Vargas Llosa e a evolução do Homem

Mario Vargas Llosa é prova viva de que o Homem pode evoluir ao longo de sua existência, embora muitas vezes não o faça. De comunista na juventude, o peruano, há poucas horas agraciado com o Nobel de Literatura, transformou-se num esclarecido defensor da liberdade individual e do livre mercado. Aos 74 anos, ainda protesta contra os excessos estatistas e autoritários que insistem em agonizar parte do mundo. Ataca a utilização ideológica, caricata e vazia do termo neoliberalismo. Define-se como um liberal e discorre brilhantemente sobre o tema:

Eu me considero um liberal. Conheço muitas pessoas que são liberais e muitas outras que não são. Mas durante a minha carreira, que já começa a ficar longa, eu jamais conheci um único neoliberal. (…) O liberalismo é a doutrina que, além da combinação relativamente simples e clara dos princípios básicos estruturados ao redor da defesa da liberdade política e econômica (isto é, da democracia e do livre mercado), acolhe uma grande variedade de tendências (…). Para os liberais, a guerra histórica para o progresso da liberdade é, acima de qualquer outra coisa, uma luta intelectual, uma batalha de idéias.

A seguir, longo trecho de entrevista concedida por Vargas Llosa ao Estado de S. Paulo, no último 2 de outubro. Há pérolas que merecem ser lidas e gravadas, como a comparação entre o império inca e a “modernidade” de algumas regiões atuais.

Como ninguém é perfeito, falta a Vargas Llosa certa dose de conhecimento sobre a ideologia do atual governo brasileiro que, para ele, entendeu que o estatismo leva ao fracasso econômico. Doce ilusão.

 

Vargas Llosa: das trevas do comunismo à luz da liberdade

 

Em Sabres & Utopias, ensaios, artigos e documentos são dispostos fora de ordem cronológica, segundo critérios de importância fixados pelo organizador do livro, expert em sua obra. Há um ensaio no início, chamado Um País de Mil Faces, que revela a sua relação com o Peru, algo que o explica como escritor.

Sim, é um pequeno ensaio sobre a diversidade peruana. O país onde nasci pode ser tomado como uma espécie de síntese do mundo pela incrível variedade de tradições que o formam. Há o país pré-hispânico, que se perpetua nos milhões de peruanos de origem indígena, há o país europeu, de tantos milhões de origem hispânica e de outras nacionalidades, há o país também africano, dos negros que chegaram com os espanhóis há cinco séculos, há o país dos japoneses e chineses, integrados a essa diversidade desde o final do século 19, e, felizmente, há um processo de mestiçagem grande. Eis a grande fortuna do Peru: ser uma espécie de protótipo do mundo, com pontes para diversas culturas e crenças.

Neste ensaio específico, é curioso quando o senhor fala dos “homens-formigas”, herdeiros dos incas, que seriam a explicação para certa tendência à burocracia no seu país.

O império inca foi uma realização assombrosa, ergueu cidades, fortalezas, templos, com extraordinária criatividade. E também gerou uma organização formidável que, segundo historiadores, dava de comer a todos os habitantes. Não se morria de fome no império inca. Mas, para isso, fez-se uma sociedade burocrática, vertical, autoritária, na qual o Estado dominador tomava sob sua responsabilidade o indivíduo, desde o nascimento até a morte. Então as pessoas careciam de iniciativa e liberdade. Essa é uma das razões pelas quais esse império acabou sendo destruído por uma minoria de conquistadores. Porque esses, ao decapitarem os chefes indígenas, fizeram desabar todo o edifício inca. A nossa modernidade guarda sequelas desse passado, como o tão característico espírito burocrático e a crença de que o Estado tem que resolver todos os problemas, não é verdade? Só que a tradição gregária e coletivista do indivíduo deprimido pelo Estado vai mais além e acaba por gerar um fenômeno duplo, pois tem a ver com as civilizações pré-hispânicas e também com a formação de colônias subordinadas a impérios autoritários, caso de Portugal e Espanha.

