Eu, Muricy

Sou um admirador confesso de Muricy. Não tanto pela sua capacidade estratégica de desenvolver um amplo leque de jogadas para suas equipes. Sob esse aspecto, embora tenha um inegável valor, demonstrado, entre outras passagens, pelas inúmeros bailes sobre Vanderlei Luxemburgo, freguês de carteira, Muricy fica atrás de outros treinadores. A admiração é maior pela competência de Muricy em dotar seus times de um formidável espírito competitivo, que os torna dificilmente superáveis e, sobretudo, pelo caráter de Muricy, algo infelizmente raro em nossos dias.

A admiração foi crescendo à medida do passar dos anos, alimentada pelas atitudes de Muriça dentro e fora de campo, acompanhadas por mim cada vez com maior atenção. Talvez por isso, talvez por excesso de presunção, tenho hoje a sensação de que conheço o Muricy, apesar de nunca termos trocado uma palavra. É baseado nessa sensação que, nas próximas linhas, vou falar um pouco daqueles que acredito terem sido os principais motivos da histórica recusa do treinador em assumir o comando da seleção brasileira.

Em geral, as linhas de explicação para o surpreendente rumo tomado pelas coisas na última sexta-feira têm seguido duas linhas. A primeira que coloca a responsabilidade sobre o desfecho sobre a diretoria do Fluminense, que não liberou Muricy, obrigando-o a, seguindo o seu digno caráter, cumprir a palavra com o clube e manter-se nas Laranjeiras. A segunda que passa a responsabilidade para o próprio Muricy, que não teria sentido em Ricardo Teixeira a confiança de que seguiria até 2014 e, por isso, declinado. A diretoria do Flu teria assumido para si a decisão simplesmente para poupar Muricy do desgaste público provocado por uma decisão de afronta à “Pátria de chuteiras”.

A mim nenhuma das explicações convence, embora ambas tenham parcela da verdade. O ponto crucial para entender tudo o que se passou pela cabeça de Muricy a partir do convite – que a CBF, amadora e prepotente como sempre, julgava ser convocação – de Teixeira está no semblante do treinador assim que se despede do manda-chuva na reunião de sexta, logo depois de tentar um aperto de mãos não correspondido e flagrado pelas câmeras da ESPN Brasil. O rosto do Muricy que saiu da mesa e se dirigiu meio sem rumo para a saída pode ser descrito de várias maneiras, jamais como o de alguém que acabou de ouvir aquilo que desejou durante toda a carreira. Muricy estava sem graça, transmitia um certo mal-estar, claramente desconfortável. Ao vê-lo, não pude pensar em outra coisa que não aquela situação, pela qual a maioria já passou, de se esperar ansiosamente por determinada coisa e se decepcionar quando essa coisa finalmente acontece.

Até aí, a segunda explicação se mostraria correta. Muricy, e não o Fluminense, teria decidido o não à seleção. De fato, acredito que o caminho vai por essa via, mas não por falta de confiança em estar à frente da equipe em 2014. Ora, esse tipo de garantia não existe no futebol, Muricy experimentou essa realidade recentemente no Palmeiras e não seria ingênuo a ponto de balizar sua decisão sobre treinar o principal time de um país em algo que nunca exigiu, em qualquer clube por que passou. Ademais, Muricy confia em seu trabalho o suficiente para acreditar que iria até 2014, com ou sem garantias.

O que Muricy preza não é a confiança em cargos, mas sim a confiança em pessoas. Confiança que o faz sentir-se à vontade para fazer o trabalho a seu modo, com alguém, pelo menos um, com quem possa contar nos momentos difíceis. Um parceiro. Foi o que teve em Fernando Carvalho, no Internacional, e em Juvenal Juvêncio, no São Paulo. Foi o que julgou, erradamente, que teria no Palmeiras, com Belluzzo, que roeu a corda.

Muricy não conseguiu enxergar em Ricardo Teixeira, nem sequer capaz de retribuir um mero aperto de mãos, esse parceiro. Enxergou nele um chefe, a quem teria de se submeter ao longo de quatro longos anos. Engolindo sapos, aguentando uma nojenta arrogância e ainda sabendo que, à primeira trovoada, seria ele, o chefe, o primeiro a abandonar o barco. Como sempre diz, Muricy tem filhos a quem quer deixar bons exemplos. O do capacho submisso certamente não seria um.

Tudo isso na conta, Muricy saiu do encontro tendo de um lado a imensa vontade de dirigir a seleção brasileira e, de outro, a sensação de que provavelmente teria de abrir mão de muito em que acredita, calar a boca para muitas coisas erradas. O sonho se transformou em dúvida. Valeria a pena? Acredito que a resposta de um Muricy desimpedido ainda seria “sim”, mas, a partir dessa dúvida, a posição do Fluminense – absolutamente correta, diga-se de passagem – contou o suficiente para fazer o treinador seguir a palavra empenhada e aceitar a vontade tricolor.

Se tivesse ido com a cara de Teixeira, se o semblante fosse outro, leve, alegre, positivo, após a reunião, é certo que Muricy não teria sido tão condescendente com a decisão do Fluminense e, de forma análoga, a diretoria tricolor também não seria tão irredutível em sua posição. Do jeito que foi, o não do Flu deve ter até soado como um alívio para Muricy. Dirimiu suas dúvidas. Em prol da palavra. Em prol do caráter.

