A transferência e sua essência

O Bolsa Família, espécie de edição revista e ampliada pelo governo Lula de uma série de benefícios assistenciais herdados do governo FHC, elevou as políticas públicas de transferência direta de renda no Brasil a um status de sucesso quase indiscutível. A ponto de Serra, em sua oposição mezzo desesperada, mezzo esquizofrênica, prometer duplicar os benefícios de hoje, caso eleito.

O frenesi é compreensível, afinal de fato o dindin pingado mensalmente em milhões de casas Brasil afora contribuiu para retirar um grande contingente de tupiniquins da chamada miséria absoluta. Porém, isso não nos autoriza a jogar para debaixo do tapete a pedra fundamental: as condições que viabilizam o Bolsa Família no Brasil são totalmente injustificáveis e, caso não existissem, não seriam desprezíveis as chances de os beneficiados pelo programa estarem em situação semelhante – por que não melhor? -, ainda que sem ele.

Refiro-me, basicamente, à absurda carga tributária nacional, que obriga os brasileiros a deixarem algo próximo de 40% do que produzem com o governo, seja ele federal, estadual ou municipal. Sim, vivemos o dia-a-dia sem parar para pensar direito na atrocidade que é o fato de, a cada R$ 1.000,00 de nosso suado ganha-pão, algo em torno de R$ 360 ir repousar nos cofres públicos.

Com uma conta polpuda dessas, obviamente o Bolsa Família se torna absolutamente correto, defensável. Digo mais, com uma conta polpuda dessas, o Bolsa Família deveria ser estendido a todas as famílias brasileiras. Apenas estaria se devolvendo parte do excesso. Contudo, se no Brasil vigorassem regras condizentes com o desenvolvimento econômico, em que o Estado utilizasse menos recursos para prover de forma justa e eficaz os serviços realmente básicos à população, sem excessos daqui e nem de rincões onde faz morada a corrupção, sobraria mais dinheiro para que todos os brasileiros, ricos e, especialmente, pobres – lembremos que nossa carga tributária é regressiva, ou seja, o pobre tende a deixar proporcionalmente maior parcela de sua renda com o governo do que os ricos – gastassem, poupassem, investissem, enfim, para que, num mundo livre, fizessem o que bem entendessem.

Do raciocínio acima sai imediatamente um tiro na falácia de que, além dos efeitos sociais, o Bolsa Família traz benesses econômicas ao país, posto que injeta poder de compra nos menos favorecidos. Se os efeitos sociais são discutíveis, pois criados graças ao dinheiro também dos pobres, os efeitos econômicos são absolutamente inverificáveis: não há qualquer forma de garantir que a população não faria uso mais produtivo do dinheiro possibilitado por uma menor carga tributária do que faz do Bolsa Família.

Infelizmente a utopia ainda se situa em lugar muito, muito distante da realidade. Não serão circunstâncias erradas, porém, que me farão achar que é certo algo essencialmente errado.

Who cares?

Direto de Brasília. Os dias vão se passando e a vida se adaptando aos novos moldes. Quadras residenciais, quadras comerciais. Asas daqui, asas dali. Eixos, lagos. O conjunto de uma nova realidade. Por enquanto, nem boa nem má. Diferente.

Grandes pessoas existem em todos os lugares. Aqui também. Boas conversas, boas discussões, bom senso. Pessoas menores existem em todos os lugares. Aqui também. Mesquinhas, arrogantes, fora do prumo da realidade.

De pessoas curiosas acerca de um futuro incerto espera-se uma natural ansiedade. Dúvidas. O que será do amanhã? De pessoas já dentro do sistema há décadas, espera-se a mínima orientação. Boas maneiras. Educação. Civilidade. Nem sempre se encontra.

Num mundo de coletivização, pensar individualmente é crime? Se não é, para alguns deveria ser. Felizmente são, ainda, a minoria.

Eu, Muricy

Sou um admirador confesso de Muricy. Não tanto pela sua capacidade estratégica de desenvolver um amplo leque de jogadas para suas equipes. Sob esse aspecto, embora tenha um inegável valor, demonstrado, entre outras passagens, pelas inúmeros bailes sobre Vanderlei Luxemburgo, freguês de carteira, Muricy fica atrás de outros treinadores. A admiração é maior pela competência de Muricy em dotar seus times de um formidável espírito competitivo, que os torna dificilmente superáveis e, sobretudo, pelo caráter de Muricy, algo infelizmente raro em nossos dias.

A admiração foi crescendo à medida do passar dos anos, alimentada pelas atitudes de Muriça dentro e fora de campo, acompanhadas por mim cada vez com maior atenção. Talvez por isso, talvez por excesso de presunção, tenho hoje a sensação de que conheço o Muricy, apesar de nunca termos trocado uma palavra. É baseado nessa sensação que, nas próximas linhas, vou falar um pouco daqueles que acredito terem sido os principais motivos da histórica recusa do treinador em assumir o comando da seleção brasileira.