Por que o senhor se refere ao Peru como uma “enfermidade incurável” em sua vida?

Posso usar esta metáfora porque tenho um espírito atento e crítico em relação a meu país. É uma realidade sempre presente em minha vida, apesar de ter vivido desde cedo em outros lugares. Ainda hoje passo meses por ano fora do Peru, mas sem dúvida os problemas do país me afetam e sempre estou intervindo nos debates por lá. Há uma ligação permanente.

Há 20 anos o senhor se candidatava à Presidência do Peru. Perdeu para Alberto Fujimori e saiu da vida política. Essa experiência lhe deixou traumas?

Sempre participei da política como intelectual interessado no confronto das ideias, nunca me imaginei assumindo cargos, definitivamente não era minha vocação. Mas resolvi participar do jogo político num momento muito particular do país, em que havia uma situação econômica crítica, um processo hiperinflacionário que destruía os salários, um populismo que fazia com que o Peru fosse olhado com desconfiança pela comunidade internacional, quando os níveis de vida despencavam… e havia a violência social desencadeada pelo terrorismo, com Sendero Luminoso, Tupac Amaru e outras organizações radicais. Enfim, senti que nossa débil democracia poderia desaparecer, por isso resolvi me candidatar. Além disso, eu realmente acreditava haver um clima favorável para as reformas liberais e democráticas que me dispunha a fazer. Foi uma experiência instrutiva e ingrata, também, pela grande violência que a acompanhou… o saldo foi reconhecer que sou completamente incompetente como político profissional (risos).

Borges disse que a “política é uma das faces do tédio”. Passou a concordar com ele?

Sim, Borges dizia isso. Mas não podemos prescindir da política. E nem tente fechar as portas para ela, pois irá vê-la entrando pelas janelas. Por isso, continuo disposto a participar, batalhar por melhoria social, por uma vida cultural mais plena, fortalecer a democracia e afastar qualquer hipótese de retorno às ditaduras do passado.

Tem-se a impressão de que os intelectuais latino-americanos andam emudecidos, talvez até desviando de certos debates.

Em nosso continente, a intelectualidade ainda está ligada a um monopólio cultural da esquerda, que por sua vez está a exibir duas faces. Pela primeira vez, há uma esquerda que chega ao poder em alguns países da região demonstrando ter aprendido boas lições ao renunciar à violência e abraçar a democracia, ao aceitar o livre mercado e respeitar a empresa privada, ao entender que o estatismo leva ao fracasso econômico, que por sua vez leva à pobreza. Isso ocorreu no Chile, com a Concertação, no Brasil com Lula, no Uruguai, curiosamente com um governo que vem de uma esquerda revolucionária. Sem dúvida, essa esquerda democrática deve ser bem-vinda, assim como deve ser bem-vinda uma direita democrática. Mas há também uma esquerda pouco ou nada democrática, como a que vemos em Cuba ou Venezuela. Veja como os venezuelanos acabam de impor um revés eleitoral a Hugo Chávez, pois já existe uma maioria que não se convence com o discurso do “socialismo século 21”. Essa esquerda também está presente na Nicarágua, no Equador, sem falar do caso particular e trágico da Argentina, nas mãos de um casal demagogo e de uma turma com um prontuário dos piores. Como se pode eleger gente assim? Como se pode dar crédito a partidos e facções com entusiasmos de golpismo? Ora, os intelectuais têm medo de se manifestar livremente sobre isso, de serem desacreditados e atacados. Inclusive uma coisa que a esquerda sabe como fazer é satanizar o adversário. Diante disso, intelectuais constrangidos estão no máximo invocando cartas de correção política e usando os clichês de sempre. Porque assim são poupados e terão uma vida mais fácil.

