Como um campeão deve ser

Com arrasadores 3 sets a 0 sobre Cuba, o vôlei masculino brasileiro conquistou, domingo passado, o tricampeonato mundial (2002, 2006, 2010), na Itália. O título, além de confirmar a equipe dirigida por Bernardinho como um dos maiores fenômenos da história do esporte – desde 2001, somam-se ao tri mundial oito títulos da Liga Mundial e o campeonato olímpico de 2004 – teve para mim um gosto especial, por jogar por terra o abominável espírito politicamente correto que tem reinado entre nós.

Estávamos na segunda fase do torneio, o jogo era contra a Bulgária e o regulamento esdrúxulo patrocinado pela Federação Internacional de Vôlei premiaria a equipe derrotada com um grupo mais fácil na fase seguinte, longe dos fortes cubanos e perto das relativamente inexpressivas República Tcheca e Alemanha.

Como verdadeiros campeões, os jogadores brasileiros decidiram, apoiados por Bernardinho, a única coisa racional que um time em busca da conquista poderia decidir. Entregaram o jogo para os búlgaros. Saíram de quadra defenestrados em três sets, vaiados por quase todo o ginásio italiano e achincalhados por uma boa porção de analistas brasileiros – em geral, os mesmos que meses atrás condenaram a Ferrari por querer o título do Mundial de Pilotos de Fórmula 1 e, por isso, ordenar uma troca de posições entre Felipe Massa e Fernando Alonso, no GP da Alemanha.

O campeonato seguiu. O Brasil passou com dificuldades pelos tchecos e trucidou alemães, italianos e, por fim, os pobres – em todos os sentidos – soldados de Fidel. A final foi muito mais tranquila do que se imaginava, sobretudo tendo em vista que Cuba derrotara o Brasil na primeira fase do Mundial. A maioria dos críticos curvou-se aos méritos da maior equipe nacional de todos os tempos em todas as modalidades, mas ainda houve os que insistissem no pseudo-moralismo, enxergando na facilidade da vitória sobre Cuba a prova de que a “entregada” para os búlgaros fora desnecessária e manchara o triunfo.

Um bando de falastrões que provavelmente nunca competiram na vida. Se o tivessem feito, saberiam que o moralismo é bonito para quem, do alto de uma confortável posição, ama a retórica, mas de nenhuma valia para quem está na arena de disputa, sedento pela vitória a qualquer preço, desde que dentro das regras. Foi o que fizeram Bernardinho e seus comandados. De fato, possivelmente terminassem como campeões mesmo vencendo a Bulgária e antecipando o confronto com Cuba. Mas qual seria o sentido de se expor a um considerável risco de nem sequer chegar às semifinais se havia um outro caminho, muito mais aprazível, aberto?

O que os hipócritas precisam aprender, de uma vez por todas, é que competições existem para ser vencidas, para além de disputadas. E isso ninguém no Brasil sabe fazer melhor do que Bernardinho e seus garotos. Levanto-me, pois, e os aplaudo com entusiasmo, triste por serem exceção e não regra num país que homenageia a fraqueza em detrimento do mérito.

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Análise, torcida

O GP de Suzuka passou e deixou um rastro que parece solidificar a disputa pelo título da temporada entre apenas três pilotos, Webber, Alonso e Vettel, separados por 14 pontos. Mas ainda é cedo para tirar a dupla da McLaren da contenda. O atual sistema de pontuação mantém 75 pontos em jogo nas três últimas provas (Coreia, Brasil e Emirados Árabes) e Button, o quinto classificado, está apenas 31 atrás do líder Webber. Alguns já queimaram a língua neste ano, ao descartarem apressadamente as chances de Alonso. Raikkonen, em 2007, num sistema muito menos favorável a reviravoltas, provou que não está morto quem peleia. Ganhou um título perdido. Portanto, sem pressa com o andor.

Isso posto, sinto a necessidade de me posicionar abertamente sobre a briga. Webber faz um campeonato praticamente sem erros, é veloz e regular com uma constância admirável. Merece a atual liderança e será um justo campeão. Mas, se isso acontecer, não poderei negar minha frustração. Não admiro o estilo Webber, assim como não sou dos adoradores do estilo Button. São grandes pilotos, aptos ao título mundial – Button é o atual campeão -, mas lhes faltam a chama do arrojo que diferencia os destemidos, loucos para alguns, e que direciona minha torcida.

