Pelo direito de ser eu

Ao som de João Donato e Paulo Moura – Dois panos pra manga -, estava eu terminando em calmaria a chuvosa tarde da sexta paulistana. Notícias daqui, notícias dali, entro no Estadão e leio a manchete “Serra prepara nova ‘lei anticoxinha’ para escolas”. As náuseas que se seguiram não foram por pensar na gordura das coxinhas, que “justifica” a lei para o “bem” dos pequenos – ao contrário, lembrei-me da deliciosa coxinha com catupiry da Doçura, uma das maravilhas de Rio Preto e do mundo – mas por imaginar, ainda que rapidamente, aonde iremos chegar.

Caminhamos a passos largos para o mundo mais odiosa e politicamente correto que se possa imaginar. Um lugar em que uma ideia já distante chamada “liberdade individual” deixará de existir. Em que seremos obrigados a viver cada instante, a inspirar e expirar cada naco de ar, segundo as regras ditadas por nossos administradores e legisladores, que, oniscientes, sabem tudo o que é melhor pra mim e pra você.

Chegará o dia em que nem mesmo sampaulino poderei eu ser. Para evitar a violência nos estádios, e nos seus arredores, haverá um iluminado para determinar que cada Estado tenha um time único e, logicamente, proibir que os torcedores de um Estado viajem até outro, o que poderia trazer contratempos.

A tal da lei contra as pobres coxinhas exacerba a descabida interferência externa sobre o indivíduo que pintou com força nos últimos tempos por meio de duas outras peças: a que proíbe dirigir com uma gota de álcool no organismo e a que proíbe fumar em qualquer lugar público com um toldo que seja acima da diabólica criatura que infesta o ambiente.

Ora, será hipócrita o primeiro – e os outros também – que disser nunca ter tomado o volante depois de uma latinha. E será mentiroso o que afirmar que uma latinha torna o sujeito incapaz de dirigir. A chorumela de que é melhor proibir totalmente porque depois da primeira se perde o controle – do volume de bebida, não do veículo – assume de barato que somos todos alcoólatras e, desculpem-me, não pode ser levada a sério.

A outra, de que medidas drásticas são necessárias porque se lida com a vida de inocentes, não soa mais convincente. Primeiro, porque os irresponsáveis e assassinos que, bêbados, causam a morte respondem criminalmente pelos seus atos, e a pena deve ser grande o suficiente para desencorajar os mais alegres. Se não é, que seja.

Segundo porque, seguindo esse brilhante raciocínio, teríamos de proibir também viagens de qualquer tipo – o avião pode cair, o ônibus ou o carro bater, matando um monte de inocentes -, além da prática de qualquer esporte – há muitos casos em que inocentes têm morte súbita ao praticá-los -, a caminhada de casa para o trabalho – o inocente pode ser vítima de assalto ou mesmo atingido por um raio. Ter-se-ia, enfim, que obrigar o sujeito a sair da maternidade para a casa – não sei como, pois sempre poderia acontecer algum acidente fatal no meio do caminho – e lá aguardar sua morte por causa natural, aos 80 anos.

A lei antifumo não é menos absurda ao tirar de todas as pessoas o direito de escolherem em que tipo de ambiente estar. Se eu não fumo e não quero estar num lugar onde qualquer pessoa fume, que seja eu consciente e me rebele contra o cigarro. Numa sociedade minimamente ativa, eu não seria o único a fazer isso e não tardariam a aparecer empresários para oferecer bares, restaurantes e tudo o mais onde fosse proibido fumar. Aparecer um governo estabelecendo isso de cima pra baixo não é apenas autoritário, mas chama indiretamente todos os cidadãos de gado. Uma boiada que não sabe o que fazer para se proteger do mal e precisa do seu vaqueiro para guiá-la, nunca livre do risco de ser o boi das piranhas.

O que dizer então da lei anticoxinha? Faltam-me palavras diante de tamanho disparate, de tamanha crueldade. De uma tacada só, dá um tapa na cara de todos os pais, acusando-os de total incapacidade para educar os filhos, e ainda tira dos pequenos o prazer momentâneo, mas incalculável, de vez por outra comer uma boa coxinha, como aquela que eu tantas vezes devorei na saudosa Doçura.

Fico tão fulo com essas coisas que, já que não fumo, o negócio é ir ao encontro do torresminho e da gelada que me esperam. Pelo menos enquanto eu posso fazer isso no Brasil.