Seleção é coerente, mas fraca

Em 2006, quando assumiu a seleção brasileira, Dunga foi categórico ao afirmar que entrava em cena para evitar que os erros da Copa da Alemanha, traduzidos em jogadores fora de forma, baladeiros e em uma comissão técnica cúmplice e conivente com uma preparação que deixou de lado questões físicas, técnicas e táticas em nome de sessões dignas de um grande circo.

Dunga nunca prometeu levar os melhores jogadores para o selecionado nacional, mas sim, utilizando as duas palavras mais repetidas por ele ao longo dos quase quatro anos em que responde pela equipe, fechar com atletas comprometidos e ser coerente.

Cumpriu o prometido à risca ontem, quando anunciou os 23 jogadores que representarão o Brasil na Copa da África do Sul. Dunga está de parabéns por ter sido de uma coerência poucas vezes vista e por ter levado apenas aqueles que já se mostraram comprometidos com a seleção, leia-se mais preocupados em jogar e se esforçar para ganhar do que em aparecer para a mídia ou em festas com uma latinha na mão.

Seguindo o próprio discurso, o maior mérito de Dunga foi não convocar Adriano. Chamar um jogador afeito a festas no morro e a brigas cinematográficas com sua eterna ex-atual-ex namorada iria contra todos os seus princípios de coerência e comprometimento.

A não convocação de Ganso e Neymar também foi ao encontro do pensamento dunguista. De fato, se o foco da questão está na coerência e no comprometimento, nenhum deles poderia ser chamado. Dunga deixou claro nas entrelinhas que, se os dois tivessem sido testados e aprovados ao menos uma vez com a canarinha, como Grafite, provavelmente fariam parte da lista para a África. Mas apareceram tarde demais – Dunga foi exagerado ao dizer que ninguém reclamou quando ambos não foram chamados para o último amistoso da seleção, contra a Irlanda, mas é verdade que poucos chiaram – e não deu tempo. Seria, pois, incoerente chamar alguém que não se sabe ser ou não comprometido.

Ganso está tão exuberante que ainda conseguiu uma vaguinha entre os sete que torcem pelo mal alheio para irem à Copa – torcida que deve ser recompensada para pelo menos um deles, afinal, desde 1970, apenas em 1990 a lista inicial não sofreu cortes até a Copa. Mas, a não ser que algo de muito negativo seja identificado por Dunga e Jorginho durante a preparação, o meia santista não deverá ser chamado ao primeiro contratempo. Seguindo a linha da coerência, deve estar atrás de Ronaldinho Gaúcho e Carlos Eduardo em chances de substituir alguém.

Portanto, não há dúvidas, a seleção é completamente coerente. Capacidade técnica é outra coisa. A lista de Dunga é de uma pobreza técnica marcante. Há apenas dois jogadadores capazes de decidir um jogo: Julio César e Kaká. Ainda mais preocupante, a grande maioria dos atletas está em má fase. Do time titular, seis encontram-se distantes da melhor condição: Michel Bastos, Gilberto Silva, Felipe Melo, Ramires (ou Elano), Kaká e Luis Fabiano. Entre os reservas, apenas Gomes, Luisão e Daniel Alves podem ser considerados em boa forma técnica. Ou seja, dos 23 convocados, 15 passam por períodos péssimos, ruins ou, no mínimo, medíocres.

É temerário, sem dúvida. Assim como era temerário o grupo chamado por Felipão para a Copa de 2002 e que terminou campeão. Assim como naquele ano, o Brasil poderá se beneficiar menos de sua força e mais da fraqueza dos adversários para, com um grupo fechado, comprometido e unido, ir longe e até vencer. Dunga aposta nisso. Eu não.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

3 Responses to Seleção é coerente, mas fraca

  1. Anônimo says:

    É! Só nos resta torcer!

    “Eu vou torcer, eu vou…” (Jorge Ben)

  2. fernando says:

    Precisava ter o R. Gaúcho. Voltou a jogar bem e tem bastante experiência. Marcou 2 contra a Juventos. É uma pena. O pior é ter que torcer pra ver a seleção ganhar e o Dunga sair como gênio … seria um crime sem punição.

    • Thiago says:

      Tenho sérias dúvidas sobre Gaúcho. A temporada dele foi de uma irregularidade monstruosa. Jogou bem contra a Juventus ontem, mas não o fazia há várias rodadas, depois de um início promissor. Acho que das tais injustiças de Dunga, essa foi a menor e a mais justificada. Vale lembrar que Ronaldinho teve várias chances, inclusive a maior delas, de conduzir a equipe ao ouro olímpico, e não aproveitou nenhuma.

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