Vettel é ainda um moleque afobado, que compromete a si e a adversários em corridas e mais corridas. Isso, para alguns, retira dele o merecimento do título. Não para mim. Vettel é claramente mais rápido do que o companheiro Webber, tão mais que, mesmo com todas as lambanças, continua próximo à liderança. Mantendo as comparações históricas que gosto de fazer, Vettel está para Webber assim como Senna estava para Prost. Numa época de raros momentos de arrojo, de uma chatice sem tamanho entre os pilotos, impossível não torcer por um dos poucos que dão graça ao espetáculo.

Alonso é do mesmo time do jovem alemão, mas mais tarimbado. Mais regular e, por isso, melhor. O show que impõe ao pobre Massa desmoraliza o brasileiro desde o início da temporada, a ponto de obrigar o nosso compatriota a reconhecer a superioridade do espanhol. Quem conhece piloto, sabe o quanto isso machuca o ego, a honra. Admitir a inferioridade só mesmo em última instância. Massa chegou a ela. Alonso atualmente é quem mais bem conjuga o arrojo de Vettel, de Hamilton, à frieza de Webber, de Button. Tem um carro claramente inferior à RedBull – Massa que o diga – e, mesmo assim, continua vivíssimo.

Mérito por mérito, fico com a completude de Alonso. Muitas vezes amoral, aética. Como em todos os grandes campeões da história. Se não for ele, que seja Vettel. Ou Hamilton.

Nem para segundo piloto

Por Marcelo Cerri

Há algumas semanas tive a honra de hospedar em minha casa um grande amigo italiano. Filippo comentava que seu xará brasileiro já não era mais tão querido na Itália. Os tifosi haviam perdido a paciência com ele pela sua falta de arrojo e determinação. Fica séculos atrás de carros mais lentos para não arriscar.

Foi no mínimo patética a atuação de Massa no GP de Cingapura. Todos aqueles que tinham carros superiores aos do adversário tentaram ultrapassagens, muitos conseguiram, alguns bateram. Mas isso mostra que não estávamos em Monte Carlo, as ultrapassagens eram possíveis. O brasileiro, no entanto, com um carro que seguramente era um dos quatro melhores do final de semana, conseguiu a proeza de se manter durante quase toda a corrida atrás de Hulkenberg, sem nem mesmo forçar uma ultrapassagem. Um piloto que se contenta em ser o 10º não merece guiar uma Ferrari.

Fomos poucos aqueles que defenderam a ordem de equipe no GP da Alemanha. Agora não acredito que alguém em sã consciência continue a condenar a Scuderia por ter favorecido o piloto que foi mais rápido durante a corrida, durante todo o final de semana e durante todo o ano. Hoje é bem claro que Alonso é o primeiro piloto porque conquistou essa posição, porque luta até o último momento por cada ponto.

Podem argumentar que Webber lidera o campeonato mesmo não sendo um piloto agressivo, como Hamilton, Vettel, Kubica ou Alonso. Isso é verdade, ele não assume grandes riscos. Mas o australiano fez várias ultrapassagens durante a corrida e sustentou o terceiro lugar com muita coragem quando Hamilton deu o bote. Fez uma grande corrida.

Destaques do GP de Cingapura: a perfeição de Alonso, que não cometeu nenhum erro, e o show de Kubica no final da corrida, mostrando pela enésima vez que merece muito mais do que a Renault que tem em mãos.

Falando no polonês, ninguém duvida que ele é um piloto muito superior a Felipe Massa. Mas daí a querer colocá-lo na Ferrari, acho que existe uma longa estrada. Dois pilotos geniais numa mesma equipe é um suicídio. O espanhol sabe muito bem disso, já perdeu o campeonato de 2007 por esse motivo e não permitiria nunca que a Ferrari desse um tiro no pé. Massa deve ficar. Só não permanece se a Ferrari encontrar um segundo piloto melhor que ele, o que não é muito difícil. Estou certo de que até mesmo Trulli, por exemplo, teria dado à Ferrari ao menos uns seis pontos se estivesse nas mesmas condições do brasileiro.

Este é sem dúvida o melhor campeonato que já acompanhei. Vai entrar para a história. Cheios de orgulho, contaremos aos nossos filhos as proezas e loucuras de Alonso, Hamilton, Vettel, Kubica, Webber etc. Uma geração de super talentos.

