Viva Muricy e… Viva os pontos corridos!

Parabéns ao Fluminense, campeão brasileiro de 2010. Parabéns, com glórias, a Muricy Ramalho, treinador mais vitorioso do Brasil na última década, tetracampeão do maior campeonato nacional do país. Na verdade, mais do que tetracampeão. Além da conquista de hoje e do inédito e brilhante tricampeonato consecutivo pelo São Paulo (2006, 2007 e 2008), Muricy pode se considerar também o grande vencedor de 2005, quando o seu Internacional não foi campeão graças à, no mínimo controversa, anulação de alguns jogos do campeonato.

Aproveito para entrar na polêmica dos pontos corridos como modo de pontuação para o Campeonato Brasileiro. Não há quem me convença de que não seja esse o sistema mais apropriado para definir o melhor time de um país numa temporada. É o mais apropriado por ser o mais meritocrático, o único que garante, de fato, que o melhor time, o mais regular, aquele com maior número de pontos ao longo de toda a competição, seja o laureado ao final do certame.

Apenas isso já basta para tornar irrefutável a defesa dos pontos corridos. Mas vou analisar os argumentos levantados pelos que têm defendido a volta de algum tipo de fase final para definir o campeão brasileiro, como aconteceu, sob diferentes formas, até 2002.

O primeiro, e talvez mais fácil de ser refutado, diz respeito ao interesse pelo campeonato. Uma rápida olhada na média de público na Era dos Pontos Corridos mostra que os torcedores presentes aos jogos do Campeonato Brasileiro aumentaram significativamente desde 2003. E isso apesar de os nossos estádios terem, quase todos, diminuído sua capacidade de recepção. Para ficar em apenas dois exemplos, o Maracanã, que hoje não chega aos 100 mil, nos áureos tempos recebia quase 200 mil; o Morumbi chegou a ultrapassar 120 mil e hoje não chega a 70 mil.

A explicação é simples: na época do mata-mata, os estádios passavam a fase classificatória inteira às moscas, para encherem apenas quando as coisas começavam a valer, o que normalmente acontecia a partir de novembro – um campeonato anual decidido em pouco mais de um mês, brilhante! Agora, os torcedores, aos poucos, ambientam-se ao fato de um jogo na primeira rodada valer exatamente o mesmo de um na última, o que distribui melhor a presença do público durante o torneio e eleva a média geral. Para mim, isso significa um interesse maior pelo campeonato – pelo campeonato, não por um par de jogos -, não o contrário.

O segundo argumento diz respeito à emoção. Segundo ele, não tem graça a conquista num jogo contra um time rebaixado ou mesmo com uma derrota. Apenas seria legal tornar-se campeão num jogo decisivo contra o vice. Primeiro que, mesmo no sistema de finais, existe a possibilidade de o campeão sair de campo derrotado no último jogo. Mas que se deixe essa possibilidade de lado. A falácia da emoção só se aplica, e ainda assim com reservas, aos torcedores que não estão envolvidos na disputa pelo título. Para esses sim talvez seja mais divertido assistir a uma final do que a um “jogo normal”. Mas pergunte aos torcedores do Fluminense, do Flamengo, do São Paulo, se vibraram menos em suas conquistas corridas do que nas glórias em jogos eliminatórios. Isso sem nem mencionar que apenas os pontos corridos mantêm todos os times em ação, em disputas diversas, até a última data futebolística do ano.

Finalmente, o argumento que ganhou força nos dois últimos campeonatos, em nome da “justiça nas quatro linhas”. Este, caminha por duas vias paralelas. A primeira surgiu porque, tanto em 2009 como em 2010, rivais estaduais já sem chance de título puderam prejudicar adversários locais em plena disputa pelo caneco, facilitando jogos contra concorrentes diretos. A segunda critica a “mala-branca”, gordas quantias enviadas a times desinteressados no campeonato, mas envolvidos em jogos que valem o título, para dificultarem a vida dos pretendentes à taça.

