Balanço Coisas Mais da Copa

O sentimento de vazio é o mesmo a cada grande evento esportivo que se encerra. Por piores ou melhores que sejam, não há Copa, não há Olimpíadas que terminem sem deixar em mim mais que uma ponta, um cordão inteiro de saudades.

A Copa do Mundo da África do Sul foi marcante e inesquecível por variados motivos. Pela alegria do povo africano em receber o evento, pouco preocupados se os resultados de suas seleções em campo eram decepcionantes. Pelas ensurdecedoras vuvuzelas que, por mais irritantes, felizmente não foram proibidas. Seria um crime retirar dos anfitriões parte de sua tradição em nome dos ouvidos alheios. Pelo polvo Paul, alemão topetudo que ficará na história como o único vidente de todos os tempos a acertar todas as suas previsões.

Dentro das quatro linhas, os 16 jogos eliminatórios da fase final melhoraram em boa medida o sofrível nível técnico da primeira etapa. Ainda assim, confesso, esperava mais. Os últimos quatro anos de futebol pelo mundo me fizeram acreditar que teríamos na África um torneio marcadamente ofensivo.

A realidade me desmentiu, com a grande maioria das seleções preocupando-se primordialmente – algumas unicamente – em lutar para que o zero inicial do adversário se mantivesse até o fim. Como sabe quem acompanha o blog, não sou daqueles que recriminam a priori a opção pela defesa. Acredito ser essa a alternativa mais eficaz para determinadas seleções, como comprovaram japoneses e neozelandeses na África. E cada um tem que buscar o futebol que lhe dê as maiores chances de sucesso. Apenas não consigo derivar encantamento e satisfação ao ver uma dessas equipes em ação. Minha torcida acaba naturalmente do outro lado.

O resultado do privilégio à defesa foi a segunda pior média de gols da história das Copas, atrás apenas, e por pouco, do Mundial da Itália, em 1990 (2,29 contra 2,21 gols por partida) e uma Copa que, embora mais divertida, patinou em nível totalmente semelhante ao de 2006.

A grande e reconfortante diferença foi que, ao contrário de 2006, em que a retranca italiana saiu merecidamente premiada, ficou com o título uma das poucas seleções que buscou o gol em todos os momentos. O toque de bola espanhol sempre teve como objetivo furar fortes bloqueios adversários, sempre tomou a iniciativa de um ataque que, se não conseguiu marcar gols de sobra – de fato, e paradoxalmente, a ofensiva espanhola concretizou o mínimo necessário para a conquista, tendo em seus oito gols o pior ataque entre todos os campeões, desde 1930 -, mostrou ao mundo que a glória é possível para times que preferem construir a destruir.

Escolher os melhores e piores do torneio não foi tarefa fácil. Após uma pré-seleção, restaram 20 jogadores em cada grupo e o corte a partir daí foi doloroso, principalmente entre os melhores.

Comecemos pelos piores, cuja seleção terminou num 3-5-2. O goleiro não poderia ser outro que não o inglês Green, que precisou de apenas 45 minutos e um galináceo dos mais gordos para conseguir a cadeira cativa. Os três zagueiros de dar calafrio em defunto são o norte-coreano Ri Kwang-Chon, o grego Vyntra e o argentino Demichelis. Na ala direita, adaptado, pois não poderia deixar de integrar tão valoroso time, aparece o hermano Jonas Gutiérrez. Fazem-lhe companhia no meio o lutador, no sentido literal do termo, Kaita (Nigéria), o atrapalhado Clark (EUA), o sonolento Jorgensen (Dinamarca) e, claro, o troglodita Felipe Melo. O ataque dos pesadelos vem com Anelka (França), que pelo desempenho fora de campo ganha também o título de jogador Coisas Menos da Copa, e Mario Gomez (Alemanha).

Alguém adivinha o treinador desse brilhante conjunto? Raymond Domenech, por óbvio.

Ainda entre as lástimas, a França sai como a pior seleção da Copa e a Itália e Wayne Rooney, respectivamente, como as maiores decepções coletiva e individual. O jogo Coisas Menos foi Brasil x Portugal. Venceu a árdua disputa com Inglaterra x Argélia e Paraguai x Nova Zelândia porque, em teoria, seria disputado por duas boas seleções. Para ser pior, só mesmo se fosse arbitrado pelo lamentável Jorge Larrionda, único uruguaio que conseguiu tirar um pouco do brilho de seu país na Copa.

