Vargas Llosa e a evolução do Homem

Mario Vargas Llosa é prova viva de que o Homem pode evoluir ao longo de sua existência, embora muitas vezes não o faça. De comunista na juventude, o peruano, há poucas horas agraciado com o Nobel de Literatura, transformou-se num esclarecido defensor da liberdade individual e do livre mercado. Aos 74 anos, ainda protesta contra os excessos estatistas e autoritários que insistem em agonizar parte do mundo. Ataca a utilização ideológica, caricata e vazia do termo neoliberalismo. Define-se como um liberal e discorre brilhantemente sobre o tema:

Eu me considero um liberal. Conheço muitas pessoas que são liberais e muitas outras que não são. Mas durante a minha carreira, que já começa a ficar longa, eu jamais conheci um único neoliberal. (…) O liberalismo é a doutrina que, além da combinação relativamente simples e clara dos princípios básicos estruturados ao redor da defesa da liberdade política e econômica (isto é, da democracia e do livre mercado), acolhe uma grande variedade de tendências (…). Para os liberais, a guerra histórica para o progresso da liberdade é, acima de qualquer outra coisa, uma luta intelectual, uma batalha de idéias.

A seguir, longo trecho de entrevista concedida por Vargas Llosa ao Estado de S. Paulo, no último 2 de outubro. Há pérolas que merecem ser lidas e gravadas, como a comparação entre o império inca e a “modernidade” de algumas regiões atuais.

Como ninguém é perfeito, falta a Vargas Llosa certa dose de conhecimento sobre a ideologia do atual governo brasileiro que, para ele, entendeu que o estatismo leva ao fracasso econômico. Doce ilusão.

 

Vargas Llosa: das trevas do comunismo à luz da liberdade

 

Em Sabres & Utopias, ensaios, artigos e documentos são dispostos fora de ordem cronológica, segundo critérios de importância fixados pelo organizador do livro, expert em sua obra. Há um ensaio no início, chamado Um País de Mil Faces, que revela a sua relação com o Peru, algo que o explica como escritor.

Sim, é um pequeno ensaio sobre a diversidade peruana. O país onde nasci pode ser tomado como uma espécie de síntese do mundo pela incrível variedade de tradições que o formam. Há o país pré-hispânico, que se perpetua nos milhões de peruanos de origem indígena, há o país europeu, de tantos milhões de origem hispânica e de outras nacionalidades, há o país também africano, dos negros que chegaram com os espanhóis há cinco séculos, há o país dos japoneses e chineses, integrados a essa diversidade desde o final do século 19, e, felizmente, há um processo de mestiçagem grande. Eis a grande fortuna do Peru: ser uma espécie de protótipo do mundo, com pontes para diversas culturas e crenças.

Neste ensaio específico, é curioso quando o senhor fala dos “homens-formigas”, herdeiros dos incas, que seriam a explicação para certa tendência à burocracia no seu país.

O império inca foi uma realização assombrosa, ergueu cidades, fortalezas, templos, com extraordinária criatividade. E também gerou uma organização formidável que, segundo historiadores, dava de comer a todos os habitantes. Não se morria de fome no império inca. Mas, para isso, fez-se uma sociedade burocrática, vertical, autoritária, na qual o Estado dominador tomava sob sua responsabilidade o indivíduo, desde o nascimento até a morte. Então as pessoas careciam de iniciativa e liberdade. Essa é uma das razões pelas quais esse império acabou sendo destruído por uma minoria de conquistadores. Porque esses, ao decapitarem os chefes indígenas, fizeram desabar todo o edifício inca. A nossa modernidade guarda sequelas desse passado, como o tão característico espírito burocrático e a crença de que o Estado tem que resolver todos os problemas, não é verdade? Só que a tradição gregária e coletivista do indivíduo deprimido pelo Estado vai mais além e acaba por gerar um fenômeno duplo, pois tem a ver com as civilizações pré-hispânicas e também com a formação de colônias subordinadas a impérios autoritários, caso de Portugal e Espanha.

