Análise, torcida

O GP de Suzuka passou e deixou um rastro que parece solidificar a disputa pelo título da temporada entre apenas três pilotos, Webber, Alonso e Vettel, separados por 14 pontos. Mas ainda é cedo para tirar a dupla da McLaren da contenda. O atual sistema de pontuação mantém 75 pontos em jogo nas três últimas provas (Coreia, Brasil e Emirados Árabes) e Button, o quinto classificado, está apenas 31 atrás do líder Webber. Alguns já queimaram a língua neste ano, ao descartarem apressadamente as chances de Alonso. Raikkonen, em 2007, num sistema muito menos favorável a reviravoltas, provou que não está morto quem peleia. Ganhou um título perdido. Portanto, sem pressa com o andor.

Isso posto, sinto a necessidade de me posicionar abertamente sobre a briga. Webber faz um campeonato praticamente sem erros, é veloz e regular com uma constância admirável. Merece a atual liderança e será um justo campeão. Mas, se isso acontecer, não poderei negar minha frustração. Não admiro o estilo Webber, assim como não sou dos adoradores do estilo Button. São grandes pilotos, aptos ao título mundial – Button é o atual campeão -, mas lhes faltam a chama do arrojo que diferencia os destemidos, loucos para alguns, e que direciona minha torcida.

Vettel é ainda um moleque afobado, que compromete a si e a adversários em corridas e mais corridas. Isso, para alguns, retira dele o merecimento do título. Não para mim. Vettel é claramente mais rápido do que o companheiro Webber, tão mais que, mesmo com todas as lambanças, continua próximo à liderança. Mantendo as comparações históricas que gosto de fazer, Vettel está para Webber assim como Senna estava para Prost. Numa época de raros momentos de arrojo, de uma chatice sem tamanho entre os pilotos, impossível não torcer por um dos poucos que dão graça ao espetáculo.

Alonso é do mesmo time do jovem alemão, mas mais tarimbado. Mais regular e, por isso, melhor. O show que impõe ao pobre Massa desmoraliza o brasileiro desde o início da temporada, a ponto de obrigar o nosso compatriota a reconhecer a superioridade do espanhol. Quem conhece piloto, sabe o quanto isso machuca o ego, a honra. Admitir a inferioridade só mesmo em última instância. Massa chegou a ela. Alonso atualmente é quem mais bem conjuga o arrojo de Vettel, de Hamilton, à frieza de Webber, de Button. Tem um carro claramente inferior à RedBull – Massa que o diga – e, mesmo assim, continua vivíssimo.

Mérito por mérito, fico com a completude de Alonso. Muitas vezes amoral, aética. Como em todos os grandes campeões da história. Se não for ele, que seja Vettel. Ou Hamilton.

Nem para segundo piloto

Por Marcelo Cerri

Há algumas semanas tive a honra de hospedar em minha casa um grande amigo italiano. Filippo comentava que seu xará brasileiro já não era mais tão querido na Itália. Os tifosi haviam perdido a paciência com ele pela sua falta de arrojo e determinação. Fica séculos atrás de carros mais lentos para não arriscar.

Foi no mínimo patética a atuação de Massa no GP de Cingapura. Todos aqueles que tinham carros superiores aos do adversário tentaram ultrapassagens, muitos conseguiram, alguns bateram. Mas isso mostra que não estávamos em Monte Carlo, as ultrapassagens eram possíveis. O brasileiro, no entanto, com um carro que seguramente era um dos quatro melhores do final de semana, conseguiu a proeza de se manter durante quase toda a corrida atrás de Hulkenberg, sem nem mesmo forçar uma ultrapassagem. Um piloto que se contenta em ser o 10º não merece guiar uma Ferrari.

Fomos poucos aqueles que defenderam a ordem de equipe no GP da Alemanha. Agora não acredito que alguém em sã consciência continue a condenar a Scuderia por ter favorecido o piloto que foi mais rápido durante a corrida, durante todo o final de semana e durante todo o ano. Hoje é bem claro que Alonso é o primeiro piloto porque conquistou essa posição, porque luta até o último momento por cada ponto.

