Fórmula (3 em) 1

Menino maluquinho

por Daniel Marchi

E o GP de Constantinopla foi uma delícia. Carros próximos nas primeiras posições e pilotos com vontade de vencer. Não fosse a bobagem histórica protagonizada por Vettel, já teríamos muito a comentar. Por exemplo, para minha surpresa, a estratégia ótima nas corridas tem sido fazer apenas uma parada. Pelo o que conhecemos da FIA, ela deve solicitar para que o fabricante de pneus do próximo ano (chute: Pirelli) produza compostos menos duráveis.

No quadro de forças vemos Red Bull e McLaren, nessa ordem, ocupando as primeiras colocações. Estão consistentes e não devem ser ameaçadas no próximo terço de campeonato. Na seqüência, a Ferrari está fazendo uma força danada para ser superada pela Mercedes. Se não reagir logo vai ficar atrás até da Renault, fato que já vem acontecendo em algumas classificações. Para completar a fase nada boa, Massa está apagado e Alonso vem cometendo erros anormais para o seu padrão de desempenho.

Voltando aos acontecimentos do final da prova. Sebastian Vettel fez um grande favor ao tornar este GP inesquecível. De imediato não me lembro de uma bobagem tão grande cometida por um piloto de alto nível numa equipe de ponta. Calculou muito mal a ultrapassagem sobre Webber e, pior do que isso, mostrou que tem miopia quando observa o campeonato como um todo.

Não percebe que está com o melhor equipamento do ano e que tem capacidade para reagir à excepcional fase vivida pelo companheiro de equipe e resolver as coisas sem assumir riscos tão grandes. Ainda, mostrou imaturidade e falta de profissionalismo ao sair do carro, indicando com a mão que Webber era maluco (não obstante eu, torcedor, achar o máximo quando isso acontece). Resumindo, fez molecagem, no mal sentido.

PS: Um domingo de automobilismo em dose calavar. F-1, Indy 500 e Coca-Cola 600, na Nascar.

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Saudosos Malucos

por Thiago Barros Ribeiro

Ok, Vettel foi afoito e acabou pagando caro pelo excesso de arrojo num momento inadequado. A sua maior pena foi justamente perder, no mínimo, os 18 pontos que faria ao terminar em segundo e que muito o ajudariam na disputa pelo título.

Isso posto, discordo plenamente de qualquer crítica mais dura ao jovem e talentoso alemão. Discordo por ser incoerente. Não podemos criticar um piloto por ser mais arrojado do que o normal para os padrões atuais se vivemos reclamando da falta de emoção e do modorrento bom mocismo que há tempos predomina na enfadonha Fórmula 1.

Quantos de nós – eu muitas vezes – não lembram saudosamente dos malucos da década de 80, de pilotos que quase se matavam dentro da mesma equipe em busca de uma vitória, de um ponto a mais que fosse? Eram os adoráveis Piquet e Mansell na Williams, os brilhantes Senna e Prost na McLaren, que levavam à risca a máxima de que o maior rival é aquele que dirige na mesma equipe. Camaradagem entre eles? Jogo de equipe? Nem por brincadeira.

E aí, aparece um Vettel, um Hamilton – e hoje até um Button – que fazem lembrar os bons e velhos tempos, que têm sangue quente nos olhos e nas veias, que erram sim, como erravam Senna, Mansell – erros por vezes próximos do absurdo, como o de Vettel hoje. Erram por querer demais. E vamos criticar? Devemos é glorificar.

Em tempo, é importante notar um aspecto que tem sido decisivo para essa nova postura dos pilotos, agora com tanta vontade de vencer. Se antes a mínima diferença de 2 pontos entre os dois primeiros- 10 ante 8 – tendia a acomodar um piloto na segunda colocação, hoje a quase abissal distância de 7 pontos entre eles é que faz com que Vettel, Button e todos os outros vejam a vitória com tanta água na boca. Bela alteração.

Quanto ao campeonato, a Ferrari parece que subiu no telhado. Se tudo continuar na mesma toada, os quatro de RedBull e McLaren, e apenas eles, ainda vão brigar muito e oferecer não menos espetáculo na contenda.

