Nem para segundo piloto

Por Marcelo Cerri

Há algumas semanas tive a honra de hospedar em minha casa um grande amigo italiano. Filippo comentava que seu xará brasileiro já não era mais tão querido na Itália. Os tifosi haviam perdido a paciência com ele pela sua falta de arrojo e determinação. Fica séculos atrás de carros mais lentos para não arriscar.

Foi no mínimo patética a atuação de Massa no GP de Cingapura. Todos aqueles que tinham carros superiores aos do adversário tentaram ultrapassagens, muitos conseguiram, alguns bateram. Mas isso mostra que não estávamos em Monte Carlo, as ultrapassagens eram possíveis. O brasileiro, no entanto, com um carro que seguramente era um dos quatro melhores do final de semana, conseguiu a proeza de se manter durante quase toda a corrida atrás de Hulkenberg, sem nem mesmo forçar uma ultrapassagem. Um piloto que se contenta em ser o 10º não merece guiar uma Ferrari.

Fomos poucos aqueles que defenderam a ordem de equipe no GP da Alemanha. Agora não acredito que alguém em sã consciência continue a condenar a Scuderia por ter favorecido o piloto que foi mais rápido durante a corrida, durante todo o final de semana e durante todo o ano. Hoje é bem claro que Alonso é o primeiro piloto porque conquistou essa posição, porque luta até o último momento por cada ponto.

Podem argumentar que Webber lidera o campeonato mesmo não sendo um piloto agressivo, como Hamilton, Vettel, Kubica ou Alonso. Isso é verdade, ele não assume grandes riscos. Mas o australiano fez várias ultrapassagens durante a corrida e sustentou o terceiro lugar com muita coragem quando Hamilton deu o bote. Fez uma grande corrida.

Destaques do GP de Cingapura: a perfeição de Alonso, que não cometeu nenhum erro, e o show de Kubica no final da corrida, mostrando pela enésima vez que merece muito mais do que a Renault que tem em mãos.

Falando no polonês, ninguém duvida que ele é um piloto muito superior a Felipe Massa. Mas daí a querer colocá-lo na Ferrari, acho que existe uma longa estrada. Dois pilotos geniais numa mesma equipe é um suicídio. O espanhol sabe muito bem disso, já perdeu o campeonato de 2007 por esse motivo e não permitiria nunca que a Ferrari desse um tiro no pé. Massa deve ficar. Só não permanece se a Ferrari encontrar um segundo piloto melhor que ele, o que não é muito difícil. Estou certo de que até mesmo Trulli, por exemplo, teria dado à Ferrari ao menos uns seis pontos se estivesse nas mesmas condições do brasileiro.

Este é sem dúvida o melhor campeonato que já acompanhei. Vai entrar para a história. Cheios de orgulho, contaremos aos nossos filhos as proezas e loucuras de Alonso, Hamilton, Vettel, Kubica, Webber etc. Uma geração de super talentos.

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O texto de Marcelo expressou tão bem meus pensamentos que se torna dispensável minha coluna de hoje. Ainda não estou a ponto de acreditar ser Trulli melhor do que Massa, mas assino embaixo da extrema decepção com o desempenho do brasileiro neste ano. Em meio às possíveis causas para uma queda tão gritante – Massa sempre foi um piloto, no mínimo, rápido e arrojado -, duas lebres se levantam e talvez se complementem: o acidente na Hungria, no ano passado, e o fato de Massa ter se tornado pai, também em 2009.

Para não perder o costume, resta ainda espaço para a menção desonrosa para Schumacher. Patético, como em todo o resto da temporada.

Nadal: sangue, suor e talento para a História

Rafael Nadal acaba de conquistar US Open. Ao bater com autoridade o sérvio Novak Djokovic, por 3 sets a 1, o espanhol ratificou sua posição de melhor tenista da atualidade e, muito mais importante, continuou a rechear com espantosa fartura seu invejável currículo.

O taça nos Estados Unidos foi o nono título de Nadal no Grand Slam, circuito que reúne os quatro principais torneios do tênis mundial. Além do troféu de hoje, já são incríveis cinco triunfos no saibro de Roland Garros, dois na grama de Wimbledon e um na quadra dura do Australian Open.

