Consultores do próprio interesse

Os brasileiros não possuem ideologia que vá além do próprio umbigo. Isso explica porque o país possui políticos tão ruins. São o reflexo da sociedade que representam, têm a tendência ao mais puro auto-interesse, que desemboca em corrupção e se verifica nos eleitores de Norte a Sul.

Claro, não falo de todos os brasileiros, de todos os políticos. Mas da média de ambos. O post Pelo direito de ser eu“, recentemente publicado, suscitou muitas críticas tanto aqui como em minha caixa postal. Não vejo problema em críticas. Cada um tem todo o direito de ter sua própria opinião, ao contrário do que pensam alguns. Mas fico decepcionado ao perceber que a defesa deste ou daquele lado respeita, quase sempre, pura e simplesmente aquilo que mais convém ao defensor.

A formação da opinião não segue a lógica de primeiro conhecer os dois lados, as duas linhas de argumentação, e então optar pela que parece mais correta. A lógica se inverte. Primeiro, seleciona-se a solução que mais agrada e, depois, buscam-se as justificativas para a opção. Temos uma espécie de consultor do próprio interesse: primeiro, o resultado que se quer atingir; depois, o trabalho a realizar para buscá-lo.

Em termos práticos, a lei antifumo aumentou significativamente o meu bem-estar. Agora posso ir a qualquer lugar, a qualquer hora, e respirar um ar relativamente mais limpo, livre da inconveniente fumaça. Posso voltar pra casa e não sentir em minhas roupas o resultado de horas de exposição ao maldito cigarro. Meu mundo melhorou a valer com a lei antifumo.

Mas isso não pode me fazer favorável a uma lei cuja elaboração vai contra os meus princípios ideológicos de liberdade. Esses princípios não podem ser maleáveis como uma massinha de modelar. O sujeito que fumava num bar não me obrigava a ir ao mesmo bar e inspirar a fumaça que ele expirava. Eu ia porque queria. Também não me impedia de abrir um bar antifumo ou de fazer um churrasco com os amigos. Não vinha fumar em minha casa. Ao sair de casa, eu sabia o que encontraria e, muitas vezes, optava pelo bar em que mais havia cigarros acesos, porque outros benefícios me faziam acreditar que o cigarro era suportável.

De outro lado, podem e devem estar os que acreditam em menos liberdade e mais intervenção. Que acreditam ser o Estado responsável por regular questões puramente individuais – no caso do cigarro, a individualidade do dono do estabelecimento escolher se quer ou não fumaça em seu recinto. Não tenho cacife para dizer se estão certos ou errados. Apenas para dizer que não comungo da mesma linha ideológica. Esses, eu respeito.

Já aqueles pretensos libertários que adequam sua “ideologia” à bel conveniência de seus interesses. Que defendem a liberdade de modo torto, mirando um resultado positivo para si ou usufruindo de alguma posição privilegiada. Que tratam casos essencialmente iguais como diferentes por trazerem efeitos umbilicais distintos.  E que, pior, não assumem a estratégia de que lançam mão, aqueles não merecem a minha séria consideração.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

10 Responses to Consultores do próprio interesse

  1. Daniel M. says:

    Thiago

    O pano de fundo de tudo isso é a tara da classe política, corroborada pelo pensamento bovino que aqui impera, por politizar todos os aspectos da sua vida. Você não vê problema em seu filho comer coxinha na escola? Então você deve se mobilizar politicamente e passar outra lei. Você quer ter liberdade pra tomar um vinho com sua mulher e voltar dirigindo? Então você deve se mobilizar politicamente e passar outra lei. Você não concorda com o estado roubando 40% da sua renda (portanto da sua PROPRIEDADE) ??? Então você deve se mobilizar politicamente e passar outra lei.

    E assim vai. E esse é o sintoma de um tempo insalubre. Quando as eleições, quaisquer que sejam, começam a ficar muito importantes, significa que o coletivo está soterrando o pacato cidadão.

    Pra colocar uma pimenta a mais, me parece que as pessoas não tem noção dos riscos que representam leis como a dita Lei-Seca. O estado (a Justiça, a polícia, que seja) tem legitimidade para agir sobre casos concretos, jamais sobre a probabilidade de um caso concreto. O camarada encheu a cara e está dirigindo. Como não sou candidato a “miss simpatia”, faço a pergunta: que crime ele cometeu??? “Ah… vamos fichar o cara e tomar sua carteira porque ele PODE cometer um crime”. É isso mesmo???