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Gênios podem ser loucos, mas não são burros

por Marcelo Cerri

O GP da Turquia foi mais uma mostra de que vivemos um dos melhores anos da história da F1. Falaremos de 2010 aos nossos filhos com aquele mesmo saudosismo que nossos pais nos falam dos anos 80. Além de mudanças nas regras que proporcionaram corridas mais combativas, temos também pilotos que têm sangue quente nas veias, que buscam a vitória a qualquer custo. Em alguns momentos esses gênios parecem ter enlouquecido, agem como irresponsáveis. Mas qual grande campeão não tem no currículo uma meia dúzia de maluquices? Qual grande campeão não teve brigas memoráveis com seus companheiros de time? Que eu me lembre, somente Schumacher nunca teve grandes arranca rabos com seus companheiros, o que ajudou a fazer de seus anos de reinado os mais chatos que a F1 já vivenciou.

Vimos ontem duas brigas entre companheiros que permanecerão na memória de todo grande admirador de automobilismo. Hamilton e Button protagonizaram um momento mágico, pensei até que fossem se tocar e acabar em lambança. Talvez o final trágico tenha sido evitado pelo que acabara de acontecer aos dois pilotos da Red Bull, o que deve ter feito com que Martin Whitmarsh ordenasse o fim da brincadeira. Mas a grande polêmica do dia foi o acidente entre Sebastian Vettel e Mark Webber. À primeira vista, parecia que o garoto alemão tinha enlouquecido: já estava quase à frente do companheiro quando, de repente, joga o carro para a direita acertando em cheio o inocente e experiente australiano. Mas antes de crucificar o geniozinho incauto, partamos do princípio que gênios erram por excesso de arrojo, por riscos desmedidos, mas não por burrice.

Muitos estão dizendo que Webber permaneceu em seu traçado, não mexeu o carro, portanto não cometeu erro algum. Mas os dois não estavam em uma reta infinita: havia uma curva à esquerda logo à frente, o que os obrigaria a fazer a tomada à direita. Entretanto o piloto experiente resolveu não fazer a curva e permanecer espremendo o menino afoito na parte interna. Tudo bem, Vettel errou ao achar que Webber fosse fazer a tomada. Mesmo que estivessem no limite para tal, não se pode prever o que o outro fará. Porém, se o alemão tivesse permanecido em linha reta, os dois não fariam a curva, espalhariam, e seriam ultrapassados pelas duas McLaren que vinham babando atrás. Portanto, para se defender do companheiro, Webber teria dado as duas primeiras posições aos adversários. Isso sim é que é loucura! Concluindo, o erro de Vettel foi não prever que seu companheiro de equipe fosse maluco. Seus gestos pós-acidente, mesmo que indevidos, não foram por acaso.

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Até a página 10

Como diz o jargão político, os Estados Unidos desautorizaram o alardeado acordo que, depois de horas e mais horas perdidas de negociação, Brasil, Irã e Turquia vieram a público anunciar na última segunda-feira e que seria, segundo os entusiasmados mediadores turcos e brasileiros, a solução para as rusgas entre o Irã, com seu programa nuclear, e os poderosos do Ocidente.

Com ele, os pobres e tolos negociadores acreditavam piamente que não apenas as sanções econômicas pensadas pelos Estados Unidos contra o Irã seriam deixadas na gaveta mas também, e mais importante para eles, que Brasil e Turquia ganhavam nova projeção internacional, revestidos da força necessária para passarem a protagonizar a cena mundial.

Pois no dia seguinte veio a bofetada yankee. Os Estados Unidos abriram a gaveta e propuseram suas sanções ao Conselho de Segurança da ONU. As “potências” emergentes, como gostam de ser chamados Brasil e Turquia, tiveram de sentir o gosto amargo de sua total irrelevância mundial.

A choradeira dos nanicos tupiniquins foi enorme. O choro dos que acreditam em fadas, duendes, mula-sem-cabeça e saci-pererê.

Ora, o gesto estadunidense não é inesperado para qualquer um que tenha o mínimo senso analítico em relação à posição central e absoluta que os Estados Unidos dão a si mesmos quando o assunto é o mundo. As crianças querem brincar de gente grande? “Ok, eu deixo vocês darem uma volta com o meu carro, tá bom, meninos?”, responde o titio Sam. As crianças eufóricas acreditam então que vão poder sair à noite, aprontar todas por aí e voltar quando bem entenderem. Tomam o seu banho, preparam-se para a balada de suas vidas e, na hora do vamos ver, titio Sam dá a elas o controle do Playstation para brincarem de carrinho de corrida. Afinal, ele não prometeu que elas andariam num carro de verdade.

Foi mais ou menos o que fizeram os Estados Unidos ao “incentivarem” a conversa da diplomacia turco-brasileira com os aiatolás. Eles não tinham o que perder com ela. Se desse errado, seria a prova da incompetência alheia. Se ameaçasse dar certo, eles entravam, como entraram, em cena para mostrar quem manda no galinheiro.