Para se ter uma primeira ideia do que significa tal feito, na chamada Era Moderna, em que os torneios são jogados numa variedade de superfícies – saibro francês (lento), quadra dura australiana e norte-americana (rápida) e grama inglesa (muito rápida) – que em muito dificulta a conquista cumulativa, apenas outros dois jogadores conseguiram o feito: Andre Agassi e Roger Federer. Nem Pete Sampras, para alguns – que eram muitos até aparecer Federer – o maior de todos os tempos, chegou lá. Faltou Roland Garros.

Mas não é só. Para ficar apenas em Federer, a lenda, o homem que faz parecer fácil qualquer golpe no jogo de tênis, tido e havido atualmente como o mais completo da História, o aparentemente impossível se verifica: Nadal tem números melhores que os do suíço quando este possuía os mesmos 24 anos que o espanhol completou em 3 de junho. À época, em 2005, Federer, hoje recordista de Grand Slams, com 16, tinha “apenas” seis conquistas. Chegou a nove no ano seguinte, já com 25 primaveras.

A seguir no ritmo que vem apresentando nas últimas temporadas, algo que parece provável, nada leva a crer que Nadal não consiga superar o recorde de títulos de Federer, mesmo considerando que o suíço ainda tenha conquistas pela frente. Ao contrário, o número de 16, de 20 Grand Slams, parece hoje absolutamente palpável ao Touro Miúra.

Nadal com o US Open: maior de todos os tempos?

Nadal está longe das jogadas embasbacantes de Federer, que demonstram uma habilidade absolutamente impensável para humanos comuns. Mas está também longe de Federer quando os quesitos são fibra, preparo físico, vontade de vencer, sangue nos olhos. Nisso, é ele, Nadal, o embasbacante, que dá banho em qualquer dos grandes que até hoje surgiram.

Provalvemente esteja aí, no conjunto dessas características com doses generosas de talento e regularidade, o segredo que poderá fazer de Nadal o maior da História. Pelo menos em termos de grandes conquistas.

Ferrari e Fittipaldi

Alonso cada vez mais justifica o tão falado ato de troca de posições entre ele e Massa, patrocinado pela Ferrari no GP da Alemanha. A vitória recheada por uma bela atuação na Itália deixou o espanhol a apenas 21 pontos do líder Mark Webber – a vitória vale 25 -, totalmente dentro da disputa pelo Scudetto.

O mais saboroso do domingo de Fórmula 1 começou, porém, ainda antes da prova, quando Carlos Gil entrevistou o grande Emerson Fittipaldi a respeito da celeuma ferrarista na Alemanha, certo de que o bicampeão cairia no senso comum de reprimir a atitude dos italianos. Mas Fittipaldi, além de conhecer muito mais de automobilismo do que qualquer dos que enchem os pulmões para berrar pachecamente contra a Ferrari, pensa com os próprios miolos, não segue a boiada. Foi peremptório: “jogo de equipe sempre existiu na Fórmula 1 e deveria ser oficializado no regulamento. Se não houvesse, não haveria por que existir equipe.” Diante de tamanho discernimento, só resta a menção positiva à Globo, por colocar no ar – a declaração fora gravada um pouco antes – opinião frontalmente contra a ordem natural dos seus fatores.

Na corrida, além de Alonso, Button, Vettel e Webber também tiveram desempenhos que os credenciam a se manter, como se mantêm, na disputa pelo título. Aliás, não fosse a barbeiragem de Vettel pra cima de Button na Bélgica, ambos estariam ainda muito mais vivos na briga. Decididamente, o jovem alemão não tem prejudicado apenas a si ao longo de um 2010 cheio de trapalhadas. Button e Webber que o digam.

Hamilton foi o único dos primeiros a não pontuar, num choque casual com Massa, logo após a largada. O campeonato agradece muito, pois o inglês já dá, há algumas corridas, mostras de que parece ser o principal, senão único, candidato a estilingar à frente do pelotão. Explica-se: Webber pilota uma Red Bull que claramente perdeu espaço para Ferrari e McLaren nas últimas semanas e os outros três, antes de pensarem em abrir, têm de pensar em tirar a vantagem dos líderes.

No mais, os comentários que vêm se tornando padrão ao longo do ano. Massa continua sendo constantemente mais lento, e muito mais lento, do que Alonso. Antes que surjam as reclamações nacionalistas, é preciso lembrar que o brasileiro conseguiu andar em ritmo parecido ao do espanhol em Monza apenas enquanto este era seguro por Button, em ritmo um tanto mais lento. Quando Alonso assumiu a ponta, a diferença de tempos para Massa se tornou clamorosa. Mais uma vez. É triste a constatação de que, enquanto tiver o asturiano como companheiro de Ferrari, o paulista não terá qualquer chance de título. E o Brasil segue na fila.

