Samp

Tenho várias coisas para escrever. Quero falar da total incompetência estratégica do PSDB nas últimas eleições presidenciais, que beirou a burrice e, parece, está por se repetir em 2010. Quero falar de Lula, a quem considero um gênio, embora esteja longe de ser seu eleitor. Quero falar do absurdo das cotas raciais. Quero falar do fato de a seleção brasileira ter sido flagrantemente beneficiada pela arbitragem em todas as Copas que venceu. E tantas outras coisas quero falar.

E vou falar. Mas não hoje. Não nos próximos dias. Falta-me por estes dias a inspiração necessária. Todo o meu ser está concentrado em gerar forças positivas ao Samp, meu cãozinho, meu filho, que passará por uma grande prova na próxima terça-feira.

Peço desculpas aos poucos leitores que me acompanham. O recesso será breve. E peço, sobretudo, a torcida de todos pelo pequeno.

Anúncios

Ave, Messi!

Minhas primeiras lembranças futebolísticas remontam à Copa de 86. Fragmentos. Além das figurinhas da Elma Chips, com personagens do Snoopy, lembro-me de assistir a Brasil x Argélia no colo de minha tia Rosa, e de ter dormido durante a maior parte do 1 a 0 de Careca. De ver os gols e, principalmente, estranhar a comemoração no mínimo excêntrica dos familiares de Josimar, lateral canarinho. De Butragueño fazendo um gol atrás do outro na goleada espanhola, 5 a 1, sobre a até então “Dinamáquina”. De ter chorado muito e tentado rasgar a toalha do Brasil que ganhara de minha mãe, depois da derrota nos pênaltis para os franceses. De ter torcido para a Inglaterra e depois para a Alemanha contra a futura campeã Argentina.

Tinha 5 anos. A tenra idade da época me impediu de acompanhar o auge daquele que, para muitos, foi o maior jogador dos últimos 30 anos e que, para os argentinos, foi o maior de todos. Maradona foi se tornar mais real para mim já em fins da década de 80, no Napoli, e na Copa de 90, quando, decadente, fez um Mundial medíocre, salvou gol com a mão diante da União Soviética, perdeu pênalti contra a Iugoslávia e, de bom mesmo, teve apenas a jogada para o gol de Caniggia, ante o Brasil. Não vi, portanto, nada naquele tampinha que justificasse tamanha fama.

Claro que, posteriormente, vi e revi quantas vezes possam imaginar as belas imagens de Maradona e de tantos outros – Puskas, Garrincha, Pelé, Beckenbauer, Cruyff, Zico, Platini, Van Basten e por aí vai. Mas não consigo me sustentar apenas em seleções dos melhores momentos de um jogador, seja ele qual for, para considerá-lo o más grande, como diriam os hermanos. Reservo-me, pois, à brevidade dos últimos vinte anos para pontificar o meu melhor de todos.

A eficaz elegância de Zidane, à moda antiga? Os lampejos geniais de Romário dentro da área? As peripécias quase circenses de Ronaldinho? A explosão de técnica e força de Ronaldo, o highlander do futebol? Sempre tive dificuldades com eleições desse tipo e a tendência a escapar com alguma frase tancrediana, do tipo “o melhor tem a classe de Zidane, a habilidade de Ronaldinho, a força de Ronaldo, os lampejos de Romário e a técnica de todos eles”.

Mas essas saídas pela tangente têm se tornado a mim menos necessárias a cada atuação de um argentino, 22 anos, Lionel Messi. Não tem o estilo clássico de Zidane, é verdade, mas alia a habilidade de Ronaldinho, a força de Ronaldo e os lampejos de Romário de uma forma encantadora, entusiasmante, inebriante. Com menos de 1,70m e de 70kg, quando sai em disparada com seus dribles, dificilmente é derrubado por um adversário. Parece levitar a cada carrinho hostil que o tenta jogar por grama. Em poucos centímetros, consegue encarrilhar uma série de cortes desmoralizantes na lista de pobres jogadores errantes que se metem com ele. Cara a cara com os indefesos goleiros, tem uma calma para escolher a melhor alternativa – e como tem alternativas o garoto! – digna dos maiores avantes da história e de fazer corar alguns “artilheiros”.

Um anjo para os seus, um demônio para os outros.

É de um repertório quase completo. Para um menino de 22 anos, mais do que completo. Hoje, após mais um espetáculo a se aplaudir de pé, em que, pelo Barcelona, na Liga dos Campeões, estufou as redes do meu querido Arsenal quatro vezes – do Arsenal, não do Naviraiense ou do Ituano – não me deixou outra opção a não ser exclamar: é o maior do meu tempo, sem sombra de dúvida!

Para completar o belíssimo quadro que vem pintando, resta apenas levar praticamente sozinho o seu país a uma conquista de Copa do Mundo, como fez Maradona, como fez Garrincha, como não fez Pelé. Que me desculpem os compatriotas, sobretudo os pachecos que tanto gosto de criticar, mas torcerei com toda a força para que isso ocorra na África do Sul, entre junho e julho próximos. Vai Argentina! Ele merece.