É importante ficar claro que essa posição não é singular aos Estados Unidos, mas comum a todos os países que, em qualquer época, estiveram em posição de liderança global. Quem está no trono não quer sair dele e não vai deixar que uns pequenos metidos a besta venham cantar de galo em suas bandas. Tomará atitudes para manter o clube fechado em torno de si e será apoiado nessas atitudes por todos aqueles que de alguma forma fazem parte do clube e não querem correr o risco de perder o seu lugar para “emergentes”.

Quer mandar um monte dos seus à morte em alguma missão de paz numa ilhota da Ásia ou da América Central? Quer oferecer gás gratuito a um vizinho que toma as empresas de seu próprio país? Quer doar milhões de dólares a um país devastado por uma catástrofe, tornando-se o garoto mais solidário do planeta e posando de bonitinho? Pode fazer tudo isso, pode até mesmo ser presidente da ONU ou do Banco Mundial, mas esteja certo de que nada disso vai alterar sua posição no campo de batalha. O general vai apenas rir de sua inocência, que não o afeta, ou até o ajuda, sem ter nada em troca. E se quiser ir além, o Dom Quixote vai ficar com cara de bobo.

Um país só sai da posição de coadjuvante para a de potência mundial sob alguma drástica e traumática transformação político-econômica, em geral trazida à baila em meio e após um conflito bélico. Ninguém trilha esse caminho sendo bonzinho. Essa é a História. Quem a nega, além de um romântico otimista, é ignorante.

Fórmula (3 em) 1

Hoje excepcionalmente não contaremos com as contribuições do Marcelo e do Daniel para o blog. No GP da Turquia eles voltam.

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Será?

por Thiago Barros Ribeiro

Aos olhos de todos os que acompanham a Fórmula 1, Mark Webber é mais um daqueles pilotos competentes, em alguns momentos até um pouco mais do que isso, mas sem a pitada a mais do talento, do brilhantismo, da estrela que constrói os campeões. Está na mesma categoria de outros bons, mas não extraordinários, pilotos da história, como Berger, Patrese, Barrichello e Coulthard.

Nas duas últimas semanas, porém, Webber se credenciou a saltar deste para o degrau acima, onde se localizam os campeões. Sobrou na pista tanto em Barcelona quanto em Mônaco. Além dos 50 pontos e da liderança do campeonato agora no bolso, o feito ganha ainda mais relevo por dois motivos: as pistas espanhola e monegasca têm nada em comum, o que mostra a versatilidade do australiano, e Vettel, o companheiro que comeu poeira em ambas, não é um piloto qualquer.

Se continuar no mesmo ritmo, Webber será campeão, não há dúvidas. Mas o “se” ainda alimenta desconfianças nada irrelevantes. Primeiro, porque no ano passado, mais ou menos à mesma altura do campeonato, Webber chegou a despontar como grande rival de Button na disputa pelo título e depois se perdeu pelo caminho. Segundo, porque não é coisa simples o salto de categoria, dos bons para os campeões, do qual estamos falando. Lembro-me apenas de dois que conseguiram realizá-lo: Jenson Button e Damon Hill. Ambos nunca tiveram pinta de campeão. Até serem campeões. Será Webber o terceiro?

Aproveitando o GP de Mônaco, e mudando totalmente o rumo da prosa, é sempre nessa pista que me lembro – e tenho a convicção de que estou certo -, por que considero Ayrton Senna o maior de todos os tempos. As ruas do principado são as únicas na Fórmula 1 que permitem a um carro constantemente mais lento chegar à frente dos mais rápidos. É, pois, a única em que o braço de um piloto pode fazer uma diferença a ponto de significar uma vitória diante de bólidos mais velozes.

Senna venceu 6 vezes em Mônaco. Em três das vitórias, levou um carro reconhecidamente inferior aos dos rivais ao primeiro posto. A Lotus de 87 e as McLaren de 92 e 93 não teriam condições de vencer não fosse Ayrton o condutor. Isso sem falar na fraca Toleman de 84, que, nas mãos de outro chofer, jamais chegaria próxima à façanha de vencer, antes da interrupção pela chuva.

Desde Ayrton, nunca mais um piloto em clara inferioridade de equipamento conseguiu vencer regularmente, como ele fazia em Mônaco. Pode ter acontecido vez ou outra, com um ou outro. Mas nunca se tornou regra como era com o brasileiro em Mônaco. Ele, o maior de todos e que tanta falta faz.

