Direita e esquerda: um ensaio

Era para esta postagem falar das eleições de amanhã. Mas não há como fazer qualquer análise política sem utilizar os famigerados termos “direita” e “esquerda”. Achei por bem, pois, antes de entrar na seara eleitoral, reservar algumas linhas para conceituar direita e esquerda de modo mais preciso do que estamos acostumados na usual divisão maniqueísta, que concebe a esquerda como “o bem” e a direita como “o mal”.

Para se chegar ao que seria a direita e a esquerda, é fundamental ter em mente dois campos: civil-político e econômico-social. Poderia desmembrar esses dois campos em quatro, algo totalmente dispensável aqui. Vamos a uma rápida definição de ambos.

O civil-político é onde se encontram as liberdades fundamentais do cidadão. Liberdade de ir e vir, religiosa, sexual e todas as demais que são direitos individuais desde que não interfiram na liberdade alheia. Ainda neste campo está a liberdade política, de posicionamento e escolha dos governantes.

O campo econômico-social é o das atividades que envolvem transações valorativas, monetárias ou não, entre empresas e/ou pessoas. Direta ou indiretamente, todas as atividades econômicas afetam o bem-estar dos diferentes grupos sociais, daí porque não é necessária nem razoável uma separação formal entre os aspectos econômicos e sociais.

A diferença lógica mais fundamental entre os campos se relaciona aos direitos. No civil-político, o direito de um não interfere, a princípio, no direito do outro – a liberdade não é, ou não deveria ser, excludente. Em via oposta, no econômico-social necessariamente o direito de um afeta o direito do outro – não há geração espontânea de recursos, a riqueza de um não poderá ser a riqueza do outro.

Definidos os campos, voltemos à direita e à esquerda. O palco civil-político é de pouquíssima utilidade para diferenciá-las e aqui está o grande erro conceitual que tem se alastrado pela sociedade brasileira, em que a memória de uma ditadura de direita e um bando de intelectualoides desonestos de esquerda conspiram para fazer crer que apenas a esquerda seria defensora dos direitos civil-políticos. Puro engodo. Tanto a direita como a esquerda podem ser autoritárias, tutelares ou liberais na seara civil-política.

Conforme caminham para o extremismo, ambas flertam mais e mais com a tutela do cidadão, o autoritarismo e se distanciam das liberdades civis e políticas. Existiu o autoritarismo brasileiro e de tantos outros países latino-americanos, de direita, assim como existe ou existiu o autoritarismo cubano, soviético, chinês e do leste europeu, de esquerda. Portanto, no campo civil-político, a diferenciação adequada não é entre esquerda e direita, mas, pensando numa linha contínua, entre autoritários, tutelares e liberais.

Resta o campo econômico-social para buscar as diferenças. Nele as encontramos. Basicamente, a direita pode ser identificada com uma visão que privilegia o mérito individual enquanto a esquerda se preocupa com a equidade social. Se a direita pode ser criticada por dar pouca importância às condições históricas que levaram ao mérito de uns e outros, propagando a desigualdade, a esquerda fica vulnerável justamente por menosprezar o mérito, muitas vezes conquistado a duras penas, propiciando uma injusta e desestimulante igualdade.

Vias gerais, a direita parte de suas convicções para defender uma menor interferência estatal na economia e na sociedade, algo que se pode perceber, por exemplo, numa pequena regulação sobre os mercados e em cargas tributárias relativamente reduzidas, o que minora a capacidade de prestação de serviços públicos e de transferências de renda entre a sociedade. A direita se identifica, portanto, com a liberdade econômica.

A esquerda, também por suas convicções, associa-se a políticas estatais mais interventivas. Mantendo os mesmos exemplos, a regulação sobre os mercados é maior e a carga tributária mais pesada, possibilitando a atuação do Estado em mais setores, com uma maior prestação direta de serviços e também a redistribuição de recursos entre os diferentes grupos sociais.

Os cenários descritos assumem uma posição responsável por qualquer das vertentes, no sentido de que ambas fazem apenas aquilo que seus recursos permitem. Na realidade, isso nem sempre ocorre. Tanto a esquerda quanto a direita podem ser demagógicas e populistas, conjugando um irresponsável casal representado por baixos recursos e altos gastos. Foi o que prevaleceu no Brasil até a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Quaisquer que sejam as preferências em relação a direita e esquerda, é fundamental para o progresso e o esclarecimento político de uma sociedade que ambas sempre estejam presentes, defendendo seus pontos de vista, colocando o dedo nas feridas da outra parte, evitando a alienação geral.

É por isso que estou tão triste com as eleições de amanhã. Fica para a próxima postagem.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

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