Coisas do Brasil que Fede (CBF)

Estamos a pouco mais de quatro anos para o início da Copa do Mundo em terras nacionais. A essa altura, as obras nas diversas arenas contempladas a abrigar o evento já deveriam caminhar com um mínimo de vigor, posto que ou os estádios atuais não apresentam condições satisfatórias ou simplesmente não existem.

Ao invés disso, e como infelizmente era de se esperar, nenhuma pá de cimento, cal ou assemelhados foi movida até agora e o que se tem já é suficiente para indicar a podridão que circundará o evento nacional.

Falemos do imbróglio que envolve o Morumbi, sede natural de São Paulo ao Mundial. A questão não tem nada de técnica, como tentam vender. É puramente política. O algoz do estádio paulistano também não é Jerome Valcke, secretário-geral da FIFA, mas Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), do comitê organizador da Copa no Brasil e membro do comitê executivo da FIFA, conjunção de atribuições inédita e que, por si só, é absolutamente imoral e repugnante.

Alguns fatos. Tecnicamente, o Morumbi de fato não está preparado para receber jogos de Copa do Mundo. Nenhum dos estádios brasileiros, e nem mesmo o país, estão. Dos doze locais de jogos pré-selecionados, seis não passam de projetos ou esqueletos e os outros seis necessitam de variadas reformas para se tornarem aptos. As recentes tragédias aquáticas em São Paulo e Rio de Janeiro, de tão atrozes, fazem desnecessária qualquer discussão mais alongada sobre a atual incapacidade do país em abrigar o maior evento do mundo – fato que a D. FIFA insiste em fingir que não existe, no seu demagógico rodízio continental de sedes despreparadas, que se iniciará na África do Sul.

Mas, se ninguém tem condições, por que a perseguição apenas ao Morumbi?

Outros fatos. Num movimento que se iniciou com o início de sua gestão, em 2006, e se aprofundou no último ano, o presidente do São Paulo Futebol Clube, Juvenal Juvêncio, tornou-se a principal voz de oposição primeiro à Federação Paulista de Futebol e, depois, à CBF. Por trás dessa oposição parece estar a convicção do folclórico presidente sampaulino de que os clubes devem ser os donos dos próprios narizes, cortando o cordão umbilical que os torna dependentes das federações e afrontando-as quando necessário.

A ideia de Juvenal, claro, não agradou ao fortemente materialista Ricardo Teixeira. O dono do futebol brasileiro torceu o nariz e passou a mostrar o que poderia fazer ao São Paulo se este mantivesse seus absurdos anseios de liberdade. Para mostrar poder, nada melhor do que ter ferramentas para tal. E isso ele tem. Alto executivo da FIFA, trabalhou com força nos bastidores para que o Morumbi, escolha óbvia à abertura do Mundial – está na maior cidade e é o segundo maior estádio do país – fosse visto com maus olhos pela mandatária do futebol mundial e passasse a ser o foco único de críticas, como se faltassem apenas as obras no palco tricolor para que a Copa no Brasil fosse um sucesso.

A recente eleição de Fábio Koff para mais um mandato à frente do Clube dos 13, patrocinada por Juvenal Juvêncio à revelia de Ricardo Teixeira, que tinha predileção por Kléber Leite, entornou ainda mais o caldo para o Morumbi. Por uma dessas coincidências do destino, um dia após a vitória de Koff veio à tona uma notícia do Rio de Janeiro – por meio de O Estado de S. Paulo – segundo a qual um alto executivo da FIFA informava que Valcke viria ao Brasil ainda esta semana, em caráter de urgência, para excluir definitivamente o Morumbi da Copa – notícia até agora desmentida pela própria FIFA. A pergunta que surge de tamanha coincidência é: qual o único alto executivo da FIFA que mora no Rio de Janeiro?

Independente do que seja declarado por Valcke na sua visita relâmpago que se inicia amanhã no Brasil, a disputa ainda deve ter vários novos capítulos. De um lado, Dr. Ricardo e sua forma pouco cristã de entrelaçar poderes na busca por conseguir fazer prevalecer seus anseios cá e acolá. De outro, o São Paulo e o poder público paulista, que tem sido enfático ao afirmar que não colocará centavo que seja na construção de novo estádio em São Paulo.

É esse o cheiro que deverá prevalecer na organização da Copa no Brasil. Isso para não falar nos atrasos de obras financiadas por dinheiro público, que deverão desembocar na urgência que, por lei, torna as licitações dispensáveis e abre a caixa de Pandora tão desejada por alguns, a despeito de todos os males nela contidos. Pior do que esgoto.

E ainda há os que se indignam pelo fato de eu não torcer para a seleção brasileira na Copa. A seleção que tem como sede para seus jogos amistosos o estádio do Arsenal, na Inglaterra. A seleção que inunda os cofres da CBF com milhões ano após ano aplicados em instalações suntuosas e sabe-se lá onde mais, mas nunca vistos nem de binóculos pelos honrados senhores que construíram em campo a marca Seleção Brasileira desde remotos tempos. A seleção que aliena a sociedade durante um mês em que usualmente são aprovadas medidas estapafúrdias nas câmaras legislativas. A seleção que se recusa a dividir alojamentos mais modestos com seus conterrâneos, nos Jogos Olímpicos. A seleção que não é do Brasil. É da CBF.

Não, para ela não torço. E com orgulho.

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