Viva a “burguesia”!

Em mais uma das suas, o presidente Lula deu o ar da graça em vídeo amador que circula pela rede. Numa conversa informal com um jovem que reivindica uma quadra de tênis para treinar, Lula, de forma não muito polida, diz para o meninão, bem crescidinho e nutrido, diga-se de passagem, treinar outra coisa, pois “tênis é esporte da burguesia”.

Bastou para o alvoroço. A grita seria de todo correta se girasse em torno do palavreado do presidente, que foi acompanhado no tom pelo governador do Rio, Sérgio Cabral. Também poder-se-ia criticar Lula por estabelecer quem deve praticar uma ou outra modalidade, de acordo com a posição social.

Mas não. Para pasmar aqueles que ainda conseguem tal proeza num mundo cada vez mais fora da ordem, a maioria dos revoltados veio a público refutar o rótulo de “burguês”, bradando que jogavam sim tênis, mas não admitiam apenas por isso serem chamados de burgueses. Como se tal alcunha fosse sinônimo de hediondo crime.

Ora, no sentido marxista utilizado por Lula, a “burguesia” representa aqueles com melhores condições de vida ou, para continuar no marxismo, os donos dos meios de produção. Os ricos, grosso modo. E aqui devo, por respeito à minha consciência, concordar com o presidente. O tênis, sem sombra de dúvida, é um esporte que exige certa condição financeira de seus praticantes. Não tanto como o automobilismo ou o iatismo, mas uma raquete, das mais simples, não sai por menos de R$ 200,00. A hora-aula, a preços módicos, R$ 30,00. Só nisso já vai uma quantia proibitiva para a maior parte dos brasileiros.

São, pois, os “burgueses” que costumam jogar tênis. Em geral, podem hoje dar suas raquetadas cá e acolá porque trabalharam para isso. Não conseguiram sua riqueza graças a alguma chuva de dinheiro, mas sim por um grande esforço recompensado pela justa remuneração. Merecem os parabéns por serem “burgueses”. Não têm de se defender por serem bem-sucedidos, por poderem jogar tênis, viajar anualmente para o exterior ou fazer qualquer outra coisa que exija dinheiro.

Devem ser admirados, imitados, servirem de inspiração àqueles que não estão à mesma altura. Que um ou outro aloprado pelo socialismo surja com disparates é até bastante esperado. Que os próprios “burgueses” se coloquem em posição de indignada defesa é de um absurdo atroz.

Triste sinal de nossos dias. Em que é feio, em que causa vergonha, estar entre os melhores. A pessoa sente-se quase obrigada a pedir desculpas. Condenada por se dar bem na vida. A criminalização do sucesso.

Bonito é ser carente. Grandioso é viver de esmolas. Vender drops no sinal. A ode à mediocridade. O império do pensamento socialista.

Esperando o dia em que esse verdadeiro racionalismo às avessas tenha fim, só me resta o grito tênue, quase afônico em meio à turba: viva a burguesia!

A intervenção, o comunismo… quantas saudades da Copa!

Lembram-se da história da proibição das coxinhas nas escolas, que rendeu a postagem mais polêmica da curta existência deste blog, em que se defendia o direito de cada um saber o que é melhor para si próprio e arcar com as consequências de seus próprios atos?

Pois é, a cada dia fica mais latente a falta de espaço para pessoas com esse tipo de pensamento no Brasil. O espaço para o livre arbítrio diminui à medida que senhores da razão sabem o melhor para toda a sociedade, até mesmo em assuntos puramente individuais. São, afinal, oniscientes.

A última da escalada intervencionista, dominante nos quatro cantos governamentais do país, é o projeto de lei encaminhado hoje pelo presidente Lula ao Congresso, que proíbe os pais de castigarem fisicamente os seus filhos. Em outras palavras, coloca na ilegalidade a boa e velha palmada.

Antes que surjam os defensores dos direitos humanos, da criança e do adolescente com um porrete na mão, saliento que não se é aqui favorável à crueldade, seja em filhos, seja em avós, seja em animais.  Apenas seres pouco favorecidos mentalmente aplicam esse tipo de tratamento a alguém e devem ser punidos.

Daí a proibir aquele tapinha na mão da criança que, no clima da Copa, resolve seguir o exemplo do técnico alemão Joachim Löw e coloca o inocente dedinho dentro do nariz e depois na boca, vai uma distância continental.

O mais triste de tudo isso é que, travestidas das famosas boas intenções, que existem aos montes no inferno, regulamentações desse tipo vão pipocando aqui e acolá quase sempre sob o aplauso da grande massa. E o espaço para a liberdade vai, ao mesmo tempo, direcionando-se a passos cada vez maiores e mais rápidos à bandeirinha de escanteio.

