Dunga e a esquerda na Copa

Nos últimos dias, o assunto mais buxixado quando se fala em Seleção Brasileira é a celeuma envolvendo Dunga e Rede Globo, que se tornou mais visível após as grosserias do selecionador a Alex Escobar, competente jornalista da emissora, transmitidas ao vivo para o mundo todo.

Os palavrões, felizmente ouvidos em baixo e ruim som, foram mais uma mostra do nível educacional de uma pessoa que muito dificilmente consegue concluir uma frase sem cometer alguns atentados à língua portuguesa. Mas não é este o ponto. Afinal, a educação do brasileiro médio – Dunga não está acima dele – é realmente sofrível.

O buraco é mais embaixo. Está no caráter político-ideológico que alguns, na verdade e lamentavelmente muitos, rasos de pensamento estão tentando dar ao caso. Dunga, para eles, transformou-se num mártir, no pobre oprimido que, mesmo massacrado pelo sistema, levanta sua corajosa voz e encara de frente a Platinada Toda Poderosa. Uma espécie de Hugo Chavez lutando contra o imperialismo dos Estados Unidos. Um cara de esquerda, como certamente se auto-intitulam os que estão levantando essa bola murcha, lutando contra a direita, o mal encarnado.

Já tem até email rondando caixas postais de todo o país conclamando os brasileiros, pobres coitados e também oprimidos – com acesso diuturno à Internet, diga-se – a mostrarem seu apoio ao libertário Dunga e, num gesto de solidariedade, rebelarem-se contra a Globo nesta sexta-feira, assistindo ao jogo do Brasil contra Portugal em outro canal.

Lembram, em tom de protesto, que o demônio de prata já colocou Collor no poder – lenda absolutamente mentirosa criada pelo mesmo tipo de gente – e glorificam aquele que finalmente colocou o gigante de joelhos.

Quantas coisas fora de lugar! Tentemos ajeitá-las um pouco. Dunga tem um grande mérito em sua passagem pela Seleção: tratar todos os veículos de imprensa de forma igual, sem conceder à Globo os privilégios que sempre teve. Isso não dá a ele, entretanto, o direito de maltratar pessoas que estão apenas realizando o seu trabalho, agredindo de lambuja os nossos ouvidos, nem retira da Globo o direito, na verdade o dever, de tentar buscar os maiores privilégios possíveis em sua cobertura. Seja com entrevistas exclusivas, seja em viagens junto dos jogadores, seja do jeito que for. Se conseguir, ótimo pra ela. Se não, pelo menos fez sua parte, tentando. Não apenas ela, mas toda a imprensa deve fazer isso.

Essa forma de se ver no papel de vítima e se utilizar desse papel fictício para justificar reações gratuitamente violentas só não espanta mais porque não surpreende. É costume na “romântica e benevolente” esquerda. Para lutar contra a ditadura e suas abomináveis mortes, saia matando. Para lutar contra o malévolo capitalismo, prenda os seus habitantes numa redoma de miséria. Para lutar contra o poder de um canal de comunicação, seja mal-educado, xingue os seus integrantes.

Dunga é o comunista do futebol. Eles se merecem. E viva a esclarecida esquerda!

Fórmula (3 em) 1

O seca-pimenteira

Por Thiago Barros Ribeiro

Desta vez sem chuva, os madrugueiros puderam assistir a mais um belo espetáculo de Fórmula 1. Não com tantas alternâncias e reviravoltas como as possibilitadas pela pista e pela umidade australiana, mas muito superior ao marasmo que costuma caracterizar a Malásia – até quando choveu, no ano passado, a corrida não se salvou, tendo sido interrompida antes do final. Já não há mais dúvida de que, depois de muitos anos de tiros pela culatra, as mudanças regulamentares para 2010 melhoraram a categoria.