Podem argumentar que Webber lidera o campeonato mesmo não sendo um piloto agressivo, como Hamilton, Vettel, Kubica ou Alonso. Isso é verdade, ele não assume grandes riscos. Mas o australiano fez várias ultrapassagens durante a corrida e sustentou o terceiro lugar com muita coragem quando Hamilton deu o bote. Fez uma grande corrida.

Destaques do GP de Cingapura: a perfeição de Alonso, que não cometeu nenhum erro, e o show de Kubica no final da corrida, mostrando pela enésima vez que merece muito mais do que a Renault que tem em mãos.

Falando no polonês, ninguém duvida que ele é um piloto muito superior a Felipe Massa. Mas daí a querer colocá-lo na Ferrari, acho que existe uma longa estrada. Dois pilotos geniais numa mesma equipe é um suicídio. O espanhol sabe muito bem disso, já perdeu o campeonato de 2007 por esse motivo e não permitiria nunca que a Ferrari desse um tiro no pé. Massa deve ficar. Só não permanece se a Ferrari encontrar um segundo piloto melhor que ele, o que não é muito difícil. Estou certo de que até mesmo Trulli, por exemplo, teria dado à Ferrari ao menos uns seis pontos se estivesse nas mesmas condições do brasileiro.

Este é sem dúvida o melhor campeonato que já acompanhei. Vai entrar para a história. Cheios de orgulho, contaremos aos nossos filhos as proezas e loucuras de Alonso, Hamilton, Vettel, Kubica, Webber etc. Uma geração de super talentos.

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O texto de Marcelo expressou tão bem meus pensamentos que se torna dispensável minha coluna de hoje. Ainda não estou a ponto de acreditar ser Trulli melhor do que Massa, mas assino embaixo da extrema decepção com o desempenho do brasileiro neste ano. Em meio às possíveis causas para uma queda tão gritante – Massa sempre foi um piloto, no mínimo, rápido e arrojado -, duas lebres se levantam e talvez se complementem: o acidente na Hungria, no ano passado, e o fato de Massa ter se tornado pai, também em 2009.

Para não perder o costume, resta ainda espaço para a menção desonrosa para Schumacher. Patético, como em todo o resto da temporada.

Beber o defunto

Por Daniel Marchi

Conforme uma antiga tradição interiorana, praticamente já extinta, para se suportar uma longa madrugada de velório as pessoas consumiam pequenas doses de aguardente, sempre cabisbaixas e sem algazarra. Dizia-se que os presentes estavam velando e “bebendo” o defunto. Este era, mais ou menos, o clima do pódio do GP da Alemanha. As champanhes jorravam e os sorrisos amarelos se abriam apenas para cumprir um protocolo. E só.

De fato, a prova não merecia o dito velório. Uma largada bem interessante e disputas apertadas  vinham compondo um bom roteiro. De modo entusiasmado discutíamos o consumo de pneus, a técnica de pilotagem de acada um, etc etc. Dada a dificuldade do campeonato e a intensidade da corrida, já aguardávamos o verdadeiro carnaval que o vencedor faria depois da quadriculada.

Mas não houve carnaval. Não aconteceu porque a Ferrari resolveu, de novo, apequenar-se. A dobradinha aconteceu e os pontos estão no bolso, a despeito de os admiradores do automobilismo (e pior, da equipe também!) vislumbrarem aquele pódio e sussurrarem ao término de uma profunda respiração: que merda.

Ah… mas e o defunto, quem é? Escolham.

Fórmula (3 em) 1

Dick Vigarista e a nossa Penélope

por Marcelo Cerri

Finalmente a F1 chega  na Europa. Após belas provas na Ásia e Austrália, tivemos um GP dentro da normalidade: o circuito de Barcelona é o mais conhecido entre os pilotos e fez sol, muito sol. Não que tenha sido propriamente uma corrida chata. Apesar das poucas ultrapassagens, houve momentos emocionantes, como a briga entre o renascido Schumacher e Button, a ultrapassagem perigosa do sempre agressivo Hamilton sobre o futuro campeão Vettel e o pneu furado do mesmo inglês ao final da corrida. A vitória de Webber foi merecida, com uma belíssima classificação e uma corrida redonda, limpa, perfeita. Mas o grande destaque do final de semana foi Alonso, mesmo sem fazer grandes malabarismos durante a prova.