Os riscos de fato existem. Mas não se relacionam, de forma alguma, exclusivamente aos pontos corridos. Num sistema classificatório, um time pode agir para prejudicar a passagem de um arqui-rival para a fase final. Como já aconteceu, diga-se. Essa possibilidade pode ser mitigada, em campeonatos por pontos corridos ou quaisquer outros, simplesmente ao se concentrar todos os clássicos regionais nas últimas rodadas da competição.

Para além disso, se a ideia é invalidar um sistema de disputa por riscos inerentes ao jogo, melhor simplesmente repensar a existência do futebol, já que a instituição que, de longe, mais alterou resultados de torneios mundo afora atende pelo nome de “árbitros de futebol” e, pelo menos até segunda ordem, é ainda imprescindível à modalidade.

E até aí os pontos corridos são positivos. Sem sombra para qualquer dúvida, representam o sistema que mais minimiza as influências dos erros de arbitragem. Em 30 e tantas rodadas, benefícios e prejuízos para cada time tendem a se compensar. Portanto, se o objetivo é prezar a “justiça dentro das quatro linhas”, não há outro sistema a defender que não o de pontos corridos.

No mais, usar a chamada “mala-branca” para atacar os pontos corridos é, no mínimo, risível. A tal mala existe em nossos campos desde tempos imemoriais, com histórias folclóricas e hilárias que nada têm a ver com este ou aquele sistema de pontuação. Sempre os interessados tentarão incentivar os desinteressados. E isso não apenas no futebol. Na vida.

Tudo posto, os amantes do “interesse”, da “emoção”, da “justiça” não fiquem melindrados. Longe de mim querer que o futebol seja algo plenamente meritocrático. Jogo que é, não pode ser assim. Por isso, praticamente todos os campeonatos dão espaço ao imponderável de Almeida em finais nas quais, muitas vezes, o pior, num dia bom, vence o melhor, num dia ruim. Que pelo menos um, apenas um, unzinho só, permita que o melhor sempre vença.

Mérito, merecimento. Às vezes também é legal, até no Brasil.

Eu, Muricy

Sou um admirador confesso de Muricy. Não tanto pela sua capacidade estratégica de desenvolver um amplo leque de jogadas para suas equipes. Sob esse aspecto, embora tenha um inegável valor, demonstrado, entre outras passagens, pelas inúmeros bailes sobre Vanderlei Luxemburgo, freguês de carteira, Muricy fica atrás de outros treinadores. A admiração é maior pela competência de Muricy em dotar seus times de um formidável espírito competitivo, que os torna dificilmente superáveis e, sobretudo, pelo caráter de Muricy, algo infelizmente raro em nossos dias.

A admiração foi crescendo à medida do passar dos anos, alimentada pelas atitudes de Muriça dentro e fora de campo, acompanhadas por mim cada vez com maior atenção. Talvez por isso, talvez por excesso de presunção, tenho hoje a sensação de que conheço o Muricy, apesar de nunca termos trocado uma palavra. É baseado nessa sensação que, nas próximas linhas, vou falar um pouco daqueles que acredito terem sido os principais motivos da histórica recusa do treinador em assumir o comando da seleção brasileira.

Em geral, as linhas de explicação para o surpreendente rumo tomado pelas coisas na última sexta-feira têm seguido duas linhas. A primeira que coloca a responsabilidade sobre o desfecho sobre a diretoria do Fluminense, que não liberou Muricy, obrigando-o a, seguindo o seu digno caráter, cumprir a palavra com o clube e manter-se nas Laranjeiras. A segunda que passa a responsabilidade para o próprio Muricy, que não teria sentido em Ricardo Teixeira a confiança de que seguiria até 2014 e, por isso, declinado. A diretoria do Flu teria assumido para si a decisão simplesmente para poupar Muricy do desgaste público provocado por uma decisão de afronta à “Pátria de chuteiras”.