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Em tempo, Daniel não vai escrever hoje, mas informa que a ultrapassagem de Schumacher sobre Alonso será revertida. Ao que parece, como a corrida só pode ser considerada reiniciada pra valer quando o primeiro colocado passa pela linha de chegada, e neste caso quando o primeiro colocado passou a corrida terminou, não valeu nada. Pra completar, o comissário da prova, Damon Hill, não deve ter ficado muito triste por tirar pontos de Schumacher. Alonso fica a apenas três da dupla da RedBull na disputa pelo campeonato.

Atlético de Madrid e a luva

Sou um torcedor de futebol que beira o fanatismo, embora, paradoxalmente, sempre tente manter o pragmatismo desapaixonado em minhas análises, algo normalmente impossível  para pessoas na mesma condição. Analiso com frieza mas torço com fervor e por isso as duas últimas quartas-feiras foram-me de alegrias quase inenarráveis.

No dia 5 de maio, recebi dos deuses do futebol dois presentes para celebrar a minha 29ª primavera, as eliminações consecutivas e com requinte de crueldade do Palmeiras, na Copa do Brasil, e do Corinthians, na sempre sonhada e nunca alcançada Libertadores.

Foi lindo. Tanto que não esperava que outro dia tão futebolisticamente regozijante chegasse cedo. No entanto, a última quarta-feira não apenas chegou como conseguiu superar as maravilhas da anterior. Dessa vez, o deleite foi com meus próprios times e não com os de outrem.

Não, não coloquei um plural inadequado na frase anterior. São meus times mesmo. Tenho vários espalhados pelo mundo. Arsenal, Atlético de Madrid, Auxerre, Borussia Dortmund, Feyenoord, Independiente, Sampdoria, Sporting, além, claro, do número um no coração: São Paulo Futebol Clube. Torço com afinco por todos. Coisa de maluco, assumo. Não posso negar a verdade.

Voltemos a quarta-feira. No meio da tarde, los colchoneros de Madrid entraram em campo para decidir o título da Liga Europa, segundo maior campeonato do continente, contra o Fulham, da Inglaterra.

A campanha até a final foi absolutamente medíocre. O Atlético chegou à competição por ter sido o terceiro do seu grupo na Liga dos Campeões, atrás de Chelsea e Porto, tendo conquistado apenas três empates – um contra o Chelsea e dois contra o fraquíssimo Apoel, do Chipre – nos seis jogos disputados. Desclassificado da principal competição, ganhou a chance de disputar a prima pobre. O sofrimento se manteve. Eliminou o turco Galatasaray, depois de um empate em casa, com uma vitória fora por 2 a 1, gol no último instante. Passou pelo (também meu) Sporting de Portugal com dois empates, 0 a 0 em casa e 2 a 2 fora, exatamente o mesmo resultado do confronto contra o Valencia. Na semifinal, desbancou o favorito Liverpool na Inglaterra, graças a um gol do uruguaio Diego Forlán na prorrogação, quando a vaca parecia caminhar decidida para o brejo. A derrota por 2 a 1, unida à vitória por 1 a 0 no primeiro jogo, foi o passaporte para a final.

Foi então que o herói Forlán chegou ao ápice. Depois de marcar o gol salvador contra o Galatasaray, um contra o Valencia e os dois do Atlético na semifinal, o atacante aumentou minha forte propensão a adotar o Uruguai como seleção na Copa – eles também têm Lugano. Abriu o placar no primeiro tempo e, haja emoção, desempatou o duelo nos minutos derradeiros da prorrogação.

A vitória tirou o Atlético de uma fila de 14 anos, que vinha desde o título espanhol da temporada 1995/96. Na volta a Madri, los campeones foram recebidos por cerca de 150 mil pessoas na Fuente de Neptuno, onde tradicionalmente os colchoneros, torcida mais fanática de Madri, celebram suas conquistas.

O dia já estava ganho. Pensar que o São Paulo pudesse colocar o favorito Cruzeiro no bolso em pleno Mineirão era um pouco demais, embora, ao contrário da grande maioria, imaginasse que o Tricolor pudesse sair classificado depois dos dois jogos. “Eles são tão favoritos, mas tão favoritos, que podemos passar”, pensava eu.

