A Fórmula 1 contra a Fórmula 1

Muito a escrever hoje. A prova da Hungria saiu da tradição anos a fio acumulada, de ser uma das menos atrativas da temporada, atrapalhada por um traçado que tem nas ultrapassagens um grande desafeto. Graças a uma bandeira amarela provocada por um pedaço de Force India na pista, o rumo da mesmice que provavelmente levaria a uma dobradinha da Red Bull, ordenada com Vettel e Webber, transformou-se na quarta vitória do australiano, que o catapultou de volta à liderança do certame.

Vitória possibilitada por mais uma punição, a meu ver equivocada, levada a cabo pelos comissários de prova, os reguladores, os donos da verdade na Fórmula 1. Resolveram obrigar o jovem alemão a uma passagem pelos boxes sob a alegação de que havia muito espaço entre ele e Webber no momento da relargada, o que teria sido uma manobra desportivamente digna de censura, posto que tomada para, em prejuízo direto de todos os demais competidores, auxiliar o companheiro que então precisava se desgarrar do pelotão para, posteriormente, ao fazer sua parada, ainda voltar em boa posição.

Explico minha posição, e já aproveito para entrar na celeuma da Ferrari na última semana. A Fórmula 1 caracteriza-se por ser um esporte eminentemente de equipe. Compara-se, nesse sentido, bastante bem, embora de forma menos radical, ao ciclismo, em que equipes são formadas com um primeiro “piloto” claramente definido, em prol do qual todos os demais integrantes agem para garantir o êxito do time. O ciclismo deixa, por isso, de ser esporte? Claro que não. Não existe apenas uma forma de esporte. Existem os individuais, como o tênis, o boxe, em que a disputa não envolve qualquer tipo de colaboração, e existem os coletivos, como o futebol, o vôlei, o basquete, a Fórmula 1, em que a equipe está na essência do jogo. Na Fórmula 1, a prova mais evidente de que o jogo é coletivo é o fato de haver apenas um boxe para ambos os pilotos e não posições individuais, como na Indy, por exemplo.

Em assim sendo, vai contra os fundamentos da própria modalidade não permitir jogo de equipe num esporte coletivo. É um contra-senso impedir uma equipe – vejam bem, uma equipe! – de trabalhar como… uma equipe. Não há absolutamente nada de antidesportivo nisso. Haveria, sim, em caso de conchavos entre equipes diferentes, o que não está em questão. A decisão a respeito da política de competição interna entre os pilotos cabe, pois, a ninguém mais que não os dirigentes de uma equipe. Como em qualquer empresa, em qualquer ramo de atividade. O piloto, seja ele quem for, não precisa aceitar as condições de cima. Tem toda a liberdade para não assinar o contrato e dirigir para outro time, com outra política. Simples assim.

Interferências externas nessa seara, além de inegavelmente acabarem na armadilha de tratar casos absolutamente iguais como diferentes – não há, de fato, qualquer diferença real entre o caso Alonso/Massa e tantos outros, tratados sob variados prismas: Schumacher/Barrichello (que, lembremos, houve em ambos os sentidos), Massa/Raikkonen (também em via de mão dupla), Senna/Berger etc. -, vai no sentido de punir uma equipe por ser boa o suficiente para colocar seus dois pilotos em situação tal que possa conseguir para si o melhor resultado entre todos os possíveis.

Tanto para a Ferrari na Alemanha como para a Red Bull hoje, as decisões tomadas pela cúpula foram, sem dúvida, as melhores para as equipes. Alonso, ao contrário da grita dos pachecos de plantão, tem ainda todas as chances de ser campeão, embora não seja este o desfecho mais provável para o campeonato, e a segurada de Vettel foi importante para permitir a Webber ter êxito em seu plano de corrida. Se a direção de prova enxergou falta de espírito esportivo na manobra, deveria ter mantido a bandeira amarela por mais uma volta, para que os pilotos se alinhassem de forma correta. Jamais punir Vettel. Seguindo essa linha, todos os pilotos que, para defender seu companheiro, comportam-se como os chamados escudeiros, diminuindo o ritmo à frente de rivais, deveriam ser chamados aos boxes. Os congestionamentos trariam à memória o tráfego da capital paulista.

Tudo isso posto, é ainda preciso duas últimas colocações. A primeira, de repetida glorificação ao atual sistema de pontuação, que premia na exata medida os vencedores e dá ao campeonato o gosto das reviravoltas sempre potencialmente presentes. Hoje, restando sete etapas, cinco pilotos têm plenas condições de conquista: Webber (161), Hamilton (157), Vettel (151), Button (147) e Alonso (141).

A segunda, de asco, a Schumacher. Como se não bastasse a pífia temporada, que o coloca 56 pontos atrás do parceiro de time, Nico Rosberg, o alemão reviveu hoje os momentos mais deploráveis de uma carreira que, embora recheada de brilhantes conquistas, teve aqui e acolá momentos imorais. Antes ainda havia a justificativa de campeonatos estarem em jogo, o que costuma trazer uma medida não desprezível de insanidade aos grandes campeões. Hoje, ao colocar a vida de Rubens Barrichello em risco, espremendo-o num muro que, se tivesse mais 10cm, poderia levar ao pior, Schumacher foi apenas ridículo, patético, patológico, criminoso. Um ex-piloto em atividade que deveria, de pronto, ter recebido bandeira preta.

Mas os comissários são assim mesmo. Só não punem quando têm de punir. Ficam as palmas à Barrichello, grandíssimo piloto. Mas sem estrela.

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