A mim nenhuma das explicações convence, embora ambas tenham parcela da verdade. O ponto crucial para entender tudo o que se passou pela cabeça de Muricy a partir do convite – que a CBF, amadora e prepotente como sempre, julgava ser convocação – de Teixeira está no semblante do treinador assim que se despede do manda-chuva na reunião de sexta, logo depois de tentar um aperto de mãos não correspondido e flagrado pelas câmeras da ESPN Brasil. O rosto do Muricy que saiu da mesa e se dirigiu meio sem rumo para a saída pode ser descrito de várias maneiras, jamais como o de alguém que acabou de ouvir aquilo que desejou durante toda a carreira. Muricy estava sem graça, transmitia um certo mal-estar, claramente desconfortável. Ao vê-lo, não pude pensar em outra coisa que não aquela situação, pela qual a maioria já passou, de se esperar ansiosamente por determinada coisa e se decepcionar quando essa coisa finalmente acontece.

Até aí, a segunda explicação se mostraria correta. Muricy, e não o Fluminense, teria decidido o não à seleção. De fato, acredito que o caminho vai por essa via, mas não por falta de confiança em estar à frente da equipe em 2014. Ora, esse tipo de garantia não existe no futebol, Muricy experimentou essa realidade recentemente no Palmeiras e não seria ingênuo a ponto de balizar sua decisão sobre treinar o principal time de um país em algo que nunca exigiu, em qualquer clube por que passou. Ademais, Muricy confia em seu trabalho o suficiente para acreditar que iria até 2014, com ou sem garantias.

O que Muricy preza não é a confiança em cargos, mas sim a confiança em pessoas. Confiança que o faz sentir-se à vontade para fazer o trabalho a seu modo, com alguém, pelo menos um, com quem possa contar nos momentos difíceis. Um parceiro. Foi o que teve em Fernando Carvalho, no Internacional, e em Juvenal Juvêncio, no São Paulo. Foi o que julgou, erradamente, que teria no Palmeiras, com Belluzzo, que roeu a corda.

Muricy não conseguiu enxergar em Ricardo Teixeira, nem sequer capaz de retribuir um mero aperto de mãos, esse parceiro. Enxergou nele um chefe, a quem teria de se submeter ao longo de quatro longos anos. Engolindo sapos, aguentando uma nojenta arrogância e ainda sabendo que, à primeira trovoada, seria ele, o chefe, o primeiro a abandonar o barco. Como sempre diz, Muricy tem filhos a quem quer deixar bons exemplos. O do capacho submisso certamente não seria um.

Tudo isso na conta, Muricy saiu do encontro tendo de um lado a imensa vontade de dirigir a seleção brasileira e, de outro, a sensação de que provavelmente teria de abrir mão de muito em que acredita, calar a boca para muitas coisas erradas. O sonho se transformou em dúvida. Valeria a pena? Acredito que a resposta de um Muricy desimpedido ainda seria “sim”, mas, a partir dessa dúvida, a posição do Fluminense – absolutamente correta, diga-se de passagem – contou o suficiente para fazer o treinador seguir a palavra empenhada e aceitar a vontade tricolor.

Se tivesse ido com a cara de Teixeira, se o semblante fosse outro, leve, alegre, positivo, após a reunião, é certo que Muricy não teria sido tão condescendente com a decisão do Fluminense e, de forma análoga, a diretoria tricolor também não seria tão irredutível em sua posição. Do jeito que foi, o não do Flu deve ter até soado como um alívio para Muricy. Dirimiu suas dúvidas. Em prol da palavra. Em prol do caráter.

Muricy não foi à seleção, talvez nunca mais tenha outra chance, mas ganhou mais alguns pontos comigo e com aqueles que o admiram. E o cargo tão sonhado caiu no colo de Mano Menezes, que agora já aparece na primeira entrevista exclusiva à RGT…