O absurdo em forma de cotas

Já expressei aqui algumas vezes a minha tristeza com a onda alienante que vem tomando conta de nosso país há, mais ou menos, 500 anos. O tempo é tanto que nos leva a considerar com carinho a hipótese de que a alienação é porção indissociável do brasileiro.

E não coloco em relevo a alienação daqueles que não têm ou não tiveram oportunidades de serem esclarecidos. Enfatizo, sim, a alienação dos pseudo-pensadores, dos falastrões, em geral autodenominados “de esquerda”, que gozaram infindáveis possibilidades de se tornarem, como diria um amigo meu, bípedes, mas preferiram o caminho mais fácil: deixarem-se levar por palavras bonitas, e inócuas, de outros ditos “intelectuais”.

Talvez tenha a ver com a preguiça tipicamente brasileira. Afinal, por que não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje (no caso, pensar com os próprios neurônios)? Mas o fato é que, com isso, os dias vão passando e os absurdos se acumulando, sempre defendidos pelos tais pseudo-pensadores de esquerda.

Um deles são as cotas. Por princípios, sou contra todas elas. Hoje vou ficar apenas nas cotas para a entrada de egressos do ensino público em universidades públicas e naquelas para a entrada de negros nessas universidades.

O argumento mais utilizado para a defesa da aberração cotista é o de oferecer justas condições de ascensão social àqueles que foram maltratados pela vida, pelas gerações passadas, pela História. Muito comovente, mas pouco convincente.

Em primeiro lugar, e aqui olhando para o caso geral das cotas para os estudantes advindos da rede pública de ensino, porque ataca o problema a partir de seu efeito e não de sua causa. É mais ou menos como se, notando que as pessoas têm uma tendência a apresentar deficiência de cálcio no organismo com o passar dos anos, o que dificulta a locomoção, surgisse um decreto para que todos os idosos tivessem direito a uma cadeira de rodas, em vez de se trabalhar para que, conforme a idade, os indivíduos tivessem um reforço de cálcio em sua dieta. Só que pior.

Ora, se poucos estudantes da rede pública conseguem chegar às universidades mais concorridas, não é por meio do estabelecimento de cotas que permitam a entrada de pessoas menos preparadas – às custas de outras, mais preparadas – em determinadas instituições que se resolverá o problema.

Os absurdos abundam. Prejudicam-se estudantes mais preparados provenientes do ensino privado e, pior, entre esses certamente filhos de pais longe de serem abastados e que fizeram das tripas o coração para colocar os rebentos em alguma escola particular – já que as públicas estão à míngua – que lhes desse a oportunidade de, pelos próprios méritos, chegar à universidade dos sonhos. Para ficar em apenas um exemplo, foi essa a minha história.

Punem-se os mais esforçados, até que o rebanho se adapte à nova realidade e entenda o recado, de alma essencialmente brasileira: Deixe de ser otário, seu mané! Em vez de gastar dinheiro e se esforçar pra passar no vestibular X ou Y, estude, ou melhor, frequente, ou melhor, faça a matrícula numa escola pública qualquer e vá curtir a vida que depois damos um jeitinho de você entrar na faculdade que quiser.

O caso das cotas para negros entrarem em universidades mais procuradas é ainda mais estarrecedor. Aí, além de todos os pontos já apontados, assume-se a hipótese absurda de que os negros são intelectualmente menos capazes do que os brancos na mesma situação social e por isso precisam de um empurrãozinho a mais. Seria hora, pois, de as entidades de defesa dos direitos afro-descendentes buscarem a Justiça acusando de preconceituosos os defensores das cotas, e não de trilharem o caminho oposto, como costumam fazer, falsamente sustentadas no “fundamento” escravagista – quer dizer então que nenhum brasileiro não-negro é descendente de escravo? Realmente, nosso povo não é nem um pouco mestiço…

Não precisa ser nenhum gênio para notar que toda essa engenhosa política tem apenas um efeito certo, o de piorar o nível, já sofrível, de nosso ensino superior. Também não é necessária genialidade para perceber que o caminho correto para se dar chance aos chamados menos favorecidos seria investir na qualidade do ensino público, fundamental e médio, para que, como no passado, ali estivesse uma grande porta de entrada para as universidades mais concorridas.

Seria, claro, um caminho muito mais árduo a se seguir. Os governantes que optassem por ele também não conseguiriam colher os louros da vitória ainda durante os seus próprios mandatos, posto que os resultados viriam apenas num prazo mais longo – provavelmente semelhante ao tempo que se levou para se sucatear o ensino público. Não entrariam na História como pais dos necessitados, portanto. Nem seriam por eles tão venerados.

Bom, acho que não é preciso perguntar por que esse caminho não é escolhido. A resposta já está dada.