A nova velha dupla

Ofuscada pela Copa do Mundo, a corrida de hoje em Montreal manteve o bom nível de quase todas as etapas anteriores da Fórmula 1 neste ano. Lewis Hamilton conseguiu a segunda vitória consecutiva, capaz de, apesar dos insucessos no início do campeonato, fazê-lo ultrapassar de uma só tacada Webber e Button na classificação, chegando ao primeiro posto.

A dobradinha da McLaren no Canadá – também segunda consecutiva – poderia bem ter sido não em primeiro e segundo, mas sim em segundo e terceiro, caso Alonso não pecasse duas vezes em momentos de ultrapassagens sobre carros menos velozes. Na primeira, quis a qualquer custo ultrapassar Buemi ao invés de esperar a parada que o suíço obrigatoriamente teria de fazer e que lhe daria a liderança. Não passou, abriu espaço para Hamilton e, quando Buemi se encaminhou para os boxes, ainda na mesma volta, viu o britânico, já à sua frente, assumir a ponta.

Na segunda, bobeou quando chegou para colocar mais uma volta em Chandhok, piloto da tartaruga Hispania. Quando se deu conta, Button já estava ao seu lado e, com mais ação de motor, não teve maiores dificuldades para jantar o segundo lugar.

Mesmo com as duas mancadas, Alonso saiu com algum lucro da América do Norte. Na quarta posição, definitivamente passa a ser o único fora do quarteto de McLaren e RedBull com alguma condição de chegar ao título. Apesar de ter um carro pior, conta com duas forças a seu favor: (i) a péssima temporada de Massa na Ferrari, que facilita e apressa a tarefa dos italianos de passar a concentrar forças no carro de Alonso – e por falar em Massa, por mais que tente, não consigo entender a opção ferrarista pela renovação por mais dois anos com ele, e com tamanha antecedência; (ii) possíveis brigas internas em McLaren e RedBull, que possam tirar pontos das favoritas e despejá-los no colo do asturiano. Embora não seja o mais provável hoje, pode acontecer.

E, no momento nostalgia, lembro o quanto a dupla Hamilton-Button na McLaren atual me traz à memória a dupla Senna-Prost, na McLaren de 88/89. Hamilton, assim como Senna, é reconhecidamente mais talentoso, mais espetacular, mais piloto com as mãos e os pés. Button, assim como Prost, é mais cerebral, mais frio, calcula melhor o desenvolvimento do carro ao longo da corrida, é mais piloto com a cabeça.

Button (Prost) dificilmente vai ganhar do rival interno quando o negócio tiver de ser resolvido unicamente em disputas de retas e freadas na pista. Mas vai ganhar muitas beneficiado por quebras e excessos do concorrente. Hamilton (Senna) corre mais. Button (Prost) pensa mais. Hamilton (Senna) é coração. Button (Prost) é cabeça.

Eu sou coração.

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