O asturiano fez quase um milagre no treino classificatório e conseguiu largar à frente de Jenson Button, que claramente tinha um carro mais rápido. Mas isso é o suficiente para fazer dele o nome do GP de Barcelona? Não, não só isso. Existem vários fatores que fazem um piloto campeão e que não aparecem nas imagens. Um exemplo é o trato com os pneus. Por que Alonso é mais veloz que Massa? Porque consegue manter a borracha numa temperatura ideal. Por que foi o pneu de Hamilton que furou e não o de Alonso? Sorte de campeão, como diria Galvão? Não, não. O estilo de pilotagem agressivo de Lewis consome mais pneus. Não existe sorte ou azar.

Ainda em referência ao espanhol, volto a me perguntar: qual o limite do ufanismo de Galvão? É lógico que o narrador oficial não diz as besteiras que diz por amor à Pátria, mas porque é alimentando o ufanismo nos telespectadores que ele mantém boa parte do público ligado em suas transmissões. Infelizmente parte significativa dos seguidores da F1 é torcedora de brasileiros e não admiradores de automobilismo. Então como fazer para os consumidores continuarem torcendo para Massa mesmo sendo ele constantemente meio segundo mais lento que seu companheiro de equipe? Basta fazer os brasileiros acreditarem que essa diferença existe por um motivo pontual que não será vista na próxima corrida ou que Alonso é o Dick Vigarista enquanto o brasileiro é a indefesa Penélope Charmosa. No entanto, todos os limites do bom senso foram ultrapassados durante a transmissão do treino classificatório. Galvão fez várias insinuações sobre a índole do bicampeão, dizendo que ele era “sem dúvida” antiético e somente por isso está na frente de Massa no campeonato.

Termino lembrando de algo que passa desapercebido por muitos: no ano passado Alonso  colocava sobre Nelsinho Piquet os mesmos seis décimos de vantagem. A superioridade é a mesma deste ano. Mas não vejo ninguém dizendo que Massa é um desastre, como fizeram com Piquet. Ou um não era tão ruim quanto parecia ou o outro não é tão forte quanto acreditávamos. Só uma constatação é indiscutível: o asturiano é muito superior aos dois.

Rapidinhas:

Qual será a próxima reclamação de Rubinho?

Kubica continua fazendo milagres com seu carro. O Polonês tem excelente relacionamento com os italianos em geral, domina a língua e é querido por todos na terra da bota. Ou Massa reage ou…

Schummy está ressurgindo com um carro novo. Belíssima corrida!

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O destruidor de carros

por Thiago Barros Ribeiro

Depois de uma série de corridas recheadas de água e emoção, o GP da Espanha trouxe-nos de volta a um cenário mais próximo da realidade na Fórmula 1. Melhor e mais disputada do que a de anos anteriores – lembremos que a disputa em Barcelona caracteriza-se por ser um convite ao sono matinal e hoje nem foi tanto assim, com o duelo entre Button e Schumacher, os problemas de Vettel e Hamilton -,  mas longe do show que vinha nos deixando mal acostumados.

O fim-de-semana começou com um abismo separando uma equipe, a RedBull, que colocou mais de um segundo sobre todos os rivais no classificatório de sábado. Mas o domingo mostrou que em corrida a superioridade ainda não é nem tão grande nem tão constante como nos treinamentos.

Mostrou mais do que isso. Já não há mais dúvida de que há alguma coisa no jeito de Vettel pilotar que tende a destruir o carro. Talvez seja uma pitada a mais de arrojo, um jeito diferente de pisar no freio, mas o fato é que esse quê ainda indecifrável tirou de Vettel um título bastante provável em 2009 e tem tudo para fazer o mesmo neste ano, com a diferença de que a perspectiva de conquista é agora ainda mais latente. O pior para Vettel, e o melhor para os outros, é que esse problema parece afetar a cabeça do germânico. Reconhecidamente mais talentoso do que Webber, Vettel andou atrás do companheiro na Espanha, quiçá preocupado em corrigir o enigma da pilotagem destruidora. Não corrigiu e viu o parceiro vencer a prova.

