A hipocrisia no mercado de trabalho

Sentei cá à frente da tela já com um tema em mente. Por coincidência, quando me preparava para começar a escrever, o Jornal da Globo noticiou uma decisão judicial que obriga as Forças Aéreas a aceitarem candidatos com menos de 1,60m, modificando uma regra até então vigente.

Perfeitamente a calhar, pois o tema de hoje é o reinado da hipocrisia no mercado de trabalho, mais um dos golpes à liberdade das pessoas, das instituições.

Semana sim, outra também, o noticiário, sobretudo televisivo, vem a público bradar contra o preconceito no mercado de trabalho, denunciando casos infames em que baixinhos, gordinhas, homossexuais e quetais são preteridos por serem baixinhos, gordinhas, homossexuais. De um lado, sempre um empresário preconceituoso e, de outro, uma pobre alma indefesa, que normalmente dá a entrevista sentada em frente a uma mesa cheia de papéis – confesso que nunca entendi esse caricato quadrinho criado pelos repórteres, seria para imitar o ambiente de uma entrevista?

Um absurdo preconceitos como esse, não? Não, claro que não. O absurdo existe, mas está do outro lado. Quer dizer que, se eu tenho a minha padaria, o meu escritório, o meu consultório, não posso colocar para trabalhar nele quem eu bem entender? Tenho que seguir regras criadas pela demagogia politicamente correta mesmo que com elas eu não concorde?

Em qualquer processo de seleção, uma pessoa será escolhida e as outras limadas por características intrínsecas a elas. E essas características se misturam todas na personalidade de uma pessoa. Não há como separá-las em frascos, como se fossem lixo reciclável e não reciclável. Eu, na figura de comandante do barco, posso me sentir mais à vontade, mais produtivo, com determinados tipos de pessoas, seja por experiências profissionais passadas, por determinadas qualidades que procuro ou, por que não?, por aspectos que, sabe-se lá por qual motivo, quero evitar.

Digamos que eu não vá com a cara de gordinhas. Que as ache descuidadas, preguiçosas ou qualquer outra coisa. Ora bolas, não posso então excluir uma mulher do processo de seleção justamente por, em sendo ela gordinha, passar a mim a impressão de que não será tão produtiva quanto eu desejo, que passará muito tempo comendo biscoitos e tomando café ao longo do expediente? Estando certo, estando errado, não posso fazer isso em minha própria empresa?

E a resposta é: sim, pode. Mas tem de ser hipócrita. Você pode dar um chute nos fundilhos da gordinha por ser gordinha, mas tem de dizer a ela que foi porque o seu perfil profissional não se encaixa com a missão e os valores da empresa. Se falar a verdade, as chances de aparecer em rede nacional como carrasco são enormes.

Tudo isso porque está na moda ser contra o preconceito. É cult. Paremos apenas um instante para pensar sobre. O que é preconceito? É o conceito formulado antes do presente momento, antes da hora em que acontecem os fatos ou, de outra forma, o conceito formado antes do conhecimento real das coisas/pessoas.

Diante disso, o que é a vida senão um emaranhado de ações preconceituosas continuamente colocadas em prática? Mas não, em alguns casos não pode. Ou melhor, pode sim, afinal, por definição é impossível não ser preconceituoso. Só não pode mostrar que está sendo o que se está sendo.

E, assim, mais um ponto para esta que talvez seja o maior mal dos tempos modernos: a hipocrisia.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

5 Responses to A hipocrisia no mercado de trabalho

  1. Caro Thiago,

    Sou do tipo que adora uma boa provocação ao senso comum e às frases feitas – esse superficialismo sem autoria e sem reflexão verdadeira – e, ao menos nisso, respeito o seu texto, que toca num ponto pra lá de sensível da sociedade contemporânea. Aliás, em um não: em dois. E acho que é justamente aí que se localiza alguma, por assim dizer, “fragilidade” no seu discurso. E esses dois pontos são, a saber, a hipocrisia e preconceito.

    Concordo plenamente que muitas de nossas atitudes cotidianas (e tomo aqui a liberdade de incluir nesse montante as suas) tem uma certa dose de hipocrisia que vai desde o “bom dia” a quem não desejamos de fato um bom dia até os silêncios que vez ou outra produzimos em situações nas quais não queremos nos indispor com alguém, como um patrão, uma esposa, um amigo, um filho. É evidente que tomo aqui um conceito de “hipocrisia” bastante abrangente, mas é óbvio que o uso desse recurso não é exclusividade meu, uma vez que você fez o mesmo com o segundo ponto no qual tocou: o preconceito.

    É óbivo que nossas experiências, aliadas às nossas projeções mentais, geram uma série de modelos de certo e errado, de desejo e de asco, de belo e feio etc. É igualmente óbvio que, sob influência desses modelos (politicamente corretos ou não), antecipamos possibilidades e decidimos como agir (conscientemente ou não). Contudo, por vivermos em sociedade – e partindo do pressuposto de que ninguém tem um valor intrínsseco maior que o de ninguém (pressuposto esse o qual não sei se compartilhamos) -, esses não são os únicos fatores que devem nos guiar em nossas escolhas. Cabe também uma boa dose de bom senso, de amor ao próximo (que de forma alguma exclui o amor próprio) e de respeito pelas diferenças sim!

