Campeões com justiça

A maior demonstração de que a Espanha ostenta hoje, indiscutivelmente, a melhor seleção do mundo foi dada pela Holanda, que, ciente de que não poderia fazer frente aos ibéricos na bola, optou por aquela que seria a sua única chance de êxito e que Paulo Vinícius Coelho tão bem definiu como “anti-futebol total”.

Se os laranjas terminassem a primeira etapa da final de ontem com três jogadores expulsos, não seria demais. Em escala decrescente, De Jong, Sneijder e Van Bommel fizeram o suficiente para merecerem esse destino, não fosse a condescendência do árbitro inglês Howard Webb.

Condescendência sem a qual muito provavelmente a vitória espanhola não seria tão difícil quanto foi, consolidando-se ainda durante os 90 minutos regulamentares. Mas o futebol não é feito de hipóteses e, quando Robben partiu sozinho para o gol de Casillas, o mundo inteiro viu a Holanda campeã do mundo. Como não poderia deixar de ser, eles, os deuses de futebol, também estavam assistindo à grande decisão e, para a felicidade geral de todos os amantes do esporte bretão, deixaram aquela perna direita de Casillas ali, perdida no canto direito enquanto ele saltava para o lado oposto. O correto chute de Robben desviou no pé ali devidamente esquecido pelos deuses, não entrou e o futebol sorriu. O futebol venceu.

O gol de Iniesta, nos instantes finais da prorrogação, fez justiça ao melhor futebol da Copa. Fez justiça à seleção que colocou as outras todas na roda, tocando daqui pra lá e de lá pra cá sem que os adversários se aproximassem da pelota. Uma seleção que venceria mais fácil estivesse Fernando Torres em condições de jogo. Fez justiça ao próprio Iniesta, que não merecia sair de campo como aquele que perdera os gols que faltaram para a Espanha ser campeã mundial. Merecia, sim, sair como um dos candidatos a melhor da Copa, a melhor do mundo. E assim saiu.

Espanha campeã mundial. Nada mais justo.

Quem ouviu a narração do gol de Iniesta feita por Raul Varela, na Rádio Marca, se não chegou às lágrimas absolutamente comoventes de Casillas, teve pelo menos a noção do que o título significou para os espanhóis. Fantástico.

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O bolão. Vocês não conseguiriam imaginar como esse jogo, criado sem maiores expectativas, mexeu comigo durante os 30 dias de competição na África. A ponto de criar uma afeição que, quando terminada a final, fez misturarem-se em mim uma sensação de imensa alegria, pela vitória, e uma de triste desencanto pelo fim da brincadeira. O que farei nas próximas jornadas sem ter de assistir a todos os jogos para atualizar os resultados minutos depois? Como serão os meus dias sem as dores de cabeça criadas pelas sempre presentes polêmicas de última hora? O que fazer para passar o tempo durante os quatro anos de espera até o próximo?

Antes de passar aos resultados finais, não posso deixar de agradecer àqueles que me fizeram companhia diária, sempre a postos com comentários divertidos, pertinentes, bem pensados. Represento-os aqui por Carlos Urso,  Isnardo Villaroel, Paulo Furquim, Ramón Fernandez, João Paulo e Fernando Oliveira, parceiros do primeiro ao último instante, cheios de entusiasmo, desportividade, gentileza. Obrigado.

O resultado final da Copa acabou finalizando o nosso jogo com um desequilíbio que não houve em nenhum momento da disputa. Por ter acertado campeão, vice, terceiro colocado e artilheiro, terminei a competição com 1.671 pontos, 236 à frente do segundo colocado, o professor Ramón, que terminou a incrível recuperação iniciada a partir do 39º lugar da primeira fase acertando a Espanha campeã e a Holanda vice.

Fábio Corrêa fechou o pódio, beneficiado pelo acerto exato da Alemanha em terceiro e do Uruguai em quarto. A seguir, ficou Persio naquela que provavelmente é a colocação mais ingrata, 45 pontos atrás de um lugarzinho entre os premiados.