Enquanto isso…

Massa passou mais um fim-de-semana tomando em média meio segundo por volta de Fernando Alonso. Está já a 18 pontos do espanhol e prestes a assumir (ou já assumiu?) oficialmente o papel de segundo piloto. Para mim uma grande decepção. Esperava uma disputa acirradíssima entre ambos e não um passeio de um dos lados.

E Rosberg, coitado, começou finalmente a sentir o gosto amargo de ser companheiro de Schumacher. Cansado do baile que vinha tomando desde o começo do ano, o heptacampeão usou de seu poder e fez um carro sob medida para si. O problema é que esse carro foi repassado também a Rosberg, que não tinha nada a ver com isso e estava muito feliz com a Mercedes de antes. Resultado: Schumacher melhorou um pouco, ainda a anos-luz de qualquer brilhantismo, e Rosberg despencou, passando em branco pela primeira vez no ano. Se fosse uma dupla de pilotos normal, seria o caso de a Mercedes, em tendo de optar por uma das especificações, voltar à antiga, posto que a mudança claramente prejudicou o seu piloto mais competitivo, que está na disputa do campeonato. Como Schumacher faz parte da dupla, pobre Rosberg… estava na disputa do campeonato.

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Homens do ramo e homens sem rumo

por Daniel Marchi

Tudo muito normal na Espanha. Como as equipes ainda têm pouca quilometragem em condições de piso seco nessa temporada, elas permanecem em processo de learning by doing. Mas certamente já têm uma carga de informações suficientes para explorar mais os pneus e correr menos riscos. Acredito que na segunda metade do campeonato estarão mais confortáveis nesse quesito.

Temos até aqui um campeonato de construtores bem apertado. E isso me faz tirar uma conclusão, reconheço, arriscada. A Red Bull ainda não merece ser chamada de “equipe grande”. O time ainda não consegue converter a superioridade de seus carros em vitórias (dobradinhas, no caso) tranqüilas. É o preço do noviciado. Não vamos esquecer que é a primeira vez que a equipe está efetivamente disputando títulos, situação bem diferente de McLaren e Ferrari, verdadeiras raposas do deserto. Mas homens competentes e do ramo, como Horner e Newey, sabem o caminho das pedras.

Por fim falemos do trio parada-dura, FIA, FOM e FOTA. Eles, cada um a seu modo, ainda vão conseguir acabar por completo com a F-1. A brilhante decisão de proibir os testes durante a temporada terá em Mônaco o seu ponto alto. Já está se discutindo abertamente a divisão dos treinos, de modo que as equipes novas não causem transtornos em demasia para as mais estruturadas. É uma piada, só pode ser. Deve ser algum brasileiro que, por trás das cortinas, dirige a F-1. É aquela típica medida para fingir que está tudo bem. Nós sabemos bem como é isso…

E não é só. Os pilotos da Virgin foram punidos, perderam algumas posições no grid espanhol. Mas por que a equipe foi punida? Será que ela usou querosene de aviação? Um pacote com suspensão ativa, controle de tração e freios ABS? Não. A equipe não comunicou a tempo as informações sobre as relações de marchas à FIA. Tem babaquice burocrática maior do que essa? Antes de arrasar a categoria, os sábios vão implantar o comunismo na F-1, se é que já não o fizeram.