O artigo intitulado Lula e os Castro, de maio de 2010, abre em Sabres & Utopias uma sequência de textos sobre Cuba, mostrando seu afastamento do regime castrista a partir do início dos anos 70. Mas no artigo em questão, o senhor manifesta indignação pelo fato do presidente brasileiro ter ido saudar Fidel e Raúl em Havana, no mesmo dia em que se enterrava o pedreiro Orlando Zapata Tamayo, dissidente do regime. São linhas bastante duras contra o líder de esquerda que o senhor imagina ter se tornado democrata.

O presidente Lula evoluiu ao longo do tempo e isso foi muito benéfico para o Brasil. Ele hoje crê na democracia, no mercado, na iniciativa privada. Mas ele também tem sido muito contraditório, basta ver sua política externa. Um defensor da democracia não pode abraçar Fidel Castro nem os governantes do Irã, que representam uma ditadura teocrática. Esses abraços acabam legitimando regimes que são uma vergonha do ponto de vista político e moral. Essa contradição de Lula me parece lamentável. Então tive que externar meu protesto.

Quando o senhor escreveu a famosa carta para Fidel, em 1971, protestando pela autocrítica forçada do poeta cubano Heberto Padilla, conseguiu adesão imediata de assinaturas famosas: Sartre, Simone de Beauvoir, Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino, Alain Resnais, Jorge Semprún, Susan Sontag, Maurice Nadeau, Alberto Moravia e outros. Hoje adesão em tal grau não acontece.

Muitos outros intelectuais de peso assinaram aquela carta… Mas foi um momento de ruptura de parte da intelectualidade de esquerda com o regime cubano. Foi como se disséssemos: “Até aqui chegamos e não vamos seguir dando apoio.” Muitos dos signatários conheceram Padilla pessoalmente. Sabíamos que era absurdo acusá-lo de revolucionário e agente da CIA, justamente ele que havia estado com a revolução desde os primeiros momentos, inclusive tendo parado de escrever sua poesia para trabalhar para o regime. Agia como funcionário fiel e as críticas que ousava fazer não eram contra o socialismo. Era contra o que acreditava ser uma deformação do socialismo. Por isso foi preso, caluniado, insultado. Aquilo foi um turning point. Muitos de nós nos despedimos da aventura revolucionária, que manteve a seu lado os mais dogmáticos e servis.

O que pensa de escritores como a cubana Yoani Sánchez, autora de um blog lido no mundo inteiro?

Os dissidentes de hoje são gente muito valorosa e sempre que posso lhes manifesto meu apoio. Porque ser dissidente em Cuba requer coragem e um espírito de sacrifício extraordinário diante do peso brutal do regime. Os intelectuais de lá têm muita dificuldade para se expressar. Veja o caso emblemático do escritor, poeta e ensaísta Lezama Lima. Ele foi muito perseguido e só quando morreu, em 1976, os dirigentes revolucionários se deram conta de quão respeitado ele era mundo afora.

O senhor o conheceu pessoalmente?

Sim, estivemos juntos várias vezes em Cuba. Eu me lembro perfeitamente de nosso último encontro, creio que foi em 1969. Fui convidado pelo escritor chileno Jorge Edwards, que era embaixador em Havana, para almoçar com ele e Lezama em um daqueles restaurantes bons a que só a nomenclatura tinha acesso. Foi um encontro memorável. No fim, o poeta se despediu de mim com um longo e intenso aperto de mãos, e me perguntou: “Você se deu conta do país em que estou vivendo?” E eu respondi: “Sim, claro, me dei conta.” E ele repetiu a pergunta: “Você se deu conta?” Minha última recordação de Lezama são essas frases, ditas com muita tristeza. Nunca mais nos vimos. Terrível, não? Era um homem extraordinário, que apenas uma vez na vida conseguiu sair de Cuba, creio eu, mas atravessava o mundo com sua literatura barroca, sua cultura e sofisticação

Matéria completa aqui.

A intervenção, o comunismo… quantas saudades da Copa!

Lembram-se da história da proibição das coxinhas nas escolas, que rendeu a postagem mais polêmica da curta existência deste blog, em que se defendia o direito de cada um saber o que é melhor para si próprio e arcar com as consequências de seus próprios atos?