Acreditava na classificação, não na vitória em Minas. Mas ela veio, graças a uma luva chamada Fernandão e a uma sorte que costuma acompanhar os campeões.  Fernandão fez muito mais do que o mais otimista sampaulino imaginava. Com maestria desempenhou o papel de pivô, fazendo parecer fácil aquilo que para Washington é tão torturante. Foi além. Jogou também de frente para o gol, segurando com calma a bola na meia cancha e brindando a torcida com passes precisos. O de calcanhar para Hernanes fazer o segundo fez lembrar os melhores momentos de Sócrates.

Fernandão mostrou potencial para repetir a importância que teve Amoroso para a conquista de 2005, quando chegou na fase semifinal e desandou a jogar muita bola. Mas ainda é cedo para entusiasmo exagerado. Afinal, foi apenas um jogo.

Fernandão, a solução?

Tão ou talvez até mais fundamental do que Fernandão para a possível  conquista do tetra continental é que o técnico Ricardo Gomes se convença de uma vez que o São Paulo não funciona no 4-4-2 e mantenha o 3-5-2.  O ideal seria a volta de Miranda no lugar de Richarlyson, mas Gomes não fará isso com o seu xodó. Quem irá para o banco, infeliz e muito provavelmente, será Xandão.

Que pelo menos o desenho tático da equipe se mantenha parecido com o de Minas. Assim, minhas próximas quartas-feiras poderão ser agradáveis como as últimas.

Seleção é coerente, mas fraca

Em 2006, quando assumiu a seleção brasileira, Dunga foi categórico ao afirmar que entrava em cena para evitar que os erros da Copa da Alemanha, traduzidos em jogadores fora de forma, baladeiros e em uma comissão técnica cúmplice e conivente com uma preparação que deixou de lado questões físicas, técnicas e táticas em nome de sessões dignas de um grande circo.

Dunga nunca prometeu levar os melhores jogadores para o selecionado nacional, mas sim, utilizando as duas palavras mais repetidas por ele ao longo dos quase quatro anos em que responde pela equipe, fechar com atletas comprometidos e ser coerente.

Cumpriu o prometido à risca ontem, quando anunciou os 23 jogadores que representarão o Brasil na Copa da África do Sul. Dunga está de parabéns por ter sido de uma coerência poucas vezes vista e por ter levado apenas aqueles que já se mostraram comprometidos com a seleção, leia-se mais preocupados em jogar e se esforçar para ganhar do que em aparecer para a mídia ou em festas com uma latinha na mão.

Seguindo o próprio discurso, o maior mérito de Dunga foi não convocar Adriano. Chamar um jogador afeito a festas no morro e a brigas cinematográficas com sua eterna ex-atual-ex namorada iria contra todos os seus princípios de coerência e comprometimento.

A não convocação de Ganso e Neymar também foi ao encontro do pensamento dunguista. De fato, se o foco da questão está na coerência e no comprometimento, nenhum deles poderia ser chamado. Dunga deixou claro nas entrelinhas que, se os dois tivessem sido testados e aprovados ao menos uma vez com a canarinha, como Grafite, provavelmente fariam parte da lista para a África. Mas apareceram tarde demais – Dunga foi exagerado ao dizer que ninguém reclamou quando ambos não foram chamados para o último amistoso da seleção, contra a Irlanda, mas é verdade que poucos chiaram – e não deu tempo. Seria, pois, incoerente chamar alguém que não se sabe ser ou não comprometido.

Ganso está tão exuberante que ainda conseguiu uma vaguinha entre os sete que torcem pelo mal alheio para irem à Copa – torcida que deve ser recompensada para pelo menos um deles, afinal, desde 1970, apenas em 1990 a lista inicial não sofreu cortes até a Copa. Mas, a não ser que algo de muito negativo seja identificado por Dunga e Jorginho durante a preparação, o meia santista não deverá ser chamado ao primeiro contratempo. Seguindo a linha da coerência, deve estar atrás de Ronaldinho Gaúcho e Carlos Eduardo em chances de substituir alguém.

Portanto, não há dúvidas, a seleção é completamente coerente. Capacidade técnica é outra coisa. A lista de Dunga é de uma pobreza técnica marcante. Há apenas dois jogadadores capazes de decidir um jogo: Julio César e Kaká. Ainda mais preocupante, a grande maioria dos atletas está em má fase. Do time titular, seis encontram-se distantes da melhor condição: Michel Bastos, Gilberto Silva, Felipe Melo, Ramires (ou Elano), Kaká e Luis Fabiano. Entre os reservas, apenas Gomes, Luisão e Daniel Alves podem ser considerados em boa forma técnica. Ou seja, dos 23 convocados, 15 passam por períodos péssimos, ruins ou, no mínimo, medíocres.

