos meios eletrônicos e da web como sucedâneos dos processos diretos, mas no sentido que atribui à palavra virtual o dicionário do Aurélio: algo que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual. Faz tempo que eu insisto: o edifício da democracia, e mesmo o de muitas instituições econômicas e sociais, está feito no Brasil. A arquitetura é bela, mas quando alguém bate à porta a monumentalidade das formas institucionais desfaz-se em um eco que indica estar a casa vazia por dentro.

Ainda agora a devassa da privacidade fiscal de tucanos e de outras pessoas mais mostra a vacuidade das leis diante da prática cotidiana. Com a maior desfaçatez do mundo, altos funcionários, tentando elidir a questão política – como se estivessem tratando com um povo de parvos – proclamam que “não foi nada não; apenas um balcão de venda de dados…”. E fica o dito pelo não dito, com a mídia denunciando, os interessados protestando e buscando socorro no Judiciário, até que o tempo passe e nada aconteça.

Não tem sido assim com tudo mais? O que aconteceu com o “dossiê” contra mim e minha mulher feito na Casa Civil da Presidência, misturando dados para fazer crer que também nós nos fartávamos em usar recursos públicos para fins privados? E os gastos da atual Presidência não se transformaram em “secretos” em nome da segurança nacional? E o que aconteceu de prático? Nada. Estamos todos felizes no embalo de uma sensação de bonança que deriva de uma boa conjuntura econômica e da solidez das reformas do governo anterior.

No momento do exercício máximo da soberania popular, o desrespeito ocorre sob a batuta presidencial. Nas democracias é lógico e saudável que os presidentes e altos dirigentes eleitos tomem partido e se manifestem em eleições. Mas é escandalosa a reiteração diária de posturas político-partidárias, dando ao povo a impressão de que o chefe da Nação é chefe de uma facção em guerra para arrasar as outras correntes políticas. Há um abismo entre o legítimo apoio aos partidários e o abuso da utilização do prestígio do presidente, que além de pessoal é também institucional, na pugna política diária. Chama a atenção que nenhum procurador da República, nem mesmo candidatos ou partidos, haja pedido o cancelamento das candidaturas beneficiadas, senão para obtê-lo, ao menos para refrear o abuso. Por que não se faz? Porque pouco a pouco estamos nos acostumando que é assim mesmo.

Na marcha em que vamos, na hipótese de vitória governista – que ainda dá para evitar – incorremos no risco futuro de vivermos uma simulação política ao estilo do PRI mexicano – se o PT conseguir a proeza de ser “hegemônico” – ou do peronismo, se mais do que a força de um partido preponderar a figura do líder. Dadas as características da cultura política brasileira, de leniência com a transgressão e criatividade para simular, o jogo pluripartidário pode ser mantido na aparência, enquanto na essência se venha a ter um partido para valer e outro(s) para sempre se opor, como durante o autoritarismo militar.

Pior ainda, com a massificação da propaganda oficial e o caudilhismo renascente, poderá até haver anuência do povo e a cumplicidade das elites para com essa forma de democracia quase plebiscitária. Aceitação pelas massas na medida em que se beneficiem das políticas econômico-sociais, e das elites porque estas sabem que neste tipo de regime o que vale mesmo é uma boa ligação com quem manda. O “dirigismo à brasileira”, mesmo na economia, não é tão mal assim para os amigos do rei ou da rainha.

É isso que está em jogo nas eleições de outubro: que forma de democracia teremos, oca por dentro ou plena de conteúdo. Tudo mais pesará menos. Pode ter havido erros de marketing nas campanhas oposicionistas, assim como é certo que a oposição se opôs menos do que devia à usurpação de seus próprios feitos pelos atuais ocupantes do poder. Esperneou menos diante dos pequenos assassinatos às instituições que vêm sendo perpetrados há muito tempo, como no caso das quebras reiteradas de sigilos. Ainda assim, é preciso tentar impedir que os recursos financeiros, políticos e simbólicos reunidos no Grupão do Poder em formação tenham força para destruir não apenas candidaturas, mas um estilo de atuação política que repudia o personalismo como fundamento da legitimidade do poder e tem a convicção de que a democracia é o governo das leis e não das pessoas.