Por que o senhor se refere ao Peru como uma “enfermidade incurável” em sua vida?

Posso usar esta metáfora porque tenho um espírito atento e crítico em relação a meu país. É uma realidade sempre presente em minha vida, apesar de ter vivido desde cedo em outros lugares. Ainda hoje passo meses por ano fora do Peru, mas sem dúvida os problemas do país me afetam e sempre estou intervindo nos debates por lá. Há uma ligação permanente.

Há 20 anos o senhor se candidatava à Presidência do Peru. Perdeu para Alberto Fujimori e saiu da vida política. Essa experiência lhe deixou traumas?

Sempre participei da política como intelectual interessado no confronto das ideias, nunca me imaginei assumindo cargos, definitivamente não era minha vocação. Mas resolvi participar do jogo político num momento muito particular do país, em que havia uma situação econômica crítica, um processo hiperinflacionário que destruía os salários, um populismo que fazia com que o Peru fosse olhado com desconfiança pela comunidade internacional, quando os níveis de vida despencavam… e havia a violência social desencadeada pelo terrorismo, com Sendero Luminoso, Tupac Amaru e outras organizações radicais. Enfim, senti que nossa débil democracia poderia desaparecer, por isso resolvi me candidatar. Além disso, eu realmente acreditava haver um clima favorável para as reformas liberais e democráticas que me dispunha a fazer. Foi uma experiência instrutiva e ingrata, também, pela grande violência que a acompanhou… o saldo foi reconhecer que sou completamente incompetente como político profissional (risos).

Borges disse que a “política é uma das faces do tédio”. Passou a concordar com ele?

Sim, Borges dizia isso. Mas não podemos prescindir da política. E nem tente fechar as portas para ela, pois irá vê-la entrando pelas janelas. Por isso, continuo disposto a participar, batalhar por melhoria social, por uma vida cultural mais plena, fortalecer a democracia e afastar qualquer hipótese de retorno às ditaduras do passado.

Tem-se a impressão de que os intelectuais latino-americanos andam emudecidos, talvez até desviando de certos debates.

Em nosso continente, a intelectualidade ainda está ligada a um monopólio cultural da esquerda, que por sua vez está a exibir duas faces. Pela primeira vez, há uma esquerda que chega ao poder em alguns países da região demonstrando ter aprendido boas lições ao renunciar à violência e abraçar a democracia, ao aceitar o livre mercado e respeitar a empresa privada, ao entender que o estatismo leva ao fracasso econômico, que por sua vez leva à pobreza. Isso ocorreu no Chile, com a Concertação, no Brasil com Lula, no Uruguai, curiosamente com um governo que vem de uma esquerda revolucionária. Sem dúvida, essa esquerda democrática deve ser bem-vinda, assim como deve ser bem-vinda uma direita democrática. Mas há também uma esquerda pouco ou nada democrática, como a que vemos em Cuba ou Venezuela. Veja como os venezuelanos acabam de impor um revés eleitoral a Hugo Chávez, pois já existe uma maioria que não se convence com o discurso do “socialismo século 21”. Essa esquerda também está presente na Nicarágua, no Equador, sem falar do caso particular e trágico da Argentina, nas mãos de um casal demagogo e de uma turma com um prontuário dos piores. Como se pode eleger gente assim? Como se pode dar crédito a partidos e facções com entusiasmos de golpismo? Ora, os intelectuais têm medo de se manifestar livremente sobre isso, de serem desacreditados e atacados. Inclusive uma coisa que a esquerda sabe como fazer é satanizar o adversário. Diante disso, intelectuais constrangidos estão no máximo invocando cartas de correção política e usando os clichês de sempre. Porque assim são poupados e terão uma vida mais fácil.

O artigo intitulado Lula e os Castro, de maio de 2010, abre em Sabres & Utopias uma sequência de textos sobre Cuba, mostrando seu afastamento do regime castrista a partir do início dos anos 70. Mas no artigo em questão, o senhor manifesta indignação pelo fato do presidente brasileiro ter ido saudar Fidel e Raúl em Havana, no mesmo dia em que se enterrava o pedreiro Orlando Zapata Tamayo, dissidente do regime. São linhas bastante duras contra o líder de esquerda que o senhor imagina ter se tornado democrata.