Pois é, a cada dia fica mais latente a falta de espaço para pessoas com esse tipo de pensamento no Brasil. O espaço para o livre arbítrio diminui à medida que senhores da razão sabem o melhor para toda a sociedade, até mesmo em assuntos puramente individuais. São, afinal, oniscientes.

A última da escalada intervencionista, dominante nos quatro cantos governamentais do país, é o projeto de lei encaminhado hoje pelo presidente Lula ao Congresso, que proíbe os pais de castigarem fisicamente os seus filhos. Em outras palavras, coloca na ilegalidade a boa e velha palmada.

Antes que surjam os defensores dos direitos humanos, da criança e do adolescente com um porrete na mão, saliento que não se é aqui favorável à crueldade, seja em filhos, seja em avós, seja em animais.  Apenas seres pouco favorecidos mentalmente aplicam esse tipo de tratamento a alguém e devem ser punidos.

Daí a proibir aquele tapinha na mão da criança que, no clima da Copa, resolve seguir o exemplo do técnico alemão Joachim Löw e coloca o inocente dedinho dentro do nariz e depois na boca, vai uma distância continental.

O mais triste de tudo isso é que, travestidas das famosas boas intenções, que existem aos montes no inferno, regulamentações desse tipo vão pipocando aqui e acolá quase sempre sob o aplauso da grande massa. E o espaço para a liberdade vai, ao mesmo tempo, direcionando-se a passos cada vez maiores e mais rápidos à bandeirinha de escanteio.

Não é demais, posto que oportuno, relembrar passagem do Manifesto Comunista a respeito do tema educação familiar. Em defesa da abolição da família, eis que surge:

Acusai-nos de querer abolir a exploração das crianças por seu próprios pais? Confessamos este crime.  Dizeis também que destruímos os vínculos mais íntimos, substituindo a educação doméstica pela educação social.

Qualquer semelhança com a lei anti-palmadas não deve ser mera coincidência. É exatamente este o “edificante e desapegado” ideal por trás da tara intervencionista: “vamos guiar toda a sua vida, mas não se preocupe, é por uma boa causa, é para o seu bem.” E ainda com a sempre presente pitada de sentimentalismo barato: “podem nos crucificar por esse crime, vamos ao calvário pela felicidade e pela libertação de nosso povo.”

O mais intrigante é como esse tipo de coisa ainda ganha e comanda tantas mentes pretensamente pensantes mundo afora. Que permeie os pensamentos dos donos do poder e de determinados grupos políticos é até bastante razoável, levando-se em consideração que a força-motriz por trás da maioria de suas atitudes é justamente a busca por mais e mais poder.

Agora, que agrade e convença pessoas meramente bem-intencionadas é realmente um bom caso para estudo. Sociológico, talvez. De marketing, certamente.

Lyra do comunismo juvenil

Há tempos defendo a tese de que 6 em cada 10 comunistas com menos de 30 anos de idade não sabem o que é comunismo e os outros 4 se dizem comunistas com o pragmático propósito de conquistar jovens mulheres comunistas, que também não sabem o que é comunismo.

Estejam em um ou outro grupo, os 10 jovens aderem ao comunismo pela marca – da mesma forma que bebem Coca-Cola, calçam Nike, vestem Lacoste (sim, os comunistas fazem isso!)  -, não pelo conteúdo. Vestem o comunismo por ter o superficial apelo cult tão venerado pelos jovens que, felizmente, envelhecem.

Estava eu lendo o agradabilíssimo Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova, de Ruy Castro (2008, Companhia das Letras), quando, lá pela página 250, de repente, não mais que de repente, a tese ganhou mais um caso prático.

Carlinhos Lyra, um dos grandes nomes da nossa música, figura importante no nascimento da Bossa Nova, definido por Tom Jobim como o maior melodista do movimento. Lyra, por volta dos seus tenros 20 anos, participou da fundação de uma célula do Partido Comunista em Higienópolis, São Paulo. “De esquerda”, sentia-se por vezes frustrado em fazer apenas músicas alienadas ao lado do parceiro Ronaldo Bôscoli (“de direita”) e, em meio a seu processo de afastamento da turminha da Bossa, passou a compor coisas mais engajadas.

