Ferrari e Fittipaldi

Alonso cada vez mais justifica o tão falado ato de troca de posições entre ele e Massa, patrocinado pela Ferrari no GP da Alemanha. A vitória recheada por uma bela atuação na Itália deixou o espanhol a apenas 21 pontos do líder Mark Webber – a vitória vale 25 -, totalmente dentro da disputa pelo Scudetto.

O mais saboroso do domingo de Fórmula 1 começou, porém, ainda antes da prova, quando Carlos Gil entrevistou o grande Emerson Fittipaldi a respeito da celeuma ferrarista na Alemanha, certo de que o bicampeão cairia no senso comum de reprimir a atitude dos italianos. Mas Fittipaldi, além de conhecer muito mais de automobilismo do que qualquer dos que enchem os pulmões para berrar pachecamente contra a Ferrari, pensa com os próprios miolos, não segue a boiada. Foi peremptório: “jogo de equipe sempre existiu na Fórmula 1 e deveria ser oficializado no regulamento. Se não houvesse, não haveria por que existir equipe.” Diante de tamanho discernimento, só resta a menção positiva à Globo, por colocar no ar – a declaração fora gravada um pouco antes – opinião frontalmente contra a ordem natural dos seus fatores.

Na corrida, além de Alonso, Button, Vettel e Webber também tiveram desempenhos que os credenciam a se manter, como se mantêm, na disputa pelo título. Aliás, não fosse a barbeiragem de Vettel pra cima de Button na Bélgica, ambos estariam ainda muito mais vivos na briga. Decididamente, o jovem alemão não tem prejudicado apenas a si ao longo de um 2010 cheio de trapalhadas. Button e Webber que o digam.

Hamilton foi o único dos primeiros a não pontuar, num choque casual com Massa, logo após a largada. O campeonato agradece muito, pois o inglês já dá, há algumas corridas, mostras de que parece ser o principal, senão único, candidato a estilingar à frente do pelotão. Explica-se: Webber pilota uma Red Bull que claramente perdeu espaço para Ferrari e McLaren nas últimas semanas e os outros três, antes de pensarem em abrir, têm de pensar em tirar a vantagem dos líderes.

No mais, os comentários que vêm se tornando padrão ao longo do ano. Massa continua sendo constantemente mais lento, e muito mais lento, do que Alonso. Antes que surjam as reclamações nacionalistas, é preciso lembrar que o brasileiro conseguiu andar em ritmo parecido ao do espanhol em Monza apenas enquanto este era seguro por Button, em ritmo um tanto mais lento. Quando Alonso assumiu a ponta, a diferença de tempos para Massa se tornou clamorosa. Mais uma vez. É triste a constatação de que, enquanto tiver o asturiano como companheiro de Ferrari, o paulista não terá qualquer chance de título. E o Brasil segue na fila.

E, para seguir na temática do mais do mesmo, Schumacher. Outra vez constrangedor a seus adoradores. Tomando tempo, tempo e mais tempo de Rosberg. Não seria hora de voltar para o aconchego do lar? Ou a ideia é mesmo continuar manchando a fama e o ar de mito conquistados?

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Em tempo, como devem ter percebido e apenas para não deixá-los sem qualquer satisfação, fui devidamente abandonado pelos meus parceiros de Fórmula 1. Relações críveis sem contrato só mesmo em países da Common Law. Ou com Muricy. Grandes países. Grande Muricy. Peço desculpas pela ausência no GP da Bélgica e sigo o voo solo, espero que a contento.

A Fórmula 1 contra a Fórmula 1

Muito a escrever hoje. A prova da Hungria saiu da tradição anos a fio acumulada, de ser uma das menos atrativas da temporada, atrapalhada por um traçado que tem nas ultrapassagens um grande desafeto. Graças a uma bandeira amarela provocada por um pedaço de Force India na pista, o rumo da mesmice que provavelmente levaria a uma dobradinha da Red Bull, ordenada com Vettel e Webber, transformou-se na quarta vitória do australiano, que o catapultou de volta à liderança do certame.

