Fórmula (3 em) 1

Na segunda prova da temporada, ganhamos um reforço de peso para a coluna. O terceiro elemento da agora “Fórmula (3 em) 1”. Seja bem-vindo, Marcelo Cerri!

A Fórmula 1 agradece

Por Thiago Barros Ribeiro

CORRIDAÇA. O GP da Austrália teve tudo o que uma grande corrida, em qualquer categoria, precisa ter: uma pista que permite ultrapassagens, a estratégia como um dos fatores na receita para a vitória e grandes atuações individuais.

É necessário lembrar que a Oceania há anos se notabiliza por, ao lado de Montreal, Spa e Interlagos, oferecer aos fãs da velocidade as melhores provas da temporada quando se fala em emoção. Mas a deste domingo não foi apenas emoção. Falemos dela por meio dos atores principais.

Jenson Button: o inglês repetiu as atuações brilhantes do início de 2009, que lhe garantiram a taça. Pouco espetáculo, muita eficácia. A decisão de trocar os pneus antes de todo mundo assumiu o risco que apenas os grandes encaram e que os “sábios” de plantão, como Galvão Bueno, não entendem de pronto – aliás, o global destoou do nível da prova, com uma péssima narração. Coloca um monte de interrogações em afirmações como a minha na última coluna, de que é menos piloto do que seu companheiro Hamilton. Certo está que o campeão de 2008 é mais espetacular, mas todas as vezes em que foi chamado a mostrar seu talento  – como hoje, quando tomou olé de Alonso – sucumbiu. Como ser piloto não é apenas dar espetáculo, teremos de esperar mais um pouco para pontificar quem é o melhor entre ambos.

Robert Kubica: o polaco também andou muito. Favorecido pelo ótimo trabalho da Renault no momento das trocas de pneus, manteve-se até o fim à frente das melhores Ferrari, McLaren e Red Bull. Merecia mais carro, talvez a Red Bull de Weber.

Felipe Massa: fez duas corridas. Uma correta, que começou com a belíssima largada e continuou a partir do momento em que a pista secou. Outra abaixo da crítica, enquanto a chuva umedecia o terreno. Ficam duas considerações, que o pachequismo não pode esconder: o brasileiro mais uma vez mostrou ser dos piores quando o assunto é pista molhada e, passadas duas corridas, tomou tempo de Alonso durante praticamente todo o tempo. Se não melhorar rapidamente, o título vai sumir do mapa.

Fernando Alonso: dá toda a pinta de sobrar no grupo. Foi de uma rapidez assombrosa quando teve de se recuperar do incidente com Button e Schumacher no início e, se quisesse ver o circo pegar fogo, poderia ter sido mais Alonso contra Massa. No fim, brindou-nos ao fazer Hamilton e Weber, quase dois segundos mais velozes, dançarem e beijarem-se atrás de si.

Michael Schumacher: pra terminar, o hepta confirmou: não voltou no mesmo nível dos melhores alunos da turma. Hoje, é apenas um daqueles esforçados que passam raspando. Ficou quase toda a corrida atrás de Alguersuari.  Se continuar assim, vai obrigar os adoradores que o colocam indiscutível como o maior de todos a reverem seus conceitos ou a deitarem na cama da incoerência.

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Só pra contrariar

Por Daniel Marchi

Diferentemente de uns e outros que querem transformar a F-1 num circo, não reclamo de GPs (supostamente) entediantes como o do Bahrein. Eles são importantes para valorizarmos provas tão interessantes e repletas de variações como a australiana. Sinceramente não me lembro de outra prova com tantos pilotos “virando a mesa”, no bom sentido obviamente.

Button foi corajoso ao apostar no pneu slick num momento de dúvida para a maioria dos outros pilotos. Mostrou equilíbrio emocional digno de um campeão e fez uma prova impecável. Kubica, correndo por uma equipe que na prática é semi-oficial, livrou-se da confusão na largada e foi consistente o tempo todo. Pode pleitear uma vitória nalguma corrida maluca em 2010. Massa tinha tudo para contabilizar outro resultado inferior ao seu companheiro de equipe. Sustentou o terceiro posto de forma quase milagrosa.

