Who cares?

Direto de Brasília. Os dias vão se passando e a vida se adaptando aos novos moldes. Quadras residenciais, quadras comerciais. Asas daqui, asas dali. Eixos, lagos. O conjunto de uma nova realidade. Por enquanto, nem boa nem má. Diferente.

Grandes pessoas existem em todos os lugares. Aqui também. Boas conversas, boas discussões, bom senso. Pessoas menores existem em todos os lugares. Aqui também. Mesquinhas, arrogantes, fora do prumo da realidade.

De pessoas curiosas acerca de um futuro incerto espera-se uma natural ansiedade. Dúvidas. O que será do amanhã? De pessoas já dentro do sistema há décadas, espera-se a mínima orientação. Boas maneiras. Educação. Civilidade. Nem sempre se encontra.

Num mundo de coletivização, pensar individualmente é crime? Se não é, para alguns deveria ser. Felizmente são, ainda, a minoria.

O absurdo em forma de cotas

Já expressei aqui algumas vezes a minha tristeza com a onda alienante que vem tomando conta de nosso país há, mais ou menos, 500 anos. O tempo é tanto que nos leva a considerar com carinho a hipótese de que a alienação é porção indissociável do brasileiro.

E não coloco em relevo a alienação daqueles que não têm ou não tiveram oportunidades de serem esclarecidos. Enfatizo, sim, a alienação dos pseudo-pensadores, dos falastrões, em geral autodenominados “de esquerda”, que gozaram infindáveis possibilidades de se tornarem, como diria um amigo meu, bípedes, mas preferiram o caminho mais fácil: deixarem-se levar por palavras bonitas, e inócuas, de outros ditos “intelectuais”.

Talvez tenha a ver com a preguiça tipicamente brasileira. Afinal, por que não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje (no caso, pensar com os próprios neurônios)? Mas o fato é que, com isso, os dias vão passando e os absurdos se acumulando, sempre defendidos pelos tais pseudo-pensadores de esquerda.

Um deles são as cotas. Por princípios, sou contra todas elas. Hoje vou ficar apenas nas cotas para a entrada de egressos do ensino público em universidades públicas e naquelas para a entrada de negros nessas universidades.

O argumento mais utilizado para a defesa da aberração cotista é o de oferecer justas condições de ascensão social àqueles que foram maltratados pela vida, pelas gerações passadas, pela História. Muito comovente, mas pouco convincente.

Em primeiro lugar, e aqui olhando para o caso geral das cotas para os estudantes advindos da rede pública de ensino, porque ataca o problema a partir de seu efeito e não de sua causa. É mais ou menos como se, notando que as pessoas têm uma tendência a apresentar deficiência de cálcio no organismo com o passar dos anos, o que dificulta a locomoção, surgisse um decreto para que todos os idosos tivessem direito a uma cadeira de rodas, em vez de se trabalhar para que, conforme a idade, os indivíduos tivessem um reforço de cálcio em sua dieta. Só que pior.

Ora, se poucos estudantes da rede pública conseguem chegar às universidades mais concorridas, não é por meio do estabelecimento de cotas que permitam a entrada de pessoas menos preparadas – às custas de outras, mais preparadas – em determinadas instituições que se resolverá o problema.

Os absurdos abundam. Prejudicam-se estudantes mais preparados provenientes do ensino privado e, pior, entre esses certamente filhos de pais longe de serem abastados e que fizeram das tripas o coração para colocar os rebentos em alguma escola particular – já que as públicas estão à míngua – que lhes desse a oportunidade de, pelos próprios méritos, chegar à universidade dos sonhos. Para ficar em apenas um exemplo, foi essa a minha história.

Punem-se os mais esforçados, até que o rebanho se adapte à nova realidade e entenda o recado, de alma essencialmente brasileira: Deixe de ser otário, seu mané! Em vez de gastar dinheiro e se esforçar pra passar no vestibular X ou Y, estude, ou melhor, frequente, ou melhor, faça a matrícula numa escola pública qualquer e vá curtir a vida que depois damos um jeitinho de você entrar na faculdade que quiser.

O caso das cotas para negros entrarem em universidades mais procuradas é ainda mais estarrecedor. Aí, além de todos os pontos já apontados, assume-se a hipótese absurda de que os negros são intelectualmente menos capazes do que os brancos na mesma situação social e por isso precisam de um empurrãozinho a mais. Seria hora, pois, de as entidades de defesa dos direitos afro-descendentes buscarem a Justiça acusando de preconceituosos os defensores das cotas, e não de trilharem o caminho oposto, como costumam fazer, falsamente sustentadas no “fundamento” escravagista – quer dizer então que nenhum brasileiro não-negro é descendente de escravo? Realmente, nosso povo não é nem um pouco mestiço…

Não precisa ser nenhum gênio para notar que toda essa engenhosa política tem apenas um efeito certo, o de piorar o nível, já sofrível, de nosso ensino superior. Também não é necessária genialidade para perceber que o caminho correto para se dar chance aos chamados menos favorecidos seria investir na qualidade do ensino público, fundamental e médio, para que, como no passado, ali estivesse uma grande porta de entrada para as universidades mais concorridas.

Seria, claro, um caminho muito mais árduo a se seguir. Os governantes que optassem por ele também não conseguiriam colher os louros da vitória ainda durante os seus próprios mandatos, posto que os resultados viriam apenas num prazo mais longo – provavelmente semelhante ao tempo que se levou para se sucatear o ensino público. Não entrariam na História como pais dos necessitados, portanto. Nem seriam por eles tão venerados.

Bom, acho que não é preciso perguntar por que esse caminho não é escolhido. A resposta já está dada.