Tiriricagate, pra piorar

Não houve grandes surpresas nas eleições gerais de ontem. Como se podia projetar, um provável governo de Dilma Rousseff contará com um Congresso absolutamente simpático a suas propostas, o que abre espaço para o avanço das sempre tão faladas, e nunca de fato realizadas, reformas – política, tributária, trabalhista, previdenciária etc. Não acredito que tal espaço seja aproveitado, principalmente porque não vejo no PT reais anseios de avanço em qualquer desses temas.

Também como não era difícil de se prever, o ganho de apoio congressista foi conseguido sobretudo no Senado e graças à extrema popularidade de Lula no Norte-Nordeste. A reboque dessa popularidade, nomes tradicionais da oposição tucano-democrata, como Tasso Jereissati, Arthur Virgílio e Marco Maciel, saíram de cena em favor de aliados do presidente.

No eixo Sul do país, onde Lula não é tão Deus assim, manteve-se um equilíbrio maior. Em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, pelo menos um senador de oposição foi eleito. De oposição ao governo, que fique claro, e não às ideias do Império da Esquerda Tutelar descrito na postagem anterior. A este, a resistência é ainda mais anêmica, e se mantém simbolizada pelo bastião Demóstenes Torres, reeleito senador por Goiás.

Para mim, porém, o grande recado desta eleição vem, assim como viera em 2002, dos resultados da votação para deputado federal em São Paulo. Tiririca, autointitulado “o abestado”, superou a marca de 1,3 milhão de votos, ficando atrás apenas do resultado conseguido por Enéas em 2002, acima de 1,5 milhão de votos. Tanto agora como daquela vez, as espantosas votações, associadas ao nefasto sistema de vagas proporcionais ao montande de votos das coligações partidárias, carregaram junto aos campeões de votos uma patota de eleitos sem votação própria suficiente para tal.

O Tiriricagate, porém, é ainda mais emblemático da total aberração que reina no sistema eleitoral brasileiro. Enéas, bem ou mal, tinha uma plataforma ideológica definida e não fazia parte de qualquer coligação. Levou junto alguns ilustres desconhecidos, mas que, pelo menos, representavam o seu modo de pensar, os ideiais em teoria eleitos pela população. Tiririca representa a esculhambação total. Representa a falta de ideias, de ideais. Representa o nível de esclarecimento de nossos eleitores, seduzidos por piadas bestas, assassinatos à língua portuguesa e toda sorte de bobagens inócuas e apolíticas. O nível de esclarecimento de quem vai na onda do “pior que tá não fica”. É de chorar.

Mas é ainda pior. Porque Tiririca, eleito por um partido X, levou junto candidatos de partidos Y e Z, que nada tinham a ver com a brincadeira. Levou para Brasília, de lambuja, o famigerado delegado Protógenes, aquele que armou atrocidades ilegais para prender Daniel Dantas e posar de paladino da justiça. Quer mais? O partido X, de Tiririca, é o PR, que no mundo fantástico dos analistas políticos (que só existe na cabeça deles), posicionar-se-ia à direita, em oposição diametral à esquerda do PC do B, o partido Z, de Protógenes. Mas ambos estavam coligados na maçaroca partidária conhecida como sistema político brasileiro e um palhaço levou o outro pela mão. É de se envergonhar.

O que mais precisa acontecer para que essa absurda proporcionalidade seja eliminada do mapa? Será tão difícil enxergar que pior do que tá pode ficar? Não, não é, mas num país onde os fins justificam todos os meios, o pior pode ser o melhor. Desde que o melhor para mim.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

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