Fórmula (3 em) 1

Dia negro para os irmãos Schumacher e Massa

Por Marcelo Cerri

Mais uma belíssima corrida impulsionada pela chuva e sobretudo pelo grande talento da nova geração. Corrida quase perfeita de Button. Destaque para as inúmeras ultrapassagens realizadas pelo sempre agressivo Hamilton e para aquelas sofridas pelo constrangedor Schumacher. Não acredito que o maior vencedor de todos os tempos tenha já passado por uma situação tão difícil em toda sua carreira. É claro que ele não precisa provar mais nada a ninguém, está lá para se divertir. Mas, pelo que conhecemos do alemão, diversão e vitórias para ele são duas coisas indissociáveis, o que coloca em dúvida sua permanência na categoria por mais de um ano. Aposto que haverá uma troca entre Schummy e Raikkonen na próxima temporada, já que o Iceman não vem fazendo nada de muito produtivo no mundial de rally.

Como a maioria dos brasileiros que viram o GP, não gostei nada de ver a ultrapassagem de Alonso sobre Massa que, no primeiro momento, me pareceu desleal e excessivamente agressiva, considerando que são companheiros de equipe, mesmo que tenha ocorrido dentro da regularidade. No entanto, analisando friamente, vemos que a Ferrari se beneficiou muito com aquela manobra. O fato é que o espanhol é mais rápido que o “nosso” Felipe. Além de ter sido superior ao brasileiro em todo o final de semana, Alonso é nitidamente mais eficiente nas ultrapassagens. Caso Massa tivesse entrado primeiro nos boxes, sua inferioridade em efetuar ultrapassagens faria com que a Ferrari perdesse pontos importantíssimos. Alonso fez o que tinha que ter feito e Massa não tem nada o que reclamar. Apesar de muitos de nós termos colocado em Felipe nossas esperanças de ver um brasileiro campeão novamente, temos que ser realistas e reconhecer a superioridade de seu companheiro de equipe. Muitos, no entanto, podem replicar explicando que o problema do brasileiro é pontual: seu modo de pilotagem não permite que os pneus se aqueçam do modo adequado. Ok. Concordo. Mas isso só confirma que Alonso é mais completo e, portanto, superior. A consequência dessa constatação deverá ser, em breve, um claro e justo favorecimento da equipe a Fernando Alonso. Qualquer outra atitude da Scuderia seria um tiro no pé.

Mais uma excelente atuação de Kubica, ainda que discreta. Parece que a Renault não está para brincadeira, mesmo com toda sua indefinição quanto ao futuro. Já a decepção do dia vai para as Red Bull, que pareciam mais uma vez imbatíveis e acabaram fazendo provas medíocres.

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O melhor e o pior

Por Thiago Barros Ribeiro

Durante a fraca chuva que dominou o GP da China, o desempenho de alguns pilotos me obrigou a concentrar a coluna de hoje em duas questões: quem foi o melhor e o pior da pista. Para a primeira disputa, classificaram-se Jenson Button e Lewis Hamilton. Para a segunda, bem menos honrosa, Felipe Massa e Michael Schumacher.

Já foi dito mais de uma vez aqui que Hamilton é mais espetacular do que Button, o que não significa ser melhor piloto. Hoje, o queridinho da Inglaterra protagonizou as imagens durante a transmissão. Ficar para trás após a decisão de trocar os pneus por conta de uma chuva que não se confirmou, logo no início, permitiu a Hamilton fazer mais uma de suas já conhecidas corridas de recuperação, ultrapassando com arrojo e habilidade. Deu gosto de ver.

Enquanto isso, Button também fez o que vamos nos acostumando a ver dele. Professoral na estratégia de se manter na pista, apostando que esta não molharia o suficiente com o chuvisco do começo, foi sóbrio e eficaz. Não apareceu para as câmeras, mas ganhou sem reais ameaças dos adversários. Chegou a 60 pontos na merecidíssima dianteira do campeonato e, não fosse a discutível entrada do carro de segurança no meio da prova, teria aberto mais do que os 11 pontos que ostenta de frente sobre Hamilton, que, sem o reagrupamento dos carros, não passaria de um quarto lugar.

Button foi o melhor.

