Viva Muricy e… Viva os pontos corridos!

Parabéns ao Fluminense, campeão brasileiro de 2010. Parabéns, com glórias, a Muricy Ramalho, treinador mais vitorioso do Brasil na última década, tetracampeão do maior campeonato nacional do país. Na verdade, mais do que tetracampeão. Além da conquista de hoje e do inédito e brilhante tricampeonato consecutivo pelo São Paulo (2006, 2007 e 2008), Muricy pode se considerar também o grande vencedor de 2005, quando o seu Internacional não foi campeão graças à, no mínimo controversa, anulação de alguns jogos do campeonato.

Aproveito para entrar na polêmica dos pontos corridos como modo de pontuação para o Campeonato Brasileiro. Não há quem me convença de que não seja esse o sistema mais apropriado para definir o melhor time de um país numa temporada. É o mais apropriado por ser o mais meritocrático, o único que garante, de fato, que o melhor time, o mais regular, aquele com maior número de pontos ao longo de toda a competição, seja o laureado ao final do certame.

Apenas isso já basta para tornar irrefutável a defesa dos pontos corridos. Mas vou analisar os argumentos levantados pelos que têm defendido a volta de algum tipo de fase final para definir o campeão brasileiro, como aconteceu, sob diferentes formas, até 2002.

O primeiro, e talvez mais fácil de ser refutado, diz respeito ao interesse pelo campeonato. Uma rápida olhada na média de público na Era dos Pontos Corridos mostra que os torcedores presentes aos jogos do Campeonato Brasileiro aumentaram significativamente desde 2003. E isso apesar de os nossos estádios terem, quase todos, diminuído sua capacidade de recepção. Para ficar em apenas dois exemplos, o Maracanã, que hoje não chega aos 100 mil, nos áureos tempos recebia quase 200 mil; o Morumbi chegou a ultrapassar 120 mil e hoje não chega a 70 mil.

A explicação é simples: na época do mata-mata, os estádios passavam a fase classificatória inteira às moscas, para encherem apenas quando as coisas começavam a valer, o que normalmente acontecia a partir de novembro – um campeonato anual decidido em pouco mais de um mês, brilhante! Agora, os torcedores, aos poucos, ambientam-se ao fato de um jogo na primeira rodada valer exatamente o mesmo de um na última, o que distribui melhor a presença do público durante o torneio e eleva a média geral. Para mim, isso significa um interesse maior pelo campeonato – pelo campeonato, não por um par de jogos -, não o contrário.

O segundo argumento diz respeito à emoção. Segundo ele, não tem graça a conquista num jogo contra um time rebaixado ou mesmo com uma derrota. Apenas seria legal tornar-se campeão num jogo decisivo contra o vice. Primeiro que, mesmo no sistema de finais, existe a possibilidade de o campeão sair de campo derrotado no último jogo. Mas que se deixe essa possibilidade de lado. A falácia da emoção só se aplica, e ainda assim com reservas, aos torcedores que não estão envolvidos na disputa pelo título. Para esses sim talvez seja mais divertido assistir a uma final do que a um “jogo normal”. Mas pergunte aos torcedores do Fluminense, do Flamengo, do São Paulo, se vibraram menos em suas conquistas corridas do que nas glórias em jogos eliminatórios. Isso sem nem mencionar que apenas os pontos corridos mantêm todos os times em ação, em disputas diversas, até a última data futebolística do ano.

Finalmente, o argumento que ganhou força nos dois últimos campeonatos, em nome da “justiça nas quatro linhas”. Este, caminha por duas vias paralelas. A primeira surgiu porque, tanto em 2009 como em 2010, rivais estaduais já sem chance de título puderam prejudicar adversários locais em plena disputa pelo caneco, facilitando jogos contra concorrentes diretos. A segunda critica a “mala-branca”, gordas quantias enviadas a times desinteressados no campeonato, mas envolvidos em jogos que valem o título, para dificultarem a vida dos pretendentes à taça.