Vettel terminou a terceira etapa do ano como poderia ter concluído as outras duas, em primeiro. Não fossem as falhas mecânicas, o alemão contabilizaria 75 pontos e o tão glorificado equilíbrio de agora seria obra de ficção. O subjuntivo passado peca por não existir, é fato, mas a hipótese não verificada é importante para lembrar que, num campeonato em que a vitória vale 25 pontos e o segundo lugar 18, qualquer série de três vitórias pode jogar o pretenso equilíbrio por água abaixo. E que, mirando apenas o desempenho dos carros na pista, essa série já poderia ter existido neste ano. Não existiu, o que foi ótimo para o campeonato. Mas não sejamos afoitos.

Afoito como pareço ter sido eu, ao apontar Alonso como provável campeão depois da primeira corrida. Na verdade, uma precipitação calculada, para fugir do lugar comum. Mas, depois de feita a profecia, o espanhol colecionou azares nas duas etapas seguintes, abalroado por Button na largada australiana e com problemas no câmbio em praticamente toda a corrida de hoje.

Não posso, diante disso, esconder o meu lado seca-pimenteira quando o negócio é advinhar o campeão mundial de Fórmula 1. Vejam o “invejável” retrospecto: 2007 – aposta: Alonso, campeão: Raikkonen; 2008 – aposta: Raikkonen, campeão: Hamilton; 2009 – aposta: Vettel, campeão: Button. O pobre Alonso, percebe-se, terá de correr contra os adversários e contra a minha santa boca.

Massa, que não tem nada a ver com isso, teve sua melhor atuação justamente na corrida em que chegou mais atrás. Largou outra vez muito bem, beneficiou-se com as paradas das Toro Rosso, já que não conseguia ultrapassá-las e ia perdendo um belo tempo por ali e, depois da troca de pneus, andou bem, protagonizando a melhor monobra da corrida, na ultrapassagem sobre Button. Sai com a liderança no bolso e, embora para mim ainda não tenha pinta de campeão – o que pode ser bom para ele, como se viu -, vai se saindo bem por ser, entre os reais postulantes ao título, o até agora menos afetado pela falta de sorte, sua companheira fiel em 2008 e 2009.

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Massa à la Globo

Por Marcelo Cerri

Terminada a terceira etapa do campeonato e a luta pelo título continua uma grande incógnita. Temos oito pilotos separados por apenas nove pontos, o que é uma diferença mínima se considerarmos que uma vitória vale 25 pontos. Em termos proporcionais, seria mais ou menos como se tivéssemos os mesmos oito pilotos separados por quatro pontos, considerando a pontuação dos últimos anos.

Começo com essa ponderação para falar da liderança de Massa na classificação de pilotos. O ufanismo reinante nestas terras certamente já está provocando fervuras no sangue tupiniquim. Mas ao analisarmos friamente a situação do brasileiro, recebemos uma ducha de água fria: as chances de Massa ser campeão não são lá tão grandes. Não é pessimismo. Simplesmente temos que reconhecer que Alonso é sistematicamente mais rápido, mais de meio segundo por volta. Foram os problemas no câmbio e no motor que o levaram a perder a liderança para Felipe, que também deverá passar por adversidades do mesmo gênero, ainda mais se considerarmos que a italianada da Ferrari não consegue passar duas corridas sem fazer uma besteira monumental (a estratégia suicida dos treinos classificatórios do último sábado é um bom exemplo). Além da superioridade do companheiro de equipe, há a RedBull com um carro evidentemente mais veloz. Isso nos faz lembrar que Vettel somaria 75 pontos no momento e lideraria o campeonato em modo schumacheriano caso não tivesse quebrado nas duas primeiras corridas. Também temos a McLaren, a Mercedes e, correndo por fora, a Renault do excelente Kubica, que estão na briga.

