Ranking Nacional dos Clubes Brasileiros

Na última postagem, apresentei o Ranking dos Clubes Brasileiros, que considera todos os campeonatos estaduais, regionais, nacionais e internacionais já disputados pelos times brasileiros e tem como líder geral o São Paulo Futebol Clube, quase 200 pontos à frente do segundo colocado, o Cruzeiro.

Agora, é hora de trazer às claras as classificações segmentadas por tipo de competição. A primeira é o Ranking Nacional, que engloba apenas torneios brasileiros inter-regionais. Mais especificamente, os certames abrangidos são Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Torneio Roberto Gomes Pedrosa, Taça Brasil e Copa dos Campeões.

O Campeonato Brasileiro e o Robertão, que, em 1967, foi a origem de um sistema de disputa para além de simples jogos eliminatórios, destacam-se por conferirem a maior pontuação aos campeões (40 pontos) e por premiarem até o quarto colocado. A Taça Brasil, primeira competição nacional disputada no Brasil, entre 1959 e 1968, reunindo campeões estaduais, e a Copa do Brasil, que nasceu em 1989 sob a mesma inspiração da Taça e se expandiu para chegar ao que é hoje, contemplam os campeões com 30 pontos. A Copa dos Campeões foi disputada apenas três vezes, entre os campeões regionais, e oferece 18 pontos aos primeiros.

O Palmeiras, com quatro Campeonatos Brasileiros, dois Robertões, duas Taças Brasil e uma Copa do Brasil como principais conquistas, ainda lidera a classificação, a despeito dos últimos anos de vacas magras, com 448 pontos. Logo depois, aparece o Santos, também com nove conquistas nacionais (dois Brasileiros, um Robertão, uma Copa do Brasil e cinco Taças Brasil, à época do reinado Pelé) e 420 pontos. Embora com mais pontos de vices, terceiras e quartas colocações, o alvinegro praiano perde para o alviverde devido à menor pontuação dada à Taça Brasil em comparação ao Brasileiro e ao Roberto Gomes Pedrosa, torneios de maior dificuldade.

O São Paulo, líder geral, aparece em terceiro, graças quase que somente ao seu brilhante desempenho em Brasileiros: seis conquistas, cinco vices, três terceiras e duas quartas colocações, que perfazem 380 de seus 404 pontos. Corinthians, tetra brasileiro e tri da Copa do Brasil (400 pontos), Flamengo, hexa brasileiro e bi da Copa do Brasil (398 pontos), Cruzeiro, tetra da Copa do Brasil, campeão brasileiro e da Taça Brasil (379 pontos),  Internacional, tri brasileiro e campeão da Copa do Brasil (360 pontos) e Grêmio, bi brasileiro e tetra da Copa do Brasil (345 pontos) completam os oito mais bem classificados.

Outros 25 times têm, ao menos, um vice-campeonato de competição nacional e completam a classificação abaixo.

Ranking dos Clubes Brasileiros de Futebol

O Ranking dos Clubes Brasileiros de Futebol surgiu em 2001, em meio a devaneios mentais e estatísticos com o objetivo de chegar a uma fórmula que conseguisse classificar da forma mais precisa possível os clubes brasileiros de futebol, de acordo com as glórias de cada um.

A grande questão que se colocava era encontrar um jeito de relativizar a problemática, e por que não injusta, vantagem dos times mais antigos do Brasil, que, por terem disputado mais campeonatos ao longo de sua história, poderiam aparecer classificados à frente de equipes mais jovens, ainda que estas apresentassem melhor desempenho tendo em vista o número de certames disputados.

Embora esse aspecto se fizesse relevante apenas em relação aos campeonatos estaduais, disputados no Brasil desde o início do século XX – antes, portanto, da fundação de alguns dos principais clubes tupiniquins -, era algo que tendia a viciar os rankings geralmente elaborados, que privilegiavam sempre e apenas o número absoluto de títulos, sem qualquer menção à produtividade das equipes.

Depois de algumas horas e outros tantos neurônios perdidos, fez-se a luz e surgiu a fórmula de classificação para os torneios estaduais, que será mais bem detalhada – assim como outras características do sistema – ao longo dos próximos dias, quando serão apresentados um a um os rankings parciais que geram a classificação geral.