Vitória possibilitada por mais uma punição, a meu ver equivocada, levada a cabo pelos comissários de prova, os reguladores, os donos da verdade na Fórmula 1. Resolveram obrigar o jovem alemão a uma passagem pelos boxes sob a alegação de que havia muito espaço entre ele e Webber no momento da relargada, o que teria sido uma manobra desportivamente digna de censura, posto que tomada para, em prejuízo direto de todos os demais competidores, auxiliar o companheiro que então precisava se desgarrar do pelotão para, posteriormente, ao fazer sua parada, ainda voltar em boa posição.

Explico minha posição, e já aproveito para entrar na celeuma da Ferrari na última semana. A Fórmula 1 caracteriza-se por ser um esporte eminentemente de equipe. Compara-se, nesse sentido, bastante bem, embora de forma menos radical, ao ciclismo, em que equipes são formadas com um primeiro “piloto” claramente definido, em prol do qual todos os demais integrantes agem para garantir o êxito do time. O ciclismo deixa, por isso, de ser esporte? Claro que não. Não existe apenas uma forma de esporte. Existem os individuais, como o tênis, o boxe, em que a disputa não envolve qualquer tipo de colaboração, e existem os coletivos, como o futebol, o vôlei, o basquete, a Fórmula 1, em que a equipe está na essência do jogo. Na Fórmula 1, a prova mais evidente de que o jogo é coletivo é o fato de haver apenas um boxe para ambos os pilotos e não posições individuais, como na Indy, por exemplo.

Em assim sendo, vai contra os fundamentos da própria modalidade não permitir jogo de equipe num esporte coletivo. É um contra-senso impedir uma equipe – vejam bem, uma equipe! – de trabalhar como… uma equipe. Não há absolutamente nada de antidesportivo nisso. Haveria, sim, em caso de conchavos entre equipes diferentes, o que não está em questão. A decisão a respeito da política de competição interna entre os pilotos cabe, pois, a ninguém mais que não os dirigentes de uma equipe. Como em qualquer empresa, em qualquer ramo de atividade. O piloto, seja ele quem for, não precisa aceitar as condições de cima. Tem toda a liberdade para não assinar o contrato e dirigir para outro time, com outra política. Simples assim.

Interferências externas nessa seara, além de inegavelmente acabarem na armadilha de tratar casos absolutamente iguais como diferentes – não há, de fato, qualquer diferença real entre o caso Alonso/Massa e tantos outros, tratados sob variados prismas: Schumacher/Barrichello (que, lembremos, houve em ambos os sentidos), Massa/Raikkonen (também em via de mão dupla), Senna/Berger etc. -, vai no sentido de punir uma equipe por ser boa o suficiente para colocar seus dois pilotos em situação tal que possa conseguir para si o melhor resultado entre todos os possíveis.

Tanto para a Ferrari na Alemanha como para a Red Bull hoje, as decisões tomadas pela cúpula foram, sem dúvida, as melhores para as equipes. Alonso, ao contrário da grita dos pachecos de plantão, tem ainda todas as chances de ser campeão, embora não seja este o desfecho mais provável para o campeonato, e a segurada de Vettel foi importante para permitir a Webber ter êxito em seu plano de corrida. Se a direção de prova enxergou falta de espírito esportivo na manobra, deveria ter mantido a bandeira amarela por mais uma volta, para que os pilotos se alinhassem de forma correta. Jamais punir Vettel. Seguindo essa linha, todos os pilotos que, para defender seu companheiro, comportam-se como os chamados escudeiros, diminuindo o ritmo à frente de rivais, deveriam ser chamados aos boxes. Os congestionamentos trariam à memória o tráfego da capital paulista.

Tudo isso posto, é ainda preciso duas últimas colocações. A primeira, de repetida glorificação ao atual sistema de pontuação, que premia na exata medida os vencedores e dá ao campeonato o gosto das reviravoltas sempre potencialmente presentes. Hoje, restando sete etapas, cinco pilotos têm plenas condições de conquista: Webber (161), Hamilton (157), Vettel (151), Button (147) e Alonso (141).

A segunda, de asco, a Schumacher. Como se não bastasse a pífia temporada, que o coloca 56 pontos atrás do parceiro de time, Nico Rosberg, o alemão reviveu hoje os momentos mais deploráveis de uma carreira que, embora recheada de brilhantes conquistas, teve aqui e acolá momentos imorais. Antes ainda havia a justificativa de campeonatos estarem em jogo, o que costuma trazer uma medida não desprezível de insanidade aos grandes campeões. Hoje, ao colocar a vida de Rubens Barrichello em risco, espremendo-o num muro que, se tivesse mais 10cm, poderia levar ao pior, Schumacher foi apenas ridículo, patético, patológico, criminoso. Um ex-piloto em atividade que deveria, de pronto, ter recebido bandeira preta.

