Fórmula (3 em) 1

Menino maluquinho

por Daniel Marchi

E o GP de Constantinopla foi uma delícia. Carros próximos nas primeiras posições e pilotos com vontade de vencer. Não fosse a bobagem histórica protagonizada por Vettel, já teríamos muito a comentar. Por exemplo, para minha surpresa, a estratégia ótima nas corridas tem sido fazer apenas uma parada. Pelo o que conhecemos da FIA, ela deve solicitar para que o fabricante de pneus do próximo ano (chute: Pirelli) produza compostos menos duráveis.

No quadro de forças vemos Red Bull e McLaren, nessa ordem, ocupando as primeiras colocações. Estão consistentes e não devem ser ameaçadas no próximo terço de campeonato. Na seqüência, a Ferrari está fazendo uma força danada para ser superada pela Mercedes. Se não reagir logo vai ficar atrás até da Renault, fato que já vem acontecendo em algumas classificações. Para completar a fase nada boa, Massa está apagado e Alonso vem cometendo erros anormais para o seu padrão de desempenho.

Voltando aos acontecimentos do final da prova. Sebastian Vettel fez um grande favor ao tornar este GP inesquecível. De imediato não me lembro de uma bobagem tão grande cometida por um piloto de alto nível numa equipe de ponta. Calculou muito mal a ultrapassagem sobre Webber e, pior do que isso, mostrou que tem miopia quando observa o campeonato como um todo.

Não percebe que está com o melhor equipamento do ano e que tem capacidade para reagir à excepcional fase vivida pelo companheiro de equipe e resolver as coisas sem assumir riscos tão grandes. Ainda, mostrou imaturidade e falta de profissionalismo ao sair do carro, indicando com a mão que Webber era maluco (não obstante eu, torcedor, achar o máximo quando isso acontece). Resumindo, fez molecagem, no mal sentido.

PS: Um domingo de automobilismo em dose calavar. F-1, Indy 500 e Coca-Cola 600, na Nascar.

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Saudosos Malucos

por Thiago Barros Ribeiro

Ok, Vettel foi afoito e acabou pagando caro pelo excesso de arrojo num momento inadequado. A sua maior pena foi justamente perder, no mínimo, os 18 pontos que faria ao terminar em segundo e que muito o ajudariam na disputa pelo título.

Isso posto, discordo plenamente de qualquer crítica mais dura ao jovem e talentoso alemão. Discordo por ser incoerente. Não podemos criticar um piloto por ser mais arrojado do que o normal para os padrões atuais se vivemos reclamando da falta de emoção e do modorrento bom mocismo que há tempos predomina na enfadonha Fórmula 1.

Quantos de nós – eu muitas vezes – não lembram saudosamente dos malucos da década de 80, de pilotos que quase se matavam dentro da mesma equipe em busca de uma vitória, de um ponto a mais que fosse? Eram os adoráveis Piquet e Mansell na Williams, os brilhantes Senna e Prost na McLaren, que levavam à risca a máxima de que o maior rival é aquele que dirige na mesma equipe. Camaradagem entre eles? Jogo de equipe? Nem por brincadeira.

E aí, aparece um Vettel, um Hamilton – e hoje até um Button – que fazem lembrar os bons e velhos tempos, que têm sangue quente nos olhos e nas veias, que erram sim, como erravam Senna, Mansell – erros por vezes próximos do absurdo, como o de Vettel hoje. Erram por querer demais. E vamos criticar? Devemos é glorificar.

Em tempo, é importante notar um aspecto que tem sido decisivo para essa nova postura dos pilotos, agora com tanta vontade de vencer. Se antes a mínima diferença de 2 pontos entre os dois primeiros- 10 ante 8 – tendia a acomodar um piloto na segunda colocação, hoje a quase abissal distância de 7 pontos entre eles é que faz com que Vettel, Button e todos os outros vejam a vitória com tanta água na boca. Bela alteração.

Quanto ao campeonato, a Ferrari parece que subiu no telhado. Se tudo continuar na mesma toada, os quatro de RedBull e McLaren, e apenas eles, ainda vão brigar muito e oferecer não menos espetáculo na contenda.

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Gênios podem ser loucos, mas não são burros

por Marcelo Cerri

O GP da Turquia foi mais uma mostra de que vivemos um dos melhores anos da história da F1. Falaremos de 2010 aos nossos filhos com aquele mesmo saudosismo que nossos pais nos falam dos anos 80. Além de mudanças nas regras que proporcionaram corridas mais combativas, temos também pilotos que têm sangue quente nas veias, que buscam a vitória a qualquer custo. Em alguns momentos esses gênios parecem ter enlouquecido, agem como irresponsáveis. Mas qual grande campeão não tem no currículo uma meia dúzia de maluquices? Qual grande campeão não teve brigas memoráveis com seus companheiros de time? Que eu me lembre, somente Schumacher nunca teve grandes arranca rabos com seus companheiros, o que ajudou a fazer de seus anos de reinado os mais chatos que a F1 já vivenciou.

Vimos ontem duas brigas entre companheiros que permanecerão na memória de todo grande admirador de automobilismo. Hamilton e Button protagonizaram um momento mágico, pensei até que fossem se tocar e acabar em lambança. Talvez o final trágico tenha sido evitado pelo que acabara de acontecer aos dois pilotos da Red Bull, o que deve ter feito com que Martin Whitmarsh ordenasse o fim da brincadeira. Mas a grande polêmica do dia foi o acidente entre Sebastian Vettel e Mark Webber. À primeira vista, parecia que o garoto alemão tinha enlouquecido: já estava quase à frente do companheiro quando, de repente, joga o carro para a direita acertando em cheio o inocente e experiente australiano. Mas antes de crucificar o geniozinho incauto, partamos do princípio que gênios erram por excesso de arrojo, por riscos desmedidos, mas não por burrice.

Muitos estão dizendo que Webber permaneceu em seu traçado, não mexeu o carro, portanto não cometeu erro algum. Mas os dois não estavam em uma reta infinita: havia uma curva à esquerda logo à frente, o que os obrigaria a fazer a tomada à direita. Entretanto o piloto experiente resolveu não fazer a curva e permanecer espremendo o menino afoito na parte interna. Tudo bem, Vettel errou ao achar que Webber fosse fazer a tomada. Mesmo que estivessem no limite para tal, não se pode prever o que o outro fará. Porém, se o alemão tivesse permanecido em linha reta, os dois não fariam a curva, espalhariam, e seriam ultrapassados pelas duas McLaren que vinham babando atrás. Portanto, para se defender do companheiro, Webber teria dado as duas primeiras posições aos adversários. Isso sim é que é loucura! Concluindo, o erro de Vettel foi não prever que seu companheiro de equipe fosse maluco. Seus gestos pós-acidente, mesmo que indevidos, não foram por acaso.

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