Fórmula (3 em) 1

Dia negro para os irmãos Schumacher e Massa

Por Marcelo Cerri

Mais uma belíssima corrida impulsionada pela chuva e sobretudo pelo grande talento da nova geração. Corrida quase perfeita de Button. Destaque para as inúmeras ultrapassagens realizadas pelo sempre agressivo Hamilton e para aquelas sofridas pelo constrangedor Schumacher. Não acredito que o maior vencedor de todos os tempos tenha já passado por uma situação tão difícil em toda sua carreira. É claro que ele não precisa provar mais nada a ninguém, está lá para se divertir. Mas, pelo que conhecemos do alemão, diversão e vitórias para ele são duas coisas indissociáveis, o que coloca em dúvida sua permanência na categoria por mais de um ano. Aposto que haverá uma troca entre Schummy e Raikkonen na próxima temporada, já que o Iceman não vem fazendo nada de muito produtivo no mundial de rally.

Como a maioria dos brasileiros que viram o GP, não gostei nada de ver a ultrapassagem de Alonso sobre Massa que, no primeiro momento, me pareceu desleal e excessivamente agressiva, considerando que são companheiros de equipe, mesmo que tenha ocorrido dentro da regularidade. No entanto, analisando friamente, vemos que a Ferrari se beneficiou muito com aquela manobra. O fato é que o espanhol é mais rápido que o “nosso” Felipe. Além de ter sido superior ao brasileiro em todo o final de semana, Alonso é nitidamente mais eficiente nas ultrapassagens. Caso Massa tivesse entrado primeiro nos boxes, sua inferioridade em efetuar ultrapassagens faria com que a Ferrari perdesse pontos importantíssimos. Alonso fez o que tinha que ter feito e Massa não tem nada o que reclamar. Apesar de muitos de nós termos colocado em Felipe nossas esperanças de ver um brasileiro campeão novamente, temos que ser realistas e reconhecer a superioridade de seu companheiro de equipe. Muitos, no entanto, podem replicar explicando que o problema do brasileiro é pontual: seu modo de pilotagem não permite que os pneus se aqueçam do modo adequado. Ok. Concordo. Mas isso só confirma que Alonso é mais completo e, portanto, superior. A consequência dessa constatação deverá ser, em breve, um claro e justo favorecimento da equipe a Fernando Alonso. Qualquer outra atitude da Scuderia seria um tiro no pé.

Mais uma excelente atuação de Kubica, ainda que discreta. Parece que a Renault não está para brincadeira, mesmo com toda sua indefinição quanto ao futuro. Já a decepção do dia vai para as Red Bull, que pareciam mais uma vez imbatíveis e acabaram fazendo provas medíocres.

***

O melhor e o pior

Por Thiago Barros Ribeiro

Durante a fraca chuva que dominou o GP da China, o desempenho de alguns pilotos me obrigou a concentrar a coluna de hoje em duas questões: quem foi o melhor e o pior da pista. Para a primeira disputa, classificaram-se Jenson Button e Lewis Hamilton. Para a segunda, bem menos honrosa, Felipe Massa e Michael Schumacher.

Já foi dito mais de uma vez aqui que Hamilton é mais espetacular do que Button, o que não significa ser melhor piloto. Hoje, o queridinho da Inglaterra protagonizou as imagens durante a transmissão. Ficar para trás após a decisão de trocar os pneus por conta de uma chuva que não se confirmou, logo no início, permitiu a Hamilton fazer mais uma de suas já conhecidas corridas de recuperação, ultrapassando com arrojo e habilidade. Deu gosto de ver.

Enquanto isso, Button também fez o que vamos nos acostumando a ver dele. Professoral na estratégia de se manter na pista, apostando que esta não molharia o suficiente com o chuvisco do começo, foi sóbrio e eficaz. Não apareceu para as câmeras, mas ganhou sem reais ameaças dos adversários. Chegou a 60 pontos na merecidíssima dianteira do campeonato e, não fosse a discutível entrada do carro de segurança no meio da prova, teria aberto mais do que os 11 pontos que ostenta de frente sobre Hamilton, que, sem o reagrupamento dos carros, não passaria de um quarto lugar.

Button foi o melhor.

No extremo oposto, Massa, para variar um pouco, foi péssimo sob chuva. Mesmo com a punição a Alonso, por queimar a largada, não conseguiu em momento algum abrir boa vantagem sobre o espanhol. E, quando ultrapassado, viu o companheiro sumir à frente. Aliás, o único elogio a Massa fica para sua declaração logo após a corrida, quando reconheceu ter errado na última curva antes da entrada para os boxes, permitindo a Alonso se emparelhar e realizar a polêmica ultrapassagem. De fato, ao analisarmos as imagens, percebemos que ambos já vêm dividindo a reta antes da entrada dos boxes – Massa com meio carro à frente, Alonso por dentro. Se ficassem na pista, muito provavelmente o espanhol ganharia a posição. Por isso, não vejo nada de errado em sua atitude, em acordo com o regulamento e que ainda teve o mérito de ir contra a chatice politicamente correta que domina hoje a Fórmula 1.

Pior que Massa, só mesmo Michael Schumacher, que parece ter uma espécie de compulsão pelo protagonismo. Se não consegue ser o melhor, como antes, tem de ser então o pior, papel que vem monopolizando em 2010. Coadjuvante, nem pensar. Hoje, lembrou muito Morgan Freeman, como o calmo chofer de Jessica Tandy em Conduzindo Miss Daisy. Com sua Mercedes que mais parecia uma banheira prateada, conseguiu desperdiçar por completo as duas sacadas estratégicas em que Ross Brawn lhe deu a chance de galgar posições. Viu ainda Nico Rosberg chegar a 50 pontos, contra seus parcos 10, maior diferença entre todos os companheiros de equipe.

