Ave, Messi!

Minhas primeiras lembranças futebolísticas remontam à Copa de 86. Fragmentos. Além das figurinhas da Elma Chips, com personagens do Snoopy, lembro-me de assistir a Brasil x Argélia no colo de minha tia Rosa, e de ter dormido durante a maior parte do 1 a 0 de Careca. De ver os gols e, principalmente, estranhar a comemoração no mínimo excêntrica dos familiares de Josimar, lateral canarinho. De Butragueño fazendo um gol atrás do outro na goleada espanhola, 5 a 1, sobre a até então “Dinamáquina”. De ter chorado muito e tentado rasgar a toalha do Brasil que ganhara de minha mãe, depois da derrota nos pênaltis para os franceses. De ter torcido para a Inglaterra e depois para a Alemanha contra a futura campeã Argentina.

Tinha 5 anos. A tenra idade da época me impediu de acompanhar o auge daquele que, para muitos, foi o maior jogador dos últimos 30 anos e que, para os argentinos, foi o maior de todos. Maradona foi se tornar mais real para mim já em fins da década de 80, no Napoli, e na Copa de 90, quando, decadente, fez um Mundial medíocre, salvou gol com a mão diante da União Soviética, perdeu pênalti contra a Iugoslávia e, de bom mesmo, teve apenas a jogada para o gol de Caniggia, ante o Brasil. Não vi, portanto, nada naquele tampinha que justificasse tamanha fama.

Claro que, posteriormente, vi e revi quantas vezes possam imaginar as belas imagens de Maradona e de tantos outros – Puskas, Garrincha, Pelé, Beckenbauer, Cruyff, Zico, Platini, Van Basten e por aí vai. Mas não consigo me sustentar apenas em seleções dos melhores momentos de um jogador, seja ele qual for, para considerá-lo o más grande, como diriam os hermanos. Reservo-me, pois, à brevidade dos últimos vinte anos para pontificar o meu melhor de todos.

A eficaz elegância de Zidane, à moda antiga? Os lampejos geniais de Romário dentro da área? As peripécias quase circenses de Ronaldinho? A explosão de técnica e força de Ronaldo, o highlander do futebol? Sempre tive dificuldades com eleições desse tipo e a tendência a escapar com alguma frase tancrediana, do tipo “o melhor tem a classe de Zidane, a habilidade de Ronaldinho, a força de Ronaldo, os lampejos de Romário e a técnica de todos eles”.

Mas essas saídas pela tangente têm se tornado a mim menos necessárias a cada atuação de um argentino, 22 anos, Lionel Messi. Não tem o estilo clássico de Zidane, é verdade, mas alia a habilidade de Ronaldinho, a força de Ronaldo e os lampejos de Romário de uma forma encantadora, entusiasmante, inebriante. Com menos de 1,70m e de 70kg, quando sai em disparada com seus dribles, dificilmente é derrubado por um adversário. Parece levitar a cada carrinho hostil que o tenta jogar por grama. Em poucos centímetros, consegue encarrilhar uma série de cortes desmoralizantes na lista de pobres jogadores errantes que se metem com ele. Cara a cara com os indefesos goleiros, tem uma calma para escolher a melhor alternativa – e como tem alternativas o garoto! – digna dos maiores avantes da história e de fazer corar alguns “artilheiros”.

Um anjo para os seus, um demônio para os outros.

É de um repertório quase completo. Para um menino de 22 anos, mais do que completo. Hoje, após mais um espetáculo a se aplaudir de pé, em que, pelo Barcelona, na Liga dos Campeões, estufou as redes do meu querido Arsenal quatro vezes – do Arsenal, não do Naviraiense ou do Ituano – não me deixou outra opção a não ser exclamar: é o maior do meu tempo, sem sombra de dúvida!

Para completar o belíssimo quadro que vem pintando, resta apenas levar praticamente sozinho o seu país a uma conquista de Copa do Mundo, como fez Maradona, como fez Garrincha, como não fez Pelé. Que me desculpem os compatriotas, sobretudo os pachecos que tanto gosto de criticar, mas torcerei com toda a força para que isso ocorra na África do Sul, entre junho e julho próximos. Vai Argentina! Ele merece.

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