O presidente Lula evoluiu ao longo do tempo e isso foi muito benéfico para o Brasil. Ele hoje crê na democracia, no mercado, na iniciativa privada. Mas ele também tem sido muito contraditório, basta ver sua política externa. Um defensor da democracia não pode abraçar Fidel Castro nem os governantes do Irã, que representam uma ditadura teocrática. Esses abraços acabam legitimando regimes que são uma vergonha do ponto de vista político e moral. Essa contradição de Lula me parece lamentável. Então tive que externar meu protesto.

Quando o senhor escreveu a famosa carta para Fidel, em 1971, protestando pela autocrítica forçada do poeta cubano Heberto Padilla, conseguiu adesão imediata de assinaturas famosas: Sartre, Simone de Beauvoir, Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino, Alain Resnais, Jorge Semprún, Susan Sontag, Maurice Nadeau, Alberto Moravia e outros. Hoje adesão em tal grau não acontece.

Muitos outros intelectuais de peso assinaram aquela carta… Mas foi um momento de ruptura de parte da intelectualidade de esquerda com o regime cubano. Foi como se disséssemos: “Até aqui chegamos e não vamos seguir dando apoio.” Muitos dos signatários conheceram Padilla pessoalmente. Sabíamos que era absurdo acusá-lo de revolucionário e agente da CIA, justamente ele que havia estado com a revolução desde os primeiros momentos, inclusive tendo parado de escrever sua poesia para trabalhar para o regime. Agia como funcionário fiel e as críticas que ousava fazer não eram contra o socialismo. Era contra o que acreditava ser uma deformação do socialismo. Por isso foi preso, caluniado, insultado. Aquilo foi um turning point. Muitos de nós nos despedimos da aventura revolucionária, que manteve a seu lado os mais dogmáticos e servis.

O que pensa de escritores como a cubana Yoani Sánchez, autora de um blog lido no mundo inteiro?

Os dissidentes de hoje são gente muito valorosa e sempre que posso lhes manifesto meu apoio. Porque ser dissidente em Cuba requer coragem e um espírito de sacrifício extraordinário diante do peso brutal do regime. Os intelectuais de lá têm muita dificuldade para se expressar. Veja o caso emblemático do escritor, poeta e ensaísta Lezama Lima. Ele foi muito perseguido e só quando morreu, em 1976, os dirigentes revolucionários se deram conta de quão respeitado ele era mundo afora.

O senhor o conheceu pessoalmente?

Sim, estivemos juntos várias vezes em Cuba. Eu me lembro perfeitamente de nosso último encontro, creio que foi em 1969. Fui convidado pelo escritor chileno Jorge Edwards, que era embaixador em Havana, para almoçar com ele e Lezama em um daqueles restaurantes bons a que só a nomenclatura tinha acesso. Foi um encontro memorável. No fim, o poeta se despediu de mim com um longo e intenso aperto de mãos, e me perguntou: “Você se deu conta do país em que estou vivendo?” E eu respondi: “Sim, claro, me dei conta.” E ele repetiu a pergunta: “Você se deu conta?” Minha última recordação de Lezama são essas frases, ditas com muita tristeza. Nunca mais nos vimos. Terrível, não? Era um homem extraordinário, que apenas uma vez na vida conseguiu sair de Cuba, creio eu, mas atravessava o mundo com sua literatura barroca, sua cultura e sofisticação

Matéria completa aqui.

Paulo Moura

Paulo Moura foi dos maiores instrumentistas brasileiros. Nascido na minha querida São José do Rio Preto, em 15 de julho de 1932, utilizava seus clarinetes e saxofones, fiéis companheiros, para encantar plateias mundo afora. Também compositor e arranjador, participou da Bossa Nova e trabalhou com variados artistas, como Ary Barroso, Maysa, Elis Regina, Fagner e Milton Nascimento.