Mas os comissários são assim mesmo. Só não punem quando têm de punir. Ficam as palmas à Barrichello, grandíssimo piloto. Mas sem estrela.

Beber o defunto

Por Daniel Marchi

Conforme uma antiga tradição interiorana, praticamente já extinta, para se suportar uma longa madrugada de velório as pessoas consumiam pequenas doses de aguardente, sempre cabisbaixas e sem algazarra. Dizia-se que os presentes estavam velando e “bebendo” o defunto. Este era, mais ou menos, o clima do pódio do GP da Alemanha. As champanhes jorravam e os sorrisos amarelos se abriam apenas para cumprir um protocolo. E só.

De fato, a prova não merecia o dito velório. Uma largada bem interessante e disputas apertadas  vinham compondo um bom roteiro. De modo entusiasmado discutíamos o consumo de pneus, a técnica de pilotagem de acada um, etc etc. Dada a dificuldade do campeonato e a intensidade da corrida, já aguardávamos o verdadeiro carnaval que o vencedor faria depois da quadriculada.

Mas não houve carnaval. Não aconteceu porque a Ferrari resolveu, de novo, apequenar-se. A dobradinha aconteceu e os pontos estão no bolso, a despeito de os admiradores do automobilismo (e pior, da equipe também!) vislumbrarem aquele pódio e sussurrarem ao término de uma profunda respiração: que merda.

Ah… mas e o defunto, quem é? Escolham.

Fórmula (3 em) 1

O seca-pimenteira

Por Thiago Barros Ribeiro

Desta vez sem chuva, os madrugueiros puderam assistir a mais um belo espetáculo de Fórmula 1. Não com tantas alternâncias e reviravoltas como as possibilitadas pela pista e pela umidade australiana, mas muito superior ao marasmo que costuma caracterizar a Malásia – até quando choveu, no ano passado, a corrida não se salvou, tendo sido interrompida antes do final. Já não há mais dúvida de que, depois de muitos anos de tiros pela culatra, as mudanças regulamentares para 2010 melhoraram a categoria.

Vettel terminou a terceira etapa do ano como poderia ter concluído as outras duas, em primeiro. Não fossem as falhas mecânicas, o alemão contabilizaria 75 pontos e o tão glorificado equilíbrio de agora seria obra de ficção. O subjuntivo passado peca por não existir, é fato, mas a hipótese não verificada é importante para lembrar que, num campeonato em que a vitória vale 25 pontos e o segundo lugar 18, qualquer série de três vitórias pode jogar o pretenso equilíbrio por água abaixo. E que, mirando apenas o desempenho dos carros na pista, essa série já poderia ter existido neste ano. Não existiu, o que foi ótimo para o campeonato. Mas não sejamos afoitos.

Afoito como pareço ter sido eu, ao apontar Alonso como provável campeão depois da primeira corrida. Na verdade, uma precipitação calculada, para fugir do lugar comum. Mas, depois de feita a profecia, o espanhol colecionou azares nas duas etapas seguintes, abalroado por Button na largada australiana e com problemas no câmbio em praticamente toda a corrida de hoje.

Não posso, diante disso, esconder o meu lado seca-pimenteira quando o negócio é advinhar o campeão mundial de Fórmula 1. Vejam o “invejável” retrospecto: 2007 – aposta: Alonso, campeão: Raikkonen; 2008 – aposta: Raikkonen, campeão: Hamilton; 2009 – aposta: Vettel, campeão: Button. O pobre Alonso, percebe-se, terá de correr contra os adversários e contra a minha santa boca.

Massa, que não tem nada a ver com isso, teve sua melhor atuação justamente na corrida em que chegou mais atrás. Largou outra vez muito bem, beneficiou-se com as paradas das Toro Rosso, já que não conseguia ultrapassá-las e ia perdendo um belo tempo por ali e, depois da troca de pneus, andou bem, protagonizando a melhor monobra da corrida, na ultrapassagem sobre Button. Sai com a liderança no bolso e, embora para mim ainda não tenha pinta de campeão – o que pode ser bom para ele, como se viu -, vai se saindo bem por ser, entre os reais postulantes ao título, o até agora menos afetado pela falta de sorte, sua companheira fiel em 2008 e 2009.