Depois do prelúdio, a comprovação da tese. O mesmo Lyra, exatamente à mesma época (1960), participou da criação do Centro Popular de Cultura, no Rio de Janeiro. A idéia inicial dos fundadores era criar o Centro de Cultura Popular, mas Lyra foi contra, sob a seguinte argumentação, retirada do livro de Castro:

Sou contra“, ele votou. “Sou burguês. Não faço cultura popular, faço cultura burguesa, não tem jeito.” O livro continua, delicioso (comentário meu entre parênteses):

Alguns o olharam horrorizados. Como alguém tão inteligente e alinhado com as aspirações populares poderia dizer-se ‘burguês’? (talvez porque ser inteligente não significa ser hipócrita) Carlinhos explicou que o fato de gostar de samba de morro não o fazia ter vontade de mudar-se para a favela e que, portanto, não saberia produzir o tipo de música que aqueles sambistas faziam. Além disso, usava camisas de zuarte, compradas na Casa da Pátria, na praça Quinze, apenas porque estavam na moda.

Lyra ganhou adeptos em sua lúcida explanação e o nome escolhido foi Centro Popular de Cultura.

Pena que a lucidez juvenil de Lyra na música não alcançasse a política, fazendo-o perceber que, para ser um “burguês comunista”, o mínimo que deveria fazer seria alienar todos os bens familiares em favor do “proletariado”, ou de um Estado “benevolente” que os redistribuiria aos operários. Mas aí deixaria de ser um “burguês”. Dar leite para as crianças pobres, como dizia o pai de Lyra, não era o bastante.

E justo ele, que não queria ser alienado como Bôscoli. Provavelmente, era mais. Mais alienado. Mais um dos 6 entre 10 comunistas juvenis.

Duas faces da mesma moeda

Responda rápido: se tiver de escolher, você prefere ser tachado de comunista ou nazista? Não vou tentar advinhar as respostas, mas fato é que muitos de nós já contaram vantagem em rodas de amigos e até conquistaram algumas moças “revolucionárias” por se dizerem comunistas, defensores da sociedade livre de repressão, sem a exploração do homem pelo homem. Já nazista… bem, acho que ninguém tiraria bons frutos dessa alcunha.

A pergunta é: por que a diferença?

O regime nazista/fascista é das maiores crueldades que já existiu, em que se exterminavam pessoas apenas por não pertencerem à “superior” raça ariana. Entre poloneses, eslavos e judeus (sim, os judeus não têm o monopólio do sofrimento, ao contrário do que muitos pensam) calcula-se algo entre 12 e 16 milhões de mortos durante os 12 anos de Hitler no poder.

Já o comunismo era pacífico, não é verdade? Lênin, Stálin, Mao, Castro, Che apenas mataram ou ordenaram a morte de alguém quando isso era absolutamente indispensável para que a revolução se mantivesse viva e os menos favorecidos pudessem chegar ao topo, certo?

Nada mais errado. O comunismo é, de longe, o regime mais genocida que já houve no planeta. Calcula-se que apenas na União Soviética e na China tenham sido assassinados mais de 80 milhões de pessoas por discordarem do regime. Stálin protagonizou uma das maiores manchas vermelhas (de sangue humano) da História, quando, entre 1932-33, fez morrer de fome entre 5 e 10 milhões de ucranianos (a grande margem de erro coloquem na conta da KGB) no que ficou (pouco) conhecido como Holodomor e pode ser visto abaixo.

O quase sempre idolatrado Che Guevara – um sujeito barbado e com uma boina que muita gente mal-informada usa como estampa de camiseta, sem saber do assassino que levam no peito – disse ao longo de sua felizmente curta trajetória pérolas como “Eu não preciso de provas para executar um homem”, “Querido pai, hoje descobri que realmente gosto de matar”, “Minhas narinas se dilatam quando aprecio o odor acre da pólvora e do sangue”, “Não tenho casa, não tenho mulher, não tenho pai, não tenho mãe, não tenho irmãos. Meus amigos só são amigos quando eles pensam ideologicamente como eu”.

