Lyra do comunismo juvenil

Há tempos defendo a tese de que 6 em cada 10 comunistas com menos de 30 anos de idade não sabem o que é comunismo e os outros 4 se dizem comunistas com o pragmático propósito de conquistar jovens mulheres comunistas, que também não sabem o que é comunismo.

Estejam em um ou outro grupo, os 10 jovens aderem ao comunismo pela marca – da mesma forma que bebem Coca-Cola, calçam Nike, vestem Lacoste (sim, os comunistas fazem isso!)  -, não pelo conteúdo. Vestem o comunismo por ter o superficial apelo cult tão venerado pelos jovens que, felizmente, envelhecem.

Estava eu lendo o agradabilíssimo Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova, de Ruy Castro (2008, Companhia das Letras), quando, lá pela página 250, de repente, não mais que de repente, a tese ganhou mais um caso prático.

Carlinhos Lyra, um dos grandes nomes da nossa música, figura importante no nascimento da Bossa Nova, definido por Tom Jobim como o maior melodista do movimento. Lyra, por volta dos seus tenros 20 anos, participou da fundação de uma célula do Partido Comunista em Higienópolis, São Paulo. “De esquerda”, sentia-se por vezes frustrado em fazer apenas músicas alienadas ao lado do parceiro Ronaldo Bôscoli (“de direita”) e, em meio a seu processo de afastamento da turminha da Bossa, passou a compor coisas mais engajadas.

Depois do prelúdio, a comprovação da tese. O mesmo Lyra, exatamente à mesma época (1960), participou da criação do Centro Popular de Cultura, no Rio de Janeiro. A idéia inicial dos fundadores era criar o Centro de Cultura Popular, mas Lyra foi contra, sob a seguinte argumentação, retirada do livro de Castro:

Sou contra“, ele votou. “Sou burguês. Não faço cultura popular, faço cultura burguesa, não tem jeito.” O livro continua, delicioso (comentário meu entre parênteses):

Alguns o olharam horrorizados. Como alguém tão inteligente e alinhado com as aspirações populares poderia dizer-se ‘burguês’? (talvez porque ser inteligente não significa ser hipócrita) Carlinhos explicou que o fato de gostar de samba de morro não o fazia ter vontade de mudar-se para a favela e que, portanto, não saberia produzir o tipo de música que aqueles sambistas faziam. Além disso, usava camisas de zuarte, compradas na Casa da Pátria, na praça Quinze, apenas porque estavam na moda.

Lyra ganhou adeptos em sua lúcida explanação e o nome escolhido foi Centro Popular de Cultura.

Pena que a lucidez juvenil de Lyra na música não alcançasse a política, fazendo-o perceber que, para ser um “burguês comunista”, o mínimo que deveria fazer seria alienar todos os bens familiares em favor do “proletariado”, ou de um Estado “benevolente” que os redistribuiria aos operários. Mas aí deixaria de ser um “burguês”. Dar leite para as crianças pobres, como dizia o pai de Lyra, não era o bastante.

E justo ele, que não queria ser alienado como Bôscoli. Provavelmente, era mais. Mais alienado. Mais um dos 6 entre 10 comunistas juvenis.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

4 Responses to Lyra do comunismo juvenil

  1. Bob Fields says:

    Quem não é comunista aos 20 é pq não tem coração. Quem ainda é comunista aos 40 é pq não tem cérebro!

  2. Marcelo says:

    Belo artigo Thiago!

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