Os riscos de fato existem. Mas não se relacionam, de forma alguma, exclusivamente aos pontos corridos. Num sistema classificatório, um time pode agir para prejudicar a passagem de um arqui-rival para a fase final. Como já aconteceu, diga-se. Essa possibilidade pode ser mitigada, em campeonatos por pontos corridos ou quaisquer outros, simplesmente ao se concentrar todos os clássicos regionais nas últimas rodadas da competição.

Para além disso, se a ideia é invalidar um sistema de disputa por riscos inerentes ao jogo, melhor simplesmente repensar a existência do futebol, já que a instituição que, de longe, mais alterou resultados de torneios mundo afora atende pelo nome de “árbitros de futebol” e, pelo menos até segunda ordem, é ainda imprescindível à modalidade.

E até aí os pontos corridos são positivos. Sem sombra para qualquer dúvida, representam o sistema que mais minimiza as influências dos erros de arbitragem. Em 30 e tantas rodadas, benefícios e prejuízos para cada time tendem a se compensar. Portanto, se o objetivo é prezar a “justiça dentro das quatro linhas”, não há outro sistema a defender que não o de pontos corridos.

No mais, usar a chamada “mala-branca” para atacar os pontos corridos é, no mínimo, risível. A tal mala existe em nossos campos desde tempos imemoriais, com histórias folclóricas e hilárias que nada têm a ver com este ou aquele sistema de pontuação. Sempre os interessados tentarão incentivar os desinteressados. E isso não apenas no futebol. Na vida.

Tudo posto, os amantes do “interesse”, da “emoção”, da “justiça” não fiquem melindrados. Longe de mim querer que o futebol seja algo plenamente meritocrático. Jogo que é, não pode ser assim. Por isso, praticamente todos os campeonatos dão espaço ao imponderável de Almeida em finais nas quais, muitas vezes, o pior, num dia bom, vence o melhor, num dia ruim. Que pelo menos um, apenas um, unzinho só, permita que o melhor sempre vença.

Mérito, merecimento. Às vezes também é legal, até no Brasil.

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Vargas Llosa e a evolução do Homem

Mario Vargas Llosa é prova viva de que o Homem pode evoluir ao longo de sua existência, embora muitas vezes não o faça. De comunista na juventude, o peruano, há poucas horas agraciado com o Nobel de Literatura, transformou-se num esclarecido defensor da liberdade individual e do livre mercado. Aos 74 anos, ainda protesta contra os excessos estatistas e autoritários que insistem em agonizar parte do mundo. Ataca a utilização ideológica, caricata e vazia do termo neoliberalismo. Define-se como um liberal e discorre brilhantemente sobre o tema:

Eu me considero um liberal. Conheço muitas pessoas que são liberais e muitas outras que não são. Mas durante a minha carreira, que já começa a ficar longa, eu jamais conheci um único neoliberal. (…) O liberalismo é a doutrina que, além da combinação relativamente simples e clara dos princípios básicos estruturados ao redor da defesa da liberdade política e econômica (isto é, da democracia e do livre mercado), acolhe uma grande variedade de tendências (…). Para os liberais, a guerra histórica para o progresso da liberdade é, acima de qualquer outra coisa, uma luta intelectual, uma batalha de idéias.

A seguir, longo trecho de entrevista concedida por Vargas Llosa ao Estado de S. Paulo, no último 2 de outubro. Há pérolas que merecem ser lidas e gravadas, como a comparação entre o império inca e a “modernidade” de algumas regiões atuais.

Como ninguém é perfeito, falta a Vargas Llosa certa dose de conhecimento sobre a ideologia do atual governo brasileiro que, para ele, entendeu que o estatismo leva ao fracasso econômico. Doce ilusão.