Por ora, vale dizer que: (i) a classificação considera todos os torneios oficiais nacionais e internacionais disputados pelos clubes brasileiros; (ii) via de regra, a pontuação premia campeões e vices. As exceções são o Campeonato Brasileiro e o seu precursor, Torneio Roberto Gomes Pedrosa, em que os quatro primeiros colocados são premiados, e o Mundial de Clubes, em que apenas o campeão pontua; (iii) apenas os campeonatos estaduais necessitaram da tal relativização produtiva – todos os demais torneios oficiais nacionais e internacionais passaram a ser disputados com todos os grandes clubes já em vida.

O quadro abaixo traz a pontuação estabelecida para cada torneio.

Para figurar na classificação geral, um clube precisa, pelo menos, ter participado de duas finais, considerando torneios nacionais ou internacionais, com ao menos uma conquista nesses torneios. Isso não significa que o clube não será listado nas classificações parciais. Apenas minimiza o risco de clubes com muitas vitórias estaduais, porém pouca relevância nacional, aparecerem falsamente bem colocados no ranking geral dos melhores do Brasil.

Mediante esse critério, 16 clubes integram o Ranking Geral dos Clubes Brasileiros de Futebol. O São Paulo destaca-se na liderança, com 1.133,38 pontos e uma folga conseguida nos últimos anos graças à Libertadores e ao Mundial de 2005 e ao tricampeonato brasileiro 2006/08. Em segundo, vem o Cruzeiro, seguido por Palmeiras, que chegou a pontuar a classificação mas perdeu espaço nos últimos anos, e Flamengo.

A seguir, dois clubes que evoluíram bastante no ranking nas últimas temporadas, Santos e Internacional. O Santos, além da Copa do Brasil deste ano, tem, no currículo dos anos 2000, dois Brasileiros e um vice da Libertadores. Já o clube gaúcho cresceu com o título mundial de 2006 e das Libertadores de 2006 e deste ano.

O Grêmio acompanha de perto o arqui-rival, fechando um quinteto separado por menos de 70 pontos. O Corinthians fecha o clube dos oito melhores. Pela ordem, Vasco, Atlético Mineiro, Fluminense, Bahia, Botafogo, Sport, Atlético Paranaense e Guarani completam a lista.

Confiram a classificação completa. Divirtam-se e esperem as classificações segmentadas – nacional, internacional e estaduais – nos próximos dias.

Dunga e a esquerda na Copa

Nos últimos dias, o assunto mais buxixado quando se fala em Seleção Brasileira é a celeuma envolvendo Dunga e Rede Globo, que se tornou mais visível após as grosserias do selecionador a Alex Escobar, competente jornalista da emissora, transmitidas ao vivo para o mundo todo.

Os palavrões, felizmente ouvidos em baixo e ruim som, foram mais uma mostra do nível educacional de uma pessoa que muito dificilmente consegue concluir uma frase sem cometer alguns atentados à língua portuguesa. Mas não é este o ponto. Afinal, a educação do brasileiro médio – Dunga não está acima dele – é realmente sofrível.

O buraco é mais embaixo. Está no caráter político-ideológico que alguns, na verdade e lamentavelmente muitos, rasos de pensamento estão tentando dar ao caso. Dunga, para eles, transformou-se num mártir, no pobre oprimido que, mesmo massacrado pelo sistema, levanta sua corajosa voz e encara de frente a Platinada Toda Poderosa. Uma espécie de Hugo Chavez lutando contra o imperialismo dos Estados Unidos. Um cara de esquerda, como certamente se auto-intitulam os que estão levantando essa bola murcha, lutando contra a direita, o mal encarnado.

Já tem até email rondando caixas postais de todo o país conclamando os brasileiros, pobres coitados e também oprimidos – com acesso diuturno à Internet, diga-se – a mostrarem seu apoio ao libertário Dunga e, num gesto de solidariedade, rebelarem-se contra a Globo nesta sexta-feira, assistindo ao jogo do Brasil contra Portugal em outro canal.

Lembram, em tom de protesto, que o demônio de prata já colocou Collor no poder – lenda absolutamente mentirosa criada pelo mesmo tipo de gente – e glorificam aquele que finalmente colocou o gigante de joelhos.

Quantas coisas fora de lugar! Tentemos ajeitá-las um pouco. Dunga tem um grande mérito em sua passagem pela Seleção: tratar todos os veículos de imprensa de forma igual, sem conceder à Globo os privilégios que sempre teve. Isso não dá a ele, entretanto, o direito de maltratar pessoas que estão apenas realizando o seu trabalho, agredindo de lambuja os nossos ouvidos, nem retira da Globo o direito, na verdade o dever, de tentar buscar os maiores privilégios possíveis em sua cobertura. Seja com entrevistas exclusivas, seja em viagens junto dos jogadores, seja do jeito que for. Se conseguir, ótimo pra ela. Se não, pelo menos fez sua parte, tentando. Não apenas ela, mas toda a imprensa deve fazer isso.