E, para seguir na temática do mais do mesmo, Schumacher. Outra vez constrangedor a seus adoradores. Tomando tempo, tempo e mais tempo de Rosberg. Não seria hora de voltar para o aconchego do lar? Ou a ideia é mesmo continuar manchando a fama e o ar de mito conquistados?

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Em tempo, como devem ter percebido e apenas para não deixá-los sem qualquer satisfação, fui devidamente abandonado pelos meus parceiros de Fórmula 1. Relações críveis sem contrato só mesmo em países da Common Law. Ou com Muricy. Grandes países. Grande Muricy. Peço desculpas pela ausência no GP da Bélgica e sigo o voo solo, espero que a contento.

Kajuru, um exemplo (2)

As seis últimas partes da participação de Kajuru no Programa Raul Gil.

Divirtam-se, mas também pensem, muito, a respeito.

Kajuru, um exemplo (1)

Jorge Kajuru sempre se caracterizou pela polêmica de suas declarações. Declarações duras, eloquentes, dificilmente em linha com o senso comum. Destemido, Kajuru nunca se preocupou em dizer o que pensava de quem quer que fosse, mesmo que isso o marginalizasse cada vez mais.

As bombas orais acabaram por afastar Kajuru do grande círculo midiático brasileiro. As redes nacionais de televisão, todas elas, não suportaram as pressões externas para que o bocudo tivesse sua metralhadora censurada. Depois de algum tempo, Kajuru passou a ser liberado sem cortes apenas em retransmissoras regionais.

Kajuru cansou. No quadro “Pra quem você tira o chapéu”, do Programa Raul Gil de 28 de agosto último, anunciou sua aposentadoria das câmeras. Diz ter-se enojado. Razões para tal deve ter muitas.

Fica o exemplo. De caráter, destemor, desprendimento. De loucura, dirão alguns. Mas, sobretudo, o exemplo do que acontece com quem se atreve a pensar e falar o que pensa. No Brasil democrático. E ainda tem quem acredite que não existe mais censura em nosso país…

Fica também a participação, sempre marcante, de Kajuru no Programa Raul Gil. Em nove partes. As três primeiras, hoje.

Por que o PSDB não ouve FHC?

Fernando Henrique Cardoso traz ideias bastante interessantes em seu artigo dominical de hoje. Embora ainda menos retumbante do que creio eu fazer jus a ocasião, o ex-presidente, em suma, expõe e ataca a democracia casca de ovo que vivemos atualmente, uma casa muito bonita por fora, mas vazia por dentro e, adiciono eu, facilmente quebrável ao primeiro toque um pouco mais forte.

FHC comete alguns deslizes. Quando subestima a força do pensamento único já presente no Brasil, que, a despeito de não ser extremamente majoritário em termos quantitativos, o é em termos qualitativos, travestindo-se de verdade absoluta para jogar por terra qualquer sentimento ético de respeito, num vale-tudo maniqueísta de intimidação aos opositores do “bem”. Ou quando não percebe – ou finge não perceber – que o seu partido também está englobado por esse pensamento único, o que se expressa cabalmente no aparente sonho de José Serra em ser adotado por Lula, em ser Lula – chegou a se comparar ao pobre Lula de 89, no recente episódio de devassa fiscal que vitimou sua filha.

FHC também pegou muito leve quando deixou apenas na hipótese os erros crassos que o PSDB insiste em cometer desde as eleições de 2006, que entregou em bandeja de prata para o PT. E também se esqueceu de lembrar que uma das evidências mais claras e perigosas da tal hegemonia/alienação por que passamos é o fato de não termos sequer um candidato à presidência que se coloque digna e ideologicamente na posição de oposição real ao atual governo.

Apesar disso, que não é pouco, o PSDB estaria bem melhor se tivesse FHC como coordenador estratégico da campanha. Mas vai entender o PSDB…

A seguir, o artigo, que vale a pena ser lido, na íntegra, retirado do sítio eletrônico do Diário Catarinense.

