Como um campeão deve ser

Com arrasadores 3 sets a 0 sobre Cuba, o vôlei masculino brasileiro conquistou, domingo passado, o tricampeonato mundial (2002, 2006, 2010), na Itália. O título, além de confirmar a equipe dirigida por Bernardinho como um dos maiores fenômenos da história do esporte – desde 2001, somam-se ao tri mundial oito títulos da Liga Mundial e o campeonato olímpico de 2004 – teve para mim um gosto especial, por jogar por terra o abominável espírito politicamente correto que tem reinado entre nós.

Estávamos na segunda fase do torneio, o jogo era contra a Bulgária e o regulamento esdrúxulo patrocinado pela Federação Internacional de Vôlei premiaria a equipe derrotada com um grupo mais fácil na fase seguinte, longe dos fortes cubanos e perto das relativamente inexpressivas República Tcheca e Alemanha.

Como verdadeiros campeões, os jogadores brasileiros decidiram, apoiados por Bernardinho, a única coisa racional que um time em busca da conquista poderia decidir. Entregaram o jogo para os búlgaros. Saíram de quadra defenestrados em três sets, vaiados por quase todo o ginásio italiano e achincalhados por uma boa porção de analistas brasileiros – em geral, os mesmos que meses atrás condenaram a Ferrari por querer o título do Mundial de Pilotos de Fórmula 1 e, por isso, ordenar uma troca de posições entre Felipe Massa e Fernando Alonso, no GP da Alemanha.

O campeonato seguiu. O Brasil passou com dificuldades pelos tchecos e trucidou alemães, italianos e, por fim, os pobres – em todos os sentidos – soldados de Fidel. A final foi muito mais tranquila do que se imaginava, sobretudo tendo em vista que Cuba derrotara o Brasil na primeira fase do Mundial. A maioria dos críticos curvou-se aos méritos da maior equipe nacional de todos os tempos em todas as modalidades, mas ainda houve os que insistissem no pseudo-moralismo, enxergando na facilidade da vitória sobre Cuba a prova de que a “entregada” para os búlgaros fora desnecessária e manchara o triunfo.

Um bando de falastrões que provavelmente nunca competiram na vida. Se o tivessem feito, saberiam que o moralismo é bonito para quem, do alto de uma confortável posição, ama a retórica, mas de nenhuma valia para quem está na arena de disputa, sedento pela vitória a qualquer preço, desde que dentro das regras. Foi o que fizeram Bernardinho e seus comandados. De fato, possivelmente terminassem como campeões mesmo vencendo a Bulgária e antecipando o confronto com Cuba. Mas qual seria o sentido de se expor a um considerável risco de nem sequer chegar às semifinais se havia um outro caminho, muito mais aprazível, aberto?

O que os hipócritas precisam aprender, de uma vez por todas, é que competições existem para ser vencidas, para além de disputadas. E isso ninguém no Brasil sabe fazer melhor do que Bernardinho e seus garotos. Levanto-me, pois, e os aplaudo com entusiasmo, triste por serem exceção e não regra num país que homenageia a fraqueza em detrimento do mérito.

Campeões com justiça

A maior demonstração de que a Espanha ostenta hoje, indiscutivelmente, a melhor seleção do mundo foi dada pela Holanda, que, ciente de que não poderia fazer frente aos ibéricos na bola, optou por aquela que seria a sua única chance de êxito e que Paulo Vinícius Coelho tão bem definiu como “anti-futebol total”.

Se os laranjas terminassem a primeira etapa da final de ontem com três jogadores expulsos, não seria demais. Em escala decrescente, De Jong, Sneijder e Van Bommel fizeram o suficiente para merecerem esse destino, não fosse a condescendência do árbitro inglês Howard Webb.