 

Vargas Llosa: das trevas do comunismo à luz da liberdade

 

Em Sabres & Utopias, ensaios, artigos e documentos são dispostos fora de ordem cronológica, segundo critérios de importância fixados pelo organizador do livro, expert em sua obra. Há um ensaio no início, chamado Um País de Mil Faces, que revela a sua relação com o Peru, algo que o explica como escritor.

Sim, é um pequeno ensaio sobre a diversidade peruana. O país onde nasci pode ser tomado como uma espécie de síntese do mundo pela incrível variedade de tradições que o formam. Há o país pré-hispânico, que se perpetua nos milhões de peruanos de origem indígena, há o país europeu, de tantos milhões de origem hispânica e de outras nacionalidades, há o país também africano, dos negros que chegaram com os espanhóis há cinco séculos, há o país dos japoneses e chineses, integrados a essa diversidade desde o final do século 19, e, felizmente, há um processo de mestiçagem grande. Eis a grande fortuna do Peru: ser uma espécie de protótipo do mundo, com pontes para diversas culturas e crenças.

Neste ensaio específico, é curioso quando o senhor fala dos “homens-formigas”, herdeiros dos incas, que seriam a explicação para certa tendência à burocracia no seu país.

O império inca foi uma realização assombrosa, ergueu cidades, fortalezas, templos, com extraordinária criatividade. E também gerou uma organização formidável que, segundo historiadores, dava de comer a todos os habitantes. Não se morria de fome no império inca. Mas, para isso, fez-se uma sociedade burocrática, vertical, autoritária, na qual o Estado dominador tomava sob sua responsabilidade o indivíduo, desde o nascimento até a morte. Então as pessoas careciam de iniciativa e liberdade. Essa é uma das razões pelas quais esse império acabou sendo destruído por uma minoria de conquistadores. Porque esses, ao decapitarem os chefes indígenas, fizeram desabar todo o edifício inca. A nossa modernidade guarda sequelas desse passado, como o tão característico espírito burocrático e a crença de que o Estado tem que resolver todos os problemas, não é verdade? Só que a tradição gregária e coletivista do indivíduo deprimido pelo Estado vai mais além e acaba por gerar um fenômeno duplo, pois tem a ver com as civilizações pré-hispânicas e também com a formação de colônias subordinadas a impérios autoritários, caso de Portugal e Espanha.

Por que o senhor se refere ao Peru como uma “enfermidade incurável” em sua vida?

Posso usar esta metáfora porque tenho um espírito atento e crítico em relação a meu país. É uma realidade sempre presente em minha vida, apesar de ter vivido desde cedo em outros lugares. Ainda hoje passo meses por ano fora do Peru, mas sem dúvida os problemas do país me afetam e sempre estou intervindo nos debates por lá. Há uma ligação permanente.

Há 20 anos o senhor se candidatava à Presidência do Peru. Perdeu para Alberto Fujimori e saiu da vida política. Essa experiência lhe deixou traumas?

Sempre participei da política como intelectual interessado no confronto das ideias, nunca me imaginei assumindo cargos, definitivamente não era minha vocação. Mas resolvi participar do jogo político num momento muito particular do país, em que havia uma situação econômica crítica, um processo hiperinflacionário que destruía os salários, um populismo que fazia com que o Peru fosse olhado com desconfiança pela comunidade internacional, quando os níveis de vida despencavam… e havia a violência social desencadeada pelo terrorismo, com Sendero Luminoso, Tupac Amaru e outras organizações radicais. Enfim, senti que nossa débil democracia poderia desaparecer, por isso resolvi me candidatar. Além disso, eu realmente acreditava haver um clima favorável para as reformas liberais e democráticas que me dispunha a fazer. Foi uma experiência instrutiva e ingrata, também, pela grande violência que a acompanhou… o saldo foi reconhecer que sou completamente incompetente como político profissional (risos).

Borges disse que a “política é uma das faces do tédio”. Passou a concordar com ele?