***

O texto de Marcelo expressou tão bem meus pensamentos que se torna dispensável minha coluna de hoje. Ainda não estou a ponto de acreditar ser Trulli melhor do que Massa, mas assino embaixo da extrema decepção com o desempenho do brasileiro neste ano. Em meio às possíveis causas para uma queda tão gritante – Massa sempre foi um piloto, no mínimo, rápido e arrojado -, duas lebres se levantam e talvez se complementem: o acidente na Hungria, no ano passado, e o fato de Massa ter se tornado pai, também em 2009.

Para não perder o costume, resta ainda espaço para a menção desonrosa para Schumacher. Patético, como em todo o resto da temporada.

Nadal: sangue, suor e talento para a História

Rafael Nadal acaba de conquistar US Open. Ao bater com autoridade o sérvio Novak Djokovic, por 3 sets a 1, o espanhol ratificou sua posição de melhor tenista da atualidade e, muito mais importante, continuou a rechear com espantosa fartura seu invejável currículo.

O taça nos Estados Unidos foi o nono título de Nadal no Grand Slam, circuito que reúne os quatro principais torneios do tênis mundial. Além do troféu de hoje, já são incríveis cinco triunfos no saibro de Roland Garros, dois na grama de Wimbledon e um na quadra dura do Australian Open.

Para se ter uma primeira ideia do que significa tal feito, na chamada Era Moderna, em que os torneios são jogados numa variedade de superfícies – saibro francês (lento), quadra dura australiana e norte-americana (rápida) e grama inglesa (muito rápida) – que em muito dificulta a conquista cumulativa, apenas outros dois jogadores conseguiram o feito: Andre Agassi e Roger Federer. Nem Pete Sampras, para alguns – que eram muitos até aparecer Federer – o maior de todos os tempos, chegou lá. Faltou Roland Garros.

Mas não é só. Para ficar apenas em Federer, a lenda, o homem que faz parecer fácil qualquer golpe no jogo de tênis, tido e havido atualmente como o mais completo da História, o aparentemente impossível se verifica: Nadal tem números melhores que os do suíço quando este possuía os mesmos 24 anos que o espanhol completou em 3 de junho. À época, em 2005, Federer, hoje recordista de Grand Slams, com 16, tinha “apenas” seis conquistas. Chegou a nove no ano seguinte, já com 25 primaveras.

A seguir no ritmo que vem apresentando nas últimas temporadas, algo que parece provável, nada leva a crer que Nadal não consiga superar o recorde de títulos de Federer, mesmo considerando que o suíço ainda tenha conquistas pela frente. Ao contrário, o número de 16, de 20 Grand Slams, parece hoje absolutamente palpável ao Touro Miúra.

Nadal com o US Open: maior de todos os tempos?

Nadal está longe das jogadas embasbacantes de Federer, que demonstram uma habilidade absolutamente impensável para humanos comuns. Mas está também longe de Federer quando os quesitos são fibra, preparo físico, vontade de vencer, sangue nos olhos. Nisso, é ele, Nadal, o embasbacante, que dá banho em qualquer dos grandes que até hoje surgiram.

Provalvemente esteja aí, no conjunto dessas características com doses generosas de talento e regularidade, o segredo que poderá fazer de Nadal o maior da História. Pelo menos em termos de grandes conquistas.

Ferrari e Fittipaldi

Alonso cada vez mais justifica o tão falado ato de troca de posições entre ele e Massa, patrocinado pela Ferrari no GP da Alemanha. A vitória recheada por uma bela atuação na Itália deixou o espanhol a apenas 21 pontos do líder Mark Webber – a vitória vale 25 -, totalmente dentro da disputa pelo Scudetto.

O mais saboroso do domingo de Fórmula 1 começou, porém, ainda antes da prova, quando Carlos Gil entrevistou o grande Emerson Fittipaldi a respeito da celeuma ferrarista na Alemanha, certo de que o bicampeão cairia no senso comum de reprimir a atitude dos italianos. Mas Fittipaldi, além de conhecer muito mais de automobilismo do que qualquer dos que enchem os pulmões para berrar pachecamente contra a Ferrari, pensa com os próprios miolos, não segue a boiada. Foi peremptório: “jogo de equipe sempre existiu na Fórmula 1 e deveria ser oficializado no regulamento. Se não houvesse, não haveria por que existir equipe.” Diante de tamanho discernimento, só resta a menção positiva à Globo, por colocar no ar – a declaração fora gravada um pouco antes – opinião frontalmente contra a ordem natural dos seus fatores.