Estamos no século 21, mas há valores e práticas propostos no século 18 que foram se transformando em prática política e que devem ser resguardados, embora se mostrem insuficientes para motivar as pessoas. É preciso aumentar a inclusão e ampliar a participação. É positivo se valer de meios eletrônicos para tomar decisões e validar caminhos. É inaceitável, porém, a absorção de tudo isso pela “vontade geral” encapsulada na figura do líder. Isso, é qualquer coisa, menos democracia. Se o fosse, não haveria por que criticar Mussolini em seus tempos de glória, ou o Getúlio do Estado Novo (que, diga-se, não exerceu propriamente o personalismo como fator de dominação) e assim por diante. É disso que se trata no Brasil de hoje: estamos decidindo se queremos correr o risco de um retrocesso democrático em nome do personalismo paternal (e, amanhã, quem sabe, maternal). Por mais restrições que alguém possa ter ao encaminhamento das campanhas ou mesmo a características pessoais de um ou outro candidato, uma coisa é certa: o governismo tal como está posto representa um passo atrás no caminho da institucionalização democrática. Há tempo ainda para derrotá-lo. Eleição se ganha no dia.

O auto da descompadecida

Corre há tempos nos corredores de Brasília a piada de que a diferença entre Dilma e os mais durões ministros e parlamentares é que estes últimos não coçam as partes pudicas.

É piada, mas bem serve para mostrar o jeito Dilma de ser. Nas reuniões palacianas, Dilma grita quando está contrariada, dá murro na mesa para se fazer ouvir, xinga com vontade quem a desagrada, passa por cima de quem dela discorda, não se comove. Essa é Dilma.

Mas, com o verniz original, nunca conseguiria chegar ao principal posto da República num país que preza os bonzinhos, os oprimidos, os chorões. Então resolveram os marketeiros do PT que Dilma deveria repetir Lula e se tornar paz e amor. Mas Dilma está muito longe tanto de uma coisa quanto da outra. E por isso vêm sendo patéticas as suas tentativas de se emocionar, de falar com voz embargada sobre seu amor pelo Brasil. Soa falso porque é falso. Porque não é a Dilma de 62 anos que aparece ali, mas uma Dilma de poucos meses, mal concebida em laboratório.

Muito mais natural é Dilma quando sai da personagem e se deixa influenciar por sua própria essência. Quando diz que não foge da briga, criticando os exilados durante a ditadura militar, por exemplo. Mas então o mundo vem abaixo. Dilma não pode ser Dilma que os cristais se espatifam.

Por serem diametralmente opostas, a Dilma original de fábrica e a recalled continuarão não se bicando até a definição das eleições, quando a primeira poderá dar um bico na segunda e voltar a si.

Até lá, continuamos com uma personagem disputando a presidência do Brasil. O problema, para o PT, é que a atriz é péssima. E, para o Brasil, é o risco, altíssimo, de a maioria de seus eleitores não perceberem esse grave “detalhe”, magnetizados pelo ator principal da tragicomédia, este sim de talento ímpar, Lula.

Para o Brasil, a solução é clara e evidente: não votar em personagens. Para o PT, as alternativas são mais heterodoxas: 1. simular um acidente que deixe Dilma muda até as eleições, colocando Lula para traduzir todas as suas vontades de fala; 2. simular um sequestro “golpista”, trancafiando Dilma numa masmorra até as eleições e colocando Lula para representá-la durante a campanha.

Ou então deixar Dilma à solta e torcer para que, como nas últimas eleições, o carisma de Lula vá encontrar não entre os seus, mas do outro lado o aliado forte o suficiente para a vitória: a absoluta incompetência estratégica do PSDB. Desta falo amanhã.