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Massa à la Globo

Por Marcelo Cerri

Terminada a terceira etapa do campeonato e a luta pelo título continua uma grande incógnita. Temos oito pilotos separados por apenas nove pontos, o que é uma diferença mínima se considerarmos que uma vitória vale 25 pontos. Em termos proporcionais, seria mais ou menos como se tivéssemos os mesmos oito pilotos separados por quatro pontos, considerando a pontuação dos últimos anos.

Começo com essa ponderação para falar da liderança de Massa na classificação de pilotos. O ufanismo reinante nestas terras certamente já está provocando fervuras no sangue tupiniquim. Mas ao analisarmos friamente a situação do brasileiro, recebemos uma ducha de água fria: as chances de Massa ser campeão não são lá tão grandes. Não é pessimismo. Simplesmente temos que reconhecer que Alonso é sistematicamente mais rápido, mais de meio segundo por volta. Foram os problemas no câmbio e no motor que o levaram a perder a liderança para Felipe, que também deverá passar por adversidades do mesmo gênero, ainda mais se considerarmos que a italianada da Ferrari não consegue passar duas corridas sem fazer uma besteira monumental (a estratégia suicida dos treinos classificatórios do último sábado é um bom exemplo). Além da superioridade do companheiro de equipe, há a RedBull com um carro evidentemente mais veloz. Isso nos faz lembrar que Vettel somaria 75 pontos no momento e lideraria o campeonato em modo schumacheriano caso não tivesse quebrado nas duas primeiras corridas. Também temos a McLaren, a Mercedes e, correndo por fora, a Renault do excelente Kubica, que estão na briga.

Quem assistiu à classificação deve ter notado um comentário bastante constrangedor de Galvão Bueno. Após mostrarem como funciona o novo volante da Ferrari, o qual, aliás, me pareceu beneficiar o Espanhol, nosso justíssimo narrador de corridas deu uma bronca ao vivo em quem montou aquelas imagens, pois esqueceram retirar delas o patrocínio. Isso é um absurdo comercial! Raciocinemos um pouco: uma empresa paga milhões para ter sua marca estampada em um carro com a intenção apresentá-la aos potenciais clientes nas oportunidades em que tal parte de tal carro aparecer nos meios de comunicação. A emissora de TV consegue audiência mostrando tais imagens ao público. É uma troca justa. Mas a Globo se coloca no direito de escolher quais marcas vai promover, quais não. Por exemplo, a Renault pode ser chamada de Renault, mas a RedBull é RBR, pois a emissora não pretende fazer propaganda de graça das bebidas energéticas. Mas será que é mesmo de graça? Ontem a Globo arrecadou milhões do Banco Santander para transmitir a vitória das RedBull, mas a mesma emissora não divulga as marcas que constroem o show que ela mesmo vende!

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Raça

Por Daniel Marchi

Vettel fez ótima largada e venceu. Enfim a Red Bull conseguiu converter volume de jogo em gol. Não tenho muito a acrescentar a este bom GP da Malásia, que aconteceu sem a ocorrência de chuva bíblica como se previa ou como ocorrera em 2009. O tempo por lá é demasiado rebelde. Penso que as críticas feitas a Ferrari e McLaren sobre uma suposta falha de timing no treino de classificação foram um pouco exageradas. Num nível de competição intenso como a F-1, principalmente nas grandes equipes, o processo de tomada de decisão não se resume a uma ordem de um diretor sabichão. De qualquer modo, os quatro carros acabaram por fazer boa prova.

Na verdade, hoje eu gostaria de palpitar sobre uma característica de pilotagem que me chama muito a atenção nos pilotos e que, na minha opinião, separa os grandes dos esforçados. Falo da celeridade – cacoete de bu(r)rocrata –  nas ultrapassagens. Essa habilidade se mostra com todas as cores em provas como Austrália e Malásia, quando grandes pilotos/carros se vêem no fim do pelotão.