Na corrida, além de Alonso, Button, Vettel e Webber também tiveram desempenhos que os credenciam a se manter, como se mantêm, na disputa pelo título. Aliás, não fosse a barbeiragem de Vettel pra cima de Button na Bélgica, ambos estariam ainda muito mais vivos na briga. Decididamente, o jovem alemão não tem prejudicado apenas a si ao longo de um 2010 cheio de trapalhadas. Button e Webber que o digam.

Hamilton foi o único dos primeiros a não pontuar, num choque casual com Massa, logo após a largada. O campeonato agradece muito, pois o inglês já dá, há algumas corridas, mostras de que parece ser o principal, senão único, candidato a estilingar à frente do pelotão. Explica-se: Webber pilota uma Red Bull que claramente perdeu espaço para Ferrari e McLaren nas últimas semanas e os outros três, antes de pensarem em abrir, têm de pensar em tirar a vantagem dos líderes.

No mais, os comentários que vêm se tornando padrão ao longo do ano. Massa continua sendo constantemente mais lento, e muito mais lento, do que Alonso. Antes que surjam as reclamações nacionalistas, é preciso lembrar que o brasileiro conseguiu andar em ritmo parecido ao do espanhol em Monza apenas enquanto este era seguro por Button, em ritmo um tanto mais lento. Quando Alonso assumiu a ponta, a diferença de tempos para Massa se tornou clamorosa. Mais uma vez. É triste a constatação de que, enquanto tiver o asturiano como companheiro de Ferrari, o paulista não terá qualquer chance de título. E o Brasil segue na fila.

E, para seguir na temática do mais do mesmo, Schumacher. Outra vez constrangedor a seus adoradores. Tomando tempo, tempo e mais tempo de Rosberg. Não seria hora de voltar para o aconchego do lar? Ou a ideia é mesmo continuar manchando a fama e o ar de mito conquistados?

***

Em tempo, como devem ter percebido e apenas para não deixá-los sem qualquer satisfação, fui devidamente abandonado pelos meus parceiros de Fórmula 1. Relações críveis sem contrato só mesmo em países da Common Law. Ou com Muricy. Grandes países. Grande Muricy. Peço desculpas pela ausência no GP da Bélgica e sigo o voo solo, espero que a contento.

A Fórmula 1 contra a Fórmula 1

Muito a escrever hoje. A prova da Hungria saiu da tradição anos a fio acumulada, de ser uma das menos atrativas da temporada, atrapalhada por um traçado que tem nas ultrapassagens um grande desafeto. Graças a uma bandeira amarela provocada por um pedaço de Force India na pista, o rumo da mesmice que provavelmente levaria a uma dobradinha da Red Bull, ordenada com Vettel e Webber, transformou-se na quarta vitória do australiano, que o catapultou de volta à liderança do certame.

Vitória possibilitada por mais uma punição, a meu ver equivocada, levada a cabo pelos comissários de prova, os reguladores, os donos da verdade na Fórmula 1. Resolveram obrigar o jovem alemão a uma passagem pelos boxes sob a alegação de que havia muito espaço entre ele e Webber no momento da relargada, o que teria sido uma manobra desportivamente digna de censura, posto que tomada para, em prejuízo direto de todos os demais competidores, auxiliar o companheiro que então precisava se desgarrar do pelotão para, posteriormente, ao fazer sua parada, ainda voltar em boa posição.

Explico minha posição, e já aproveito para entrar na celeuma da Ferrari na última semana. A Fórmula 1 caracteriza-se por ser um esporte eminentemente de equipe. Compara-se, nesse sentido, bastante bem, embora de forma menos radical, ao ciclismo, em que equipes são formadas com um primeiro “piloto” claramente definido, em prol do qual todos os demais integrantes agem para garantir o êxito do time. O ciclismo deixa, por isso, de ser esporte? Claro que não. Não existe apenas uma forma de esporte. Existem os individuais, como o tênis, o boxe, em que a disputa não envolve qualquer tipo de colaboração, e existem os coletivos, como o futebol, o vôlei, o basquete, a Fórmula 1, em que a equipe está na essência do jogo. Na Fórmula 1, a prova mais evidente de que o jogo é coletivo é o fato de haver apenas um boxe para ambos os pilotos e não posições individuais, como na Indy, por exemplo.

