De volta ao passado: futebol

Continuando a saga “De volta ao passado”, que tem discutido a supervalorização que tende a se dar ao passado, menosprezando as coisas boas do presente, e já passou pelos videogames e pelo cinema, vamos falar um pouco da paixão nacional.

Parcela não desprezível de torcedores e comentaristas prende-se ao passado quando o tema é futebol, aproveitando sempre a primeira oportunidade para afirmar que os jogadores de hoje não chegam aos pés daqueles dos “tempos áureos” do esporte bretão. Se tem um carrinho por trás, o futebol perdeu sua arte e ganhou violência; se um meia erra um lançamento, a técnica de hoje não se compara à de ontem; se um centroavante perde um gol, é um caneludo que seria superado até por aquele esquecido avante do XV de Piracicaba de 1957; se o zagueiro dá um chutão pro mato, quanta saudade daquele beque central clássico que assombrava os adversários com sua elegância… e assim progridem as distorções.

São poucos os que ponderam que, em vez de violência, o futebol ganhou competitividade, que os erros de lançamento de hoje são maiores porque o tempo de reação exigido é extremamente inferior, que os jogadores de antes, na média, não tinham raciocínio mais rápido que os de hoje, mas sim mais tempo para raciocinar. Em suma, poucos ponderam que a realidade do futebol de hoje não se compara nem de perto à do futebol do passado. São praticamente modalidades diferentes dentro do mesmo esporte e com as mesmas regras. O desenvolvimento físico dos atletas foi o maior motor dessa transformação e torna quase que impossíveis comparações intertemporais – fenômeno que se repete, em maior ou menor grau, em todos os esportes.

Claro que gênios de suas épocas seriam gênios em qualquer época, pois saberiam se adaptar às características do momento em que atuassem. Pelé seria Pelé, Puskas seria Puskas, Cruyff seria Cruyff, Maradona seria Maradona, Romário seria Romário, Zidane seria Zidane, independente de terem aparecido na década de 1950 ou em 2010.

Mas o jogo é outro. O do passado era mais lúdico, mais sereno, mais gostoso de assistir talvez, porém era também muito menos competitivo, exigente, profissional. A limitação física ficava clara, por exemplo, no nível dos goleiros. Ao assistir a qualquer vídeo de Copa do Mundo até 1970, pelo menos, temos a impressão de que vários daqueles que defendem o gol das maiores seleções do mundo no maior torneio de futebol do mundo poderiam bem ser o goleiro do nosso time na pelada semanal. E essa impressão certamente não surge porque os atacantes de antigamente eram muito mais certeiros que os de hoje.

Tomemos dois exemplos, o de um cracaço do passado e o de um jogador medíocre atual. Nomes aos bois: Gérson, o Canhotinha de Ouro, um dos maiores lançadores de seu tempo, figura fundamental na conquista do Tri, em 1970, e Léo Lima, meia mais conhecido pela sua displicência do que por seus feitos no futebol, que hoje atua no São Paulo, depois de passar apagado, entre outros, por Palmeiras, Santos, Flamengo, Fluminense e Vasco. Tenho convicção de que, se jogasse hoje, Gérson seria criticado pelo seu desleixo físico, por andar em campo, dificilmente chegaria à seleção brasileira e Copa do Mundo seria um sonho não mais do que distante. Do outro lado, tivesse Léo Lima aparecido na década de 1960, seria ainda hoje lembrado por toda a sua técnica, seus lançamentos precisos, seus passes requintados, pela cabeça erguida em campo, pelo cruzamento de letra numa final de campeonato carioca. Léo Lima é incapaz de adaptar seu estilo ao futebol de hoje, exatamente da mesma forma que seria Gérson se estivesse na mesma situação. A diferença básica entre eles é que Gérson nasceu na hora certa, Léo Lima não. Porém, e estranhamente, os mesmos que glorificam Gérson crucificam Léo Lima. Os saudosistas.

O exemplo não serve para tirar Gérson da galeria de nossos maiores jogadores de todos os tempos nem para colocar Léo Lima na mesma. Bem ou mal, um soube se encaixar no seu tempo e o outro não. Serve apenas para indicar a contradição em que teimam em cair os que insistem em comparar o incomparável. O futebol do passado não era melhor que o do presente. Nem pior. Era diferente.

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