Merece ainda destaque David Escudero, nosso colega mexicano que passou a primeira fase quase que inteira em primeiro e não terminou entre os três de cima porque acabou caindo no conto do Brasil e mudou o seu palpite inicial, Espanha campeã. A 7ª colocação foi o preço a pagar. Muito obrigado pela participação desde a América do Norte, David!

Por fim, não poderia deixar de mencionar Maurice Gremaud, que passou boa parte da fase final na frente, mas acabou perdendo fôlego na reta final, prejudicado pelos palpites de Holanda campeã e Argentina vice.

Espero vocês de volta em 2014!

Viva España!

Espanha campeã mundial! A Copa do Mundo está nas melhores mãos possíveis. Venceu o futebol.

Diego Forlán foi coroado o melhor jogador do torneio. Parabéns à FIFA pela justíssima decisão, defendida ontem por aqui.

David Villa, Thomas Müller, Wesley Sneijder e o próprio Forlán dividiram a artilharia, com cinco gols.

Thiago Ribeiro, Ramón Fernandez e Fábio Corrêa, nesta ordem, foram os vencedores do bolão, que tanto nos animou ao longo dos últimos 30 dias.

Logo mais – se o trânsito deixar, ainda hoje – serão postadas as resenhas completas sobre a final da Copa, a Copa como um todo e, claro, o material completo e derradeiro do bolão.

Alemanha 0 x 1 Espanha

Para surpresa quase geral, a Espanha fez com a Alemanha mais ou menos o que fizera com Portugal, nas oitavas. Digo quase geral porque, sem querer puxar a brasa para a nossa sardinha, mas apenas sendo realista, quem leu horas atrás a prévia do jogo aqui teve acesso a uma boa porção de motivos para acreditar que a Espanha pudesse passsar à final.

E praticamente todos aqueles motivos se confirmaram. A Espanha demonstrou que tem um toque de bola muito superior ao de ingleses e argentinos; Müller fez uma falta danada aos germânicos, da mesma forma que Pedro comprovou a qualidade do banco espanhol; e del Bosque foi um rival à altura, para não falar bastante superior, a Löw.

O que ninguém poderia imaginar era que esses motivos pintassem um quadro de tamanha supremacia espanhola. O que houve foi um ataque contra defesa ameaçado em apenas uma oportunidade, numa finalização de Kroos bem defendida por Casillas. No mais, a Espanha sobrou. No primeiro tempo, não transformou essa sobra em grandes oportunidades, mas, no segundo, além da cabeçada furiosa de Puyol, poderia ter feito mais, especialmente num contra-ataque incrivelmente desperdiçado por Pedro, que, de resto, teve uma atuação próxima da perfeição.

Outro resultado que não a vitória dos espanhóis seria triste para o futebol.

Depois de hoje, a Espanha reforça o favoritismo para a final. Favoritismo que, no entanto, deve ser muito bem qualificado. A Espanha não pode, por exemplo, acreditar que a final foi hoje. Não foi. Do outro lado, há uma Holanda que ostenta a maior invencibilidade entre todas as seleções do mundo (25 jogos) e mantém impressionantes 100% de aproveitamento desde o início das Eliminatórias.

Mas isso não é o mais importante. A Holanda apresenta um estilo de jogo diferente de Portugal, Paraguai e Alemanha. Ao contrário deles, e assim como a Espanha, gosta de jogar com, e não sem, a bola. A Espanha não está acostumada a isso na Copa, o que poderá trazer-lhe muitas dificuldades. Nada, contudo, que retire o ligeiro favoritismo ibérico.

E a Espanha “amarelona” está na final. Assim como a Holanda, também “amarelona”. E o Brasil “guerreiro” ficou pelo caminho. Se o mundo não acabar até o próximo domingo, teremos, pois, uma “amarelona” campeã… mais uma na cabeça dos amantes de chavões inócuos.

