Fórmula (3 em) 1

Dick Vigarista e a nossa Penélope

por Marcelo Cerri

Finalmente a F1 chega  na Europa. Após belas provas na Ásia e Austrália, tivemos um GP dentro da normalidade: o circuito de Barcelona é o mais conhecido entre os pilotos e fez sol, muito sol. Não que tenha sido propriamente uma corrida chata. Apesar das poucas ultrapassagens, houve momentos emocionantes, como a briga entre o renascido Schumacher e Button, a ultrapassagem perigosa do sempre agressivo Hamilton sobre o futuro campeão Vettel e o pneu furado do mesmo inglês ao final da corrida. A vitória de Webber foi merecida, com uma belíssima classificação e uma corrida redonda, limpa, perfeita. Mas o grande destaque do final de semana foi Alonso, mesmo sem fazer grandes malabarismos durante a prova.

O asturiano fez quase um milagre no treino classificatório e conseguiu largar à frente de Jenson Button, que claramente tinha um carro mais rápido. Mas isso é o suficiente para fazer dele o nome do GP de Barcelona? Não, não só isso. Existem vários fatores que fazem um piloto campeão e que não aparecem nas imagens. Um exemplo é o trato com os pneus. Por que Alonso é mais veloz que Massa? Porque consegue manter a borracha numa temperatura ideal. Por que foi o pneu de Hamilton que furou e não o de Alonso? Sorte de campeão, como diria Galvão? Não, não. O estilo de pilotagem agressivo de Lewis consome mais pneus. Não existe sorte ou azar.

Ainda em referência ao espanhol, volto a me perguntar: qual o limite do ufanismo de Galvão? É lógico que o narrador oficial não diz as besteiras que diz por amor à Pátria, mas porque é alimentando o ufanismo nos telespectadores que ele mantém boa parte do público ligado em suas transmissões. Infelizmente parte significativa dos seguidores da F1 é torcedora de brasileiros e não admiradores de automobilismo. Então como fazer para os consumidores continuarem torcendo para Massa mesmo sendo ele constantemente meio segundo mais lento que seu companheiro de equipe? Basta fazer os brasileiros acreditarem que essa diferença existe por um motivo pontual que não será vista na próxima corrida ou que Alonso é o Dick Vigarista enquanto o brasileiro é a indefesa Penélope Charmosa. No entanto, todos os limites do bom senso foram ultrapassados durante a transmissão do treino classificatório. Galvão fez várias insinuações sobre a índole do bicampeão, dizendo que ele era “sem dúvida” antiético e somente por isso está na frente de Massa no campeonato.

Termino lembrando de algo que passa desapercebido por muitos: no ano passado Alonso  colocava sobre Nelsinho Piquet os mesmos seis décimos de vantagem. A superioridade é a mesma deste ano. Mas não vejo ninguém dizendo que Massa é um desastre, como fizeram com Piquet. Ou um não era tão ruim quanto parecia ou o outro não é tão forte quanto acreditávamos. Só uma constatação é indiscutível: o asturiano é muito superior aos dois.

Rapidinhas:

Qual será a próxima reclamação de Rubinho?

Kubica continua fazendo milagres com seu carro. O Polonês tem excelente relacionamento com os italianos em geral, domina a língua e é querido por todos na terra da bota. Ou Massa reage ou…

Schummy está ressurgindo com um carro novo. Belíssima corrida!

***

O destruidor de carros

por Thiago Barros Ribeiro

Depois de uma série de corridas recheadas de água e emoção, o GP da Espanha trouxe-nos de volta a um cenário mais próximo da realidade na Fórmula 1. Melhor e mais disputada do que a de anos anteriores – lembremos que a disputa em Barcelona caracteriza-se por ser um convite ao sono matinal e hoje nem foi tanto assim, com o duelo entre Button e Schumacher, os problemas de Vettel e Hamilton -,  mas longe do show que vinha nos deixando mal acostumados.

O fim-de-semana começou com um abismo separando uma equipe, a RedBull, que colocou mais de um segundo sobre todos os rivais no classificatório de sábado. Mas o domingo mostrou que em corrida a superioridade ainda não é nem tão grande nem tão constante como nos treinamentos.