    Ter modelos e valores não dá a ninguém o direito de fazer do outro menos que si, sobretudo em um setor tão importante para a sobrevivência em nosso sistema de produção, que o o setor do trabalho.

    Ninguém pode sofrer preconceito por pele, peso, opção sexual ou qualquer outra coisa que não interfira diretamente nas atribuições da função para a qual busca ser contratada. E, só para esclarecer, acho ótimo que pessoas que usam deste tipo de preconceitos sejam alvos de processos, delações, exposições públicas e tudo o mais. E se eles, para fugir disso, não podem expor suas reais ideias preconceituosas e tenham que ser “hipócritas” (no seu conceito de Hipocrisia, meu caro), tanto melhor; ao menos nos poupam do asco!

    • Thiago says:

      Caro Diogo, obrigado pelo bem escrito comentário. Algumas observações se fazem necessárias.
      Em nenhum momento defendi, nem defendo, discriminações por conta de raça, sexo, pele etc. Nem disse que estão corretas pessoas que, no dia-a-dia, levam a cabo ações desse tipo. Apenas escrevi que preferências individuais existem e que, especificamente num processo de seleção de funcionários para sua própria empresa, o sujeito deve (ou deveria) ser livre para escolher quem bem entendesse, e pelo motivo que bem entendesse. Uma vez escolhido o empregado, porém, discordo frontalmente de todo tipo de discriminação salarial, de tratamento ou qualquer outra não estritamente ligada ao desempenho profissional.
      Repito, fingir que não há preconceitos, mascará-los, é pura hipocrisia.
      Um abraço. Siga por aqui.

      PS: Hipocrisia: ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade; caráter daquilo que carece de sinceridade.
      Preconceito: qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico; ideia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão.

      As definições não são minhas, são do Houaiss.

  2. Olá,
    devo confessar que este tipo de notícia me agrada. Estou na ala dos baixinhos atrás das mesas em entrevistas. Aliás, motivo pelo qual seria um péssimo funcionário de supermercado, minhas medidas e prateleiras não combinam; por outro lado, não fossem algumas cerveijinhas e toucinhos, seria um ótimo jockey. Agora, me pergunto, minhas pernas curtas realmente iriam interferir na força aérea? Seria um esforço para exército a produção de uniformes menores?

    Não me inscrevo a processos seletivos para pintores, senão os de rodapé, pois minha altura interfere “diretamente nas atribuições da função para a qual busco ser contratado”. Entretanto isso nada me atrapalhou a graduação em física, aliás devo confessar que deixei para trás muitos colegas longelíneos (e antes que o Ricardo faça qualquer comentário, não estou me referindo ao nosso estimado Vini). Esta é uma verdade, e ela deve ser dita, pordoem-me os pequenos. Recrutadores e recrutas tenham essas qualidades e defeitos bem claras na seleção de um trabalho, caso contrário nada restará além da hipocrisia em ambos os lados.

    Agora, falando sobre peculiaridades que nada ajudam ou atrapalham uma dada função, ou que sejam difíceis de se classificar, realmente acabam no tema preconceitos. logicamente existem diversos preconceitos que podemos fazer a respeito de um candidato, sua linguagem corporal e maneira de se vestir caem nesse ponto. As vezes podem ser características muito sutis, mas cor de pele, opção sexual e outras características não devem ser tratadas tão superficialmente, não é à toa que existe muita controvérsia nesses temas.
    Se um candidato tem trejeitos que desagrade o recrutador, e este pode conceber antecipadamente alguns defeitos que realmente não existem no candidato, temos o velho problema do perfil do candidato. Mas se este perfil consiste em excluir alguns grupos sociais (o perfil deixa de ser perfil pessoal para perfil social), logicamente o assunto pega outra dimensão. E, ao meu ver e sem maiores explicações, não devemos excluir um grupo social sem maiores justificativas. Digo mais, é muito importante que o estado possa defender estes grupos sociais até que esta justificativa venha a tona.

    Por fim, se a força aérea, com seus novos jatos internacionais, puder aceitar um oficial de tamanco, além de trazer um pouco mais de força para acabar com certos preconceitos, também pode estar melhorando seu leque de qualidades entre os aviadores. Afinal de contas, até onde sei, os pequenos japoneses kami kases deram muitas dores de cabeça na Segunda Guerra. Não que as qualidades de nós baixinhos se resumam a descer de cabeça em porta aviões americanos!

    desculpem, os ofendidos, pelas piadinhas de mal gosto,
    até o próximo.

    P.S.: Gostaria de parabenizar o texto do Diogo e também ao Thiago por surgir com este tema.

    • Thiago says:

      Luis, caro, mais uma vez grato pelo comentário. Não conheço o motivo pelo qual menores de 1,60m não são aceitos nas Forças Aéreas. Portanto, não me sinto à vontade para dizer se é algo fundamentado ou simplesmente uma discriminação sem sentido. No mais, assim como você não acredito que peculiaridades que nada interferem na capacidade para um trabalho devam ser levadas em conta no momento da contratação. Porém, mais do que isso, acredito que o proprietário de uma empresa deve ser livre, plenamente livre, para contratar quem bem entender. Um abraço, siga conosco.

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