No bolão, seguiu-se o mesmo caminho de ontem: não foram muitos os que pontuaram, mas os que o fizeram estão sorrindo de orelha a orelha. Faltando apenas dois jogos para a finalização do torneio, apenas alguns apostadores mantêm chances de premiação. Amanhã, teremos uma postagem esmiuçando as chances de cada um, com as possíveis combinações de resultados e tudo o mais.

Alemanha x Espanha: prévia

Uma análise baseada pura e simplesmente nos dois últimos jogos de Alemanha e Espanha daria um favoritismo até destacado aos alemães na semifinal de hoje. Sobre a Inglaterra e, sobretudo, sobre a Argentina, os comandados de Joachim Löw se impuseram com uma autoridade que contrasta com a dificuldade dos espanhóis frente a portugueses e, principalmente, paraguaios.

Mas a análise deve ser um pouco mais profunda do que isso. Se, por um lado, o jeito espanhol de tomar as rédeas do jogo parece se encaixar perfeitamente àquilo que os germânicos mais gostam – fecharem-se para dar o bote mortal em rápidos e eficazes contra-ataques -, por outro há algumas diferenças fundamentais entre a Espanha e os rivais da Alemanha nas fases anteriores.

A mais sobressalente está no domínio de bola. Os ibéricos têm uma capacidade muito maior do que ingleses e argentinos se manterem com el balón. É muito mais difícil roubar a bola da Espanha do que da previsível Inglaterra ou da insegura Argentina. Não que seja impossível, por óbvio. Mas apenas isso já deverá aumentar em boa medida as dificuldades alemãs em Durban.

Além disso, a defesa tricolor ainda me parece frágil e não suficientemente testada. Acreditava-se que esse teste ocorreria com a Argentina, mas o baile não permitiu. Baile, aliás, que encontra explicação principal no brutal desequilíbrio entre Joachim Löw e Maradona, que certamente não existe entre Löw e del Bosque.

Para se ter uma medida da fragilidade de que se fala, as estatísticas da FIFA colocam Neuer, o goleiro alemão, como o mais exigido entre os semifinalistas. Até agora, porém, as exigências foram os chutes mal saídos dos pés de Rooney e Higuaín. Os de Villa parecem estar um pouco melhores.

Ademais, o banco de reservas da Espanha é o melhor da Copa. Em caso de situação adversa, Vicente del Bosque olha para ele com esperança enquanto Capello e Maradona, em boa parte por culpa deles próprios, miravam os seus com desânimo.

Por fim, a ausência de Thomas Müller deverá ser bastante sofrida pela Alemanha, justamente por não ter ela o banco que tem o seu adversário de hoje. Seja quem for o substituto, é difícil imaginar que consiga desenvolver como Müller os golpes e contragolpes germânicos. Desenvolvimento tanto maior à medida que Müller, Klose e Schweinsteiger se conhecem de outros carnavais, leia-se, dos treinos diários no Bayern de Munique.

Tudo isso para mostrar que o jogo não será tão fácil para a Alemanha como alguns andam pintando. Mas não para colocar a Espanha como favorita. A Fúria também apresenta uma defesa que ainda dá calafrios em seus torcedores e um ataque que sobrevive até agora unicamente dos lampejos de Villa. Precisa, e tem potencial, para mais do que isso.

Um último fato, desconhecido para mim até ontem e cujo significado não pode ser menosprezado. Gerd Wenzel informou no Fora de Jogo, da ESPN, que a Jabulani foi utilizada em todo o segundo turno do Campeonato Alemão. Considerando que todos os jogadores da Alemanha atuam em casa e a dificuldade que todos na África têm tido com a indefesa pelota, a importância desse aparente detalhe pode sim ter tamanho suficiente para desequilibrar em favor dos germânicos um torneio tão equilibrado. Será que assim tem sido? Será que assim será até o fim?

De tudo, resta uma certeza: jogo equilibradíssimo. O palpite, mais na intuição, é Espanha classificada.