Não é demais, posto que oportuno, relembrar passagem do Manifesto Comunista a respeito do tema educação familiar. Em defesa da abolição da família, eis que surge:

Acusai-nos de querer abolir a exploração das crianças por seu próprios pais? Confessamos este crime.  Dizeis também que destruímos os vínculos mais íntimos, substituindo a educação doméstica pela educação social.

Qualquer semelhança com a lei anti-palmadas não deve ser mera coincidência. É exatamente este o “edificante e desapegado” ideal por trás da tara intervencionista: “vamos guiar toda a sua vida, mas não se preocupe, é por uma boa causa, é para o seu bem.” E ainda com a sempre presente pitada de sentimentalismo barato: “podem nos crucificar por esse crime, vamos ao calvário pela felicidade e pela libertação de nosso povo.”

O mais intrigante é como esse tipo de coisa ainda ganha e comanda tantas mentes pretensamente pensantes mundo afora. Que permeie os pensamentos dos donos do poder e de determinados grupos políticos é até bastante razoável, levando-se em consideração que a força-motriz por trás da maioria de suas atitudes é justamente a busca por mais e mais poder.

Agora, que agrade e convença pessoas meramente bem-intencionadas é realmente um bom caso para estudo. Sociológico, talvez. De marketing, certamente.

Lula e a estrela

Aproveitando a onda eleitoral que começa a se formar – e antes que ela se acalme durante a Copa do Mundo -, inicio hoje uma série de postagens, digamos, político-eleitorais.

A primeira delas é sobre Lula, o cara. Aqueles que acompanham o blog já perceberam que não concordo com o estilo de governo dirigista e assistencialista de Lula. Com a tendência a sempre pegar o meu dinheiro emprestado (?) para, sem o meu aval, aplicar em investimentos (?) de “interesse nacional” (o governo Lula adora esse termo), como a famigerada ajuda ao Haiti, quando o Haiti é aqui.

Também não acho que Lula fez internamente nada de essencialmente diferente ao que fizera Fernando Henrique. As diferenças mais marcantes entre ambos ficaram para os ganhos reais de salário que Lula possibilitou aos menos (salário mínimo) e aos mais (funcionalismo público) favorecidos. Externamente sim, houve uma guinada no início positiva, posto que o Brasil passou a agir em vez de apenas sucumbir, como nos tempos de FHC. Mas nos últimos meses, o sucesso dessa estratégia parece ter subido à cabeça de Lula, que, como disse Ciro Gomes, “subiu um pouco no salto” e encarrilhou algumas besteiras mundo afora.

Mas, se o governo não tem nada demais, por que Lula, além de sair ileso de variados episódios de corrupção que varreram todos os companheiros à sua volta, ainda navega há anos na maior popularidade já atingida por um presidente? A resposta é simples: Lula é genial e ainda tem uma estrela que poucas vezes se viu.

A genialidade. Lula sabe como ninguém falar a língua do povo. Até aí, nada demais, afinal, ele é do povo e não tem estudo, dirão alguns. A esses, lembro que milhões compartilham essa condição e nem por isso se expressam com a maestria de Lula. Mas isso não vem ao caso. O ponto é outro. A genialidade de Lula não está no falar com o povo, que, de fato, não é das coisas mais difíceis para ele. Está no falar com o não-povo, com o empresariado, com os banqueiros, com os mais diversos interlocutores estrangeiros, mesmo sem pronunciar uma palavra em inglês. E ser, via de regra, aplaudido com entusiasmo por onde quer que passe.

Nunca houve um governante brasileiro tão internacionalmente elogiado, a ponto de ter seu nome aventado para o Nobel da Paz e tornar até palatável uma posição em órgãos multilaterais do calibre de ONU e Banco Mundial. FHC, o intelectual da Sorbonne, não passou nem perto e, tenham certeza, morde-se diariamente de inveja por isso.

O carisma natural ajuda, é claro. Mas vejam imagens do sombrio Lula-89 e respondam se não é gênio alguém que consegue se transformar no Lula-Século XXI, forte candidato a estadista do século. Puro trabalho de marketing, virão os críticos. Só poderei lamentar a superficialidade do argumento.

O outro ingrediente é a estrela. A de Lula brilha forte. Graças a ela, não foi eleito em 89, em 94 e em 98, quando, em escala descrescente, faria descalabros capazes de colocá-lo no porão da História. Graças a ela, Mário Covas, natural sucessor de Fernando Henrique, deixou-nos antes que pudesse assumir e facilitou a tarefa contra um Serra sempre com cara de anemia, o próprio carisma às avessas. Graças a ela, atravessou oito anos de mandato sem grandes crises nos países emergentes, o que fez transparecer uma mudança nos rumos da economia que nunca houve.