Do lado oposto, a seleção dos melhores é um combinado dos quatro finalistas, começando com o espanhol Casillas. E aqui cabe uma explicação sobre o critério de escolha aplicado. Ao contrário de alguns, acredito sim ter mais peso o comportamento dos jogadores em momentos decisivos do que em jogos iniciais. É por isso que o goleiro escolhido foi Casillas, que, apesar de um tanto inseguro aqui e acolá, foi brilhante em momentos fundamentais das quartas, segurando o pênalti do paraguaio Cardozo, e da final, impedindo dois gols quase certos de Robben, em detrimento do português Eduardo, mais consistente enquanto esteve em campo.

A defesa apresenta dois jogadores esforçados nas laterais, já que não houve qualquer um que se destacasse pela habilidade. Sergio Ramos (Espanha) ganhou por uma cabeça a posição de Lahm (Alemanha) na direita e o uruguaio Fucile reinou soberano na absolutamente carente lateral-esquerda. O miolo de zaga, também sem fortes concorrentes, é o da seleção alemã, com os competentes Friedrich e Mertesacker. No meio, aparecem os dois meias espanhóis que todos gostariam de ter, Xavi e Iniesta, acompanhados pelo holandês Sneijder e pelo alemão Müller, que também leva o título de revelação da Copa. Fecham o escrete David Villa e Diego Forlán, jogador Coisas Mais do Mundial.

Vicente del Bosque, treinador campeão, ganhou a acirrada disputa com Joachim Löw (Alemanha) e Oscar Tabarez (Uruguai) para treinar as estrelas. E Tiago (Portugal), Ayew e Boateng (Gana), Schweinsteiger, Özil e Klose (Alemanha) ficam de fora. Pesarosamente.

A melhor seleção da Copa foi a campeã Espanha, a surpresa, o Uruguai, e o Jogo Coisas Mais da Copa, Alemanha x Inglaterra, um 4 a 1 infelizmente manchado pelo já citado e famigerado Jorge Larrionda.

Diego Forlán, o craque da Copa. Orgulho celeste e do glorioso Atletico de Madrid

Seleção Coisas Mais da Copa: Casillas (ESP); Ramos (ESP), Mertesacker (ALE), Friedrich (ALE), Fucile (URU); Xavi (ESP), Iniesta (ESP), Sneijder (HOL), Müller (ALE); Villa (ESP), Forlán (URU). Técnico: Vicente del Bosque (ESP).

Jogador Coisas Mais da Copa: Diego Forlán (URU)

Jogo Coisas Mais da Copa: Alemanha 4 x 1 Inglaterra (oitavas-de-final)

Melhor seleção da Copa: Espanha

Jogador revelação da Copa: Thomas Müller (ALE)

Seleção surpresa da Copa: Uruguai

Seleção Coisas Menos da Copa: Green (ING); Ri Kwang-Chon (CNO), Vyntra (GRE), Demichelis (ARG); Gutierrez (ARG), Kaita (NIG), Felipe Melo (BRA), Clark (EUA), Jorgensen (DIN); Anelka (FRA), Gomez (ALE). Técnico: Raymond Domenech (FRA).

Jogador Coisas Menos da Copa: Anelka (FRA)

Jogo Coisas Menos da Copa: Brasil 0 x 0 Portugal (3ª rodada da 1ª fase)

Pior seleção da Copa: França

Jogador decepção da Copa: Wayne Rooney (ING)

Seleção decepção da Copa: Itália

Bolão e balanço das quartas

Pronto! Demorou, mas cá estou de volta. A viagem a BH teve lá seus percalços, é verdade, mas isso não vem ao caso. Vamos logo ao que interessa: O BOLÃO!

Dada a descomunal expectativa de todos os apostadores pelos resultados atualizados, vou inverter a ordem habitual das postagens da Copa. Primeiro passarei a evolução da classificação do bolão e depois farei um breve balanço das quartas, com pitacos sobre os jogos e as seleções.

Nenhum de nossos apostadores acertou os quatro classificados para as semifinais. Pouquíssimos acreditaram que a Holanda passaria pelo Brasil e com isso, já ao fim do primeiro jogo das quartas, eram poucos os que poderiam fazer 100%. Poucos que sucumbiram no dia seguinte, quando a Alemanha eliminou a Argentina, que praticamente monopolizava os palpites.

Cinco jogadores acertaram três dos quatro semifinalistas e subiram bastante depois de encerradas as quartas. Além disso, saem em vantagem para a reta final, com maiores possibilidades de avançar ainda mais até o dia do julgamento final: o próximo domingo.