    O pensamento é esse, e isso é um completo absurdo. Já estamos na era do “Minority Report”. O estado já pode enquadrar pessoas pela PROBABILIDADE delas fazerem algo errado. São leis perfeitas para que se possa colocar quem você queira na cadeia.

    Esqueci quem falou, mas alguém disse que ninguém perde toda sua liberdade de uma só vez. Com o argumento de que o estado está protegendo o indivíduo dele mesmo, estamos delegando as mais comezinhas decisões do dia-dia para o Grande Irmão. O brasileiro, ao apoiar essas malditas leis totalitárias, não percebe que está se comportando como uma criança boba e inconseqüente, que precisa ser tutelada o tempo todo. A responsabilidade individual está em franco processo de estatização; verdade seja dita, não só aqui mais em boa parte do mundo. Isso ainda vai dar merda.

    Abç

  2. Ricardo Longhi says:

    Leio com grande contrariedade o post e o comentário acima.
    Vamos lá. Não são somente brasileiros que tem interesse no próprio umbigo, mas sim todos os habitantes do universo! Diga uma pessoa que não tem interesse em algo que faz? E por isso pensamos sim nos objetivos e depois explicaremos os motivos pelos quais. Até Jesus Cristo tinha seus interesses. Já corrupção é outra coisa; volto a dizer, isso é uma questão de educação e justiça.
    Voltando para o comentário do senhor Daniel M., gostei do seu primeiro parágrafo, mas discordei do restante.
    Imagine se eu discordar, da imposição do Estado, de que a luz vermelha do semáforo de transito é para parar, então eu resolva (por livre arbítrio) que o vermelho é para acelerar. Nesta lógica, me multar por “avanço de sinal vermelho” não teria a menor lógica, visto que risco é iminente, mas não é certo (de uma colisão). E se eu resolvesse percorrer as ruas da cidade no sentido contrário ao fluxo estabelecido… Caríssimo, espero que não sejamos nenhum de nós os próximos a sofrer um acidente causado por um motorista “levemente” embriagado. Já que depois da fatalidade não adiantará voltar por aqui e dizer: Agora sim ele deve ser preso!

    • Daniel M. says:

      Ricardo, respeito seu ponto sobre o sinal vermelho. Mas entendo que ele não invalida minha análise. A principal função do sinal vermelho não é evitar acidente. Ele existe para ordenar minimamente o trânsito, ou seja, dar o devido tempo para o seu carro, o carro dos outros e para os pedrestre. Ainda que tivesse primordialmente a função preventiva, ele tomaria muito pouco da liberdade das pessoas (como acontece com radares, p. ex.). Agora, criminalizar o ato de beber e dirigir, por si só, toma muito da liberdade das pessoas.

      O fato é que essas porcarias ganham aprovação por conta da total impunidade no Brasil. Se fossem punidos severamente aqueles que bebem e CONCRETAMENTE comentem algum crime, isso incentivaria as pessoas a serem mais responsáveis. Não seria necessário o Mynority Report, o controle prévio.

      Abç

    • Thiago says:

      Ricardo, caro, espero ter me feito entender no post. Não sou hipócrita a ponto de defender que as pessoas não devem ter interesse no próprio umbigo e não foi o que escrevi. Eu tenho interesse no meu próprio umbigo, e dos maiores. Disse sim que as pessoas esclarecidas devem saber que, para conviver em sociedade, às vezes o seu próprio interesse não irá prevalecer. Se ler novamente, perceberá que o que critiquei foram as pessoas que dizem ter alguma ideologia (liberal, keynesiana, marxista etc.) e, na hora do vamos ver, adequam essa pretensa ideologia puramente ao próprio interesse. Veja bem, nem ao menos critiquei as pessoas que usam esse expediente e o assumem. Têm todo o direito. Apenas não me venham querer basear as argumentações em ideologias políticas que não existem. Abraço.

  3. Venho acompanhando este blog há um bom tempo, mas esta é a primeira vez que ouso um comentário. Aliás, antes de minha opinião ao assunto das coxinhas, tabacos e bebidas, devo parabenisar o Thiago e todos que colaboram com os comentários.