Rapidamente me vêm à mente os dois ETs, Senna e Michael Schumacher. Ambos tinham, como direi?, uma raça impressionante. Conseguiam colher dois ou três carros por volta; em dez ou doze giros saiam do fundo para a antiga zona de pontos. No caso de Senna, os casos emblemáticos foram Suzuka-88 e Donington-93, esta última considerada a melhor primeira volta de todos os tempos. Schumacher, o homem que entendeu como ninguém a dinâmica de uma corrida, especialmente com reabastecimento, não foi pior. De bate-pronto, lembro-me que ele fazia uma recuperação fantástica no dilúvio de Spa-98 até encher a traseira de Coulthard. Registro também sua última prova pela Scuderia, Brasil-06. E é isso que mais tenho sentido falta em seu retorno.

Adiantando o tape, temos a turma de hoje. Vejo Hamilton como o melhor de todos nesse quesito. Na grande maioria das vezes, toma as decisões corretas e parte pra cima; não se enrola com quase ninguém. Na seqüência, vem Alonso, sempre muito seguro e sem frescuras. Por outro lado, um dos piores que já vi nesse assunto é Rubens. Sua tocada é boa, cometeu pouquíssimos erros de pilotagem ao longo de sua grande carreira, mas sempre vacilou muito na hora do pega-pra-capar. Estuda demais, entendem? Eu sei que não é fácil como no PlayStation, mas no final das contas isso determina se o camarada vai beber champagne ou gatorade. Curiosamente, sua primeira vitória foi partindo de 18° e engolindo todo mundo. Mosca branca. Outro que costuma se complicar é Massa. Quando parte da frente é uma fera. Mas se é preciso remar um pouco…

Esse rodeio todo para concluir o seguinte. Num campeonato com vários carros em alto nível, como parece ser a perspectiva para o de 2010, a capacidade de fazer bons resultados em situações difíceis fará a diferença. É por essas e outras que Massa como líder do campeonato tende a ser um fato efêmero, como efêmeros foram os ovos de Páscoa hoje. Torço para queimar a língua.

Fórmula (2 em) 1

Com prazer, acompanhei o início de mais uma temporada de Fórmula 1. Com prazer, anuncio que, em todos os domingos de corrida ao longo da temporada, pintará por aqui a “Fórmula (2 em) 1”, coluna que terei o prazer de dividir com o amigo, também louco de pedra por automobilismo, Daniel Marchi.

A proposta da coluna, por óbvio, será analisar a temporada de Fórmula 1, a evolução do campeonato corrida a corrida. De inovador, o fato de apresentar duas mini-colunas em uma, em que cada autor terá suas linhas para expor idéias e pontos de vista, sejam eles convergentes ou divergentes. Ao final, as duas visões independentes formam um quadro e ampliam as possibilidades de interpretação dos leitores, sob a lógica de que duas mentes pensam mais e melhor do que uma.

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Cara de tri, pinta de tri, jeito de tri

Por Thiago Barros Ribeiro

Muitas coisas podem ser ditas sobre a corrida inaugural da temporada de Fórmula 1 em 2010. Como se previa, o peso das paradas de boxe para a definição de uma prova voltou ao lugar que deve ocupar numa corrida de carros, de coadjuvante por eventuais erros cometidos pelas equipes, ao invés do descabido protagonismo que reinou anos a fio, desde a Era Schumacher. Por falar no alemão, a dificuldade não será apenas para chegar a vitórias, mas também para chegar em seu rival de equipe, o compatriota Nico Rosberg. Chamou a atenção também o tamanho da diferença entre os ingleses Lewis Hamilton e Jenson Button na McLaren, mostra de que o campeão de 2008, a despeito de já ter se mostrado demais vulnerável psicologicamente, é muito mais piloto do que o campeão de 2009.

Isso e muito mais poderia ser dito, como o mérito de a nova pontuação valorizar mais a vitória. Mas meu foco será Fernando Alonso, o qual, para fugir da mesmice do “ainda é cedo” e deitando minha língua levemente sobre as brasas, sai da primeira corrida como favorito destacado ao título, virtual tricampeão mundial.

Explico. Na pista, ficou demonstrado que o equilíbrio dos testes de pré-temporada pode se confirmar nos treinos classificatórios, mas durante as corridas a Ferrari é mais constante do que as rivais. Se a diferença não é absurda, também não é pequena a ponto de se diluir nas primeiras etapas do ano. E a Ferrari não é propriamente uma equipe pequena que corra o risco de ser engolida pelas de trás com o passar dos dias.