Essa forma de se ver no papel de vítima e se utilizar desse papel fictício para justificar reações gratuitamente violentas só não espanta mais porque não surpreende. É costume na “romântica e benevolente” esquerda. Para lutar contra a ditadura e suas abomináveis mortes, saia matando. Para lutar contra o malévolo capitalismo, prenda os seus habitantes numa redoma de miséria. Para lutar contra o poder de um canal de comunicação, seja mal-educado, xingue os seus integrantes.

Dunga é o comunista do futebol. Eles se merecem. E viva a esclarecida esquerda!

“Ele é malandro, além de tudo.”

O futebol que os meninos do Santos têm apresentado encanta a todos os que gostam de futebol. Em sendo um deles, fico, pois, encantado. Puxando pela minha memória futebolística, apenas o Palmeiras do primeiro semestre de 1996, com Luxembrugo no comando fora de campo, e Djalminha, Rivaldo e Müller dentro dele, conseguiu o mesmo brilhantismo. O desafio do clube praiano é superar o alviverde na curtíssima duração do tempo áureo.

Gostar do que os moleques fazem em campo não me obriga, contudo, a gostar ou concordar com o comportamento deles fora das quatro linhas. Não vou com a cara e com a índole de nenhum dos três atores principais do time, Robinho, Neymar e Ganso, e fico profundamente incomodado com o fato de até a parte que considero séria na imprensa esportiva dar uma espécie de carta branca a todas as atitudes dos jovens – Robinho nem tão jovem assim – simplesmente pelo fato de jogarem um belo futebol.

Ontem, assistia a Santos e Atlético-MG, pela ESPN Brasil, quando Fabiano, do Atlético, acertou sem querer a mão no peito de Ganso. Incontinenti, o santista levou as mãos ao rosto e caiu como se fora esmurrado, provocando a expulsão do adversário. Paulo Vinícius Coelho, um dos comentaristas que mais admiro, pelo conhecimento e independência com que se apresenta, foi então ao microfone e disse, tom elogioso, “Ele é malandro, além de tudo.”

Decepção em dose dupla. Primeiro, por PVC se deixar levar pela nefasta mania brasileira de achar que ser “malandro” é legal. Fôssemos menos “malandros”, seríamos mais ricos, mais desenvolvidos, mais cultos, menos sofridos. Ele deveria saber disso e jamais poderia falar o que disse. Segundo, pela tal alforria, ou pior, pela graça que se enxerga em tudo o que os malandrinhos do Santos fazem. Se qualquer jogador normal fizesse o que Ganso fez – como Rivaldo fez contra a Turquia, na estreia do Brasil na Copa de 2002, quando foi acertado pela bola no joelho e caiu com as mãos no rosto – seria criticado, senão por toda, ao menos pela porção que merece respeito na imprensa esportiva. Como foi o Ganso, até essa porção acha que é bonito, que é elogiável enganar a arbitragem.

Algo parecido aconteceu domingo passado, quando Ganso simplesmente se recusou a ser substituído contra o Santo André, na final do Paulista. Ao ver a placa com o seu número subir na lateral do campo, falou que não ia sair e ponto final. Dourival Junior, seu treinador, que se resolvesse com seus próprios miolos.

Na minha época, isso se chamaria insubordinação e mereceria críticas, a despeito de a decisão do treinador ser acertada ou não – de fato, não era. Fosse Serginho Chulapa, Edmundo, Adriano a fazerem gesto semelhante, não seria exagerado pensar em crucificação em praça pública. Mas Ganso… bom, Ganso mostrou maturidade, experiência, segurança, qualidades admiráveis para um jovem da sua tenra idade.

Com Neymar e o seu irritante cai-cai não é muito diferente. Sempre o menino está certo e os adversários errados. O fato de o futebol ser um esporte de contato se esquece em nome da vítima.

Robinho tem o próprio passado a seu desfavor. Não conseguiu esquentar lugar – na verdade, esquentou apenas os bancos de reservas mesmo – em qualquer clube da Europa (será porque lá, ao contrário daqui, a malandragem tem o seu devido lugar como um defeito e não uma virtude num ser humano?). Depois de um começo tão glorificado como o de Neymar, apagou-se e teve de voltar para a casa com o rabinho entre as pernas.