Em 2000, ganhou o Grammy Latino de Música de Raiz pelo álbum “Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas”. Infelizmente, acabou mais reconhecido lá fora do que aqui dentro. Como muitas de nossas coisas boas.

O vídeo abaixo é a última, por assim dizer, apresentação de Paulo Moura. Já internado, ele aproveitou a visita de Wagner Tiso para insistir até que lhe passassem o clarinete. Fizeram um dueto em “Doce de côco”, de Jacob do Bandolim.

Era sábado, 10 de julho. Dois dias depois, Paulo Moura nos deixou as saudades, prestes a completar 78 anos.

Bolão na reta final: as chances de cada um

Passados 62 dos 64 jogos da Copa, apenas uma coisa já está definida no bolão. Aconteça o que acontecer, ninguém mais tira a lanterna de Marcelo Cerri, com seus 697 pontos. Para quem acertou em cheio o primeiro placar do torneio, entre África do Sul e México, deve ser, no mínimo, frustrante.

Na parte de cima – e um pouco mais honrosa – da tabela, seis apostadores ainda têm chances de premiação e três de serem campeões. Após um árduo trabalho de construção de todos os cenários possíveis para os jogos de sábado e domingo, vem abaixo quem são eles e um resumo das chances de cada um.

1. Thiago Ribeiro

Entro na reta final como favorito. Depois de um bom começo, que chegou a significar a liderança na segunda rodada, errei 6 dos 16 classificados para as oitavas e terminei a primeira fase em 20º. A partir daí, o desempenho foi quase perfeito: de todos os classificados das fases seguintes, errei apenas a Alemanha nas semis. O resultado foi a liderança e a folga de 85 pontos para o 2º colocado. Os palpites que ainda podem engordar minha pontuação são Espanha campeã, Holanda em segundo, Alemanha em terceiro e David Villa artilheiro. Com isso, sou o único que já garantiu uma posição no pódio, qualquer que seja a combinação de resultados. Serei campeão se:

a) A Espanha for campeã;

b) A Holanda for campeã e Villa for artilheiro.

2. Fábio Corrêa

O Fabinho teve um início discreto. Começou a aparecer a partir da terceira rodada, quando acertou boa parte dos classificados para as oitavas, terminando a primeira fase em 9º. Na fase final, os resultados que mais prejudicaram foram os de Estados Unidos x Gana e de Holanda x Brasil. Foi dos poucos a acertar a Alemanha passando pela Argentina, o que lhe garantiu a segunda posição atual, com 1.296 pontos. Os palpites que o favorecem na reta final são Espanha em segundo, Alemanha em terceiro e Uruguai em quarto.

Existe uma possibilidade de ser campeão, que é a Holanda superar a Espanha, o mesmo acontecendo com a Alemanha diante do Uruguai e, ainda, David Villa não terminar como o goleador do Mundial. Por outro lado, se o Uruguai ficar em terceiro, ficará fora do pódio.

3. Maurice Gremaud

O Maurice, pai do grande professor Amaury Gremaud, começou a se destacar e dar umas bicadas no pódio já na segunda rodada. Manteve-se relativamente constante ao longo do jogo, terminando a primeira fase em 2º lugar. Chegou à liderança ao acertar o resultado de Estados Unidos x Gana e saiu dela por apostar que a Argentina chegaria até a final. Contudo, a aposta certeira na Holanda o manteve em terceiro até aqui e ainda abre a possibilidade de título.

Será campeão no domingo se acontecer a seguinte situação: Holanda campeã, com o Uruguai em terceiro e David Villa fora da artilharia. Porém, se Casillas erguer o primeiro título espanhol, não conseguirá nem um lugarzinho entre os três melhores.

4. Ramón Fernandez

Professor Ramón foi, de longe, o apostador que mais passeou pela tabela de classificação ao longo da Copa. Terminou o primeiro dia na liderança, tendo cravado os dois placares, mas, a partir daí, colecionou uma série incrível de reveses que o levou à lanterna, depois que Estados Unidos e Inglaterra se classificaram no Grupo C. Encerrou a primeira fase em 39º e protagonizou, na fase final, a recuperação mais impressionante entre todos os jogadores.