No extremo oposto, Massa, para variar um pouco, foi péssimo sob chuva. Mesmo com a punição a Alonso, por queimar a largada, não conseguiu em momento algum abrir boa vantagem sobre o espanhol. E, quando ultrapassado, viu o companheiro sumir à frente. Aliás, o único elogio a Massa fica para sua declaração logo após a corrida, quando reconheceu ter errado na última curva antes da entrada para os boxes, permitindo a Alonso se emparelhar e realizar a polêmica ultrapassagem. De fato, ao analisarmos as imagens, percebemos que ambos já vêm dividindo a reta antes da entrada dos boxes – Massa com meio carro à frente, Alonso por dentro. Se ficassem na pista, muito provavelmente o espanhol ganharia a posição. Por isso, não vejo nada de errado em sua atitude, em acordo com o regulamento e que ainda teve o mérito de ir contra a chatice politicamente correta que domina hoje a Fórmula 1.

Pior que Massa, só mesmo Michael Schumacher, que parece ter uma espécie de compulsão pelo protagonismo. Se não consegue ser o melhor, como antes, tem de ser então o pior, papel que vem monopolizando em 2010. Coadjuvante, nem pensar. Hoje, lembrou muito Morgan Freeman, como o calmo chofer de Jessica Tandy em Conduzindo Miss Daisy. Com sua Mercedes que mais parecia uma banheira prateada, conseguiu desperdiçar por completo as duas sacadas estratégicas em que Ross Brawn lhe deu a chance de galgar posições. Viu ainda Nico Rosberg chegar a 50 pontos, contra seus parcos 10, maior diferença entre todos os companheiros de equipe.

Para os adoradores do alemão, deve ser das piores sensações. Para mim, que nunca vi nele todo o brilhantismo que sempre pintaram, está, confesso, bastante divertido.

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Dois mil e trinta

Por Daniel Marchi

E aí Thiago, tudo bem? Tudo tranqüilo com a família? E o Júnior, foi bem no vestibular? Cara… estava aqui vendo algumas imagens do GP da China de 2010. Que corrida! Lembro-me que o GP da Austrália daquele ano, não sei ao certo se foi o GP anterior, também fora sensacional, mas acho que o chinês foi melhor. Foi um chove-e-pára muito parecido com Donington-93.

Button foi soberbo naquele dia. O cara tinha a calma de um enxadrista e a coragem de um operador de bolsa de valores. Será que hoje as pessoas dão o devido valor a ele? Eu não botava muita fé nele não. Recordo que ninguém entendeu ao certo por que ele trocara uma posição confortável na Brawn/Mercedes para dividir equipe com o multi-campeão Hamilton.

Hamilton… putz, esse foi outro que deu show – mais um – naquela corrida. Lembra que o Lewis tinha um capacete parecido com o de Senna? Pois é… eu acho que não era só o capacete que era parecido não. Como era agressivo aquele sujeito.

Nossa! Já tinha esquecido que foi naquele dia que azedou de vez a relação Alonso-Massa. O que o espanhol tinha de talentoso tinha também de encrenqueiro. Mas tenha dó, né? Precisava fazer aquilo na entrada dos boxes com o próprio companheiro de equipe? Fico imaginando se fosse o contrário. Os dois teriam saído no braço ali mesmo.

Outra coisa. O que foi aquela exibição do Alemão? Será que era ele mesmo dentro do carro? Tomou ultrapassagem de todo mundo, de uns caras que não viraram nada depois. Incrível. Não foi à toa que o filho do Keke deu um baile nele em 2010.

Esse GP está no meu hall da fama até hoje. E esse ano, o que você acha que vai acontecer?

Fórmula (3 em) 1

O seca-pimenteira

Por Thiago Barros Ribeiro

Desta vez sem chuva, os madrugueiros puderam assistir a mais um belo espetáculo de Fórmula 1. Não com tantas alternâncias e reviravoltas como as possibilitadas pela pista e pela umidade australiana, mas muito superior ao marasmo que costuma caracterizar a Malásia – até quando choveu, no ano passado, a corrida não se salvou, tendo sido interrompida antes do final. Já não há mais dúvida de que, depois de muitos anos de tiros pela culatra, as mudanças regulamentares para 2010 melhoraram a categoria.