É temerário, sem dúvida. Assim como era temerário o grupo chamado por Felipão para a Copa de 2002 e que terminou campeão. Assim como naquele ano, o Brasil poderá se beneficiar menos de sua força e mais da fraqueza dos adversários para, com um grupo fechado, comprometido e unido, ir longe e até vencer. Dunga aposta nisso. Eu não.

Fórmula (3 em) 1

Dick Vigarista e a nossa Penélope

por Marcelo Cerri

Finalmente a F1 chega  na Europa. Após belas provas na Ásia e Austrália, tivemos um GP dentro da normalidade: o circuito de Barcelona é o mais conhecido entre os pilotos e fez sol, muito sol. Não que tenha sido propriamente uma corrida chata. Apesar das poucas ultrapassagens, houve momentos emocionantes, como a briga entre o renascido Schumacher e Button, a ultrapassagem perigosa do sempre agressivo Hamilton sobre o futuro campeão Vettel e o pneu furado do mesmo inglês ao final da corrida. A vitória de Webber foi merecida, com uma belíssima classificação e uma corrida redonda, limpa, perfeita. Mas o grande destaque do final de semana foi Alonso, mesmo sem fazer grandes malabarismos durante a prova.

O asturiano fez quase um milagre no treino classificatório e conseguiu largar à frente de Jenson Button, que claramente tinha um carro mais rápido. Mas isso é o suficiente para fazer dele o nome do GP de Barcelona? Não, não só isso. Existem vários fatores que fazem um piloto campeão e que não aparecem nas imagens. Um exemplo é o trato com os pneus. Por que Alonso é mais veloz que Massa? Porque consegue manter a borracha numa temperatura ideal. Por que foi o pneu de Hamilton que furou e não o de Alonso? Sorte de campeão, como diria Galvão? Não, não. O estilo de pilotagem agressivo de Lewis consome mais pneus. Não existe sorte ou azar.

Ainda em referência ao espanhol, volto a me perguntar: qual o limite do ufanismo de Galvão? É lógico que o narrador oficial não diz as besteiras que diz por amor à Pátria, mas porque é alimentando o ufanismo nos telespectadores que ele mantém boa parte do público ligado em suas transmissões. Infelizmente parte significativa dos seguidores da F1 é torcedora de brasileiros e não admiradores de automobilismo. Então como fazer para os consumidores continuarem torcendo para Massa mesmo sendo ele constantemente meio segundo mais lento que seu companheiro de equipe? Basta fazer os brasileiros acreditarem que essa diferença existe por um motivo pontual que não será vista na próxima corrida ou que Alonso é o Dick Vigarista enquanto o brasileiro é a indefesa Penélope Charmosa. No entanto, todos os limites do bom senso foram ultrapassados durante a transmissão do treino classificatório. Galvão fez várias insinuações sobre a índole do bicampeão, dizendo que ele era “sem dúvida” antiético e somente por isso está na frente de Massa no campeonato.

Termino lembrando de algo que passa desapercebido por muitos: no ano passado Alonso  colocava sobre Nelsinho Piquet os mesmos seis décimos de vantagem. A superioridade é a mesma deste ano. Mas não vejo ninguém dizendo que Massa é um desastre, como fizeram com Piquet. Ou um não era tão ruim quanto parecia ou o outro não é tão forte quanto acreditávamos. Só uma constatação é indiscutível: o asturiano é muito superior aos dois.

Rapidinhas:

Qual será a próxima reclamação de Rubinho?

Kubica continua fazendo milagres com seu carro. O Polonês tem excelente relacionamento com os italianos em geral, domina a língua e é querido por todos na terra da bota. Ou Massa reage ou…

Schummy está ressurgindo com um carro novo. Belíssima corrida!

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O destruidor de carros

por Thiago Barros Ribeiro

Depois de uma série de corridas recheadas de água e emoção, o GP da Espanha trouxe-nos de volta a um cenário mais próximo da realidade na Fórmula 1. Melhor e mais disputada do que a de anos anteriores – lembremos que a disputa em Barcelona caracteriza-se por ser um convite ao sono matinal e hoje nem foi tanto assim, com o duelo entre Button e Schumacher, os problemas de Vettel e Hamilton -,  mas longe do show que vinha nos deixando mal acostumados.

O fim-de-semana começou com um abismo separando uma equipe, a RedBull, que colocou mais de um segundo sobre todos os rivais no classificatório de sábado. Mas o domingo mostrou que em corrida a superioridade ainda não é nem tão grande nem tão constante como nos treinamentos.