Não pode, pela combinação de resultados e apostas, terminar como campeão, mas basta a Espanha sagrar-se campeã para garantir a segunda colocação. Em via oposta, se der Holanda, despede-se de qualquer chance.

5. Rafael de Cicco

Com um início não mais que apagado, o Rafael começou a mostrar a cara na terceira rodada, cravando a maioria dos classificados para as oitavas. Terminou, com isso, a primeira fase em 8º. Na etapa decisiva, apresentou um desempenho regular, errando logo de cara os resultados de Estados Unidos x Gana e de Alemanha x Inglaterra, e recuperando-se com o acerto das classificações holandesa e espanhola à decisão. Chega à reta final em 10º lugar e é quem pode dar o maior salto no último suspiro.

Não alcança mais a liderança, mas pode terminar em segundo ou terceiro. Se a Holanda for campeã, o Uruguai terminar em terceiro e David Villa não for o artilheiro, fica em segundo desde que faça pelo menos 12 pontos com o resultado da final, entre Holanda e Espanha. Se essa combinação entre as seleções se mantiver, mas não fizer os 12 pontos no jogo final ou Villa for o artilheiro, fecha o bolão em terceiro. Qualquer outra combinação tira Cicco do pódio.

6. Persio Bosquetti

Persio ia razoavelmente bem no bolão até que apostou na Coreia do Sul contra a Argentina e se viu num mergulho profundo. Conseguiu ainda se recuperar razoavelmente na primeira fase, chegando a beliscar o pódio e encerrando-a em 12º lugar. Na fase final, não foi brilhante, errando os resultados de Estados Unidos x Gana, Holanda x Brasil e de Argentina x Alemanha,  mas conseguiu se manter com chances graças às apostas na Espanha campeã e na Alemanha em quarto.

Pode chegar à terceira posição, e no máximo até ela, se a Espanha for a campeã e o Uruguai, o terceiro colocado. Qualquer outro desfecho deixa Persio fora do pódio.

***

É importante, por fim, frisar dois pontos:

(i) felizmente, nenhuma das poucas punições ocorridas ao longo do bolão terá qualquer efeito no resultado final da disputa. Todos os apostadores punidos não teriam chances de chegar entre os três primeiros mesmo sem nenhum ponto descontado;

(ii) a fórmula de disputa do jogo se mostra absolutamente exitosa. Sempre haverá os que discordem, vislumbrando um desempenho próprio possivelmente melhor em caso de mais ou menos períodos para revisões nos palpites, por exemplo. Fato, contudo, é que essa fórmula foi capaz de atingir os seus objetivos: permitiu aos apostadores revisarem as apostas depois de conhecerem o desempenho real de cada equipe na Copa, juntando, pois, os aspectos sorte e competência; possibilitou grandes reviravoltas ao longo da disputa, exemplificadas especialmente pelo professor Ramón; e, em linha com o espírito da Copa, foi deixando alguns pelo caminho, mas chega ao final ainda cheia de emoção. Por tudo isso, e por mais que sejam avaliadas todas as eventuais mudanças sugeridas, o modelo de 2010 já sai como favorito à reeleição em 2014.

Torneio da Consolação no Torero

O texto da postagem anterior, sobre o Torneio da Consolação, foi publicado pelo José Roberto Torero em seu blog (http://blogdotorero.blog.uol.com.br/).

Autor, entre outros, do ótimo O Chalaça, Torero achou adequada a ideia do Torneio da Consolação para lidar com problemas de abstinência como os que vêm sendo sentidos por mim e por um conhecido, o Sr. Alaor, cujo caso está devidamente relatado no Blog do Torero.

Torero torna-se assim o primeiro famoso a entrar na campanha Torneio da Consolação Brasil 2014 e concede mais uma grande honra ao Coisas Mais.

Bolão Coisas Mais da Copa 2010

Além do evento em si, uma Copa do Mundo é legal pelos diversos movimentos que gera em torno de si. Movimentos mais intensos entre apaixonados por futebol como os brasileiros.