Confiram a classificação ao final da postagem e passemos ao balanço dos jogos das quartas.

Holanda 2 x 1 Brasil

O escrete canarinho fez um primeiro tempo próximo ao ideal. Saiu na frente e poderia ter aberto mais, embora não tenha desperdiçado reais chances. No início do segundo tempo, o “melhor do mundo” Júlio César falhou e o gol não mais que fortuito da Holanda deixou, inexplicavelmente, o time brasileiro em frangalhos. Parecia haver não um empate mas sim uma goleada a ser revertida. Dali em diante o que se viu foi um baile holandês, facilitado pelo desespero de peças como Felipe Melo e Robinho. Com lances dignos daquelas peladas em que o jogo está tão fácil, mas tão fácil, que um time fica brincando diante do goleiro em vez de chutar ao gol, a Holanda poderia ter imposto ao Brasil uma humilhação nunca antes vista em Copa. O 2 a 1 ficou baratinho, baratinho.

O resultado deixa lições. 1. Comprova a opinião, entre elas a deste blog, de que a convocação de Dunga foi péssima, deixando o time absolutamente sem opções de gabarito para lutar contra um resultado adverso; 2. Deixa latente a total falta de preparo psicológico da equipe, algo não muito surpreendente para um time comandado por alguém que, quando levantou a taça do mundo, em vez de celebrar a conquista mandou todos àquele lugar. A mim ficou a nítida impressão de que todos ali estavam tão certos de que seriam campeões que, à primeira ameaça de revés, perderam o chão por completo. Inadmissível; 3. Mostra que não é o fato de fazer da preparação um circo, como em 2006, ou um quartel general, como agora, que faz um time ser campeão. Isso é o de menos. O que importa é ser o mais preparado para vencer. E isso a seleção brasileira não era; 4. Pela enésima vez, joga na cara dos pachecos que não existe lugar para afirmações levianas em Copas. A da vez era que a Holanda era fueguesa do Brasil em Mundiais. Nada mais surreal. Nos três jogos anteriores ao da última sexta, era uma vitória holandesa, uma brasileira com a ajuda da arbitragem e uma decisão nos pênaltis, mais uma vez graças ao apito amigo do Brasil, com vitória brasileira. Que freguesia é essa?

Uruguai 1 (4) x (2) 1 Gana

Jogo mais emocionante da Copa. Disparado. O modo como o duelo se desenvolveu foi curioso. Um time dominava por completo as ações durante uns 20 minutos e, de repente, sem mais nem menos, o domínio passava na mesma proporção para o outro lado. Desse jeito, o resultado só poderia ser mesmo o justo 1 a 1 no tempo normal.

Na prorrogação, as equipes apresentavam mais medo de perder do que vontade, e preparo físico, para vencer. Até que nos últimos 5 minutos Gana resolveu partir pra cima. A pressão terminou numa confusão na área, em que Suárez salvou por duas vezes seguidas o gol africano. As duas vezes em cima da linha. A segunda com a mão. O pênalti e a expulsão de Suáreaz marcavam o sofrido adeus do guerreiro Uruguai. Mas Gyan mandou a bola no travessão e a decisão se postergou um pouco mais. À disputa final da marca do pênalti chegaram um Uruguai ressuscitado e uma Gana semi-nocauteada. O resultado só poderia ser o que foi.

E ficou Gyan estatelado no chão. Chorando desesperadamente. Triste demais. Imagem mais comovente do Mundial.

Argentina 0 x 4 Alemanha

Um passeio germânico. Não houve um momento sequer em que os comandados de Maradona fizessem cócegas nos europeus. Deve ter até dado uma certa vergonha naqueles que bradavam aos quatro cantos o domínio sulamericano em gramados africanos. Como se dissera aqui, a afirmação era precipitada. Dito e feito.

A Argentina de Maradona, assim como o Brasil de Dunga, mostrou que, na hora de a onça beber água, é preciso ter um treinador à beira do campo. Coisa que D. Diego e o colega brasileiro decididamente não são. Pelo menos não ainda. Do outro lado, de modo diametralmente oposto, Joachim Löw, este sim, um grandíssimo treinador. Depois do chapeú sobre Capello, o atropelamento sobre Maradona.