Sim, Borges dizia isso. Mas não podemos prescindir da política. E nem tente fechar as portas para ela, pois irá vê-la entrando pelas janelas. Por isso, continuo disposto a participar, batalhar por melhoria social, por uma vida cultural mais plena, fortalecer a democracia e afastar qualquer hipótese de retorno às ditaduras do passado.

Tem-se a impressão de que os intelectuais latino-americanos andam emudecidos, talvez até desviando de certos debates.

Em nosso continente, a intelectualidade ainda está ligada a um monopólio cultural da esquerda, que por sua vez está a exibir duas faces. Pela primeira vez, há uma esquerda que chega ao poder em alguns países da região demonstrando ter aprendido boas lições ao renunciar à violência e abraçar a democracia, ao aceitar o livre mercado e respeitar a empresa privada, ao entender que o estatismo leva ao fracasso econômico, que por sua vez leva à pobreza. Isso ocorreu no Chile, com a Concertação, no Brasil com Lula, no Uruguai, curiosamente com um governo que vem de uma esquerda revolucionária. Sem dúvida, essa esquerda democrática deve ser bem-vinda, assim como deve ser bem-vinda uma direita democrática. Mas há também uma esquerda pouco ou nada democrática, como a que vemos em Cuba ou Venezuela. Veja como os venezuelanos acabam de impor um revés eleitoral a Hugo Chávez, pois já existe uma maioria que não se convence com o discurso do “socialismo século 21”. Essa esquerda também está presente na Nicarágua, no Equador, sem falar do caso particular e trágico da Argentina, nas mãos de um casal demagogo e de uma turma com um prontuário dos piores. Como se pode eleger gente assim? Como se pode dar crédito a partidos e facções com entusiasmos de golpismo? Ora, os intelectuais têm medo de se manifestar livremente sobre isso, de serem desacreditados e atacados. Inclusive uma coisa que a esquerda sabe como fazer é satanizar o adversário. Diante disso, intelectuais constrangidos estão no máximo invocando cartas de correção política e usando os clichês de sempre. Porque assim são poupados e terão uma vida mais fácil.

O artigo intitulado Lula e os Castro, de maio de 2010, abre em Sabres & Utopias uma sequência de textos sobre Cuba, mostrando seu afastamento do regime castrista a partir do início dos anos 70. Mas no artigo em questão, o senhor manifesta indignação pelo fato do presidente brasileiro ter ido saudar Fidel e Raúl em Havana, no mesmo dia em que se enterrava o pedreiro Orlando Zapata Tamayo, dissidente do regime. São linhas bastante duras contra o líder de esquerda que o senhor imagina ter se tornado democrata.

O presidente Lula evoluiu ao longo do tempo e isso foi muito benéfico para o Brasil. Ele hoje crê na democracia, no mercado, na iniciativa privada. Mas ele também tem sido muito contraditório, basta ver sua política externa. Um defensor da democracia não pode abraçar Fidel Castro nem os governantes do Irã, que representam uma ditadura teocrática. Esses abraços acabam legitimando regimes que são uma vergonha do ponto de vista político e moral. Essa contradição de Lula me parece lamentável. Então tive que externar meu protesto.

Quando o senhor escreveu a famosa carta para Fidel, em 1971, protestando pela autocrítica forçada do poeta cubano Heberto Padilla, conseguiu adesão imediata de assinaturas famosas: Sartre, Simone de Beauvoir, Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino, Alain Resnais, Jorge Semprún, Susan Sontag, Maurice Nadeau, Alberto Moravia e outros. Hoje adesão em tal grau não acontece.

Muitos outros intelectuais de peso assinaram aquela carta… Mas foi um momento de ruptura de parte da intelectualidade de esquerda com o regime cubano. Foi como se disséssemos: “Até aqui chegamos e não vamos seguir dando apoio.” Muitos dos signatários conheceram Padilla pessoalmente. Sabíamos que era absurdo acusá-lo de revolucionário e agente da CIA, justamente ele que havia estado com a revolução desde os primeiros momentos, inclusive tendo parado de escrever sua poesia para trabalhar para o regime. Agia como funcionário fiel e as críticas que ousava fazer não eram contra o socialismo. Era contra o que acreditava ser uma deformação do socialismo. Por isso foi preso, caluniado, insultado. Aquilo foi um turning point. Muitos de nós nos despedimos da aventura revolucionária, que manteve a seu lado os mais dogmáticos e servis.

