Tshabalala

Esse foi o nome do dia na África do Sul. O meio-campista do esquete de Parreira não apenas fez o gol de estreia da Copa, mas foi também o melhor jogador do dia, considerando aí tanto o jogo entre sulafricanos e mexicanos quanto o fraco duelo entre França e Uruguai. De quebra, ensinou aos moleques do Santos como se faz uma dancinha para comemorar gol e ainda garantiu o seu lugar em algum clube europeu na próxima temporada. Tudo isso em apenas 90 minutos.

Os jogos de hoje mostraram ser possível dividir os times do Grupo A em dois subgrupos, um com México e França e outro com África e Uruguai. Os primeiros são mais técnicos e buscam o gol por meio de uma maior posse de bola, trocada de pé em pé; os últimos se fecham na defesa e tentam estufar as redes a partir de rápidos contra-ataques.

O México é o mais técnico de todos, com os jogadores mais habilidosos. Seria o suficiente para fazê-lo favorito a se classificar, não fosse a sofrível defesa, tão frágil que sofreu poucas e boas com o limitadíssimo ataque sulafricano. A África é a mais rápida na saída da defesa para o ataque e mostrou algumas linhas de passes que podem surpreender quem se meter a atacá-la sem maiores preocupações.

Não será o caso do Uruguai, seu próximo adversário, que nunca se lança com tudo. Será um jogo entre times com características semelhantes, o que tende a favorecer aquele com mais qualidade – o Uruguai. Ainda que o entusiasmo possa equilibrar as coisas, os celestes devem prevalecer.

Do outro lado, México e França devem fazer um jogo agradável, com os gols que faltaram aos franceses contra os sulamericanos. A defesa francesa é melhor, assim como o ataque mexicano. O prognóstico, difícil. Boas chances do terceiro empate no grupo.

E, como em toda Copa, sempre há os momentos hilários. No primeiro dia, foram dois. O primeiro protagonizado por Galvão Bueno – sempre ele – quando, lá pelas tantas, num ataque sulafricano, encontrou um tal de “Letsho” em campo. Letsho? Mas não tinha nenhum jogador com esse nome. O mais próximo era Letsholonyane. Galvão, ao se dar conta que acabara de se dar uma intimidade que não tinha com o desconhecido, mandou a pérola do dia: “Se não é Letcho o apelido dele, deveria ser, não é, Casão?”. Sorrindo, só restou a Casagrande concordar: “Sim, é fácil de falar.”

Quem nos brindou com o segundo foi Thierry Henry, ao reclamar veementemente de uma suposta mão na bola – não houve – de um zagueiro uruguaio dentro da área. Reclamar de mão na bola? Justo ele???!!!

Passar vergonha ou arrombar os cofres?

A Copa está prestes a começar – para mim só começa depois do pontapé inicial para o primeiro jogo – e uma coisa já é certa e visível: os estádios construídos pelos sulafricanos são belíssimos, exuberantes.

Perto deles, qualquer arena brasileira passa uma vergonha de se esconder debaixo da mesa. E, com isso, acabam-se as esperanças dos mais preocupados com as contas públicas de que, quando realizados em países distantes do primeiro mundo – casos da África e do Brasil – os Mundiais pudessem ter um jeitão mais modesto, condizente com a realidade local.

A ostentação africana coloca um peso do tamanho de um elefante marfinense nas costas do Brasil. Fica agora absolutamente claro, por exemplo, que não seria uma pequena reforma no Morumbi – aliás, que papelão protagonizado pelo São Paulo Futebol Clube nos últimos dias – que deixaria o estádio tricolor pronto para receber o evento à altura africana.

Sobram então duas opções: seguirmos o caminho indicado pela dura realidade de nosso país, sendo menos esbanjadores do que os irmãos da África e apresentando arenas que tragam alguns degraus abaixo o nível estético da Copa ou construirmos variadas obras arquitetônicas inacessíveis e incapazes de falar a mesma língua de nosso pobre povo, utilizando para isso o dinheiro desse mesmo pobre povo.

A primeira opção, mais sensata, sem dúvida arranharia a imagem brasileira frente a milhões de pessoas mundo afora, descortinando a elas a nossa verdade. Deixaria com vergonha o ilustre presidente do comitê organizador do evento. A segunda, totalmente descolada do real, faria o mundo ignorante admirar e louvar a capacidade brasileira de criar obras tão belas e grandiosas, como faz agora com a África. Para os turistas e o comitê organizador, maravilhoso; para o povo, nem tanto.

Tenho a resoluta certeza de que o ilustre presidente de nosso comitê organizador não vai, de forma alguma, passar vergonha. Melhor parecer do que ser. Segurem as calças.