Em assim sendo, vai contra os fundamentos da própria modalidade não permitir jogo de equipe num esporte coletivo. É um contra-senso impedir uma equipe – vejam bem, uma equipe! – de trabalhar como… uma equipe. Não há absolutamente nada de antidesportivo nisso. Haveria, sim, em caso de conchavos entre equipes diferentes, o que não está em questão. A decisão a respeito da política de competição interna entre os pilotos cabe, pois, a ninguém mais que não os dirigentes de uma equipe. Como em qualquer empresa, em qualquer ramo de atividade. O piloto, seja ele quem for, não precisa aceitar as condições de cima. Tem toda a liberdade para não assinar o contrato e dirigir para outro time, com outra política. Simples assim.

Interferências externas nessa seara, além de inegavelmente acabarem na armadilha de tratar casos absolutamente iguais como diferentes – não há, de fato, qualquer diferença real entre o caso Alonso/Massa e tantos outros, tratados sob variados prismas: Schumacher/Barrichello (que, lembremos, houve em ambos os sentidos), Massa/Raikkonen (também em via de mão dupla), Senna/Berger etc. -, vai no sentido de punir uma equipe por ser boa o suficiente para colocar seus dois pilotos em situação tal que possa conseguir para si o melhor resultado entre todos os possíveis.

Tanto para a Ferrari na Alemanha como para a Red Bull hoje, as decisões tomadas pela cúpula foram, sem dúvida, as melhores para as equipes. Alonso, ao contrário da grita dos pachecos de plantão, tem ainda todas as chances de ser campeão, embora não seja este o desfecho mais provável para o campeonato, e a segurada de Vettel foi importante para permitir a Webber ter êxito em seu plano de corrida. Se a direção de prova enxergou falta de espírito esportivo na manobra, deveria ter mantido a bandeira amarela por mais uma volta, para que os pilotos se alinhassem de forma correta. Jamais punir Vettel. Seguindo essa linha, todos os pilotos que, para defender seu companheiro, comportam-se como os chamados escudeiros, diminuindo o ritmo à frente de rivais, deveriam ser chamados aos boxes. Os congestionamentos trariam à memória o tráfego da capital paulista.

Tudo isso posto, é ainda preciso duas últimas colocações. A primeira, de repetida glorificação ao atual sistema de pontuação, que premia na exata medida os vencedores e dá ao campeonato o gosto das reviravoltas sempre potencialmente presentes. Hoje, restando sete etapas, cinco pilotos têm plenas condições de conquista: Webber (161), Hamilton (157), Vettel (151), Button (147) e Alonso (141).

A segunda, de asco, a Schumacher. Como se não bastasse a pífia temporada, que o coloca 56 pontos atrás do parceiro de time, Nico Rosberg, o alemão reviveu hoje os momentos mais deploráveis de uma carreira que, embora recheada de brilhantes conquistas, teve aqui e acolá momentos imorais. Antes ainda havia a justificativa de campeonatos estarem em jogo, o que costuma trazer uma medida não desprezível de insanidade aos grandes campeões. Hoje, ao colocar a vida de Rubens Barrichello em risco, espremendo-o num muro que, se tivesse mais 10cm, poderia levar ao pior, Schumacher foi apenas ridículo, patético, patológico, criminoso. Um ex-piloto em atividade que deveria, de pronto, ter recebido bandeira preta.

Mas os comissários são assim mesmo. Só não punem quando têm de punir. Ficam as palmas à Barrichello, grandíssimo piloto. Mas sem estrela.

Eu, Muricy

Sou um admirador confesso de Muricy. Não tanto pela sua capacidade estratégica de desenvolver um amplo leque de jogadas para suas equipes. Sob esse aspecto, embora tenha um inegável valor, demonstrado, entre outras passagens, pelas inúmeros bailes sobre Vanderlei Luxemburgo, freguês de carteira, Muricy fica atrás de outros treinadores. A admiração é maior pela competência de Muricy em dotar seus times de um formidável espírito competitivo, que os torna dificilmente superáveis e, sobretudo, pelo caráter de Muricy, algo infelizmente raro em nossos dias.

A admiração foi crescendo à medida do passar dos anos, alimentada pelas atitudes de Muriça dentro e fora de campo, acompanhadas por mim cada vez com maior atenção. Talvez por isso, talvez por excesso de presunção, tenho hoje a sensação de que conheço o Muricy, apesar de nunca termos trocado uma palavra. É baseado nessa sensação que, nas próximas linhas, vou falar um pouco daqueles que acredito terem sido os principais motivos da histórica recusa do treinador em assumir o comando da seleção brasileira.