    Confesso que realmente não me agrada a idéia da lei seca, nem a proibição do tabaco e muito menos da deliciosa coxinha. A guerra contra o tabaco deu-se a nível internacional, e devo apoiar a opinião do Ricardo, não é um problema dos defeitos dos brasileiros, mas do homem. Peguemos o exemplo mais estereotipado: o dos franceses. Ávidos fumantes deixavam as ruas, praças, bistrôs e todos os ares de Paris enfumaçados. Muito mais cancer estava descendo traqueia abaixo, o que significava altos custos para o governo. A medida logo veio, tão autoritário quanto futuramente seria aqui no Brasil, adotaram a proibição total de fumantes em locais públicos. Tal medida, que logicamente revoltou todos os franceses (porque somente os turistas é que deveriam estar incomodados), não foi nada inovadora – já havia sido adotada em Nova York. Bom, os maus hábitos franceses sempre serviram de inspiração para outras nações, logo a medida seria adotada pela maioria dos países do oeste europeu. Mas paremos aqui, nem todos os países adotaram a medida, e isso me faz lembrar um pouco sobre a nossa liberdade e a necessidade de que existam espaços e opções. Não acredito que as decisões de uns ou outros países, neste caso, também não tenham se dado a nível de interesses pessoais. Afinal, quem fuma ou é proibido de fumar é o próprio cidadão, cheio de anseios e desejos.

    Outro ponto muito importante é que a tal lei foi elaborada para proteger não mais do que os orçamentos públicos. Proibir cidadões de fumar em determinados lugares ou dirigir embriagados não é a respeito de crimes ou a probabilidade de infrações, mas despesas médicas altíssimas. Estas leis entram no mesmo caso do uso obrigatório do cinto de segurança, oras pois, agora perdemos o direito de negligenciar nossa própria segurança? Bom, já não é novidade que, muito antes desta lei, algumas empresas exigiam de seus funcionários a utilização do sinto de segurança mesmo fora do expediente de trabalho. Um acidente de carro poderia significar a perda de um funcionário especializado e um longo período de capacitação de um substituto.

    Com certeza o governo deve ter uma preocupação com a administração dos cofres e a segurança de seus cidadões. Infelizmentea solução acaba caindo em leis, que muitas vezes são exageradas, e não é nada espantoso esperar tais medidas em determinados países além do Brasil. Logicamente elas não devem ser encaradas como a única solução. Enquanto nosso governador quer proibir coxinhas com uma lei irrefutável, na Suécia o bom senso predomina e quem decide se vende ou não “junkie food” em escolas é a própria escola, a decisão é tomada pelo conselho de pais e coordenadores, nada mais justo.
    O mesmo poderia ser adotado no Brasil, e por exemplo, ao invés de seguir a idéia predominante e extrema de americanos e franceses, adotar taxas ou impostos para bares que permitissem fumantes em áreas cobertas ao invés de uma proibição total. proibições como essas, tolerâncias zero em relação ao álcool e autoritarismo na merenda escolar são medidas típicas de países que ainda sofrem de tremenda burocracia e pouco bom senso. Infelizmente esta nossa máquina foi uma péssima herança portuguesa, mas um dia perderemos essa hereança lusa, e vamos (perdoa me o trocadilho) trocar as lâmpadas do nosso país com um trabalhador e uma escada ao invés de cinco homens e uma mesa.

    • Thiago says:

      Luís, meu caro, muito obrigado pelos comentários. Não é nenhuma ousadia escrever aqui e todos são sempre bem-vindos. Aproveito para “recomentar” um ponto falacioso que os advogados antifumo constumam levantar: os gastos com saúde para lidar com as doenças causadas pelo fumo. Parece-me que, mais ou menos da mesma forma que com o aquecimento global, eis mais um caso em que os dados se modelam da forma que os objetivos pedem. Já vi uma série de artigos que levantam os gastos que o Estado tem por causa do cigarro e que não é justo que esses gastos sejam financiados por pessoas que não fumam. Nunca, porém, vi qualquer artigo que lembrasse o fato de que, pelo menos no Brasil, o sujeito que está sendo financiado passou a vida inteira pagando impostos que pouquíssimas vezes voltaram a ele como benefício e que, portanto, tem um crédito com o governo que pode ser menor, maior ou igual aos gastos que agora sua doença provoca. Mais além, nunca vi um artigo que lembrasse que a indústria do fumo é, de longe – novamente pelo menos no Brasil – aquela que mais paga impostos, enchendo os cofres do governo e que, portanto, uma análise honesta deveria contrapor as economias em saúde às perdas em tributos fumígenos para chegar a uma conclusão sobre o real resultado da lei antifumo sobre os cofres governamentais. Abraço e continue por aqui.