Condescendência sem a qual muito provavelmente a vitória espanhola não seria tão difícil quanto foi, consolidando-se ainda durante os 90 minutos regulamentares. Mas o futebol não é feito de hipóteses e, quando Robben partiu sozinho para o gol de Casillas, o mundo inteiro viu a Holanda campeã do mundo. Como não poderia deixar de ser, eles, os deuses de futebol, também estavam assistindo à grande decisão e, para a felicidade geral de todos os amantes do esporte bretão, deixaram aquela perna direita de Casillas ali, perdida no canto direito enquanto ele saltava para o lado oposto. O correto chute de Robben desviou no pé ali devidamente esquecido pelos deuses, não entrou e o futebol sorriu. O futebol venceu.

O gol de Iniesta, nos instantes finais da prorrogação, fez justiça ao melhor futebol da Copa. Fez justiça à seleção que colocou as outras todas na roda, tocando daqui pra lá e de lá pra cá sem que os adversários se aproximassem da pelota. Uma seleção que venceria mais fácil estivesse Fernando Torres em condições de jogo. Fez justiça ao próprio Iniesta, que não merecia sair de campo como aquele que perdera os gols que faltaram para a Espanha ser campeã mundial. Merecia, sim, sair como um dos candidatos a melhor da Copa, a melhor do mundo. E assim saiu.

Espanha campeã mundial. Nada mais justo.

Quem ouviu a narração do gol de Iniesta feita por Raul Varela, na Rádio Marca, se não chegou às lágrimas absolutamente comoventes de Casillas, teve pelo menos a noção do que o título significou para os espanhóis. Fantástico.

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O bolão. Vocês não conseguiriam imaginar como esse jogo, criado sem maiores expectativas, mexeu comigo durante os 30 dias de competição na África. A ponto de criar uma afeição que, quando terminada a final, fez misturarem-se em mim uma sensação de imensa alegria, pela vitória, e uma de triste desencanto pelo fim da brincadeira. O que farei nas próximas jornadas sem ter de assistir a todos os jogos para atualizar os resultados minutos depois? Como serão os meus dias sem as dores de cabeça criadas pelas sempre presentes polêmicas de última hora? O que fazer para passar o tempo durante os quatro anos de espera até o próximo?

Antes de passar aos resultados finais, não posso deixar de agradecer àqueles que me fizeram companhia diária, sempre a postos com comentários divertidos, pertinentes, bem pensados. Represento-os aqui por Carlos Urso,  Isnardo Villaroel, Paulo Furquim, Ramón Fernandez, João Paulo e Fernando Oliveira, parceiros do primeiro ao último instante, cheios de entusiasmo, desportividade, gentileza. Obrigado.

O resultado final da Copa acabou finalizando o nosso jogo com um desequilíbio que não houve em nenhum momento da disputa. Por ter acertado campeão, vice, terceiro colocado e artilheiro, terminei a competição com 1.671 pontos, 236 à frente do segundo colocado, o professor Ramón, que terminou a incrível recuperação iniciada a partir do 39º lugar da primeira fase acertando a Espanha campeã e a Holanda vice.

Fábio Corrêa fechou o pódio, beneficiado pelo acerto exato da Alemanha em terceiro e do Uruguai em quarto. A seguir, ficou Persio naquela que provavelmente é a colocação mais ingrata, 45 pontos atrás de um lugarzinho entre os premiados.

Merece ainda destaque David Escudero, nosso colega mexicano que passou a primeira fase quase que inteira em primeiro e não terminou entre os três de cima porque acabou caindo no conto do Brasil e mudou o seu palpite inicial, Espanha campeã. A 7ª colocação foi o preço a pagar. Muito obrigado pela participação desde a América do Norte, David!

Por fim, não poderia deixar de mencionar Maurice Gremaud, que passou boa parte da fase final na frente, mas acabou perdendo fôlego na reta final, prejudicado pelos palpites de Holanda campeã e Argentina vice.

Espero vocês de volta em 2014!

Viva España!

Espanha campeã mundial! A Copa do Mundo está nas melhores mãos possíveis. Venceu o futebol.

Diego Forlán foi coroado o melhor jogador do torneio. Parabéns à FIFA pela justíssima decisão, defendida ontem por aqui.