Vettel terminou a terceira etapa do ano como poderia ter concluído as outras duas, em primeiro. Não fossem as falhas mecânicas, o alemão contabilizaria 75 pontos e o tão glorificado equilíbrio de agora seria obra de ficção. O subjuntivo passado peca por não existir, é fato, mas a hipótese não verificada é importante para lembrar que, num campeonato em que a vitória vale 25 pontos e o segundo lugar 18, qualquer série de três vitórias pode jogar o pretenso equilíbrio por água abaixo. E que, mirando apenas o desempenho dos carros na pista, essa série já poderia ter existido neste ano. Não existiu, o que foi ótimo para o campeonato. Mas não sejamos afoitos.

Afoito como pareço ter sido eu, ao apontar Alonso como provável campeão depois da primeira corrida. Na verdade, uma precipitação calculada, para fugir do lugar comum. Mas, depois de feita a profecia, o espanhol colecionou azares nas duas etapas seguintes, abalroado por Button na largada australiana e com problemas no câmbio em praticamente toda a corrida de hoje.

Não posso, diante disso, esconder o meu lado seca-pimenteira quando o negócio é advinhar o campeão mundial de Fórmula 1. Vejam o “invejável” retrospecto: 2007 – aposta: Alonso, campeão: Raikkonen; 2008 – aposta: Raikkonen, campeão: Hamilton; 2009 – aposta: Vettel, campeão: Button. O pobre Alonso, percebe-se, terá de correr contra os adversários e contra a minha santa boca.

Massa, que não tem nada a ver com isso, teve sua melhor atuação justamente na corrida em que chegou mais atrás. Largou outra vez muito bem, beneficiou-se com as paradas das Toro Rosso, já que não conseguia ultrapassá-las e ia perdendo um belo tempo por ali e, depois da troca de pneus, andou bem, protagonizando a melhor monobra da corrida, na ultrapassagem sobre Button. Sai com a liderança no bolso e, embora para mim ainda não tenha pinta de campeão – o que pode ser bom para ele, como se viu -, vai se saindo bem por ser, entre os reais postulantes ao título, o até agora menos afetado pela falta de sorte, sua companheira fiel em 2008 e 2009.

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Massa à la Globo

Por Marcelo Cerri

Terminada a terceira etapa do campeonato e a luta pelo título continua uma grande incógnita. Temos oito pilotos separados por apenas nove pontos, o que é uma diferença mínima se considerarmos que uma vitória vale 25 pontos. Em termos proporcionais, seria mais ou menos como se tivéssemos os mesmos oito pilotos separados por quatro pontos, considerando a pontuação dos últimos anos.

Começo com essa ponderação para falar da liderança de Massa na classificação de pilotos. O ufanismo reinante nestas terras certamente já está provocando fervuras no sangue tupiniquim. Mas ao analisarmos friamente a situação do brasileiro, recebemos uma ducha de água fria: as chances de Massa ser campeão não são lá tão grandes. Não é pessimismo. Simplesmente temos que reconhecer que Alonso é sistematicamente mais rápido, mais de meio segundo por volta. Foram os problemas no câmbio e no motor que o levaram a perder a liderança para Felipe, que também deverá passar por adversidades do mesmo gênero, ainda mais se considerarmos que a italianada da Ferrari não consegue passar duas corridas sem fazer uma besteira monumental (a estratégia suicida dos treinos classificatórios do último sábado é um bom exemplo). Além da superioridade do companheiro de equipe, há a RedBull com um carro evidentemente mais veloz. Isso nos faz lembrar que Vettel somaria 75 pontos no momento e lideraria o campeonato em modo schumacheriano caso não tivesse quebrado nas duas primeiras corridas. Também temos a McLaren, a Mercedes e, correndo por fora, a Renault do excelente Kubica, que estão na briga.