Em geral, as linhas de explicação para o surpreendente rumo tomado pelas coisas na última sexta-feira têm seguido duas linhas. A primeira que coloca a responsabilidade sobre o desfecho sobre a diretoria do Fluminense, que não liberou Muricy, obrigando-o a, seguindo o seu digno caráter, cumprir a palavra com o clube e manter-se nas Laranjeiras. A segunda que passa a responsabilidade para o próprio Muricy, que não teria sentido em Ricardo Teixeira a confiança de que seguiria até 2014 e, por isso, declinado. A diretoria do Flu teria assumido para si a decisão simplesmente para poupar Muricy do desgaste público provocado por uma decisão de afronta à “Pátria de chuteiras”.

A mim nenhuma das explicações convence, embora ambas tenham parcela da verdade. O ponto crucial para entender tudo o que se passou pela cabeça de Muricy a partir do convite – que a CBF, amadora e prepotente como sempre, julgava ser convocação – de Teixeira está no semblante do treinador assim que se despede do manda-chuva na reunião de sexta, logo depois de tentar um aperto de mãos não correspondido e flagrado pelas câmeras da ESPN Brasil. O rosto do Muricy que saiu da mesa e se dirigiu meio sem rumo para a saída pode ser descrito de várias maneiras, jamais como o de alguém que acabou de ouvir aquilo que desejou durante toda a carreira. Muricy estava sem graça, transmitia um certo mal-estar, claramente desconfortável. Ao vê-lo, não pude pensar em outra coisa que não aquela situação, pela qual a maioria já passou, de se esperar ansiosamente por determinada coisa e se decepcionar quando essa coisa finalmente acontece.

Até aí, a segunda explicação se mostraria correta. Muricy, e não o Fluminense, teria decidido o não à seleção. De fato, acredito que o caminho vai por essa via, mas não por falta de confiança em estar à frente da equipe em 2014. Ora, esse tipo de garantia não existe no futebol, Muricy experimentou essa realidade recentemente no Palmeiras e não seria ingênuo a ponto de balizar sua decisão sobre treinar o principal time de um país em algo que nunca exigiu, em qualquer clube por que passou. Ademais, Muricy confia em seu trabalho o suficiente para acreditar que iria até 2014, com ou sem garantias.

O que Muricy preza não é a confiança em cargos, mas sim a confiança em pessoas. Confiança que o faz sentir-se à vontade para fazer o trabalho a seu modo, com alguém, pelo menos um, com quem possa contar nos momentos difíceis. Um parceiro. Foi o que teve em Fernando Carvalho, no Internacional, e em Juvenal Juvêncio, no São Paulo. Foi o que julgou, erradamente, que teria no Palmeiras, com Belluzzo, que roeu a corda.

Muricy não conseguiu enxergar em Ricardo Teixeira, nem sequer capaz de retribuir um mero aperto de mãos, esse parceiro. Enxergou nele um chefe, a quem teria de se submeter ao longo de quatro longos anos. Engolindo sapos, aguentando uma nojenta arrogância e ainda sabendo que, à primeira trovoada, seria ele, o chefe, o primeiro a abandonar o barco. Como sempre diz, Muricy tem filhos a quem quer deixar bons exemplos. O do capacho submisso certamente não seria um.

Tudo isso na conta, Muricy saiu do encontro tendo de um lado a imensa vontade de dirigir a seleção brasileira e, de outro, a sensação de que provavelmente teria de abrir mão de muito em que acredita, calar a boca para muitas coisas erradas. O sonho se transformou em dúvida. Valeria a pena? Acredito que a resposta de um Muricy desimpedido ainda seria “sim”, mas, a partir dessa dúvida, a posição do Fluminense – absolutamente correta, diga-se de passagem – contou o suficiente para fazer o treinador seguir a palavra empenhada e aceitar a vontade tricolor.

Se tivesse ido com a cara de Teixeira, se o semblante fosse outro, leve, alegre, positivo, após a reunião, é certo que Muricy não teria sido tão condescendente com a decisão do Fluminense e, de forma análoga, a diretoria tricolor também não seria tão irredutível em sua posição. Do jeito que foi, o não do Flu deve ter até soado como um alívio para Muricy. Dirimiu suas dúvidas. Em prol da palavra. Em prol do caráter.