Para os adoradores do alemão, deve ser das piores sensações. Para mim, que nunca vi nele todo o brilhantismo que sempre pintaram, está, confesso, bastante divertido.

***

Dois mil e trinta

Por Daniel Marchi

E aí Thiago, tudo bem? Tudo tranqüilo com a família? E o Júnior, foi bem no vestibular? Cara… estava aqui vendo algumas imagens do GP da China de 2010. Que corrida! Lembro-me que o GP da Austrália daquele ano, não sei ao certo se foi o GP anterior, também fora sensacional, mas acho que o chinês foi melhor. Foi um chove-e-pára muito parecido com Donington-93.

Button foi soberbo naquele dia. O cara tinha a calma de um enxadrista e a coragem de um operador de bolsa de valores. Será que hoje as pessoas dão o devido valor a ele? Eu não botava muita fé nele não. Recordo que ninguém entendeu ao certo por que ele trocara uma posição confortável na Brawn/Mercedes para dividir equipe com o multi-campeão Hamilton.

Hamilton… putz, esse foi outro que deu show – mais um – naquela corrida. Lembra que o Lewis tinha um capacete parecido com o de Senna? Pois é… eu acho que não era só o capacete que era parecido não. Como era agressivo aquele sujeito.

Nossa! Já tinha esquecido que foi naquele dia que azedou de vez a relação Alonso-Massa. O que o espanhol tinha de talentoso tinha também de encrenqueiro. Mas tenha dó, né? Precisava fazer aquilo na entrada dos boxes com o próprio companheiro de equipe? Fico imaginando se fosse o contrário. Os dois teriam saído no braço ali mesmo.

Outra coisa. O que foi aquela exibição do Alemão? Será que era ele mesmo dentro do carro? Tomou ultrapassagem de todo mundo, de uns caras que não viraram nada depois. Incrível. Não foi à toa que o filho do Keke deu um baile nele em 2010.

Esse GP está no meu hall da fama até hoje. E esse ano, o que você acha que vai acontecer?

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

10 Responses to Fórmula (3 em) 1

  1. Thiago says:

    Belo texto, Daniel! Já agora completamente careca, na casa dos cinquentinha, sinto-me na obrigação de responder aos seus questionamentos.
    Sim, não era apenas o capacete que assemelhava Senna e Hamilton. Também o jeitão de pilotar era parecido. Pena que o inglês passou a carreira inteira sob a sombra de amarelar em momentos decisivos.
    Sim, Alonso precisava fazer aquilo, ainda que com o companheiro de equipe e na entrada dos boxes. Senna faria com Prost, e vice-versa, Piquet faria com Mansell, e vice-versa. E como tenho saudades daqueles tempos! Por essas e outras coloco o espanhol na galeria dos melhores de todos os tempos.
    Sim, era o alemão dentro do carro. Começava ali a descer da condição de mito inquestionável. Inteligente que é, voltou à aposentadoria assim que a temporada terminou e conseguiu que a derrocada não fosse ainda mais marcante.
    Para este ano, tomara que consigamos finalmente sair da fila. Lá se vão quase 40 anos…

  2. Renato de Melo Filho says:

    Alonso não foi desleal. De fato, Massa estava travando seu ritmo e aquela foi uma das alternativas que ele tinha para se garantir na corrida. Faltou a Massa, ao meu ver, ser tão grande quanto Alonso e se defender, mesmo que ao custo da corrida, travando ambos os carros. E certamente teria boa parte da imprensa especializada ao seu favor, já que no local só cabe um veículo e não foi destilado a ultrapassagens. Esses fatores não tornam a atitude de Alonso menos leal. Faltou a Massa, à vista das mesmas circunstâncias críticas, defender-se. É difícil prever quais seriam as condutas de outros gênios em situação semelhante. Acredito que Senna faria isso contra Prost, mas dificilmente o faria contra Berger. Se Alonso tinha pretensões de ter seu Berger, perdeu uma grande oportunidade. Espero que Massa não deixe barato.

    • Thiago says:

      Muito bom comentário, caro Renato. Embora saiba que o meu comparsa Daniel não concorda, também não enxerguei deslealdade de Alonso e acho que quem errou foi Massa ao não fechar a porta e, se Alonso não recolhesse, bater e ver o circo pegar fogo. Acredito que seria um golpe de mestre, pois neste caso quem posaria de vilão seria Alonso. Ao contrário disso, porém, e utilizando sua nomenclatura, o brasileiro preferiu se comportar como Berger, como segundo piloto, coisa que (ainda) não é. Deu um grande passo para se tornar.

  3. Paolo says:

    Irmaos Schumacher e Massa?
    nao entendi essa denominacao para ambos…

  4. Daniel Marchi says:

    Algo que esqueci de mencionar no texto. No 1o. treino da sexta as duas rodas dianteiras da Toro Rosso de Buemi simplesmente se desconectaram do carro na reta oposta de Xangai. Essa política da FIA/FOTA de proibir testes ao longo da temporada ainda vai provocar uma m____ muito grande. Não esqueçamos que o acidente de Massa ano passado foi provocado por uma mola que se soltou de um outro carro.

  5. Marcelo says:

    Foi uma das cenas mais impressionantes do ano. Lembremos que a asa dianteira da Sauber de Kobayashi se desintegrou há poucas semanas. Realmente a coisa está ficando perigosa…

  6. Marcelo says:

    Revi várias vezes a cena da largada. Alonso não queimou ou eu sou cego? Confiram com seus próprios olhos:

  7. Renato de Melo Filho says:

    Pra que ninguém tenha mais dúvidas sobre se queimou ou não:

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