Em 2010, a primeira febre que chegou foi a das figurinhas da Copa. Todo mundo tem ou vai ter. E esse negócio de que figurinha é coisa de criança já era. Marmanjos como eu se esbaldam com os cromos autocolantes, embora fosse até divertida a época em que ficávamos com as mãos cheias de cola Tenaz ou Cas-Colar para grudar os jogadores no álbum. E pouco importa que muitos jogadores do álbum não vão à Copa e outros muitos vão à Copa sem estarem no álbum. E pouco importa também o monte de figurinhas repetidas que vai se acumulando e desfalcando nossos bolsos. O que importa é que uma Copa do Mundo traz consigo o dever cívico de ter o Álbum da Copa.

Outro desses deveres é participar de um Bolão da Copa. O bolão pode ser de tiro único para todo o torneio, partida por partida, apenas de partidas do Brasil. Mas tem de ser feito. E quanto maior for a proximidade entre os participantes, mais gostoso. No mundo cibernético, os bolões totalmente eletrônicos e impessoais facilitam a tarefa, mas sem dúvida diminuem o encanto da brincadeira. Não tem mais a graça de poder ver os palpites de todo mundo, de contar os pontos de si e dos outros competidores naquela expectativa, de sacanear os perdedores, de vencer e rir daqueles que financiaram sua vitória.

Buscando o renascimento ao menos parcial dessa porção lúdica da brincadeira, lanço aqui oficialmente o Bolão Coisas Mais da Copa 2010, que já tem todas as regras prontas e também a planilha para inclusão dos palpites.

Os interessados deixem um comentário para receberem todo o manual de instrução. Será bem divertido.

Lyra do comunismo juvenil

Há tempos defendo a tese de que 6 em cada 10 comunistas com menos de 30 anos de idade não sabem o que é comunismo e os outros 4 se dizem comunistas com o pragmático propósito de conquistar jovens mulheres comunistas, que também não sabem o que é comunismo.

Estejam em um ou outro grupo, os 10 jovens aderem ao comunismo pela marca – da mesma forma que bebem Coca-Cola, calçam Nike, vestem Lacoste (sim, os comunistas fazem isso!)  -, não pelo conteúdo. Vestem o comunismo por ter o superficial apelo cult tão venerado pelos jovens que, felizmente, envelhecem.

Estava eu lendo o agradabilíssimo Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova, de Ruy Castro (2008, Companhia das Letras), quando, lá pela página 250, de repente, não mais que de repente, a tese ganhou mais um caso prático.

Carlinhos Lyra, um dos grandes nomes da nossa música, figura importante no nascimento da Bossa Nova, definido por Tom Jobim como o maior melodista do movimento. Lyra, por volta dos seus tenros 20 anos, participou da fundação de uma célula do Partido Comunista em Higienópolis, São Paulo. “De esquerda”, sentia-se por vezes frustrado em fazer apenas músicas alienadas ao lado do parceiro Ronaldo Bôscoli (“de direita”) e, em meio a seu processo de afastamento da turminha da Bossa, passou a compor coisas mais engajadas.

Depois do prelúdio, a comprovação da tese. O mesmo Lyra, exatamente à mesma época (1960), participou da criação do Centro Popular de Cultura, no Rio de Janeiro. A idéia inicial dos fundadores era criar o Centro de Cultura Popular, mas Lyra foi contra, sob a seguinte argumentação, retirada do livro de Castro:

Sou contra“, ele votou. “Sou burguês. Não faço cultura popular, faço cultura burguesa, não tem jeito.” O livro continua, delicioso (comentário meu entre parênteses):

Alguns o olharam horrorizados. Como alguém tão inteligente e alinhado com as aspirações populares poderia dizer-se ‘burguês’? (talvez porque ser inteligente não significa ser hipócrita) Carlinhos explicou que o fato de gostar de samba de morro não o fazia ter vontade de mudar-se para a favela e que, portanto, não saberia produzir o tipo de música que aqueles sambistas faziam. Além disso, usava camisas de zuarte, compradas na Casa da Pátria, na praça Quinze, apenas porque estavam na moda.