Mostrou mais do que isso. Já não há mais dúvida de que há alguma coisa no jeito de Vettel pilotar que tende a destruir o carro. Talvez seja uma pitada a mais de arrojo, um jeito diferente de pisar no freio, mas o fato é que esse quê ainda indecifrável tirou de Vettel um título bastante provável em 2009 e tem tudo para fazer o mesmo neste ano, com a diferença de que a perspectiva de conquista é agora ainda mais latente. O pior para Vettel, e o melhor para os outros, é que esse problema parece afetar a cabeça do germânico. Reconhecidamente mais talentoso do que Webber, Vettel andou atrás do companheiro na Espanha, quiçá preocupado em corrigir o enigma da pilotagem destruidora. Não corrigiu e viu o parceiro vencer a prova.

Enquanto isso…

Massa passou mais um fim-de-semana tomando em média meio segundo por volta de Fernando Alonso. Está já a 18 pontos do espanhol e prestes a assumir (ou já assumiu?) oficialmente o papel de segundo piloto. Para mim uma grande decepção. Esperava uma disputa acirradíssima entre ambos e não um passeio de um dos lados.

E Rosberg, coitado, começou finalmente a sentir o gosto amargo de ser companheiro de Schumacher. Cansado do baile que vinha tomando desde o começo do ano, o heptacampeão usou de seu poder e fez um carro sob medida para si. O problema é que esse carro foi repassado também a Rosberg, que não tinha nada a ver com isso e estava muito feliz com a Mercedes de antes. Resultado: Schumacher melhorou um pouco, ainda a anos-luz de qualquer brilhantismo, e Rosberg despencou, passando em branco pela primeira vez no ano. Se fosse uma dupla de pilotos normal, seria o caso de a Mercedes, em tendo de optar por uma das especificações, voltar à antiga, posto que a mudança claramente prejudicou o seu piloto mais competitivo, que está na disputa do campeonato. Como Schumacher faz parte da dupla, pobre Rosberg… estava na disputa do campeonato.

***

Homens do ramo e homens sem rumo

por Daniel Marchi

Tudo muito normal na Espanha. Como as equipes ainda têm pouca quilometragem em condições de piso seco nessa temporada, elas permanecem em processo de learning by doing. Mas certamente já têm uma carga de informações suficientes para explorar mais os pneus e correr menos riscos. Acredito que na segunda metade do campeonato estarão mais confortáveis nesse quesito.

Temos até aqui um campeonato de construtores bem apertado. E isso me faz tirar uma conclusão, reconheço, arriscada. A Red Bull ainda não merece ser chamada de “equipe grande”. O time ainda não consegue converter a superioridade de seus carros em vitórias (dobradinhas, no caso) tranqüilas. É o preço do noviciado. Não vamos esquecer que é a primeira vez que a equipe está efetivamente disputando títulos, situação bem diferente de McLaren e Ferrari, verdadeiras raposas do deserto. Mas homens competentes e do ramo, como Horner e Newey, sabem o caminho das pedras.

Por fim falemos do trio parada-dura, FIA, FOM e FOTA. Eles, cada um a seu modo, ainda vão conseguir acabar por completo com a F-1. A brilhante decisão de proibir os testes durante a temporada terá em Mônaco o seu ponto alto. Já está se discutindo abertamente a divisão dos treinos, de modo que as equipes novas não causem transtornos em demasia para as mais estruturadas. É uma piada, só pode ser. Deve ser algum brasileiro que, por trás das cortinas, dirige a F-1. É aquela típica medida para fingir que está tudo bem. Nós sabemos bem como é isso…

E não é só. Os pilotos da Virgin foram punidos, perderam algumas posições no grid espanhol. Mas por que a equipe foi punida? Será que ela usou querosene de aviação? Um pacote com suspensão ativa, controle de tração e freios ABS? Não. A equipe não comunicou a tempo as informações sobre as relações de marchas à FIA. Tem babaquice burocrática maior do que essa? Antes de arrasar a categoria, os sábios vão implantar o comunismo na F-1, se é que já não o fizeram.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

2 Responses to Fórmula (3 em) 1

  1. Daniel M. says:

    Proibir, proibir, proibir… essa é a regra.

    “Equipes rejeitam apelo da McLaren, e duto frontal está proibido para 2011”

    http://esporte.ig.com.br/grandepremio/formula1/2010/05/09/equipes+rejeitam+apelo+da+mclaren+e+duto+frontal+esta+proibido+para+2011+9480482.html

  2. Marcelo Cerri says:

    Não entendo uma coisa. Alguns botões podem até alterar combinação de combustível, equilíbrio de freios etc. A tecnologia é altíssima na F1. Então por que não inventam um modo seguro para bloquear o fluxo de ar? Sei lá, não entendo porque o joelho ou as mãos não possam ser substituídos por algo controlado por botões. Assim a invenção deixaria de ser algo tão perigoso.

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