Em geral, as linhas de explicação para o surpreendente rumo tomado pelas coisas na última sexta-feira têm seguido duas linhas. A primeira que coloca a responsabilidade sobre o desfecho sobre a diretoria do Fluminense, que não liberou Muricy, obrigando-o a, seguindo o seu digno caráter, cumprir a palavra com o clube e manter-se nas Laranjeiras. A segunda que passa a responsabilidade para o próprio Muricy, que não teria sentido em Ricardo Teixeira a confiança de que seguiria até 2014 e, por isso, declinado. A diretoria do Flu teria assumido para si a decisão simplesmente para poupar Muricy do desgaste público provocado por uma decisão de afronta à “Pátria de chuteiras”.

A mim nenhuma das explicações convence, embora ambas tenham parcela da verdade. O ponto crucial para entender tudo o que se passou pela cabeça de Muricy a partir do convite – que a CBF, amadora e prepotente como sempre, julgava ser convocação – de Teixeira está no semblante do treinador assim que se despede do manda-chuva na reunião de sexta, logo depois de tentar um aperto de mãos não correspondido e flagrado pelas câmeras da ESPN Brasil. O rosto do Muricy que saiu da mesa e se dirigiu meio sem rumo para a saída pode ser descrito de várias maneiras, jamais como o de alguém que acabou de ouvir aquilo que desejou durante toda a carreira. Muricy estava sem graça, transmitia um certo mal-estar, claramente desconfortável. Ao vê-lo, não pude pensar em outra coisa que não aquela situação, pela qual a maioria já passou, de se esperar ansiosamente por determinada coisa e se decepcionar quando essa coisa finalmente acontece.

Até aí, a segunda explicação se mostraria correta. Muricy, e não o Fluminense, teria decidido o não à seleção. De fato, acredito que o caminho vai por essa via, mas não por falta de confiança em estar à frente da equipe em 2014. Ora, esse tipo de garantia não existe no futebol, Muricy experimentou essa realidade recentemente no Palmeiras e não seria ingênuo a ponto de balizar sua decisão sobre treinar o principal time de um país em algo que nunca exigiu, em qualquer clube por que passou. Ademais, Muricy confia em seu trabalho o suficiente para acreditar que iria até 2014, com ou sem garantias.

O que Muricy preza não é a confiança em cargos, mas sim a confiança em pessoas. Confiança que o faz sentir-se à vontade para fazer o trabalho a seu modo, com alguém, pelo menos um, com quem possa contar nos momentos difíceis. Um parceiro. Foi o que teve em Fernando Carvalho, no Internacional, e em Juvenal Juvêncio, no São Paulo. Foi o que julgou, erradamente, que teria no Palmeiras, com Belluzzo, que roeu a corda.

Muricy não conseguiu enxergar em Ricardo Teixeira, nem sequer capaz de retribuir um mero aperto de mãos, esse parceiro. Enxergou nele um chefe, a quem teria de se submeter ao longo de quatro longos anos. Engolindo sapos, aguentando uma nojenta arrogância e ainda sabendo que, à primeira trovoada, seria ele, o chefe, o primeiro a abandonar o barco. Como sempre diz, Muricy tem filhos a quem quer deixar bons exemplos. O do capacho submisso certamente não seria um.

Tudo isso na conta, Muricy saiu do encontro tendo de um lado a imensa vontade de dirigir a seleção brasileira e, de outro, a sensação de que provavelmente teria de abrir mão de muito em que acredita, calar a boca para muitas coisas erradas. O sonho se transformou em dúvida. Valeria a pena? Acredito que a resposta de um Muricy desimpedido ainda seria “sim”, mas, a partir dessa dúvida, a posição do Fluminense – absolutamente correta, diga-se de passagem – contou o suficiente para fazer o treinador seguir a palavra empenhada e aceitar a vontade tricolor.

Se tivesse ido com a cara de Teixeira, se o semblante fosse outro, leve, alegre, positivo, após a reunião, é certo que Muricy não teria sido tão condescendente com a decisão do Fluminense e, de forma análoga, a diretoria tricolor também não seria tão irredutível em sua posição. Do jeito que foi, o não do Flu deve ter até soado como um alívio para Muricy. Dirimiu suas dúvidas. Em prol da palavra. Em prol do caráter.

Muricy não foi à seleção, talvez nunca mais tenha outra chance, mas ganhou mais alguns pontos comigo e com aqueles que o admiram. E o cargo tão sonhado caiu no colo de Mano Menezes, que agora já aparece na primeira entrevista exclusiva à RGT…