O que pensa de escritores como a cubana Yoani Sánchez, autora de um blog lido no mundo inteiro?

Os dissidentes de hoje são gente muito valorosa e sempre que posso lhes manifesto meu apoio. Porque ser dissidente em Cuba requer coragem e um espírito de sacrifício extraordinário diante do peso brutal do regime. Os intelectuais de lá têm muita dificuldade para se expressar. Veja o caso emblemático do escritor, poeta e ensaísta Lezama Lima. Ele foi muito perseguido e só quando morreu, em 1976, os dirigentes revolucionários se deram conta de quão respeitado ele era mundo afora.

O senhor o conheceu pessoalmente?

Sim, estivemos juntos várias vezes em Cuba. Eu me lembro perfeitamente de nosso último encontro, creio que foi em 1969. Fui convidado pelo escritor chileno Jorge Edwards, que era embaixador em Havana, para almoçar com ele e Lezama em um daqueles restaurantes bons a que só a nomenclatura tinha acesso. Foi um encontro memorável. No fim, o poeta se despediu de mim com um longo e intenso aperto de mãos, e me perguntou: “Você se deu conta do país em que estou vivendo?” E eu respondi: “Sim, claro, me dei conta.” E ele repetiu a pergunta: “Você se deu conta?” Minha última recordação de Lezama são essas frases, ditas com muita tristeza. Nunca mais nos vimos. Terrível, não? Era um homem extraordinário, que apenas uma vez na vida conseguiu sair de Cuba, creio eu, mas atravessava o mundo com sua literatura barroca, sua cultura e sofisticação

Matéria completa aqui.

Tiriricagate, pra piorar

Não houve grandes surpresas nas eleições gerais de ontem. Como se podia projetar, um provável governo de Dilma Rousseff contará com um Congresso absolutamente simpático a suas propostas, o que abre espaço para o avanço das sempre tão faladas, e nunca de fato realizadas, reformas – política, tributária, trabalhista, previdenciária etc. Não acredito que tal espaço seja aproveitado, principalmente porque não vejo no PT reais anseios de avanço em qualquer desses temas.

Também como não era difícil de se prever, o ganho de apoio congressista foi conseguido sobretudo no Senado e graças à extrema popularidade de Lula no Norte-Nordeste. A reboque dessa popularidade, nomes tradicionais da oposição tucano-democrata, como Tasso Jereissati, Arthur Virgílio e Marco Maciel, saíram de cena em favor de aliados do presidente.

No eixo Sul do país, onde Lula não é tão Deus assim, manteve-se um equilíbrio maior. Em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, pelo menos um senador de oposição foi eleito. De oposição ao governo, que fique claro, e não às ideias do Império da Esquerda Tutelar descrito na postagem anterior. A este, a resistência é ainda mais anêmica, e se mantém simbolizada pelo bastião Demóstenes Torres, reeleito senador por Goiás.

Para mim, porém, o grande recado desta eleição vem, assim como viera em 2002, dos resultados da votação para deputado federal em São Paulo. Tiririca, autointitulado “o abestado”, superou a marca de 1,3 milhão de votos, ficando atrás apenas do resultado conseguido por Enéas em 2002, acima de 1,5 milhão de votos. Tanto agora como daquela vez, as espantosas votações, associadas ao nefasto sistema de vagas proporcionais ao montande de votos das coligações partidárias, carregaram junto aos campeões de votos uma patota de eleitos sem votação própria suficiente para tal.