Neymar, se não aprender que futebol se joga em pé e não perceber que apenas no Brasil se apitam tantas faltas inexistentes, poderá ter a mesma trajetória do colega mais velho.

Ganso não parece correr o mesmo risco. Mostra-se, sem dúvida, mais esclarecido que os outros dois. Não participa, por exemplo, de atitudes de baixo valor, mau-gosto e provocativas, como as péssimas dancinhas ou o coro contra Vanderlei Luxemburgo, que, nos últimos tempos, perdeu apenas para a ausência total de sanidade que tomou conta de Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras, ao puxar um grito de guerra pela morte de torcedores do São Paulo em plena quadra de uma torcida uniformizada do Palmeiras. Elas realmente precisam desse tipo de incentivo, afinal não têm qualquer tendência natural à violência.

Voltando a Ganso, tem tudo para brilhar forte na Europa. O único risco mais latente, no caso dele, é se tornar um tanto insuportável, nutrindo a sensação de que tudo pode. De que tudo o que faz está certo. Se isso ocorrer, os culpados serão os sábios de nosso futebol, que, de tão embasbacados pela categoria do menino, perderam a capacidade crítica de separar as coisas.

Libertadores em revista

Como bom viciado em futebol de folga, passei os últimos dias reforçando o músculo que circunda o umbigo, em frente à TV assistindo a tudo que é jogo. Liga dos Campeões, Liga Europa, Libertadores, Copa do Brasil, o cardápio foi bastante variado. Treze jogos em três dias, oito completos e cinco em flashes.

Dos cinco jogos brasileiros na Libertadores, acompanhei quatro por completo. Apenas o do Flamengo, por ser simultâneo ao do Corinthians, ficou relegado aos melhores lances. Impressões daqui, impressões dali, eis uma rápida revista sobre todos os tupiniquins no torneio continental, organizada em acordo com o aproveitamento de cada um até aqui.

Flamengo

Até agora com 100%, o mais querido tem apresentado o melhor futebol entre os brasileiros, mas se beneficia por estar também no grupo mais fácil e por ainda não ter enfrentado o adversário mais forte, Univesidad de Chile. O aspecto que preocupa nas duas primeiras partidas é o mesmo que torna as atuações elogiáveis. Em ambos os encontros, o rubro-negro passou boa parte do tempo com um jogador a menos, mostrando estar entre os que confundem jogo duro com jogo desleal – o Cruzeiro é, até agora, o primeiro da turma neste quesito -, mas, mesmo assim, conseguiu sedimentar as vitórias com autoridade, o que, a despeito da qualidade dos rivais, é digno de boas notas – em comparação, o Cruzeiro conseguiu apenas dois dos nove pontos disputados com um (ou mais) a menos durante parte do jogo, mesmo contra adversários tão (ou mais) fracos quanto os do Flamengo: Real Potosí e Deportivo Itália. Ainda alvissareiro para o carioca é o ótimo início de temporada de Vágner Love, que virá especialmente ao caso se Adriano continuar a representar mais problema do que solução para a equipe.

Corinthians

De longe o mais badalado antes do torneio, por conta do centenário, o time paulista ainda não se encontrou, sofrendo com a indefinição do time. O comportamento no primeiro jogo fora dos domínios faz crer que a satisfação será enorme se terminar a primeira fase com 12 pontos (3 vitórias em casa e 3 empates fora), o que garante a classificação, de fato o mais importante num torneio em que ficar com a melhor ou a pior campanha na primeira fase faz pouca ou nenhuma diferença. A escalação de Mano Menezes mostrou que o treinador está muito menos convicto do que aparentava em relação a Danilo e Tcheco juntos num meio-campo que tende a se tornar lento e, principalmente nos jogos fora, pode optar por alguém mais combativo na faixa central de campo – Jucilei, na quarta. Em teoria faz sentido, na prática foi injusto por ter sido Tcheco, ao lado de Elias, os melhores em campo contra o Racing, no Pacaembu. Surpreendentemente, o alvinegro pode se tornar vítima de sua maior arma, Ronaldo. Verdadeiro rei-momo em campo, o craque, se não recuperar logo o ritmo de jogo – em 2009, com o mesmo número de jogos e a mesma massa corporal, estava fazendo gols a valer -, tem tudo para se tornar, com o perdão da palavra, um peso em dobro para o time: a movimentação paquidérmica deixa a equipe com um a menos em campo e tirá-lo do time parece inimaginável para o pobre Mano, refém, como o Corinthians, da marca Ronaldo. Pode complicar os anseios alvinegros.