David Villa, Thomas Müller, Wesley Sneijder e o próprio Forlán dividiram a artilharia, com cinco gols.

Thiago Ribeiro, Ramón Fernandez e Fábio Corrêa, nesta ordem, foram os vencedores do bolão, que tanto nos animou ao longo dos últimos 30 dias.

Logo mais – se o trânsito deixar, ainda hoje – serão postadas as resenhas completas sobre a final da Copa, a Copa como um todo e, claro, o material completo e derradeiro do bolão.

Fórmula (3 em) 1

Hoje excepcionalmente não contaremos com as contribuições do Marcelo e do Daniel para o blog. No GP da Turquia eles voltam.

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Será?

por Thiago Barros Ribeiro

Aos olhos de todos os que acompanham a Fórmula 1, Mark Webber é mais um daqueles pilotos competentes, em alguns momentos até um pouco mais do que isso, mas sem a pitada a mais do talento, do brilhantismo, da estrela que constrói os campeões. Está na mesma categoria de outros bons, mas não extraordinários, pilotos da história, como Berger, Patrese, Barrichello e Coulthard.

Nas duas últimas semanas, porém, Webber se credenciou a saltar deste para o degrau acima, onde se localizam os campeões. Sobrou na pista tanto em Barcelona quanto em Mônaco. Além dos 50 pontos e da liderança do campeonato agora no bolso, o feito ganha ainda mais relevo por dois motivos: as pistas espanhola e monegasca têm nada em comum, o que mostra a versatilidade do australiano, e Vettel, o companheiro que comeu poeira em ambas, não é um piloto qualquer.

Se continuar no mesmo ritmo, Webber será campeão, não há dúvidas. Mas o “se” ainda alimenta desconfianças nada irrelevantes. Primeiro, porque no ano passado, mais ou menos à mesma altura do campeonato, Webber chegou a despontar como grande rival de Button na disputa pelo título e depois se perdeu pelo caminho. Segundo, porque não é coisa simples o salto de categoria, dos bons para os campeões, do qual estamos falando. Lembro-me apenas de dois que conseguiram realizá-lo: Jenson Button e Damon Hill. Ambos nunca tiveram pinta de campeão. Até serem campeões. Será Webber o terceiro?

Aproveitando o GP de Mônaco, e mudando totalmente o rumo da prosa, é sempre nessa pista que me lembro – e tenho a convicção de que estou certo -, por que considero Ayrton Senna o maior de todos os tempos. As ruas do principado são as únicas na Fórmula 1 que permitem a um carro constantemente mais lento chegar à frente dos mais rápidos. É, pois, a única em que o braço de um piloto pode fazer uma diferença a ponto de significar uma vitória diante de bólidos mais velozes.

Senna venceu 6 vezes em Mônaco. Em três das vitórias, levou um carro reconhecidamente inferior aos dos rivais ao primeiro posto. A Lotus de 87 e as McLaren de 92 e 93 não teriam condições de vencer não fosse Ayrton o condutor. Isso sem falar na fraca Toleman de 84, que, nas mãos de outro chofer, jamais chegaria próxima à façanha de vencer, antes da interrupção pela chuva.

Desde Ayrton, nunca mais um piloto em clara inferioridade de equipamento conseguiu vencer regularmente, como ele fazia em Mônaco. Pode ter acontecido vez ou outra, com um ou outro. Mas nunca se tornou regra como era com o brasileiro em Mônaco. Ele, o maior de todos e que tanta falta faz.

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Em tempo, Daniel não vai escrever hoje, mas informa que a ultrapassagem de Schumacher sobre Alonso será revertida. Ao que parece, como a corrida só pode ser considerada reiniciada pra valer quando o primeiro colocado passa pela linha de chegada, e neste caso quando o primeiro colocado passou a corrida terminou, não valeu nada. Pra completar, o comissário da prova, Damon Hill, não deve ter ficado muito triste por tirar pontos de Schumacher. Alonso fica a apenas três da dupla da RedBull na disputa pelo campeonato.