Paulo Moura

Paulo Moura foi dos maiores instrumentistas brasileiros. Nascido na minha querida São José do Rio Preto, em 15 de julho de 1932, utilizava seus clarinetes e saxofones, fiéis companheiros, para encantar plateias mundo afora. Também compositor e arranjador, participou da Bossa Nova e trabalhou com variados artistas, como Ary Barroso, Maysa, Elis Regina, Fagner e Milton Nascimento.

Em 2000, ganhou o Grammy Latino de Música de Raiz pelo álbum “Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas”. Infelizmente, acabou mais reconhecido lá fora do que aqui dentro. Como muitas de nossas coisas boas.

O vídeo abaixo é a última, por assim dizer, apresentação de Paulo Moura. Já internado, ele aproveitou a visita de Wagner Tiso para insistir até que lhe passassem o clarinete. Fizeram um dueto em “Doce de côco”, de Jacob do Bandolim.

Era sábado, 10 de julho. Dois dias depois, Paulo Moura nos deixou as saudades, prestes a completar 78 anos.

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De volta ao passado: música

Nas últimas postagens, tenho tentado desmistificar um pouco o passado, tarefa sempre dificultada pela tendência nostálgica dessa grande pasta de arquivos chamada memória. Na maioria dos casos, o passado não é tão bom quanto parece nem o presente tão ruim a ponto de não se tornar, no futuro, um passado de boas recordações. Na maioria, não em todos. A música surge para mostrar que, em alguns casos, o passado foi sim infinitamente superior ao presente.

Para não alongar demais a discussão, correndo o risco de cair na armadilha de comparar o incomparável, vou deixar de lado a música clássica, reservando a artistas como Mozart, Beethoven, Chopin, Wagner, Tchaikovsky e Bach o lugar privilegiado que merecem, algo acima da música atual. Reservemo-nos, pois, à música contemporânea.

Aqui ou acolá, a qualidade da música de hoje não lambe os calcanhares da de ontem. No Brasil, isso talvez seja mais notório, devido ao extremo mau gosto que infesta o país desde meados da década de 90, a partir de quando gêneros “musicais” como axé e funk entraram, infelizmente, em cena. Mas não se restringe ao recanto tupiniquim. Lá fora, berço de coisas como aqueles sons desconexos, incompreensíveis e irritantemente repetitivos (putz, putz, putz,…) aos quais determinadas pessoas têm a audácia de chamar “música” e que constituem as chamadas raves, o negócio é semelhante.

Cá, chega a ser desalentador tentar contrapor a Bossa Nova – maior e melhor movimento musical brasileiro e um dos melhores do mundo em todos os tempos -, o Tropicalismo e a tantas vezes criticada Jovem Guarda ao axé baiano, ao funk carioca, ao rap e ao pagode paulistas, ao forró e ao sertanejo “universitários”, estes dois últimos, aliás, mostra fiel do triste nível médio de nossos universitários.

Lá, não é menos melancólica a tentativa de colocar sob um mesmo prisma Elvis, Beatles, Ray, Sinatra, num vértice, e Snoopy Dog, Beyoncé, Jonas Brothers, 50 Cent, Britney Spears, no outro.

Sintomático da amplidão do elo perdido entre a qualidade da música do passado e a do presente é  que, até onde vai minha memória, todos os artistas do passado que se mantêm ou se mantiveram na ativa até há pouco pioraram univocamente ao longo dos anos, tornando-se reféns dos sucessos do passado. A lista é gigantesca: Rolling Stones, Michael Jackson, Aerosmith, U2, Guns´n Roses, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque, Roupa Nova, e vai embora.

Se fixamos um gênero e caminhamos na linha do tempo, o resultado é basicamente o mesmo. Em geral, o gênero original foi de tal forma deturpado que acabou gerando fetos mal formados que, contrariando a ciência, teimam em sobreviver.

O caipira de raiz, símbolo do interior brasileiro, com suas histórias cantadas, virou o sertanejo, sem qualquer cara, monotemático na dor de amor do homem abandonado. Mas ele, o homem abandonado, cansado de ficar pra trás, vingou-se. Nasceu o sertanejo universitário. Agora é ela quem fica atrás e ele quem não quer. Um porre.

O samba carioca, estandarte da boa malandragem, da sombra e da água fresca, de Noel, Cartola, Paulinho da Viola, de Martinho, ainda mantém uma tênue linha no presente, bem representada por gente como Zeca, Dudu Nobre, Diogo Nogueira e Teresa Cristina. Em compensação, também gerou o seu alien, o pagode paulista, que copiou do sertanejo o talento para falar única e exclusivamente de casos de amor mal terminados.

Exceções existem. Ana Carolina, Seu Jorge, Maria Rita, James Blunt, John Legend, Jamie Cullum, Coldplay, entre outros, estão aí e servem para salientar ainda mais o quanto são raras coisas boas na música de hoje. E não é uma questão de gosto. É uma questão de mínimo senso crítico. As obras do passado e as “obras” do presente têm um abismo que as separa esteja o foco na melodia, na letra, na composição, na extensão do vocabulário utilizado ou em qualquer outra coisa relacionada à música.

Explicação para isso? Não é fácil, mas arrisco que seja um dos frutos de um momento histórico mais amplo. Tempos de muito corpo e pouca alma. De boa forma e péssimo conteúdo. Todos são muito ocupados, precisam desestressar. Muito ocupados para pensar, muito ocupados para refletir.

A música deixa de ser cultura e passa a simples ferramenta para fugir do dia-a-dia. Fugir da tensão. Ferramenta para suar, para esquecer o chefe. Se possível, ensurdecedora, porque assim se torna ferramenta também para não falar com os outros, para se fechar no mundo cada vez mais virtual. Eu e a tela. Você e a tela.