Muricy não foi à seleção, talvez nunca mais tenha outra chance, mas ganhou mais alguns pontos comigo e com aqueles que o admiram. E o cargo tão sonhado caiu no colo de Mano Menezes, que agora já aparece na primeira entrevista exclusiva à RGT…

Coisas do Brasil que Fede (CBF)

Estamos a pouco mais de quatro anos para o início da Copa do Mundo em terras nacionais. A essa altura, as obras nas diversas arenas contempladas a abrigar o evento já deveriam caminhar com um mínimo de vigor, posto que ou os estádios atuais não apresentam condições satisfatórias ou simplesmente não existem.

Ao invés disso, e como infelizmente era de se esperar, nenhuma pá de cimento, cal ou assemelhados foi movida até agora e o que se tem já é suficiente para indicar a podridão que circundará o evento nacional.

Falemos do imbróglio que envolve o Morumbi, sede natural de São Paulo ao Mundial. A questão não tem nada de técnica, como tentam vender. É puramente política. O algoz do estádio paulistano também não é Jerome Valcke, secretário-geral da FIFA, mas Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), do comitê organizador da Copa no Brasil e membro do comitê executivo da FIFA, conjunção de atribuições inédita e que, por si só, é absolutamente imoral e repugnante.

Alguns fatos. Tecnicamente, o Morumbi de fato não está preparado para receber jogos de Copa do Mundo. Nenhum dos estádios brasileiros, e nem mesmo o país, estão. Dos doze locais de jogos pré-selecionados, seis não passam de projetos ou esqueletos e os outros seis necessitam de variadas reformas para se tornarem aptos. As recentes tragédias aquáticas em São Paulo e Rio de Janeiro, de tão atrozes, fazem desnecessária qualquer discussão mais alongada sobre a atual incapacidade do país em abrigar o maior evento do mundo – fato que a D. FIFA insiste em fingir que não existe, no seu demagógico rodízio continental de sedes despreparadas, que se iniciará na África do Sul.

Mas, se ninguém tem condições, por que a perseguição apenas ao Morumbi?

Outros fatos. Num movimento que se iniciou com o início de sua gestão, em 2006, e se aprofundou no último ano, o presidente do São Paulo Futebol Clube, Juvenal Juvêncio, tornou-se a principal voz de oposição primeiro à Federação Paulista de Futebol e, depois, à CBF. Por trás dessa oposição parece estar a convicção do folclórico presidente sampaulino de que os clubes devem ser os donos dos próprios narizes, cortando o cordão umbilical que os torna dependentes das federações e afrontando-as quando necessário.

A ideia de Juvenal, claro, não agradou ao fortemente materialista Ricardo Teixeira. O dono do futebol brasileiro torceu o nariz e passou a mostrar o que poderia fazer ao São Paulo se este mantivesse seus absurdos anseios de liberdade. Para mostrar poder, nada melhor do que ter ferramentas para tal. E isso ele tem. Alto executivo da FIFA, trabalhou com força nos bastidores para que o Morumbi, escolha óbvia à abertura do Mundial – está na maior cidade e é o segundo maior estádio do país – fosse visto com maus olhos pela mandatária do futebol mundial e passasse a ser o foco único de críticas, como se faltassem apenas as obras no palco tricolor para que a Copa no Brasil fosse um sucesso.

A recente eleição de Fábio Koff para mais um mandato à frente do Clube dos 13, patrocinada por Juvenal Juvêncio à revelia de Ricardo Teixeira, que tinha predileção por Kléber Leite, entornou ainda mais o caldo para o Morumbi. Por uma dessas coincidências do destino, um dia após a vitória de Koff veio à tona uma notícia do Rio de Janeiro – por meio de O Estado de S. Paulo – segundo a qual um alto executivo da FIFA informava que Valcke viria ao Brasil ainda esta semana, em caráter de urgência, para excluir definitivamente o Morumbi da Copa – notícia até agora desmentida pela própria FIFA. A pergunta que surge de tamanha coincidência é: qual o único alto executivo da FIFA que mora no Rio de Janeiro?

Independente do que seja declarado por Valcke na sua visita relâmpago que se inicia amanhã no Brasil, a disputa ainda deve ter vários novos capítulos. De um lado, Dr. Ricardo e sua forma pouco cristã de entrelaçar poderes na busca por conseguir fazer prevalecer seus anseios cá e acolá. De outro, o São Paulo e o poder público paulista, que tem sido enfático ao afirmar que não colocará centavo que seja na construção de novo estádio em São Paulo.

É esse o cheiro que deverá prevalecer na organização da Copa no Brasil. Isso para não falar nos atrasos de obras financiadas por dinheiro público, que deverão desembocar na urgência que, por lei, torna as licitações dispensáveis e abre a caixa de Pandora tão desejada por alguns, a despeito de todos os males nela contidos. Pior do que esgoto.

E ainda há os que se indignam pelo fato de eu não torcer para a seleção brasileira na Copa. A seleção que tem como sede para seus jogos amistosos o estádio do Arsenal, na Inglaterra. A seleção que inunda os cofres da CBF com milhões ano após ano aplicados em instalações suntuosas e sabe-se lá onde mais, mas nunca vistos nem de binóculos pelos honrados senhores que construíram em campo a marca Seleção Brasileira desde remotos tempos. A seleção que aliena a sociedade durante um mês em que usualmente são aprovadas medidas estapafúrdias nas câmaras legislativas. A seleção que se recusa a dividir alojamentos mais modestos com seus conterrâneos, nos Jogos Olímpicos. A seleção que não é do Brasil. É da CBF.

Não, para ela não torço. E com orgulho.