Lula e a estrela

Aproveitando a onda eleitoral que começa a se formar – e antes que ela se acalme durante a Copa do Mundo -, inicio hoje uma série de postagens, digamos, político-eleitorais.

A primeira delas é sobre Lula, o cara. Aqueles que acompanham o blog já perceberam que não concordo com o estilo de governo dirigista e assistencialista de Lula. Com a tendência a sempre pegar o meu dinheiro emprestado (?) para, sem o meu aval, aplicar em investimentos (?) de “interesse nacional” (o governo Lula adora esse termo), como a famigerada ajuda ao Haiti, quando o Haiti é aqui.

Também não acho que Lula fez internamente nada de essencialmente diferente ao que fizera Fernando Henrique. As diferenças mais marcantes entre ambos ficaram para os ganhos reais de salário que Lula possibilitou aos menos (salário mínimo) e aos mais (funcionalismo público) favorecidos. Externamente sim, houve uma guinada no início positiva, posto que o Brasil passou a agir em vez de apenas sucumbir, como nos tempos de FHC. Mas nos últimos meses, o sucesso dessa estratégia parece ter subido à cabeça de Lula, que, como disse Ciro Gomes, “subiu um pouco no salto” e encarrilhou algumas besteiras mundo afora.

Mas, se o governo não tem nada demais, por que Lula, além de sair ileso de variados episódios de corrupção que varreram todos os companheiros à sua volta, ainda navega há anos na maior popularidade já atingida por um presidente? A resposta é simples: Lula é genial e ainda tem uma estrela que poucas vezes se viu.

A genialidade. Lula sabe como ninguém falar a língua do povo. Até aí, nada demais, afinal, ele é do povo e não tem estudo, dirão alguns. A esses, lembro que milhões compartilham essa condição e nem por isso se expressam com a maestria de Lula. Mas isso não vem ao caso. O ponto é outro. A genialidade de Lula não está no falar com o povo, que, de fato, não é das coisas mais difíceis para ele. Está no falar com o não-povo, com o empresariado, com os banqueiros, com os mais diversos interlocutores estrangeiros, mesmo sem pronunciar uma palavra em inglês. E ser, via de regra, aplaudido com entusiasmo por onde quer que passe.

Nunca houve um governante brasileiro tão internacionalmente elogiado, a ponto de ter seu nome aventado para o Nobel da Paz e tornar até palatável uma posição em órgãos multilaterais do calibre de ONU e Banco Mundial. FHC, o intelectual da Sorbonne, não passou nem perto e, tenham certeza, morde-se diariamente de inveja por isso.

O carisma natural ajuda, é claro. Mas vejam imagens do sombrio Lula-89 e respondam se não é gênio alguém que consegue se transformar no Lula-Século XXI, forte candidato a estadista do século. Puro trabalho de marketing, virão os críticos. Só poderei lamentar a superficialidade do argumento.

O outro ingrediente é a estrela. A de Lula brilha forte. Graças a ela, não foi eleito em 89, em 94 e em 98, quando, em escala descrescente, faria descalabros capazes de colocá-lo no porão da História. Graças a ela, Mário Covas, natural sucessor de Fernando Henrique, deixou-nos antes que pudesse assumir e facilitou a tarefa contra um Serra sempre com cara de anemia, o próprio carisma às avessas. Graças a ela, atravessou oito anos de mandato sem grandes crises nos países emergentes, o que fez transparecer uma mudança nos rumos da economia que nunca houve.

Graças a ela, sairá nos braços do povo e nos dele também poderá retornar, se assim desejar, daqui a quatro anos.

Porque gênio sem estrela não é nada. E de nada adianta ter estrela para os medíocres.

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