O Tiriricagate, porém, é ainda mais emblemático da total aberração que reina no sistema eleitoral brasileiro. Enéas, bem ou mal, tinha uma plataforma ideológica definida e não fazia parte de qualquer coligação. Levou junto alguns ilustres desconhecidos, mas que, pelo menos, representavam o seu modo de pensar, os ideiais em teoria eleitos pela população. Tiririca representa a esculhambação total. Representa a falta de ideias, de ideais. Representa o nível de esclarecimento de nossos eleitores, seduzidos por piadas bestas, assassinatos à língua portuguesa e toda sorte de bobagens inócuas e apolíticas. O nível de esclarecimento de quem vai na onda do “pior que tá não fica”. É de chorar.

Mas é ainda pior. Porque Tiririca, eleito por um partido X, levou junto candidatos de partidos Y e Z, que nada tinham a ver com a brincadeira. Levou para Brasília, de lambuja, o famigerado delegado Protógenes, aquele que armou atrocidades ilegais para prender Daniel Dantas e posar de paladino da justiça. Quer mais? O partido X, de Tiririca, é o PR, que no mundo fantástico dos analistas políticos (que só existe na cabeça deles), posicionar-se-ia à direita, em oposição diametral à esquerda do PC do B, o partido Z, de Protógenes. Mas ambos estavam coligados na maçaroca partidária conhecida como sistema político brasileiro e um palhaço levou o outro pela mão. É de se envergonhar.

O que mais precisa acontecer para que essa absurda proporcionalidade seja eliminada do mapa? Será tão difícil enxergar que pior do que tá pode ficar? Não, não é, mas num país onde os fins justificam todos os meios, o pior pode ser o melhor. Desde que o melhor para mim.

Tristes eleições, o Império da Esquerda Tutelar

Tomando por base a conceituação de direita e esquerda, no campo econômico-social, bem como a de autoritarismo, tutela e liberdade, no civil-político, ambas trabalhadas na postagem anterior, é hora de explicar o porquê de minha tristeza nas atuais eleições presidenciais.

Desde o retorno das eleições diretas para o principal cargo executivo, apenas em 2002 o quadro eleitoral foi tão sombrio quanto o atual. Sombrio não pela qualidade dos candidatos envolvidos – não vou entrar nessa questão – mas pelas linhas ideológicas representadas por eles. Pronunciava-se lá o Império da Esquerda Tutelar a que se assiste agora.

É verdade que o quadro em 2002 parecia ainda mais drástico: mesmo entre os nanicos, ninguém representava a direita. Porém, hoje, apesar de Eymael poder ser visto como esse representante, o peso do democrata-cristão é tão diminuto que sua presença ou ausência tem simplesmente nenhum efeito real ou prático.

Falta arejamento. O arejamento de ideias que permite o livre pensar dos eleitores. Há uma falsa sensação de liberdade de escolha entre alternativas que englobam apenas metade daquelas que seriam as reais possibilidades. Não à toa se esvaziaram os confrontos de ideias, de posicionamentos. Não é questão de estratégia nem de inocuidade dos candidatos. Os analistas que bradam contra a falta de debates propositivos precisam perceber que é um contrasenso pensar em debates frutíferos entre pessoas que pensam, basicamente, da mesma forma. Sai de cena o debate. Entra o pensamento único, apenas em tonalidades variáveis.

Dilma, Serra e Marina têm todos claras convicções que privilegiam a equidade social tutelada e jogam para escanteio o mérito e a liberdade individuais. Nenhum quer de verdade, para ficar num exemplo, uma reforma tributária que diminua a carga sobre as costas do cidadão, porque isso enfraqueceria a capacidade de ação do Estado. E dessa capacidade eles não abrem mão. Entre os semelhantes, Dilma está mais à esquerda, seguida por Serra e Marina, marginalmente menos interventivos, em posições que se balançam e contrabalançam dependendo do quesito em análise.