Quem assistiu à classificação deve ter notado um comentário bastante constrangedor de Galvão Bueno. Após mostrarem como funciona o novo volante da Ferrari, o qual, aliás, me pareceu beneficiar o Espanhol, nosso justíssimo narrador de corridas deu uma bronca ao vivo em quem montou aquelas imagens, pois esqueceram retirar delas o patrocínio. Isso é um absurdo comercial! Raciocinemos um pouco: uma empresa paga milhões para ter sua marca estampada em um carro com a intenção apresentá-la aos potenciais clientes nas oportunidades em que tal parte de tal carro aparecer nos meios de comunicação. A emissora de TV consegue audiência mostrando tais imagens ao público. É uma troca justa. Mas a Globo se coloca no direito de escolher quais marcas vai promover, quais não. Por exemplo, a Renault pode ser chamada de Renault, mas a RedBull é RBR, pois a emissora não pretende fazer propaganda de graça das bebidas energéticas. Mas será que é mesmo de graça? Ontem a Globo arrecadou milhões do Banco Santander para transmitir a vitória das RedBull, mas a mesma emissora não divulga as marcas que constroem o show que ela mesmo vende!

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Raça

Por Daniel Marchi

Vettel fez ótima largada e venceu. Enfim a Red Bull conseguiu converter volume de jogo em gol. Não tenho muito a acrescentar a este bom GP da Malásia, que aconteceu sem a ocorrência de chuva bíblica como se previa ou como ocorrera em 2009. O tempo por lá é demasiado rebelde. Penso que as críticas feitas a Ferrari e McLaren sobre uma suposta falha de timing no treino de classificação foram um pouco exageradas. Num nível de competição intenso como a F-1, principalmente nas grandes equipes, o processo de tomada de decisão não se resume a uma ordem de um diretor sabichão. De qualquer modo, os quatro carros acabaram por fazer boa prova.

Na verdade, hoje eu gostaria de palpitar sobre uma característica de pilotagem que me chama muito a atenção nos pilotos e que, na minha opinião, separa os grandes dos esforçados. Falo da celeridade – cacoete de bu(r)rocrata –  nas ultrapassagens. Essa habilidade se mostra com todas as cores em provas como Austrália e Malásia, quando grandes pilotos/carros se vêem no fim do pelotão.

Rapidamente me vêm à mente os dois ETs, Senna e Michael Schumacher. Ambos tinham, como direi?, uma raça impressionante. Conseguiam colher dois ou três carros por volta; em dez ou doze giros saiam do fundo para a antiga zona de pontos. No caso de Senna, os casos emblemáticos foram Suzuka-88 e Donington-93, esta última considerada a melhor primeira volta de todos os tempos. Schumacher, o homem que entendeu como ninguém a dinâmica de uma corrida, especialmente com reabastecimento, não foi pior. De bate-pronto, lembro-me que ele fazia uma recuperação fantástica no dilúvio de Spa-98 até encher a traseira de Coulthard. Registro também sua última prova pela Scuderia, Brasil-06. E é isso que mais tenho sentido falta em seu retorno.

Adiantando o tape, temos a turma de hoje. Vejo Hamilton como o melhor de todos nesse quesito. Na grande maioria das vezes, toma as decisões corretas e parte pra cima; não se enrola com quase ninguém. Na seqüência, vem Alonso, sempre muito seguro e sem frescuras. Por outro lado, um dos piores que já vi nesse assunto é Rubens. Sua tocada é boa, cometeu pouquíssimos erros de pilotagem ao longo de sua grande carreira, mas sempre vacilou muito na hora do pega-pra-capar. Estuda demais, entendem? Eu sei que não é fácil como no PlayStation, mas no final das contas isso determina se o camarada vai beber champagne ou gatorade. Curiosamente, sua primeira vitória foi partindo de 18° e engolindo todo mundo. Mosca branca. Outro que costuma se complicar é Massa. Quando parte da frente é uma fera. Mas se é preciso remar um pouco…

Esse rodeio todo para concluir o seguinte. Num campeonato com vários carros em alto nível, como parece ser a perspectiva para o de 2010, a capacidade de fazer bons resultados em situações difíceis fará a diferença. É por essas e outras que Massa como líder do campeonato tende a ser um fato efêmero, como efêmeros foram os ovos de Páscoa hoje. Torço para queimar a língua.