Relato de Marte

Se um marciano desavisado caísse de paraquedas em nosso Brasil varonil nesta malfadada semana e tivesse como único meio de se conectar à realidade alheia um aparelho de TV com os canais abertos, voltaria para o seu pátrio planeta com um relato inusitado sobre as bandas desconhecidas.

A pobre criatura verdolenga ficaria certamente muito bem impressionada com a mania de justiça do povo além-espaço. Diria aos seus conterrâneos (ou seria comarcianos?) que esse negócio de deixar julgamentos a cargo de juízes preparados para tal e afastados de interferências externas era coisa de planeta atrasado. Que, no planeta azul do futuro, toda a sociedade estava preparada para fazer justiça, tanto que um aparelho eletrônico transmitia 24 horas por dia imagens de julgamentos capazes de engajar toda uma sociedade.

Concluiria com razão o bom cabeçudinho que o planeta vizinho estava tão à frente que conseguira resolver todos os pepinos que o seu pobre Marte ainda enfrentava a duras penas. Saúde, educação, segurança, tudo uma belezinha.

Segurança principalmente. Os colegas de longe eram de tal forma eficientes neste quesito que prenderam todos os responsáveis pelos delitos e, agora, preocupavam-se apenas em estabelecer as penas finais, naqueles que pareciam ser os dois últimos casos a se resolver no admirável planeta distante: uma dupla acusada de atirar um semelhante menor do alto de uma estrutura de concreto e um outro mais nebuloso, aparentemente um crime mais sério e coletivo, já que várias pessoas eram mantidas presas enquanto julgadas e a transmissão contava com um vasto e tecnológico repertório de reconstituições que auxiliavam a desvendar o mistério, fosse qual fosse.

O verdinho também reservaria bom espaço de seu relato àquele que pareceu ser o comandante da nave azul. Um sujeito alto, magro, cabelo fortemente acinzentado e um par de pequenas peças finas e transparentes à frente dos olhos, desconhecidas em Marte. Apesar de não entender nada do que o referido sujeito falava, era certo que suas palavras eram de uma sabedoria inefável. Todo aquele povo parava à frente dos aparelhos transmissores para ouvir atentamente os ensinamentos e, por fim, emocionava-se com a sentença daquele que indubitavelmente era o principal julgamento. O réu condenado, então, abandonava a sala do tribunal e partia aos prantos para algum triste destino que o pequeno verde não conseguira identificar, certamente por estar a anos-luz daquela sociedade tão avançada.

A conclusão do escriba marciano, ipsis litteris:

Um povo a se imitar. Uma fonte de inspiração para que Marte, um dia quiçá, possa gozar de tamanha tranquilidade e altivez, a ponto de toda a sociedade, unida e esclarecida, ser capaz de definir as derradeiras soluções para a paz etérea.

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