Mesmo Plínio, o radical da vez, não pensa essencialmente diferente de Dilma, Serra ou Marina. Quer mais e mais Estado, mas de uma maneira tresloucada e extremada que se afigura autoritária e fere mortalmente as liberdades civis, nomeadamente as de ação econômica e de propriedade privada.

Não que os outros sejam liberais civil-políticos. Decididamente, não são. Os três gravitam em torno de uma tutela cada vez maior ao cidadão que, se não chega ainda ao autoritarismo pleno, tem se distanciado a passos nada desprezíveis da essência da liberdade. Estão aí a lei antifumo, a lei seca draconiana, a “Ficha Limpa” e tantos outros projetos tutelares abraçados pela trinca petista-tucana-verde.

Eis, pois, o Império da Esquerda Tutelar. E carece de fundamento a alegação de que a triste falta de opções atual é apenas uma resposta a anseios consensuais da sociedade. O referendo do desarmamento, em que a maioria da população decidiu pela antitutela (o não desarmamento) a despeito da forte campanha pública a favor da tutela (o desarmamento) é a grande prova dos últimos tempos.

Um breve retorno ao passado explica melhor o atual cenário.

1989, os brasileiros pela primeira vez em décadas podem escolher diretamente o presidente e colocam nas oito primeiras posições candidatos que representavam todas as combinações possíveis entre esquerda, direita, autoritarismo, tutela e liberdade (Collor, Lula, Brizola, Covas, Maluf, Afif, Ulysses, Freire). O excesso de candidatos, natural para o momento, deveria tender, com o passar dos anos, à consolidação em um número menor, mas também representativo das diferentes vertentes.

Mas houve um problema. Collor, o vencedor, então identificado com a direita liberal, fez um governo desastrado e corrupto. Saiu pela porta dos fundos, defenestrado. Com ele, saiu junto, e estigmatizada, a direita liberal, pagando um preço que não dizia respeito a ela.

A partir daí, todos passaram a fugir do rótulo de liberais de direita como foge o diabo da cruz. Mesmo políticas marcadamente de direita, como as privatizações, eram vendidas como se de esquerda fossem e criticadas, ainda que efeitos claramente positivos tivessem.

Ora, se os próprios integrantes do clube passaram a rejeitá-lo, o que deveriam fazer os opositores? Nadar de braçadas. Foi o que fizeram, abastecidos pelo exército de intelectualoides universitários. Alguns efeitos econômicos positivos de curto prazo conseguidos por políticas de esquerda, ajudadas por um quadro externo favorável e ainda carentes de passarem pela prova do longo prazo, foram o ingrediente final do prato insosso que se tem para amanhã.

Houve a consolidação. Mas uma consolidação capenga. Uma consolidação-saci, que fundou o Império da Esquerda Tutelar, extremamente prejudicial ao esclarecimento e à livre escolha de fato (e não apenas de direito) da sociedade.

Felizmente, a política, assim como a vida, faz-se de ciclos. Cedo ou tarde, as possibilidades voltarão a ser abrangentes. Quem sabe já em 2014, as opções para a presidência saiam da massinha de modelar para o concreto. É pedir demais?…

Kajuru, um exemplo (2)

As seis últimas partes da participação de Kajuru no Programa Raul Gil.

Divirtam-se, mas também pensem, muito, a respeito.

Kajuru, um exemplo (1)

Jorge Kajuru sempre se caracterizou pela polêmica de suas declarações. Declarações duras, eloquentes, dificilmente em linha com o senso comum. Destemido, Kajuru nunca se preocupou em dizer o que pensava de quem quer que fosse, mesmo que isso o marginalizasse cada vez mais.

As bombas orais acabaram por afastar Kajuru do grande círculo midiático brasileiro. As redes nacionais de televisão, todas elas, não suportaram as pressões externas para que o bocudo tivesse sua metralhadora censurada. Depois de algum tempo, Kajuru passou a ser liberado sem cortes apenas em retransmissoras regionais.