  4. Daniel Souza says:

    Boa tarde a todos
    É a promeira vez que entro no site, mas gostei muito de ler o artigo, e também as criticas dos colegas. É perceptivel que todos universalmente pensam sim em seu próprio umbigo, e se isso é algo bom a nós ou não seria dificil dizem, pois novamente entraria em individualidades de cada um.
    Em relação aos comentários anteriores todos eles tem algo a nos acrescentar, ou pelo menos nortear um pouco mais nossos pensamentos, pois acredito que todos somos seres adaptaveis e sempre passiveis a mudanças. Em relação a lei anti fumo e a lei seca, sim sou a favor, pois como comentado antes é muito bom sair e não voltar fedido ou ferido por motorista embriagado. Mas quando isto feri a nossa liberdade de ir e vir somos contra, mas eu acho que a questão nem é de quem fez a lei, que pode até ter cunho politico e partidária, mas como todo lei aqui no Brasil não é completamente seria, pois não existe fiscalização eficaz e treinada para isto, pois todas as leis são facilmente burladas e propinadas. Temos leis mais simples as que são nescessarias para um bom concivio em sociedade, talvez não leis, mas sim criterios a serem seguidos, assim como escovar os dentes pela manhã, não só para deixar de ter mau halito, mas sim dentes saudáveis como por emeplo.
    Se vimos alguem jogar papel no chão simplesmente chamamos bem baixinho de porco, mas não o concientizamos de um ato errado e fica por isso mesmo.
    Não sabemos como bons cidadãos lutar pelos nossos direitos, e sim sempre criticar nossos deveres.
    Talvez por isso temos vergonha da politica e talvez do povo, mas não esquaçamos que fazemos parte dela.
    Mas todos então de parabens, pois assim podemos aprender um pouco mais.

    • Thiago says:

      Daniel, obrigado pela visita e pelo comentário. Espero que volte mais vezes.
      Quando você escreveu “Se vimos alguem jogar papel no chão simplesmente chamamos bem baixinho de porco, mas não o concientizamos de um ato errado e fica por isso mesmo“, lembrou-me de uma triste e engraçada passagem que aconteceu com um amigo e demonstra duas coisas: nem todos se calam diante da falta de educação e a prepotência de alguns, normalmente das camadas mais abastadas, enoja. Caminhava meu amigo pela calçada, próximo à Av. Paulista, com a camisa do Corinthians quando voa pela janela de um carro parado no semáforo um copo da Starbucks e vai parar próximo de meu amigo. Indignado, ele pega o copo quase vazio e o lança de volta ao carro, pela mesma janela de onde saíra. O motorista fica louco, começa a berrar se meu amigo achava que o carro dele era lixo, ao que ele responde que o carro ele não sabia, mas a rua ele tinha certeza que não era lixo. O homem então ameaça sair do carro. A mulher que o acompanhava e que havia jogado o copo olha então para o meu amigo, pára os olhos na camisa do Corinthians, volta para o homem e diz; “Vamos, amor, não vamos nos meter com essa gente”. O carro sai e, poucos metros depois, já distantes do meu amigo, os educados senhores da mais alta classe jogam novamente o copo para a rua.

  5. Opa, meu caro Thiago, respondeu rápido! Hehe!
    Bom, devo concordar que esqueci de incluir os impostos no meu texto. Mas de qualquer forma, sem entrar no mérito dos custos reais que o estado tem; e na minha opinião custos são custos – se o governo está abatendo corretamente é outra estória (justamente a qual menciona que boa parte da tributação acaba nos bolsos de alguns políticos). Não acredito que todo este anti-tabagismo seja de cunho humanitário simplesmente,e tão pouco acredito que seja por motivos de punição. Acredito que estas leis são medidas preventivas, entretanto mal empregadas.

    Mas devo dizer que agora estou realmente curioso a respeito de como poderia encontrar alguns dados sobre tais custos de saúde , além dos impostos. Aliás seria muito interessante comparar esses impostos sobre o tabaco com os impostos sobre petróleo, combustíveis, bebidas e outros.

    Abraço,
    Inté o próximo post.

    • Thiago says:

      Luís, acredito que no Ministério da Saúde você encontre, senão dados originais, artigos que apresentem os malefícios do cigarro. Provavelmente em algum haverá dados sobre gastos com saúde. A Secretaria de Saúde de São Paulo também pode ser uma boa fonte. Em relação aos impostos, tenho quase certeza de que a Receita Federal apresenta esses dados.
      Um abraço e espero que siga conosco.

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