São Paulo

O tricolor paulista tem o elenco que permite as maiores variações táticas durante um jogo. Poucos pauzinhos são necessários movimentar para que o time se torne mais cadenciado, com mais posse de bola, ou mais insinuante, privilegiando a velocidade e os contra-ataques. Se a Libertadores fosse disputada no segundo semestre, seria meu favoríto ao título, mas, com o escasso tempo de pré-temporada e a indefinição de Ricardo Gomes em relação aos 11 titulares – muito maior que a de Mano para com os seus -, o feitiço pode virar contra o feiticeiro, na forma do desentrosamento até agora demonstrado. O jogo de ontem, contra o fraquíssimo Nacional, no Paraguai, ratificou Richarlyson como fundamental no esquema de Ricardo Gomes, insubstituível, justamente por ser a peça que permite ao treinador, sem mais nem menos, passar do 4-4-2, com os laterais mais recuados, quase formando uma linha quádrupla atrás, para o 3-5-2, liberando os alas e recuando o próprio Richarlyson para pouco à frente da zaga. Displicente, Marcelinho Paraíba, em mais uma atuação desastrosa, deve ter garantido sua saída do time, oram os tricolores, abrindo vaga para Cléber Santana. Outra alternativa muito desejada pelos torcedores é um tridente ofensivo, às custas de Santana, com Dagoberto voltando um pouco para marcar e Fernandinho e Washington mais à frente. Agrada-me, mas, pelo menos por enquanto, essa opção parece estar no leque de Ricardo Gomes apenas em casos excepcionais, em que o time estiver atrás no placar ou necessitar de um resultado mais vitaminado. O time não empolga, mas tem potencial.

Internacional

Os jogos do meio da semana – e também a estréia do time gaúcho – destacaram o colorado como aquele com mais “espírito de Libertadores” entre os postulantes brasileiros. O time joga com gana entusiasmante – pólo oposto ao que se tem visto no São Paulo -, simbolizada pelo argentino Guiñazú, verdadeiro leão em campo. Porém, tem sérios problemas na linha de defesa, que ficaram notórios ontem, quando não perdeu para o apenas esforçado Deportivo Quito devido à enxurrada de chances desperdiçadas pela péssima pontaria dos equatorianos. A presença do uruguaio Jorge Fossati no banco e do argentino Pato Abbondanzieri no gol são positivas. Ambos gozam de um passado relevante na competição e de boa imagem entre os sulamericanos, quesitos que não costumam ser irrelevantes para a conquista de uma Libertadores.Vale dizer que, apesar de importantes, apenas vontade e cartaz não dão títulos a ninguém e o Inter não está num grupo dos mais fáceis. Jogar na altitude do Equador vem há tempos sendo um pesadelo para os brasileiros, é verdade, mas o empate contra o penúltimo colocado do campeonato local, associado à vitória na bacia das almas contra o Emelec, no Beira-Rio, preocupa. Bom abrir os olhos. O Inter é forte, mas a eliminação do então campeão na primeira fase de 2007 ainda está fresca na memória dos gaúchos.

Cruzeiro

Outro que ainda não se encontrou no torneio, talvez fruto da mesma árvore que justifica os desempenhos pouco vistosos de Corinthians, São Paulo e Inter, o rodízio de atletas. Para piorar, o alviceleste está no grupo mais difícil entre os brasileiros, com o forte Vélez e o perigoso Colo-Colo, e perdeu dois pontos imperdíveis ontem, dominado no empate diante do fraco Deportivo Itália. No cenário de hoje, a primeira preocupação dos mineiros não deve ser conquistar o título, mas se classificar para a segunda fase. O time apresenta atletas capazes de decidir – Kléber, Roger, Gilberto -, mas, conforme mencionado, tem sofrido – desde o Brasileiro do ano passado, diga-se de passagem – com expulsões bobas e altamente prejudiciais. Ao contrário do que acredita o pachequismo de alguns, o Cruzeiro, assim como todos os demais partícipes nacionais, não é tão favorito assim ao título. Está – também assim como todos os rivais brasileiros – entre os fortes candidatos, pelo bom e bem treinado time que possui e pela experiência acumulada em 2009, mas tirar da mesma lista times como o atual campeão Estudiantes, o Vélez e até mesmo o aguerrido Banfield, para ficar no mínimo, soa como desconhecimento de causa e amnésia para um país que perdeu as três últimas finais continentais para adversários estrangeiros.