Mostrou mais do que isso. Já não há mais dúvida de que há alguma coisa no jeito de Vettel pilotar que tende a destruir o carro. Talvez seja uma pitada a mais de arrojo, um jeito diferente de pisar no freio, mas o fato é que esse quê ainda indecifrável tirou de Vettel um título bastante provável em 2009 e tem tudo para fazer o mesmo neste ano, com a diferença de que a perspectiva de conquista é agora ainda mais latente. O pior para Vettel, e o melhor para os outros, é que esse problema parece afetar a cabeça do germânico. Reconhecidamente mais talentoso do que Webber, Vettel andou atrás do companheiro na Espanha, quiçá preocupado em corrigir o enigma da pilotagem destruidora. Não corrigiu e viu o parceiro vencer a prova.

Enquanto isso…

Massa passou mais um fim-de-semana tomando em média meio segundo por volta de Fernando Alonso. Está já a 18 pontos do espanhol e prestes a assumir (ou já assumiu?) oficialmente o papel de segundo piloto. Para mim uma grande decepção. Esperava uma disputa acirradíssima entre ambos e não um passeio de um dos lados.

E Rosberg, coitado, começou finalmente a sentir o gosto amargo de ser companheiro de Schumacher. Cansado do baile que vinha tomando desde o começo do ano, o heptacampeão usou de seu poder e fez um carro sob medida para si. O problema é que esse carro foi repassado também a Rosberg, que não tinha nada a ver com isso e estava muito feliz com a Mercedes de antes. Resultado: Schumacher melhorou um pouco, ainda a anos-luz de qualquer brilhantismo, e Rosberg despencou, passando em branco pela primeira vez no ano. Se fosse uma dupla de pilotos normal, seria o caso de a Mercedes, em tendo de optar por uma das especificações, voltar à antiga, posto que a mudança claramente prejudicou o seu piloto mais competitivo, que está na disputa do campeonato. Como Schumacher faz parte da dupla, pobre Rosberg… estava na disputa do campeonato.

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Homens do ramo e homens sem rumo

por Daniel Marchi

Tudo muito normal na Espanha. Como as equipes ainda têm pouca quilometragem em condições de piso seco nessa temporada, elas permanecem em processo de learning by doing. Mas certamente já têm uma carga de informações suficientes para explorar mais os pneus e correr menos riscos. Acredito que na segunda metade do campeonato estarão mais confortáveis nesse quesito.

Temos até aqui um campeonato de construtores bem apertado. E isso me faz tirar uma conclusão, reconheço, arriscada. A Red Bull ainda não merece ser chamada de “equipe grande”. O time ainda não consegue converter a superioridade de seus carros em vitórias (dobradinhas, no caso) tranqüilas. É o preço do noviciado. Não vamos esquecer que é a primeira vez que a equipe está efetivamente disputando títulos, situação bem diferente de McLaren e Ferrari, verdadeiras raposas do deserto. Mas homens competentes e do ramo, como Horner e Newey, sabem o caminho das pedras.

Por fim falemos do trio parada-dura, FIA, FOM e FOTA. Eles, cada um a seu modo, ainda vão conseguir acabar por completo com a F-1. A brilhante decisão de proibir os testes durante a temporada terá em Mônaco o seu ponto alto. Já está se discutindo abertamente a divisão dos treinos, de modo que as equipes novas não causem transtornos em demasia para as mais estruturadas. É uma piada, só pode ser. Deve ser algum brasileiro que, por trás das cortinas, dirige a F-1. É aquela típica medida para fingir que está tudo bem. Nós sabemos bem como é isso…

E não é só. Os pilotos da Virgin foram punidos, perderam algumas posições no grid espanhol. Mas por que a equipe foi punida? Será que ela usou querosene de aviação? Um pacote com suspensão ativa, controle de tração e freios ABS? Não. A equipe não comunicou a tempo as informações sobre as relações de marchas à FIA. Tem babaquice burocrática maior do que essa? Antes de arrasar a categoria, os sábios vão implantar o comunismo na F-1, se é que já não o fizeram.

“Ele é malandro, além de tudo.”

O futebol que os meninos do Santos têm apresentado encanta a todos os que gostam de futebol. Em sendo um deles, fico, pois, encantado. Puxando pela minha memória futebolística, apenas o Palmeiras do primeiro semestre de 1996, com Luxembrugo no comando fora de campo, e Djalminha, Rivaldo e Müller dentro dele, conseguiu o mesmo brilhantismo. O desafio do clube praiano é superar o alviverde na curtíssima duração do tempo áureo.