Kajuru cansou. No quadro “Pra quem você tira o chapéu”, do Programa Raul Gil de 28 de agosto último, anunciou sua aposentadoria das câmeras. Diz ter-se enojado. Razões para tal deve ter muitas.

Fica o exemplo. De caráter, destemor, desprendimento. De loucura, dirão alguns. Mas, sobretudo, o exemplo do que acontece com quem se atreve a pensar e falar o que pensa. No Brasil democrático. E ainda tem quem acredite que não existe mais censura em nosso país…

Fica também a participação, sempre marcante, de Kajuru no Programa Raul Gil. Em nove partes. As três primeiras, hoje.

Reforma fiscal heterodoxa

Por mais que neguem, administrações públicas que saem gastando a rodo por aí – algo bastante em voga nos tempos atuais – sabem que precisam arranjar em algum lugar aquilo que Zeca Pagodinho chamaria de “algum” para cobrir a sanha de gastar, gastar e gastar.

Dado que diminuir as despesas nem pensar, posto que cada centavo gasto é para “o bem do povo e desenvolvimento geral da nação”, surgem então as opções usuais de financiamento. A primeira delas é o aumento da carga tributária, algo quase que absolutamente fora de questão no Brasil de hoje, afinal, como já consomem até o último cifrão da renda do cidadão, aumentar ainda mais beira o impossível. No máximo, conseguem aquele pouquinho além que vem sendo sugado regularmente há mais de 15 anos, insuficiente para lidar com gastos que não se elevam apenas um pouquinho.

A segunda opção é a emissão monetária, leia-se a fabricação de dinheiro gerador de inflação. Não duvido nem um pouco que uns e outros devem transbordar de vontade de fazer o pobre dinheirinho aumentar. Mas, infelizmente para eles, a sociedade brasileira tomou gosto por esse negócio de viver com estabilidade de preços. Colocar isso em risco de forma tão primária seria o suicídio eleitoral. E eles, os chefões dos governos perdulários, podem ser tudo, menos tolos.

O que resta então? Aparentemente nada. Ledo engano. Há sim uma alternativa de receitas que podem ajudar a compensar os rombos. São as tais receitas extra-tributárias, que englobam uma série de itens não relacionados a tributos usuais e que, por isso, costumam ter caráter de todo incerto, o que desaconselha sua utilização como fonte regular de receita. A teoria é essa, mas, quando a prática pede, quem não tem cão caça com gato e o que é incerto pode se tornar cada vez mais certo e vultoso.

Mas de que raios está falando esse maluco? Em uma palavra: multas. Sim, as multas vão se transformando em uma fonte de recursos cada vez mais importante para o setor público financiar os seus gastos. Não pensem que é simples coincidência ou exacerbado sentimento de proteção pública o fato de dia após dia irem pipocando aqui, ali e acolá novos crimes de trânsito, penalizados mediante quantias financeiras repassadas do povo para os representantes do povo.

Multa para a não utilização de cinto de segurança, multa para a ausência de extintor no veículo. Multa para a instalação de engate no bólido. Multa para a colocação de insul-film muito escuro nos vidros do carro. Multa para a direção com uma gota de álcool no sangue. Multa por não vistoriar anualmente o veículo. A mais nova, noticiada hoje, multa para quem carregar crianças sem assentos especiais nos autos. Multa, multa, multa. Todas travestidas por nobres motivos. Todos esses motivos facilmente colocados no chão por argumentações simplesmente esclarecidas e fundamentadas.

A tão famigerada indústria das multas nada mais é, pois, senão a peça fundamental de uma reforma fiscal heterodoxa. Se não quero diminuir meus gastos e não tenho mais como aumentar minhas receitas comuns na medida em que desejo, nada melhor do que criar novas formas de receitas certas, estáveis e crescentes para lidar com a situação. Às custas, claro e como sempre, do povo. Mas ele nem vai perceber.

No final, em vez de cerceador de liberdades, ainda poso de bonzinho, preocupado com o bem-estar geral da população. Pra que mais?