Fórmula (3 em) 1

O seca-pimenteira

Por Thiago Barros Ribeiro

Desta vez sem chuva, os madrugueiros puderam assistir a mais um belo espetáculo de Fórmula 1. Não com tantas alternâncias e reviravoltas como as possibilitadas pela pista e pela umidade australiana, mas muito superior ao marasmo que costuma caracterizar a Malásia – até quando choveu, no ano passado, a corrida não se salvou, tendo sido interrompida antes do final. Já não há mais dúvida de que, depois de muitos anos de tiros pela culatra, as mudanças regulamentares para 2010 melhoraram a categoria.

Vettel terminou a terceira etapa do ano como poderia ter concluído as outras duas, em primeiro. Não fossem as falhas mecânicas, o alemão contabilizaria 75 pontos e o tão glorificado equilíbrio de agora seria obra de ficção. O subjuntivo passado peca por não existir, é fato, mas a hipótese não verificada é importante para lembrar que, num campeonato em que a vitória vale 25 pontos e o segundo lugar 18, qualquer série de três vitórias pode jogar o pretenso equilíbrio por água abaixo. E que, mirando apenas o desempenho dos carros na pista, essa série já poderia ter existido neste ano. Não existiu, o que foi ótimo para o campeonato. Mas não sejamos afoitos.

Afoito como pareço ter sido eu, ao apontar Alonso como provável campeão depois da primeira corrida. Na verdade, uma precipitação calculada, para fugir do lugar comum. Mas, depois de feita a profecia, o espanhol colecionou azares nas duas etapas seguintes, abalroado por Button na largada australiana e com problemas no câmbio em praticamente toda a corrida de hoje.

Não posso, diante disso, esconder o meu lado seca-pimenteira quando o negócio é advinhar o campeão mundial de Fórmula 1. Vejam o “invejável” retrospecto: 2007 – aposta: Alonso, campeão: Raikkonen; 2008 – aposta: Raikkonen, campeão: Hamilton; 2009 – aposta: Vettel, campeão: Button. O pobre Alonso, percebe-se, terá de correr contra os adversários e contra a minha santa boca.

Massa, que não tem nada a ver com isso, teve sua melhor atuação justamente na corrida em que chegou mais atrás. Largou outra vez muito bem, beneficiou-se com as paradas das Toro Rosso, já que não conseguia ultrapassá-las e ia perdendo um belo tempo por ali e, depois da troca de pneus, andou bem, protagonizando a melhor monobra da corrida, na ultrapassagem sobre Button. Sai com a liderança no bolso e, embora para mim ainda não tenha pinta de campeão – o que pode ser bom para ele, como se viu -, vai se saindo bem por ser, entre os reais postulantes ao título, o até agora menos afetado pela falta de sorte, sua companheira fiel em 2008 e 2009.

***

Massa à la Globo

Por Marcelo Cerri

Terminada a terceira etapa do campeonato e a luta pelo título continua uma grande incógnita. Temos oito pilotos separados por apenas nove pontos, o que é uma diferença mínima se considerarmos que uma vitória vale 25 pontos. Em termos proporcionais, seria mais ou menos como se tivéssemos os mesmos oito pilotos separados por quatro pontos, considerando a pontuação dos últimos anos.

Começo com essa ponderação para falar da liderança de Massa na classificação de pilotos. O ufanismo reinante nestas terras certamente já está provocando fervuras no sangue tupiniquim. Mas ao analisarmos friamente a situação do brasileiro, recebemos uma ducha de água fria: as chances de Massa ser campeão não são lá tão grandes. Não é pessimismo. Simplesmente temos que reconhecer que Alonso é sistematicamente mais rápido, mais de meio segundo por volta. Foram os problemas no câmbio e no motor que o levaram a perder a liderança para Felipe, que também deverá passar por adversidades do mesmo gênero, ainda mais se considerarmos que a italianada da Ferrari não consegue passar duas corridas sem fazer uma besteira monumental (a estratégia suicida dos treinos classificatórios do último sábado é um bom exemplo). Além da superioridade do companheiro de equipe, há a RedBull com um carro evidentemente mais veloz. Isso nos faz lembrar que Vettel somaria 75 pontos no momento e lideraria o campeonato em modo schumacheriano caso não tivesse quebrado nas duas primeiras corridas. Também temos a McLaren, a Mercedes e, correndo por fora, a Renault do excelente Kubica, que estão na briga.

