O auto da descompadecida

Corre há tempos nos corredores de Brasília a piada de que a diferença entre Dilma e os mais durões ministros e parlamentares é que estes últimos não coçam as partes pudicas.

É piada, mas bem serve para mostrar o jeito Dilma de ser. Nas reuniões palacianas, Dilma grita quando está contrariada, dá murro na mesa para se fazer ouvir, xinga com vontade quem a desagrada, passa por cima de quem dela discorda, não se comove. Essa é Dilma.

Mas, com o verniz original, nunca conseguiria chegar ao principal posto da República num país que preza os bonzinhos, os oprimidos, os chorões. Então resolveram os marketeiros do PT que Dilma deveria repetir Lula e se tornar paz e amor. Mas Dilma está muito longe tanto de uma coisa quanto da outra. E por isso vêm sendo patéticas as suas tentativas de se emocionar, de falar com voz embargada sobre seu amor pelo Brasil. Soa falso porque é falso. Porque não é a Dilma de 62 anos que aparece ali, mas uma Dilma de poucos meses, mal concebida em laboratório.

Muito mais natural é Dilma quando sai da personagem e se deixa influenciar por sua própria essência. Quando diz que não foge da briga, criticando os exilados durante a ditadura militar, por exemplo. Mas então o mundo vem abaixo. Dilma não pode ser Dilma que os cristais se espatifam.

Por serem diametralmente opostas, a Dilma original de fábrica e a recalled continuarão não se bicando até a definição das eleições, quando a primeira poderá dar um bico na segunda e voltar a si.

Até lá, continuamos com uma personagem disputando a presidência do Brasil. O problema, para o PT, é que a atriz é péssima. E, para o Brasil, é o risco, altíssimo, de a maioria de seus eleitores não perceberem esse grave “detalhe”, magnetizados pelo ator principal da tragicomédia, este sim de talento ímpar, Lula.

Para o Brasil, a solução é clara e evidente: não votar em personagens. Para o PT, as alternativas são mais heterodoxas: 1. simular um acidente que deixe Dilma muda até as eleições, colocando Lula para traduzir todas as suas vontades de fala; 2. simular um sequestro “golpista”, trancafiando Dilma numa masmorra até as eleições e colocando Lula para representá-la durante a campanha.

Ou então deixar Dilma à solta e torcer para que, como nas últimas eleições, o carisma de Lula vá encontrar não entre os seus, mas do outro lado o aliado forte o suficiente para a vitória: a absoluta incompetência estratégica do PSDB. Desta falo amanhã.

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