Isso coloca a Ferrari como favorita, mas não necessariamente Alonso. O que me faz acreditar que o espanhol vai levar passa por dois outros aspectos, um técnico e outro nem tanto. O técnico: apesar de sair atrás no grid, Alonso foi mais rápido e regular do que Felipe Massa durante a maior parte do fim-de-semana, isso num dos circuitos – ao lado da Turquia e de Interlagos – em que o brasileiro mais se sente em casa, onde reinou em 2007 e 2008 – em 2009, não tinha carro para disputar com a Brawn.

O nem tanto: nas últimas 10 temporadas, desde 2000, em apenas duas o vencedor da primeira etapa não ficou com o título. Em 2003 e 2005, David Coulthard e Giancarlo Fisichella venceram a abertura, na Austrália, mas viram Schumacher e Alonso, respectivamente, ficarem com a taça ao final do ano. Duvido que Alonso permita que o mesmo aconteça em 2010.

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Admirável mundo novo

Por Daniel Marchi

Até as luzes vermelhas se apagarem hoje no Bahrein, a quantidade de dúvidas era enorme. Os testes chuvosos na Espanha revelaram alguma tendência? Com o fim do reabastecimento – Graças a Deus! – como será a dinâmica da corrida? Os pneus terão durabilidade para quantas paradas? Como se comportarão as duplas de Ferrari e McLaren? E Schumacher, como voltará? Essas e mais outras tantas questões.

Entendo que respostas definitivas ainda não vieram, mas os palpites já começam a ficar mais embasados. A corrida mostrou sim as projeções da pré-temporada. Semana passada, diziam que Fernando mostrava um entusiasmo exagerado. Venceu a parada. Hamilton e Button, “temos muito o que progredir”. Verdade. Norbert Haug não contava com pódio na primeira prova. Provavelmente terá de aguardar um pouco mais.

O fim do reabastecimento – Graças a Deus! Não me canso – fez retornar à pista a real e efetiva ação da prova. Não espero corridas mais emocionantes, mas certamente teremos provas mais inteligíveis para o grande público e a certeza de que diminuirão muito aquelas falsas disputas envolvendo carros com ritmos de paradas diferentes. O desafio de acelerar poupando pneus e combustível, bem como pilotar um carro com sensível diferença de peso em cada segmento da corrida, é algo bem interessante. Sem falar na volta das clássicas disputas envolvendo a troca de pneus. Ainda é cedo para uma conclusão definitiva, mas os compostos da Bridgestone mostraram boa durabilidade e aparentemente nenhum piloto teve grandes problemas com eles.

Fernando é Alonso, não é à toa que o cara é bicampeão. Com os problemas de Vettel, ele estava, desculpem o clichê, na hora certa e no lugar certo. A camisa vermelha não pesou nem um pouco. Massa, apesar de fortemente gripado, acompanhou o ritmo do espanhol. Mas… se quer mesmo ser laureado, acompanhar o companheiro de equipe é insuficiente. Na McLaren nenhuma surpresa, Hamilton é mais piloto e ponto final. Pelos resultados dos treinos, pensou-se que Nico iria arrasar Miguel, o que não aconteceu. Mais uma vez, prefiro esperar o fim dessa fase asiática.

De qualquer forma, a expectativa de um grande campeonato permanece. O GP da Austrália, daqui a duas semanas, é tradicionalmente cheio de alternativas.

Por fim, um absurdo. A proibição de testes entre as corridas é uma completa insanidade. Impede, principalmente, que as novas equipes tenham vida digna na pista. Sem falar no risco de acidentes (toc-toc-toc na madeira). Não esqueçamos que o acidente de Massa ano passado foi provocado por uma mola de amortecedor que simplesmente se desconectou de um carro.

Daniel Marchi, 29 anos, é natural de Tabapuã/SP. Economista, fã da Escola Austríaca, funcionário público e residente em Brasília/DF, jura ser inocente de todos esses pecados. Entusiasta de automobilismo e jogador de gamão (alguém mais?), interessa-se especialmente pelos pequenos detalhes que geram grandes histórias.