De volta ao passado: futebol

Continuando a saga “De volta ao passado”, que tem discutido a supervalorização que tende a se dar ao passado, menosprezando as coisas boas do presente, e já passou pelos videogames e pelo cinema, vamos falar um pouco da paixão nacional.

Parcela não desprezível de torcedores e comentaristas prende-se ao passado quando o tema é futebol, aproveitando sempre a primeira oportunidade para afirmar que os jogadores de hoje não chegam aos pés daqueles dos “tempos áureos” do esporte bretão. Se tem um carrinho por trás, o futebol perdeu sua arte e ganhou violência; se um meia erra um lançamento, a técnica de hoje não se compara à de ontem; se um centroavante perde um gol, é um caneludo que seria superado até por aquele esquecido avante do XV de Piracicaba de 1957; se o zagueiro dá um chutão pro mato, quanta saudade daquele beque central clássico que assombrava os adversários com sua elegância… e assim progridem as distorções.

São poucos os que ponderam que, em vez de violência, o futebol ganhou competitividade, que os erros de lançamento de hoje são maiores porque o tempo de reação exigido é extremamente inferior, que os jogadores de antes, na média, não tinham raciocínio mais rápido que os de hoje, mas sim mais tempo para raciocinar. Em suma, poucos ponderam que a realidade do futebol de hoje não se compara nem de perto à do futebol do passado. São praticamente modalidades diferentes dentro do mesmo esporte e com as mesmas regras. O desenvolvimento físico dos atletas foi o maior motor dessa transformação e torna quase que impossíveis comparações intertemporais – fenômeno que se repete, em maior ou menor grau, em todos os esportes.

Claro que gênios de suas épocas seriam gênios em qualquer época, pois saberiam se adaptar às características do momento em que atuassem. Pelé seria Pelé, Puskas seria Puskas, Cruyff seria Cruyff, Maradona seria Maradona, Romário seria Romário, Zidane seria Zidane, independente de terem aparecido na década de 1950 ou em 2010.

Mas o jogo é outro. O do passado era mais lúdico, mais sereno, mais gostoso de assistir talvez, porém era também muito menos competitivo, exigente, profissional. A limitação física ficava clara, por exemplo, no nível dos goleiros. Ao assistir a qualquer vídeo de Copa do Mundo até 1970, pelo menos, temos a impressão de que vários daqueles que defendem o gol das maiores seleções do mundo no maior torneio de futebol do mundo poderiam bem ser o goleiro do nosso time na pelada semanal. E essa impressão certamente não surge porque os atacantes de antigamente eram muito mais certeiros que os de hoje.

Tomemos dois exemplos, o de um cracaço do passado e o de um jogador medíocre atual. Nomes aos bois: Gérson, o Canhotinha de Ouro, um dos maiores lançadores de seu tempo, figura fundamental na conquista do Tri, em 1970, e Léo Lima, meia mais conhecido pela sua displicência do que por seus feitos no futebol, que hoje atua no São Paulo, depois de passar apagado, entre outros, por Palmeiras, Santos, Flamengo, Fluminense e Vasco. Tenho convicção de que, se jogasse hoje, Gérson seria criticado pelo seu desleixo físico, por andar em campo, dificilmente chegaria à seleção brasileira e Copa do Mundo seria um sonho não mais do que distante. Do outro lado, tivesse Léo Lima aparecido na década de 1960, seria ainda hoje lembrado por toda a sua técnica, seus lançamentos precisos, seus passes requintados, pela cabeça erguida em campo, pelo cruzamento de letra numa final de campeonato carioca. Léo Lima é incapaz de adaptar seu estilo ao futebol de hoje, exatamente da mesma forma que seria Gérson se estivesse na mesma situação. A diferença básica entre eles é que Gérson nasceu na hora certa, Léo Lima não. Porém, e estranhamente, os mesmos que glorificam Gérson crucificam Léo Lima. Os saudosistas.

O exemplo não serve para tirar Gérson da galeria de nossos maiores jogadores de todos os tempos nem para colocar Léo Lima na mesma. Bem ou mal, um soube se encaixar no seu tempo e o outro não. Serve apenas para indicar a contradição em que teimam em cair os que insistem em comparar o incomparável. O futebol do passado não era melhor que o do presente. Nem pior. Era diferente.