Democracia virtual

Fernando Henrique Cardoso

Vivemos uma fase de democracia virtual. Não no sentido da utilização dos meios eletrônicos e da web como sucedâneos dos processos diretos, mas no sentido que atribui à palavra virtual o dicionário do Aurélio: algo que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual. Faz tempo que eu insisto: o edifício da democracia, e mesmo o de muitas instituições econômicas e sociais, está feito no Brasil. A arquitetura é bela, mas quando alguém bate à porta a monumentalidade das formas institucionais desfaz-se em um eco que indica estar a casa vazia por dentro.

Ainda agora a devassa da privacidade fiscal de tucanos e de outras pessoas mais mostra a vacuidade das leis diante da prática cotidiana. Com a maior desfaçatez do mundo, altos funcionários, tentando elidir a questão política – como se estivessem tratando com um povo de parvos – proclamam que “não foi nada não; apenas um balcão de venda de dados…”. E fica o dito pelo não dito, com a mídia denunciando, os interessados protestando e buscando socorro no Judiciário, até que o tempo passe e nada aconteça.

Não tem sido assim com tudo mais? O que aconteceu com o “dossiê” contra mim e minha mulher feito na Casa Civil da Presidência, misturando dados para fazer crer que também nós nos fartávamos em usar recursos públicos para fins privados? E os gastos da atual Presidência não se transformaram em “secretos” em nome da segurança nacional? E o que aconteceu de prático? Nada. Estamos todos felizes no embalo de uma sensação de bonança que deriva de uma boa conjuntura econômica e da solidez das reformas do governo anterior.

No momento do exercício máximo da soberania popular, o desrespeito ocorre sob a batuta presidencial. Nas democracias é lógico e saudável que os presidentes e altos dirigentes eleitos tomem partido e se manifestem em eleições. Mas é escandalosa a reiteração diária de posturas político-partidárias, dando ao povo a impressão de que o chefe da Nação é chefe de uma facção em guerra para arrasar as outras correntes políticas. Há um abismo entre o legítimo apoio aos partidários e o abuso da utilização do prestígio do presidente, que além de pessoal é também institucional, na pugna política diária. Chama a atenção que nenhum procurador da República, nem mesmo candidatos ou partidos, haja pedido o cancelamento das candidaturas beneficiadas, senão para obtê-lo, ao menos para refrear o abuso. Por que não se faz? Porque pouco a pouco estamos nos acostumando que é assim mesmo.

Na marcha em que vamos, na hipótese de vitória governista – que ainda dá para evitar – incorremos no risco futuro de vivermos uma simulação política ao estilo do PRI mexicano – se o PT conseguir a proeza de ser “hegemônico” – ou do peronismo, se mais do que a força de um partido preponderar a figura do líder. Dadas as características da cultura política brasileira, de leniência com a transgressão e criatividade para simular, o jogo pluripartidário pode ser mantido na aparência, enquanto na essência se venha a ter um partido para valer e outro(s) para sempre se opor, como durante o autoritarismo militar.

Pior ainda, com a massificação da propaganda oficial e o caudilhismo renascente, poderá até haver anuência do povo e a cumplicidade das elites para com essa forma de democracia quase plebiscitária. Aceitação pelas massas na medida em que se beneficiem das políticas econômico-sociais, e das elites porque estas sabem que neste tipo de regime o que vale mesmo é uma boa ligação com quem manda. O “dirigismo à brasileira”, mesmo na economia, não é tão mal assim para os amigos do rei ou da rainha.

É isso que está em jogo nas eleições de outubro: que forma de democracia teremos, oca por dentro ou plena de conteúdo. Tudo mais pesará menos. Pode ter havido erros de marketing nas campanhas oposicionistas, assim como é certo que a oposição se opôs menos do que devia à usurpação de seus próprios feitos pelos atuais ocupantes do poder. Esperneou menos diante dos pequenos assassinatos às instituições que vêm sendo perpetrados há muito tempo, como no caso das quebras reiteradas de sigilos. Ainda assim, é preciso tentar impedir que os recursos financeiros, políticos e simbólicos reunidos no Grupão do Poder em formação tenham força para destruir não apenas candidaturas, mas um estilo de atuação política que repudia o personalismo como fundamento da legitimidade do poder e tem a convicção de que a democracia é o governo das leis e não das pessoas.