Quem assistiu à classificação deve ter notado um comentário bastante constrangedor de Galvão Bueno. Após mostrarem como funciona o novo volante da Ferrari, o qual, aliás, me pareceu beneficiar o Espanhol, nosso justíssimo narrador de corridas deu uma bronca ao vivo em quem montou aquelas imagens, pois esqueceram retirar delas o patrocínio. Isso é um absurdo comercial! Raciocinemos um pouco: uma empresa paga milhões para ter sua marca estampada em um carro com a intenção apresentá-la aos potenciais clientes nas oportunidades em que tal parte de tal carro aparecer nos meios de comunicação. A emissora de TV consegue audiência mostrando tais imagens ao público. É uma troca justa. Mas a Globo se coloca no direito de escolher quais marcas vai promover, quais não. Por exemplo, a Renault pode ser chamada de Renault, mas a RedBull é RBR, pois a emissora não pretende fazer propaganda de graça das bebidas energéticas. Mas será que é mesmo de graça? Ontem a Globo arrecadou milhões do Banco Santander para transmitir a vitória das RedBull, mas a mesma emissora não divulga as marcas que constroem o show que ela mesmo vende!

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Raça

Por Daniel Marchi

Vettel fez ótima largada e venceu. Enfim a Red Bull conseguiu converter volume de jogo em gol. Não tenho muito a acrescentar a este bom GP da Malásia, que aconteceu sem a ocorrência de chuva bíblica como se previa ou como ocorrera em 2009. O tempo por lá é demasiado rebelde. Penso que as críticas feitas a Ferrari e McLaren sobre uma suposta falha de timing no treino de classificação foram um pouco exageradas. Num nível de competição intenso como a F-1, principalmente nas grandes equipes, o processo de tomada de decisão não se resume a uma ordem de um diretor sabichão. De qualquer modo, os quatro carros acabaram por fazer boa prova.

Na verdade, hoje eu gostaria de palpitar sobre uma característica de pilotagem que me chama muito a atenção nos pilotos e que, na minha opinião, separa os grandes dos esforçados. Falo da celeridade – cacoete de bu(r)rocrata –  nas ultrapassagens. Essa habilidade se mostra com todas as cores em provas como Austrália e Malásia, quando grandes pilotos/carros se vêem no fim do pelotão.

Rapidamente me vêm à mente os dois ETs, Senna e Michael Schumacher. Ambos tinham, como direi?, uma raça impressionante. Conseguiam colher dois ou três carros por volta; em dez ou doze giros saiam do fundo para a antiga zona de pontos. No caso de Senna, os casos emblemáticos foram Suzuka-88 e Donington-93, esta última considerada a melhor primeira volta de todos os tempos. Schumacher, o homem que entendeu como ninguém a dinâmica de uma corrida, especialmente com reabastecimento, não foi pior. De bate-pronto, lembro-me que ele fazia uma recuperação fantástica no dilúvio de Spa-98 até encher a traseira de Coulthard. Registro também sua última prova pela Scuderia, Brasil-06. E é isso que mais tenho sentido falta em seu retorno.

Adiantando o tape, temos a turma de hoje. Vejo Hamilton como o melhor de todos nesse quesito. Na grande maioria das vezes, toma as decisões corretas e parte pra cima; não se enrola com quase ninguém. Na seqüência, vem Alonso, sempre muito seguro e sem frescuras. Por outro lado, um dos piores que já vi nesse assunto é Rubens. Sua tocada é boa, cometeu pouquíssimos erros de pilotagem ao longo de sua grande carreira, mas sempre vacilou muito na hora do pega-pra-capar. Estuda demais, entendem? Eu sei que não é fácil como no PlayStation, mas no final das contas isso determina se o camarada vai beber champagne ou gatorade. Curiosamente, sua primeira vitória foi partindo de 18° e engolindo todo mundo. Mosca branca. Outro que costuma se complicar é Massa. Quando parte da frente é uma fera. Mas se é preciso remar um pouco…

Esse rodeio todo para concluir o seguinte. Num campeonato com vários carros em alto nível, como parece ser a perspectiva para o de 2010, a capacidade de fazer bons resultados em situações difíceis fará a diferença. É por essas e outras que Massa como líder do campeonato tende a ser um fato efêmero, como efêmeros foram os ovos de Páscoa hoje. Torço para queimar a língua.