Alonso: muito, muito forte até aqui. Caiu para a rabeira e recuperou-se incrivelmente rápido. Ao contrário de Schumacher – que vem comendo o pão que o tempo amassou – não levou 40 voltas para ultrapassar os carros mais lentos. Se não fosse a queda de rendimento no final, por conta dos pneus, poderia beliscar um segundo posto. GPs assim o fazem credor de mais confiança e apoio da equipe. Felipe arrumou uma sarna enorme pra se coçar… Vettel, coitado, relatou problemas no freio dianteiro esquerdo, o que pôde ser evidenciado pelas imagens da TV. Acreditemos nele. Monza 2008 provou que ele é bom demais na chuva para cometer aquele tipo de erro.

E assim o campeonato começa a acontecer. Claramente as equipes ainda estão desvendando os mistérios da nova dinâmica imposta pelo fim do reabastecimento. Um exemplo disso foi o ritmo forte que Hamilton e Weber desenvolveram ao optarem por uma segunda parada. Se não fossem afoitos na hora errada, teriam superado as Ferrari.

Quem avançar um pouco mais na compreensão do consumo de combustível e desempenho dos pneus colherá bom resultado na Malásia, prova marcada na maioria das vezes por intenso calor e uso extremo da borracha. Provavelmente veremos uma prova mais convencional… só pra contrariar.

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Detalhes de um show

Por Marcelo Cerri

Como nosso estimado blog se propõe, também o obediente colaborador que vos escreve se propõe a discutir sobre coisas mais do belo GP da Austrália. A corrida foi memorável, daquelas que contarei aos meus filhos e netos com muito orgulho. Vivemos um período de grandes pilotos, temos que nos dar conta disso e ficar felizes por termos esse privilégio. Não vejo os ídolos de nossa infância, como Senna, Piquet, Prost e Mansell, como mais geniais que Alonso, Hamilton, Kubica, Massa etc. Mas não pretendo me prender a essas obviedades, há coisas mais a serem discutidas.

O retorno de Schumacher nos deixou eufóricos, mesmo sabendo de todas as dificuldades que encontraria pela sua idade e pelos três anos parados. No entanto estamos tomando a ducha de água fria que já esperávamos. O maior vencedor da história da F1 está evoluindo, no GP da Austrália seu rendimento foi muito semelhante ao de seu companheiro de equipe em termos de tempos. Poderia até mesmo ter se classificado à frente de Rosberg , não fossem os infortúnios em sua volta rápida (o Alemão tem moral para tirar satisfações com Alonso sobre ser atrapalhado em treino classificatório?). Mas ficar 46 voltas atrás de Alguersuari, enquanto aconteciam dezenas de ultrapassagens entre os outros pilotos é algo decepcionante. Esperamos de um heptacampeão ao menos um pouco de agressividade e espírito de luta.

Também chamou a atenção o rendimento no mínimo desastroso de Kobayashi. O japonês da BMW Sauber Ferrari, que nos impressionou em sua estréia na Toyota nas últimas etapas do ano passado, além de não andar à frente de Pedro de La Rosa, sofreu vários acidentes durante o final de semana, culminando com a forte batida nos inocentes Hulkenberg e Buemi, ainda na primeira volta da corrida. O detalhe que me deixa com a pulga atrás da orelha é que nos treinos da manhã de sexta-feira, a asa dianteira da Sauber de Kobayashi simplesmente se espatifou sem qualquer motivo aparente. No acidente de hoje, as imagens que precedem o vôo do japonês sobre os monopostos da Williams e da Toro Rosso mostram que sua asa dianteira já estava embaixo do carro mesmo antes de bater no muro. Asas que se desintegram, molas que voam… será que essas falhas não são frutos da falta de testes?

Falando na proibição dos testes, a FIA e a FOTA terão que resolver o impasse das equipes novas. Simplesmente preencher o grid com monopostos da GP2 não resolve o problema da escassez de equipes. Se eles não testam, não podem evoluir e ficarão o ano inteiro atrapalhando os carros de F1. Mas aí vem aquele raciocínio incômodo: a proibição dos testes teve como objetivo a redução dos custos, que teve como conseqüência a entrada de novos times. Será que os novos times teriam condições financeira de fazerem testes extras?

Marcelo Aguiar Cerri é economista e filósofo, cristão católico, sampaulino, entusiasta de automobilismo e um grande pescador. Nas horas vagas é servidor público.