Paraguai 0 x 1 Espanha

Há poucos dias, afirmou-se aqui que se a Espanha conseguisse sair logo à frente do Paraguai, deveria construir uma fácil vitória. Mas, se não fizesse no primeiro tempo, as coisas se complicariam. Foi o que aconteceu. A defesa paraguaia foi muito bem em seu objetivo de não deixar a Espanha jogar. E os ibéricos mais uma vez sentiram falta do Torres de outrora. Um pênalti perdido para cada lado – o da Espanha depois de a cobrança ser repetida, algo com o que, por princípio, não concordo – e eis que surgiu o salvador de sempre na passagem espanhola pela África: David Villa, dessa vez ajudado por uma grande jogada de Iniesta. O suficiente para a classificação inédita.

E o Paraguai saiu de campo com uma cabeça muito mais erguida do que a brasileira. Ou a argentina.

Seleção Coisas Mais das quartas: Casillas (ESP); Lahm (ALE), Friedrich (ALE), Ooijer (HOL); Khedira (ALE), Iniesta (ESP), Schweinsteiger (ALE), Sneijder (HOL), Müller (ALE); Forlán (URU), Klose (ALE). Técnico: Joachim Löw (ALE).

Jogador Coisas Mais:  Schweinsteiger (ALE)

Melhor seleção: Alemanha

Seleção Coisas Menos das quartas: Júlio Cesar (BRA); Otamendi (ARG), Demichelis (ARG), Mensah (GAN), M. Bastos (BRA); Mascherano (ARG), Felipe Melo (BRA), Cavani (URU); Tevez (ARG), Cardozo (PAR), Luis Fabiano (BRA). Técnico: a dupla Dunga (BRA)/Maradona (ARG).

Jogador Coisas Menos: Felipe Melo (BRA)

Pior seleção: Argentina

Balanço da primeira fase

O nível do futebol apresentado na primeira fase da Copa foi profundamente decepcionante. Decepção que foi maior à medida que o futebol jogado ao redor do mundo tem se tornado mais agradável, mais aberto, nas últimas temporadas.

Na África não tem sido assim. A preocupação primeira de quase todas as equipes é se defender, é evitar que saia o zero do placar do adversário. Não que essa alternativa seja desprovida de méritos. Ao contrário dos românticos, admiro equipes que reconhecem suas limitações e conseguem arranjar um jeito de, mesmo com elas, dar trabalho. Japão e Nova Zelândia foram os dois grandes representantes desse grupo na Copa.

Mas o jogo fica feio, chato, modorrento. E nos campos africanos ficou tão feio, tão chato, tão modorento, que até agora temos a pior média de gols da história dos Mundiais. O que não é pouco, posto que a base de comparação é a Copa da Itália, em 1990, reconhecidamente de pífio nível técnico.

E por falar em Itália, ah, a Itália. Já foi embora e levou pra casa o título de maior decepção do torneio. O time era fraco, envelhecido, com reconhecidos casos de reumatismo, como o nervo ciático de Buffon. Nada, porém, que justificasse qualquer projeção de saída ainda na primeira fase e ainda coroada com a última posição da chave.

Da França melhor nem falar. Não há sentido, já que, se teve alguma coisa que não se viu ali, essa coisa se chama futebol.

Torço, mas sinceramente não acredito, que o futebol melhore daqui por diante. Até agora, de bom, Maradona à beira do campo e seu emotivo carinho para com os pupilos, a garra uruguaia, a paixão da seleção dos Estados Unidos pelo jogo, a efetividade japonesa, o toque de bola espanhol, o destemor de Bielsa com o Chile e… o jogo feio da Holanda – já perdeu tantas vezes jogando bonito que até merecia ganhar jogando feio.

Seleção Coisas Mais da 1ª fase: Muslera (URU); Maicon (BRA), Alcaraz (PAR), Godin (URU), Heinze (ARG); Tiago (POR), Elano (BRA), Ozil (ALE), Messi (ARG); Honda (JAP), Villa (ESP). Técnico: Takeshi Okada (JAP).

Jogador Coisas Mais da 1ª fase: Messi (ARG)

Melhor seleção: Argentina

Seleção Coisas Menos da 1ª fase: Green (ING); Gutierrez (ARG), Ri Kwang Chon (CNO), Vyntra (GRE), C. Poulsen (DIN); Kaita (NIG), Katsouranis (GRE), Kuzmanovic (SER), Jorgensen (DIN); Anelka (FRA), Gilardino (ITA). Técnico: Raymond Domenech (FRA)

Jogador Coisas Menos da 1ª fase: Kaita (NIG).

Pior seleção: Coreia do Norte