Lyra ganhou adeptos em sua lúcida explanação e o nome escolhido foi Centro Popular de Cultura.

Pena que a lucidez juvenil de Lyra na música não alcançasse a política, fazendo-o perceber que, para ser um “burguês comunista”, o mínimo que deveria fazer seria alienar todos os bens familiares em favor do “proletariado”, ou de um Estado “benevolente” que os redistribuiria aos operários. Mas aí deixaria de ser um “burguês”. Dar leite para as crianças pobres, como dizia o pai de Lyra, não era o bastante.

E justo ele, que não queria ser alienado como Bôscoli. Provavelmente, era mais. Mais alienado. Mais um dos 6 entre 10 comunistas juvenis.

Leiam!

Ler faz bem. Mais para a alma do que para o corpo. E o mundo está com muito corpo para pouca alma ultimamente. Treinemos, pois, ela, a alma.

A seguir, três dicas de leitura. Nenhum lançamento, nenhum best-seller, nenhum que reescreve a história da humanidade, nenhuma auto-ajuda. Simplesmente obras que merecem ser lidas em algum momento da vida.

O Chalaça (1999)

Com uma escrita criativa, despojada, engraçada e cativante, José Roberto Torero consegue manter a atenção do leitor ao longo de todo o romance, que narra as aventuras e desventuras de Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, conselheiro do imperador D. Pedro I.  Misturando fatos históricos com passagens ficcionais que, em se tratando de Brasil, bem que poderiam ser todas verdades, o livro utiliza as personagens, destacadamente D. Pedro e o próprio Chalaça, para explorar traços marcantes do nosso povo, como o famoso jeitinho brasileiro. Se deveríamos nos orgulhar ou nos envergonhar dessas características é outra história. Fato é que elas estão lá e garantem boa diversão ao longo de 228 páginas.

A volta do poderoso chefão (2006)

Para aqueles que, como eu, são fãs incondicionais do Poderoso Chefão, este livro do norte-americano Mark Winegardner é obrigatório. As lacunas temporais deixadas por Mario Puzo na obra original, de 1969, são preenchidas com um estilo detalhista e muito bem tramado, por meio do qual Winegardner desvenda fatos importantes sobretudo para o entendimento da trajetória e das atitudes de Michael Corleone (Al Pacino no cinema). Como foi sua infância e a relação com Don Vito? O que o levou a sangrar aquilo que mais prezava, a família, atingindo o irmão Fredo? Até onde chegavam os seus contatos com o alto escalão político dos Estados Unidos e quais as estratégias para, oculto, se fazer prevalecer? Todos os valores e a essência maquiavélica de Michael, que encontra um rival à altura ao longo do enredo, desenvolvem um grande romance, que se destaca ainda por explorar as ligações dos Kennedy e de Frank Sinatra com a máfia.

Teatro Completo – Nelson Rodrigues (2004)

Esta série em quatro volumes reúne as 17 peças compostas por Nelson Rodrigues em sua carreira, divididas de acordo com a temática das peças (psicológicas, míticas e tragédias cariocas I e II). O estilo rodriguiano, visceral e polêmico por natureza, aparece em carne viva e torna a leitura dinâmica, contagiando o leitor com aquele espírito de “como será que termina?” que, na maioria das vezes, o leva a ler toda a peça num mergulho só. Na maioria porque, em algumas peças, como “Dorotéia”, os devaneios do anjo pornográfico vão um pouco além, exigindo atenção redobrada ao seu mundo fantástico. As críticas à sociedade carioca (microcosmo da brasileira) de seu tempo recheiam as obras, com uma profusão de casos de adultério e incesto que, via de regra, contrapõem a força feminina (pólo dominante) à fragilidade masculina (pólo dominado). Não bastasse, a série ainda apresenta fotos das montagens realizadas para cada uma das peças, com grandes atores brasileiros, o que enobrece um pouco mais os volumes.

Boa leitura!