Muricy não foi à seleção, talvez nunca mais tenha outra chance, mas ganhou mais alguns pontos comigo e com aqueles que o admiram. E o cargo tão sonhado caiu no colo de Mano Menezes, que agora já aparece na primeira entrevista exclusiva à RGT…

Beber o defunto

Por Daniel Marchi

Conforme uma antiga tradição interiorana, praticamente já extinta, para se suportar uma longa madrugada de velório as pessoas consumiam pequenas doses de aguardente, sempre cabisbaixas e sem algazarra. Dizia-se que os presentes estavam velando e “bebendo” o defunto. Este era, mais ou menos, o clima do pódio do GP da Alemanha. As champanhes jorravam e os sorrisos amarelos se abriam apenas para cumprir um protocolo. E só.

De fato, a prova não merecia o dito velório. Uma largada bem interessante e disputas apertadas  vinham compondo um bom roteiro. De modo entusiasmado discutíamos o consumo de pneus, a técnica de pilotagem de acada um, etc etc. Dada a dificuldade do campeonato e a intensidade da corrida, já aguardávamos o verdadeiro carnaval que o vencedor faria depois da quadriculada.

Mas não houve carnaval. Não aconteceu porque a Ferrari resolveu, de novo, apequenar-se. A dobradinha aconteceu e os pontos estão no bolso, a despeito de os admiradores do automobilismo (e pior, da equipe também!) vislumbrarem aquele pódio e sussurrarem ao término de uma profunda respiração: que merda.

Ah… mas e o defunto, quem é? Escolham.

Vida longa aos iconoclastas

Quando se fala em iconoclasmo, o primeiro significado que surge à mente é o de oposição ao culto de imagens religiosas ou mesmo o de destruição dessas imagens. A ideia das próximas linhas vai além, trabalhando com uma definição que considera iconoclasta todo aquele que se rebela contra verdades socialmente estabelecidas e que, na realidade, têm de verdade pouco ou nada mais do que o nome fantasia.

São essas malfadadas verdades que, criadas de um instante para outro ou cultivadas por anos a fio, dispensam os indivíduos da árdua tarefa de pensar. Tiram-lhes o livre arbítrio e trabalham para que tudo fique sempre, e se possível cada vez mais, ao gosto dos poucos que definem o rumo das coisas. Como a racionalidade humana é muito mais limitada do que se consegue imaginar, são raros os que surgem a questioná-las. São eles, os iconoclastas. Quase sempre colocados à margem, sob algum rótulo depreciativo. Quanto menos ouvidos, melhor.

Num mundo em que ficou estabelecido que ser “de esquerda” é ser “do bem” e ser “de direita” é ser “do mal”, num Brasil em que os três (dois?) reais candidatos à presidência da República têm fortíssimos traços socialistas, iconoclasta é aquele que se atreve a falar mal da esquerda, das atrocidades por ela cometidas ao longo da História. Iconoclasta é aquele que mostra várias ocasiões em que políticas econômicas à direita se mostraram melhores do que suas parceiras de esquerda.

Seguindo na Economia, em que os grupos ideológicos dominantes se dividem grosso modo entre aqueles que acreditam ser possível matematizar todo o comportamento humano – ortodoxos – e os que creem que o todo poderoso Estado deve intervir mais e mais em nossas vidas para garantir o bem-estar – heterodoxos -, é iconoclasta quem brada contra ambas as coisas. Quem se diverte com o absurdo argumentativo tanto de uma linha quanto de outra.

Talvez o campo mais profícuo para as verdades pouco, por assim dizer, científicas, no Brasil seja o esporte. É um tal de certezas absolutas pra cá e pra lá que chega a assustar os menos avisados. Em tempos de Copa do Mundo, tem-se o auge. É sempre nessa época que se percebe que é absolutamente impossível o Brasil perder um torneio por, simplesmente, ser pior na bola. Não, isso não. Falar isso é ser iconoclasta. Se o Brasil perdeu, logicamente, é porque aconteceu alguma coisa errada fora das quatro linhas: a convocação, as baladas noturnas, a concentração exagerada, á água batizada, o resultado armado pelas duas maiores rivais entre fabricantes de material esportivo. Elementar.

A última dessas verdades, iniciada por Zico e que vem tomando corpo nos últimos dias, é a de que o título brasileiro do ano passado fez mal ao Flamengo. Os jogadores a partir de então teriam se sentido capazes de tudo e os descalabros tomaram a escala crescente que culminou no famigerado caso Bruno.

Uma grande falácia. Qualquer um que acompanha mais ou menos de perto a realidade dos clubes brasileiros sabe que, se há entre eles um que se destaca por nos últimos anos ter sido absolutamente permissivo para com os seus atletas, tendo se tornado até uma espécie de refúgio para jogadores menos afeitos a treinamentos e concentrações, este é o Clube de Regatas do Flamengo. O título brasileiro de 2009 não foi o causador de qualquer atitude pouco profissional, pra não dizer pouco inteligente, de nenhum atleta rubro-negro. Foi, sim, um acidente em meio à profusão desse tipo de atitude, que nunca teria ocorrido não fosse a incrível incompetência alheia para conquistar a taça.

