Ou Ficha Limpa ou democracia

Acostumado que já estou a ser um tanto polêmico, resolvi falar um pouco sobre a tal da lei da Ficha Limpa. Glorificada por muitos como a panaceia para o nosso famigerado sistema eleitoral, a tal da lei é absolutamente anti-democrática.

A peça legislativa assume descaradamente que o eleitor mediano não é capaz de escolher corretamente o seu candidato. É necessário então que um ente superior, oráculo da razão e da justiça, faça uma pré-seleção de quem pode ser votado. Apenas entre estes, os escolhidos, o povo menos esclarecido pode decidir.

Qualquer um é livre para ter esse diagnóstico sobre a sociedade média brasileira. De fato, ele pode não estar muito longe da realidade. Pode inclusive, a partir desse diagnóstico, tomar a iniciativa de uma lei que cerceie a liberdade de escolha, como a Ficha Limpa. Só não pode, sob hipótese alguma, dizer-se um defensor da democracia ao fazer isso.

Se a maioria do eleitorado de um município, um estado ou um país vai às urnas e vota em maioria por um candidato X, o candidato X deve ser eleito, tomar posse e iniciar o mandato. Isso é democracia. Impedir que a vontade do povo se concretize é justamente o oposto. Seja por qual motivo for.

Poderia eu aqui começar outra discussão, sobre os prós e contras da democracia. Daria muito pano pra manga, certamente. Mas não vem ao caso. Voltando ao cerne da questão, aqueles que defendem a Ficha Limpa devem, por apego à consciência, defender também outras adaptações à nossa democracia, como o impedimento ao voto de analfabetos ou um peso diferenciado para os votos de acordo com o nível educacional dos eleitores, apenas para ficar em dois exemplos.

O efeito prático dessas medidas seria basicamente o mesmo: ajudar os “menos esclarecidos” a decidirem o melhor para si. A diferença é que os dois exemplos citados não poderiam ficar mascarados por trás da hipocrisia.

Viva a “burguesia”!

Em mais uma das suas, o presidente Lula deu o ar da graça em vídeo amador que circula pela rede. Numa conversa informal com um jovem que reivindica uma quadra de tênis para treinar, Lula, de forma não muito polida, diz para o meninão, bem crescidinho e nutrido, diga-se de passagem, treinar outra coisa, pois “tênis é esporte da burguesia”.

Bastou para o alvoroço. A grita seria de todo correta se girasse em torno do palavreado do presidente, que foi acompanhado no tom pelo governador do Rio, Sérgio Cabral. Também poder-se-ia criticar Lula por estabelecer quem deve praticar uma ou outra modalidade, de acordo com a posição social.

Mas não. Para pasmar aqueles que ainda conseguem tal proeza num mundo cada vez mais fora da ordem, a maioria dos revoltados veio a público refutar o rótulo de “burguês”, bradando que jogavam sim tênis, mas não admitiam apenas por isso serem chamados de burgueses. Como se tal alcunha fosse sinônimo de hediondo crime.

Ora, no sentido marxista utilizado por Lula, a “burguesia” representa aqueles com melhores condições de vida ou, para continuar no marxismo, os donos dos meios de produção. Os ricos, grosso modo. E aqui devo, por respeito à minha consciência, concordar com o presidente. O tênis, sem sombra de dúvida, é um esporte que exige certa condição financeira de seus praticantes. Não tanto como o automobilismo ou o iatismo, mas uma raquete, das mais simples, não sai por menos de R$ 200,00. A hora-aula, a preços módicos, R$ 30,00. Só nisso já vai uma quantia proibitiva para a maior parte dos brasileiros.

São, pois, os “burgueses” que costumam jogar tênis. Em geral, podem hoje dar suas raquetadas cá e acolá porque trabalharam para isso. Não conseguiram sua riqueza graças a alguma chuva de dinheiro, mas sim por um grande esforço recompensado pela justa remuneração. Merecem os parabéns por serem “burgueses”. Não têm de se defender por serem bem-sucedidos, por poderem jogar tênis, viajar anualmente para o exterior ou fazer qualquer outra coisa que exija dinheiro.

Devem ser admirados, imitados, servirem de inspiração àqueles que não estão à mesma altura. Que um ou outro aloprado pelo socialismo surja com disparates é até bastante esperado. Que os próprios “burgueses” se coloquem em posição de indignada defesa é de um absurdo atroz.

Triste sinal de nossos dias. Em que é feio, em que causa vergonha, estar entre os melhores. A pessoa sente-se quase obrigada a pedir desculpas. Condenada por se dar bem na vida. A criminalização do sucesso.

Bonito é ser carente. Grandioso é viver de esmolas. Vender drops no sinal. A ode à mediocridade. O império do pensamento socialista.

Esperando o dia em que esse verdadeiro racionalismo às avessas tenha fim, só me resta o grito tênue, quase afônico em meio à turba: viva a burguesia!

A Fórmula 1 contra a Fórmula 1

Muito a escrever hoje. A prova da Hungria saiu da tradição anos a fio acumulada, de ser uma das menos atrativas da temporada, atrapalhada por um traçado que tem nas ultrapassagens um grande desafeto. Graças a uma bandeira amarela provocada por um pedaço de Force India na pista, o rumo da mesmice que provavelmente levaria a uma dobradinha da Red Bull, ordenada com Vettel e Webber, transformou-se na quarta vitória do australiano, que o catapultou de volta à liderança do certame.