Quem assistiu à classificação deve ter notado um comentário bastante constrangedor de Galvão Bueno. Após mostrarem como funciona o novo volante da Ferrari, o qual, aliás, me pareceu beneficiar o Espanhol, nosso justíssimo narrador de corridas deu uma bronca ao vivo em quem montou aquelas imagens, pois esqueceram retirar delas o patrocínio. Isso é um absurdo comercial! Raciocinemos um pouco: uma empresa paga milhões para ter sua marca estampada em um carro com a intenção apresentá-la aos potenciais clientes nas oportunidades em que tal parte de tal carro aparecer nos meios de comunicação. A emissora de TV consegue audiência mostrando tais imagens ao público. É uma troca justa. Mas a Globo se coloca no direito de escolher quais marcas vai promover, quais não. Por exemplo, a Renault pode ser chamada de Renault, mas a RedBull é RBR, pois a emissora não pretende fazer propaganda de graça das bebidas energéticas. Mas será que é mesmo de graça? Ontem a Globo arrecadou milhões do Banco Santander para transmitir a vitória das RedBull, mas a mesma emissora não divulga as marcas que constroem o show que ela mesmo vende!

***

Raça

Por Daniel Marchi

Vettel fez ótima largada e venceu. Enfim a Red Bull conseguiu converter volume de jogo em gol. Não tenho muito a acrescentar a este bom GP da Malásia, que aconteceu sem a ocorrência de chuva bíblica como se previa ou como ocorrera em 2009. O tempo por lá é demasiado rebelde. Penso que as críticas feitas a Ferrari e McLaren sobre uma suposta falha de timing no treino de classificação foram um pouco exageradas. Num nível de competição intenso como a F-1, principalmente nas grandes equipes, o processo de tomada de decisão não se resume a uma ordem de um diretor sabichão. De qualquer modo, os quatro carros acabaram por fazer boa prova.

Na verdade, hoje eu gostaria de palpitar sobre uma característica de pilotagem que me chama muito a atenção nos pilotos e que, na minha opinião, separa os grandes dos esforçados. Falo da celeridade – cacoete de bu(r)rocrata –  nas ultrapassagens. Essa habilidade se mostra com todas as cores em provas como Austrália e Malásia, quando grandes pilotos/carros se vêem no fim do pelotão.

Rapidamente me vêm à mente os dois ETs, Senna e Michael Schumacher. Ambos tinham, como direi?, uma raça impressionante. Conseguiam colher dois ou três carros por volta; em dez ou doze giros saiam do fundo para a antiga zona de pontos. No caso de Senna, os casos emblemáticos foram Suzuka-88 e Donington-93, esta última considerada a melhor primeira volta de todos os tempos. Schumacher, o homem que entendeu como ninguém a dinâmica de uma corrida, especialmente com reabastecimento, não foi pior. De bate-pronto, lembro-me que ele fazia uma recuperação fantástica no dilúvio de Spa-98 até encher a traseira de Coulthard. Registro também sua última prova pela Scuderia, Brasil-06. E é isso que mais tenho sentido falta em seu retorno.

Adiantando o tape, temos a turma de hoje. Vejo Hamilton como o melhor de todos nesse quesito. Na grande maioria das vezes, toma as decisões corretas e parte pra cima; não se enrola com quase ninguém. Na seqüência, vem Alonso, sempre muito seguro e sem frescuras. Por outro lado, um dos piores que já vi nesse assunto é Rubens. Sua tocada é boa, cometeu pouquíssimos erros de pilotagem ao longo de sua grande carreira, mas sempre vacilou muito na hora do pega-pra-capar. Estuda demais, entendem? Eu sei que não é fácil como no PlayStation, mas no final das contas isso determina se o camarada vai beber champagne ou gatorade. Curiosamente, sua primeira vitória foi partindo de 18° e engolindo todo mundo. Mosca branca. Outro que costuma se complicar é Massa. Quando parte da frente é uma fera. Mas se é preciso remar um pouco…

Esse rodeio todo para concluir o seguinte. Num campeonato com vários carros em alto nível, como parece ser a perspectiva para o de 2010, a capacidade de fazer bons resultados em situações difíceis fará a diferença. É por essas e outras que Massa como líder do campeonato tende a ser um fato efêmero, como efêmeros foram os ovos de Páscoa hoje. Torço para queimar a língua.

Vai, Armando!

Homenagem ao já saudoso jornalista Armando Nogueira, que nos deixou na última segunda-feira, 29 de março, aos 83 anos.


Vai, Armando!

Vai colocar Xapuri no mapa do Brasil.

Vai fazer da crônica esportiva o recanto de sua poesia.

Vai ter seu caso de amor eterno com o esporte.

Vai, e não liga se a bola não lhe corresponder. Os mais intensos amores são os platônicos.

Vai, Armando!

Vai dar a honra ao Botafogo. Tem coisas que só acontecem mesmo com ele.

Vai e faz do lenço de Garrincha um latifúndio para a sua escrita.

Das cestas de Paula, a redoma para sua generosidade.

Das cruzadas de Guga, as flechas de seu lirismo deliciosamente exagerado.

Vai, Armando!

Vai voar para além do esporte. Vai colocar o jornalismo na TV.

Vai, e deixe os parvos com suas leviandades. Eu os perdoo.

Vai, mas não se demore que sinto sua falta.

E, dia desses, sou capaz de chamar-lhe de volta…

Vem, Armando!

Ass.: Deus