Gostar do que os moleques fazem em campo não me obriga, contudo, a gostar ou concordar com o comportamento deles fora das quatro linhas. Não vou com a cara e com a índole de nenhum dos três atores principais do time, Robinho, Neymar e Ganso, e fico profundamente incomodado com o fato de até a parte que considero séria na imprensa esportiva dar uma espécie de carta branca a todas as atitudes dos jovens – Robinho nem tão jovem assim – simplesmente pelo fato de jogarem um belo futebol.

Ontem, assistia a Santos e Atlético-MG, pela ESPN Brasil, quando Fabiano, do Atlético, acertou sem querer a mão no peito de Ganso. Incontinenti, o santista levou as mãos ao rosto e caiu como se fora esmurrado, provocando a expulsão do adversário. Paulo Vinícius Coelho, um dos comentaristas que mais admiro, pelo conhecimento e independência com que se apresenta, foi então ao microfone e disse, tom elogioso, “Ele é malandro, além de tudo.”

Decepção em dose dupla. Primeiro, por PVC se deixar levar pela nefasta mania brasileira de achar que ser “malandro” é legal. Fôssemos menos “malandros”, seríamos mais ricos, mais desenvolvidos, mais cultos, menos sofridos. Ele deveria saber disso e jamais poderia falar o que disse. Segundo, pela tal alforria, ou pior, pela graça que se enxerga em tudo o que os malandrinhos do Santos fazem. Se qualquer jogador normal fizesse o que Ganso fez – como Rivaldo fez contra a Turquia, na estreia do Brasil na Copa de 2002, quando foi acertado pela bola no joelho e caiu com as mãos no rosto – seria criticado, senão por toda, ao menos pela porção que merece respeito na imprensa esportiva. Como foi o Ganso, até essa porção acha que é bonito, que é elogiável enganar a arbitragem.

Algo parecido aconteceu domingo passado, quando Ganso simplesmente se recusou a ser substituído contra o Santo André, na final do Paulista. Ao ver a placa com o seu número subir na lateral do campo, falou que não ia sair e ponto final. Dourival Junior, seu treinador, que se resolvesse com seus próprios miolos.

Na minha época, isso se chamaria insubordinação e mereceria críticas, a despeito de a decisão do treinador ser acertada ou não – de fato, não era. Fosse Serginho Chulapa, Edmundo, Adriano a fazerem gesto semelhante, não seria exagerado pensar em crucificação em praça pública. Mas Ganso… bom, Ganso mostrou maturidade, experiência, segurança, qualidades admiráveis para um jovem da sua tenra idade.

Com Neymar e o seu irritante cai-cai não é muito diferente. Sempre o menino está certo e os adversários errados. O fato de o futebol ser um esporte de contato se esquece em nome da vítima.

Robinho tem o próprio passado a seu desfavor. Não conseguiu esquentar lugar – na verdade, esquentou apenas os bancos de reservas mesmo – em qualquer clube da Europa (será porque lá, ao contrário daqui, a malandragem tem o seu devido lugar como um defeito e não uma virtude num ser humano?). Depois de um começo tão glorificado como o de Neymar, apagou-se e teve de voltar para a casa com o rabinho entre as pernas.

Neymar, se não aprender que futebol se joga em pé e não perceber que apenas no Brasil se apitam tantas faltas inexistentes, poderá ter a mesma trajetória do colega mais velho.

Ganso não parece correr o mesmo risco. Mostra-se, sem dúvida, mais esclarecido que os outros dois. Não participa, por exemplo, de atitudes de baixo valor, mau-gosto e provocativas, como as péssimas dancinhas ou o coro contra Vanderlei Luxemburgo, que, nos últimos tempos, perdeu apenas para a ausência total de sanidade que tomou conta de Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras, ao puxar um grito de guerra pela morte de torcedores do São Paulo em plena quadra de uma torcida uniformizada do Palmeiras. Elas realmente precisam desse tipo de incentivo, afinal não têm qualquer tendência natural à violência.

Voltando a Ganso, tem tudo para brilhar forte na Europa. O único risco mais latente, no caso dele, é se tornar um tanto insuportável, nutrindo a sensação de que tudo pode. De que tudo o que faz está certo. Se isso ocorrer, os culpados serão os sábios de nosso futebol, que, de tão embasbacados pela categoria do menino, perderam a capacidade crítica de separar as coisas.