Vitória possibilitada por mais uma punição, a meu ver equivocada, levada a cabo pelos comissários de prova, os reguladores, os donos da verdade na Fórmula 1. Resolveram obrigar o jovem alemão a uma passagem pelos boxes sob a alegação de que havia muito espaço entre ele e Webber no momento da relargada, o que teria sido uma manobra desportivamente digna de censura, posto que tomada para, em prejuízo direto de todos os demais competidores, auxiliar o companheiro que então precisava se desgarrar do pelotão para, posteriormente, ao fazer sua parada, ainda voltar em boa posição.

Explico minha posição, e já aproveito para entrar na celeuma da Ferrari na última semana. A Fórmula 1 caracteriza-se por ser um esporte eminentemente de equipe. Compara-se, nesse sentido, bastante bem, embora de forma menos radical, ao ciclismo, em que equipes são formadas com um primeiro “piloto” claramente definido, em prol do qual todos os demais integrantes agem para garantir o êxito do time. O ciclismo deixa, por isso, de ser esporte? Claro que não. Não existe apenas uma forma de esporte. Existem os individuais, como o tênis, o boxe, em que a disputa não envolve qualquer tipo de colaboração, e existem os coletivos, como o futebol, o vôlei, o basquete, a Fórmula 1, em que a equipe está na essência do jogo. Na Fórmula 1, a prova mais evidente de que o jogo é coletivo é o fato de haver apenas um boxe para ambos os pilotos e não posições individuais, como na Indy, por exemplo.

Em assim sendo, vai contra os fundamentos da própria modalidade não permitir jogo de equipe num esporte coletivo. É um contra-senso impedir uma equipe – vejam bem, uma equipe! – de trabalhar como… uma equipe. Não há absolutamente nada de antidesportivo nisso. Haveria, sim, em caso de conchavos entre equipes diferentes, o que não está em questão. A decisão a respeito da política de competição interna entre os pilotos cabe, pois, a ninguém mais que não os dirigentes de uma equipe. Como em qualquer empresa, em qualquer ramo de atividade. O piloto, seja ele quem for, não precisa aceitar as condições de cima. Tem toda a liberdade para não assinar o contrato e dirigir para outro time, com outra política. Simples assim.

Interferências externas nessa seara, além de inegavelmente acabarem na armadilha de tratar casos absolutamente iguais como diferentes – não há, de fato, qualquer diferença real entre o caso Alonso/Massa e tantos outros, tratados sob variados prismas: Schumacher/Barrichello (que, lembremos, houve em ambos os sentidos), Massa/Raikkonen (também em via de mão dupla), Senna/Berger etc. -, vai no sentido de punir uma equipe por ser boa o suficiente para colocar seus dois pilotos em situação tal que possa conseguir para si o melhor resultado entre todos os possíveis.

Tanto para a Ferrari na Alemanha como para a Red Bull hoje, as decisões tomadas pela cúpula foram, sem dúvida, as melhores para as equipes. Alonso, ao contrário da grita dos pachecos de plantão, tem ainda todas as chances de ser campeão, embora não seja este o desfecho mais provável para o campeonato, e a segurada de Vettel foi importante para permitir a Webber ter êxito em seu plano de corrida. Se a direção de prova enxergou falta de espírito esportivo na manobra, deveria ter mantido a bandeira amarela por mais uma volta, para que os pilotos se alinhassem de forma correta. Jamais punir Vettel. Seguindo essa linha, todos os pilotos que, para defender seu companheiro, comportam-se como os chamados escudeiros, diminuindo o ritmo à frente de rivais, deveriam ser chamados aos boxes. Os congestionamentos trariam à memória o tráfego da capital paulista.

Tudo isso posto, é ainda preciso duas últimas colocações. A primeira, de repetida glorificação ao atual sistema de pontuação, que premia na exata medida os vencedores e dá ao campeonato o gosto das reviravoltas sempre potencialmente presentes. Hoje, restando sete etapas, cinco pilotos têm plenas condições de conquista: Webber (161), Hamilton (157), Vettel (151), Button (147) e Alonso (141).

A segunda, de asco, a Schumacher. Como se não bastasse a pífia temporada, que o coloca 56 pontos atrás do parceiro de time, Nico Rosberg, o alemão reviveu hoje os momentos mais deploráveis de uma carreira que, embora recheada de brilhantes conquistas, teve aqui e acolá momentos imorais. Antes ainda havia a justificativa de campeonatos estarem em jogo, o que costuma trazer uma medida não desprezível de insanidade aos grandes campeões. Hoje, ao colocar a vida de Rubens Barrichello em risco, espremendo-o num muro que, se tivesse mais 10cm, poderia levar ao pior, Schumacher foi apenas ridículo, patético, patológico, criminoso. Um ex-piloto em atividade que deveria, de pronto, ter recebido bandeira preta.

Mas os comissários são assim mesmo. Só não punem quando têm de punir. Ficam as palmas à Barrichello, grandíssimo piloto. Mas sem estrela.