Estamos no século 21, mas há valores e práticas propostos no século 18 que foram se transformando em prática política e que devem ser resguardados, embora se mostrem insuficientes para motivar as pessoas. É preciso aumentar a inclusão e ampliar a participação. É positivo se valer de meios eletrônicos para tomar decisões e validar caminhos. É inaceitável, porém, a absorção de tudo isso pela “vontade geral” encapsulada na figura do líder. Isso, é qualquer coisa, menos democracia. Se o fosse, não haveria por que criticar Mussolini em seus tempos de glória, ou o Getúlio do Estado Novo (que, diga-se, não exerceu propriamente o personalismo como fator de dominação) e assim por diante. É disso que se trata no Brasil de hoje: estamos decidindo se queremos correr o risco de um retrocesso democrático em nome do personalismo paternal (e, amanhã, quem sabe, maternal). Por mais restrições que alguém possa ter ao encaminhamento das campanhas ou mesmo a características pessoais de um ou outro candidato, uma coisa é certa: o governismo tal como está posto representa um passo atrás no caminho da institucionalização democrática. Há tempo ainda para derrotá-lo. Eleição se ganha no dia.

Reforma fiscal heterodoxa

Por mais que neguem, administrações públicas que saem gastando a rodo por aí – algo bastante em voga nos tempos atuais – sabem que precisam arranjar em algum lugar aquilo que Zeca Pagodinho chamaria de “algum” para cobrir a sanha de gastar, gastar e gastar.

Dado que diminuir as despesas nem pensar, posto que cada centavo gasto é para “o bem do povo e desenvolvimento geral da nação”, surgem então as opções usuais de financiamento. A primeira delas é o aumento da carga tributária, algo quase que absolutamente fora de questão no Brasil de hoje, afinal, como já consomem até o último cifrão da renda do cidadão, aumentar ainda mais beira o impossível. No máximo, conseguem aquele pouquinho além que vem sendo sugado regularmente há mais de 15 anos, insuficiente para lidar com gastos que não se elevam apenas um pouquinho.

A segunda opção é a emissão monetária, leia-se a fabricação de dinheiro gerador de inflação. Não duvido nem um pouco que uns e outros devem transbordar de vontade de fazer o pobre dinheirinho aumentar. Mas, infelizmente para eles, a sociedade brasileira tomou gosto por esse negócio de viver com estabilidade de preços. Colocar isso em risco de forma tão primária seria o suicídio eleitoral. E eles, os chefões dos governos perdulários, podem ser tudo, menos tolos.

O que resta então? Aparentemente nada. Ledo engano. Há sim uma alternativa de receitas que podem ajudar a compensar os rombos. São as tais receitas extra-tributárias, que englobam uma série de itens não relacionados a tributos usuais e que, por isso, costumam ter caráter de todo incerto, o que desaconselha sua utilização como fonte regular de receita. A teoria é essa, mas, quando a prática pede, quem não tem cão caça com gato e o que é incerto pode se tornar cada vez mais certo e vultoso.

Mas de que raios está falando esse maluco? Em uma palavra: multas. Sim, as multas vão se transformando em uma fonte de recursos cada vez mais importante para o setor público financiar os seus gastos. Não pensem que é simples coincidência ou exacerbado sentimento de proteção pública o fato de dia após dia irem pipocando aqui, ali e acolá novos crimes de trânsito, penalizados mediante quantias financeiras repassadas do povo para os representantes do povo.

Multa para a não utilização de cinto de segurança, multa para a ausência de extintor no veículo. Multa para a instalação de engate no bólido. Multa para a colocação de insul-film muito escuro nos vidros do carro. Multa para a direção com uma gota de álcool no sangue. Multa por não vistoriar anualmente o veículo. A mais nova, noticiada hoje, multa para quem carregar crianças sem assentos especiais nos autos. Multa, multa, multa. Todas travestidas por nobres motivos. Todos esses motivos facilmente colocados no chão por argumentações simplesmente esclarecidas e fundamentadas.

A tão famigerada indústria das multas nada mais é, pois, senão a peça fundamental de uma reforma fiscal heterodoxa. Se não quero diminuir meus gastos e não tenho mais como aumentar minhas receitas comuns na medida em que desejo, nada melhor do que criar novas formas de receitas certas, estáveis e crescentes para lidar com a situação. Às custas, claro e como sempre, do povo. Mas ele nem vai perceber.

No final, em vez de cerceador de liberdades, ainda poso de bonzinho, preocupado com o bem-estar geral da população. Pra que mais?