Diante de tantos desatinos soltados aos quatro ventos e cantados em prosa e verso em sua inócua verdade, não há outra coisa a fazer senão dar vivas aos iconoclastas. Às poucas ilhas que aparecem aqui e ali para colocar pontos de interrogação em afirmações tão peremptórias quanto vazias.

A eles, vida longa!

Paulo Moura

Paulo Moura foi dos maiores instrumentistas brasileiros. Nascido na minha querida São José do Rio Preto, em 15 de julho de 1932, utilizava seus clarinetes e saxofones, fiéis companheiros, para encantar plateias mundo afora. Também compositor e arranjador, participou da Bossa Nova e trabalhou com variados artistas, como Ary Barroso, Maysa, Elis Regina, Fagner e Milton Nascimento.

Em 2000, ganhou o Grammy Latino de Música de Raiz pelo álbum “Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas”. Infelizmente, acabou mais reconhecido lá fora do que aqui dentro. Como muitas de nossas coisas boas.

O vídeo abaixo é a última, por assim dizer, apresentação de Paulo Moura. Já internado, ele aproveitou a visita de Wagner Tiso para insistir até que lhe passassem o clarinete. Fizeram um dueto em “Doce de côco”, de Jacob do Bandolim.

Era sábado, 10 de julho. Dois dias depois, Paulo Moura nos deixou as saudades, prestes a completar 78 anos.

Boçalidade sem limites

Fernando Anitelli é o líder d´O Teatro Mágico, projeto que mistura circo (?), música (??), poesia (???) e teatro (????). Com passagens psico-poéticas que chegam à profundidade de algo como “os opostos se distraem e os dispostos se atraem”, Anitelli e seus parceiros de trupe vêm, nos últimos anos, arrebanhando um bom punhado de admiradores, a maioria concentrada na Grande São Paulo.

Confesso que nunca fui muito com a cara do tal Teatro Mágico e que, dadas as características do grupo, se tivesse de apostar em alguma orientação política, cravaria o petismo – sim, o petismo é uma orientação política, talvez e tristemente a única que siga fielmente os seus princípios, no Brasil. Mas não tinha nada contra o trabalho da turma. Até ler a entrevista que Anitelli concedeu ao PT Macro Osasco e ser apresentado a um nível de boçalidade quase que inacreditável.

Tomei a liberdade de selecionar os “melhores” trechos de Anitelli, com comentários próprios em vermelho. Pensei em indicar também os atentados à língua portuguesa, mas faltaria espaço:

Macro Osasco em Contato: Eleições 2010. Qual foi a repercussão que o grupo sentiu ao colocar o apoio a Dilma Roussef no twitter do Teatro Mágico?
Fernando Anitelli
: Foi muito boa, tranquila. Eu tenho uma visão já conhecida, bem progressista, de esquerda (começa o show). No meu ponto de vista, a Dilma é a pessoa que melhor se enquadra nesse momento, para dar continuidade pra esse motor que foi colocado, que o governo Lula conseguiu fazer dialogando (dialogando? que tipo de diálogo?), fazendo as modificações coerentes. Governar um país, fazer esse país chegar como chegou lá fora, ter tentáculos pra conseguir caminhar e se organizar (pensei que para caminhar e se organizar fossem necessários pés e raciocínio, mas, em tempos de polvo Paul…). A estrutura que o governo Lula já conseguiu colocar, só a Dilma é capaz de continuar, ela já esta inserida nisso.

Macro Osasco em Contato: É consenso de o grupo todo apoiar a Dilma e o PT?
Fernando Anitelli
: O que a gente não vai deixar é ninguém [do grupo] apoiar o Serra. “Serra não! Não me venha falar de Serra”. O Teatro Mágico tem uma diversificação política dentro dele, mas sempre para a esquerda (ah tá, agora sim entendi qual é o diálogo a que se refere: um pergunta e o outro concorda). Quem não pensa assim, não está de acordo com a nossa direção, com a nossa meta, inclusive com a nossa meta artístico-política. Mesmo assim continuamos caminhando (apesar da censura interna?). Temos a posição anti-Serra enquanto projeto. Até porque ele boicota há três anos, politicamente, a participação do Teatro Mágico na virada cultural. É coisa da Secretaria de Cultura pedir e eles boicotarem mesmo (mas quem boicota, afinal, Serra, a Secretaria da Cultura ou eles? E quem seriam eles? O polvo Paul e seus tentáculos?).

Seria cômico não fosse trágico.

Fico a pensar o que é pior: impor patrulha ideológica, achar que o Serra é de direita ou saber que milhares de pessoas são influenciadas pelas ideias de alguém que se encaixa nos dois pontos anteriores.