E as semelhanças não ficam no gosto pela morte. O interessantíssimo vídeo abaixo mostra que Marx e Engels, patronos do comunismo, falavam abertamente em seus escritos sobre o “lixo racial” que deveria fazer parte do “holocausto revolucionário”. Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, enfatizava a pequena diferença entre eles e o comunismo de Lênin, que serviu de base para toda a propaganda inicial do regime nazista. A diferença entre eles é que o comunismo era internacional-socialista e o nazismo, nacional-socialista. Apenas.

Por que não aprendemos nada disso então? Por que para nós o comunismo é explicado como uma alternativa positiva e igualitária de governo que infelizmente não prosperou e o nazismo como a maior praga da História, quando os dois deveriam ficar juntos neste último grupo?

O ponto fundamental para isso está na 2ª Guerra Mundial. Hitler e o nazismo saíram dela não apenas derrotados, mas dilacerados e condenados eternamente às merecidas trevas. Stálin e o comunismo, ao contrário, estavam do lado vencedor e, mais importante, a União Soviética foi peça fundamental para a virada no conflito e a vitória. O mundo foi dividido em dois e os vermellhos-sangue-humano tiveram então um gigantesco campo para difundir suas idéias como bem entendessem. Com sua bonita retórica, conquistaram muitos “intelectuais” que achavam cult ser anticapitalista e, travestidos de sábios, passaram a difundir o discurso e as benesses do comunismo na imprensa e em universidades. Pronto, estava fechado o quadro para que o comunismo chegasse aos céus e suas atrocidades ficassem muito bem escondidas nas trevas.

Censura social

Longe se vão os tempos de censura. Hoje, por mais que aqui, ali e acolá apareçam resquícios, perigosos, de medidas limitadoras, não há como negar que a liberdade de expressão, em linhas gerais, está estabelecida.

Será mesmo? Sim e não. Por um lado, de fato a censura oficial, conforme ficou conhecida sobretudo durante o regime militar, praticamente inexiste no Brasil. Nunca um governante foi tão chacoteado em rede nacional como Lula – estão aí Casseta & Planeta, Pânico e CQC para comprovar – e pensar num mundo ou num país sem qualquer tipo de censura, ou seja, em que um governo aceitasse sem reação toda e qualquer crítica a si seria tão sem sentido como imaginar exatamente a mesma atitude de qualquer indivíduo.

Porém, outro tipo de censura ganha força incrível nos últimos anos. Trata-se do que chamo de censura social, normalmente patrocinada por grupos de interesse e/ou pretensos intelectuais. Tais grupos criam verdades que passam a gravitar com ares de absolutismo científico, contras as quais qualquer palavra merece a execração pública.

Esse tipo de censura pode ser mais perigoso do que a oficial. Enquanto esta última se expõe, mostrando claramente o seu propósito e abrindo a porta para que um Julinho da Adelaide ou O Pasquim se preparem para a canetada e até consigam driblá-la, a segunda é velada, ganha espaço na surdina e cria fatos em que as reais pretensões dos formadores de opinião ficam escondidas por baixo de um aparente caráter científico. No fim, a censura oficial torna-se dispensável, pois a própria sociedade se encarrega de refutar e marginalizar qualquer caminho diferente àquele que foi apresentado a ela como o correto, o verdadeiro.

Nos próximos dois posts, vou falar um pouco sobre duas dessas verdades fabricadas em laboratório, o dito Aquecimento Global e a dicotomia Fascismo e Comunismo.

Pensemos, sempre. Dá um pouco de trabalho, é verdade, mas é melhor do que engolir tudo o que encontramos pré-fabricado por aí e viver num mundo paralelo que pouco mais tem do que pura alienação direcionada.