Graças a ela, sairá nos braços do povo e nos dele também poderá retornar, se assim desejar, daqui a quatro anos.

Porque gênio sem estrela não é nada. E de nada adianta ter estrela para os medíocres.

O carro do amigo

Imaginem a seguinte situação:

Eu estou com o carro de um amigo emprestado quando assisto a um assalto de outro carro. Comovido pela situação, pego a chave do carro do meu amigo e dou para a vítima do assalto. Só que eu não tenho a menor condição de reembolsar o meu amigo e ele ainda estava pagando o financiamento do carro.

Se você fosse o amigo que perdeu o carro, o que acharia dessa minha atitude extremamente solidária, exemplo da generosidade entre os povos? Pense um pouco na resposta enquanto lê as próximas linhas…

2010 começou abalando as estruturas, literalmente. Em 12 de janeiro, o Haiti sofreu um terremoto que vitimou mais de 200 mil pessoas e levou o caos ao paupérrimo país centro-americano. No último sábado, foi a vez de nosso vizinho Chile sofrer intenso abalo. Ambos os fenômenos têm recebido ampla atenção na mídia, mas, como de costume, as notícias têm sempre um cheirinho de mais do mesmo. Ora é a escalada no número de vítimas, ora a história comovente de alguém que foi resgatado vivo depois de dias embaixo de escombros. Lados importantíssimos, e muito mais próximos a nós, brasileiros, passam despercebidos.

Alguém, por exemplo, analisou com a devida atenção a ajuda de R$ 375 milhões que o presidente Lula anunciou ao Haiti no dia 26 de janeiro? Pois analisemos juntos.

Quando um governante é eleito, o povo transfere a ele poder para tomar determinadas decisões em seu nome, sobretudo em questões urgentes e relevantes. É o caso, por exemplo, das enchentes que assolam São Paulo nas últimas semanas e castigaram Santa Catarina anos atrás. São casos excepcionais que exigem atuação rápida dos governos. Imaginando um grande bolo em que cada um fornece um pouquinho dos ingredientes, na forma de impostos, é natural que, em situações como a das enchentes, parte do bolo que seria por direito de quem forneceu os ingredientes seja repassada a quem tem mais fome no momento. Afinal, são todos brasileiros e todos contribuíram para o bolo.

A situação do Haiti é totalmente diferente. Por mais desalentadora que seja, nada nela autoriza o governo brasileiro a agir como um Grande Irmão que tudo sabe e tudo pode, despejando milhões de reais no país caribenho sem qualquer autorização do povo. O disparate se torna maior à medida que milhões de brasileiros sobrevivem em situação de miséria ainda distante de ser solucionada.

Não quero dizer com isso que o Haiti não mereça ajuda internacional. Claro que merece, mas são decisões que devem ser tomadas ou individualmente, na medida que a consciência de cada um considere adequada (várias contas bancárias foram criadas para receberem doações ao Haiti), ou por entidades multilaterais, como o Banco Mundial, que já existem e recebem auxílio de vários países para situações desse tipo, ou, em última instância, por países em situação confortável e de forma muito prudente.

O Brasil, além de não se encaixar no “confortável”, viajou na maionese, pirou no seu sonho de ser potência mundial. Vejam alguns números.

O Banco Mundial, entre perdão à dívida haitiana e recursos adicionais, liberou cerca de R$ 250 milhões; os Estados Unidos anunciaram cifra próxima de R$ 180 milhões; a União Européia, que reúne 27 países, liberou R$ 1 bilhão, o que, rateado, significa algo em torno de R$ 37 milhões para cada país; adicionalmente, outros países europeus anunciaram doações próprias. As três maiores foram de Inglaterra (R$ 18 milhões), Noruega (R$ 9,5 milhões) e Espanha (R$ 8 milhões). Austrália (R$ 16 milhões), Japão (R$ 9 milhões) e Canadá (R$ 8,5 milhões) foram os outros países que anunciaram quantias mais gordas.

Se antes pareciam apenas descabidos, diante desses números os R$ 375 milhões do governo brasileiro (ou nossos, para ser mais preciso) ao Haiti passam a soar como verdadeiro acinte a todos os brasileiros que contribuem com pesada carga de impostos e, sobretudo, àqueles que precisam de serviços públicos para sobreviver.

E agora já sabemos que o Brasil será generoso também com o Chile, que, só para constar, dá baile de desenvolvimento no próprio Brasil…

E vem aí a Copa do Mundo em 2014! E as Olimpíadas em 2016! Meu Deus…

Ah, na situação inicial eu represento o governo brasileiro, o assaltado é o Haiti e o amigo somos todos nós, é o povo brasileiro. E aí, qual a sua resposta?