Fórmula (2 em) 1

Com prazer, acompanhei o início de mais uma temporada de Fórmula 1. Com prazer, anuncio que, em todos os domingos de corrida ao longo da temporada, pintará por aqui a “Fórmula (2 em) 1”, coluna que terei o prazer de dividir com o amigo, também louco de pedra por automobilismo, Daniel Marchi.

A proposta da coluna, por óbvio, será analisar a temporada de Fórmula 1, a evolução do campeonato corrida a corrida. De inovador, o fato de apresentar duas mini-colunas em uma, em que cada autor terá suas linhas para expor idéias e pontos de vista, sejam eles convergentes ou divergentes. Ao final, as duas visões independentes formam um quadro e ampliam as possibilidades de interpretação dos leitores, sob a lógica de que duas mentes pensam mais e melhor do que uma.

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Cara de tri, pinta de tri, jeito de tri

Por Thiago Barros Ribeiro

Muitas coisas podem ser ditas sobre a corrida inaugural da temporada de Fórmula 1 em 2010. Como se previa, o peso das paradas de boxe para a definição de uma prova voltou ao lugar que deve ocupar numa corrida de carros, de coadjuvante por eventuais erros cometidos pelas equipes, ao invés do descabido protagonismo que reinou anos a fio, desde a Era Schumacher. Por falar no alemão, a dificuldade não será apenas para chegar a vitórias, mas também para chegar em seu rival de equipe, o compatriota Nico Rosberg. Chamou a atenção também o tamanho da diferença entre os ingleses Lewis Hamilton e Jenson Button na McLaren, mostra de que o campeão de 2008, a despeito de já ter se mostrado demais vulnerável psicologicamente, é muito mais piloto do que o campeão de 2009.

Isso e muito mais poderia ser dito, como o mérito de a nova pontuação valorizar mais a vitória. Mas meu foco será Fernando Alonso, o qual, para fugir da mesmice do “ainda é cedo” e deitando minha língua levemente sobre as brasas, sai da primeira corrida como favorito destacado ao título, virtual tricampeão mundial.

Explico. Na pista, ficou demonstrado que o equilíbrio dos testes de pré-temporada pode se confirmar nos treinos classificatórios, mas durante as corridas a Ferrari é mais constante do que as rivais. Se a diferença não é absurda, também não é pequena a ponto de se diluir nas primeiras etapas do ano. E a Ferrari não é propriamente uma equipe pequena que corra o risco de ser engolida pelas de trás com o passar dos dias.

Isso coloca a Ferrari como favorita, mas não necessariamente Alonso. O que me faz acreditar que o espanhol vai levar passa por dois outros aspectos, um técnico e outro nem tanto. O técnico: apesar de sair atrás no grid, Alonso foi mais rápido e regular do que Felipe Massa durante a maior parte do fim-de-semana, isso num dos circuitos – ao lado da Turquia e de Interlagos – em que o brasileiro mais se sente em casa, onde reinou em 2007 e 2008 – em 2009, não tinha carro para disputar com a Brawn.

O nem tanto: nas últimas 10 temporadas, desde 2000, em apenas duas o vencedor da primeira etapa não ficou com o título. Em 2003 e 2005, David Coulthard e Giancarlo Fisichella venceram a abertura, na Austrália, mas viram Schumacher e Alonso, respectivamente, ficarem com a taça ao final do ano. Duvido que Alonso permita que o mesmo aconteça em 2010.

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Admirável mundo novo

Por Daniel Marchi

Até as luzes vermelhas se apagarem hoje no Bahrein, a quantidade de dúvidas era enorme. Os testes chuvosos na Espanha revelaram alguma tendência? Com o fim do reabastecimento – Graças a Deus! – como será a dinâmica da corrida? Os pneus terão durabilidade para quantas paradas? Como se comportarão as duplas de Ferrari e McLaren? E Schumacher, como voltará? Essas e mais outras tantas questões.

Entendo que respostas definitivas ainda não vieram, mas os palpites já começam a ficar mais embasados. A corrida mostrou sim as projeções da pré-temporada. Semana passada, diziam que Fernando mostrava um entusiasmo exagerado. Venceu a parada. Hamilton e Button, “temos muito o que progredir”. Verdade. Norbert Haug não contava com pódio na primeira prova. Provavelmente terá de aguardar um pouco mais.

O fim do reabastecimento – Graças a Deus! Não me canso – fez retornar à pista a real e efetiva ação da prova. Não espero corridas mais emocionantes, mas certamente teremos provas mais inteligíveis para o grande público e a certeza de que diminuirão muito aquelas falsas disputas envolvendo carros com ritmos de paradas diferentes. O desafio de acelerar poupando pneus e combustível, bem como pilotar um carro com sensível diferença de peso em cada segmento da corrida, é algo bem interessante. Sem falar na volta das clássicas disputas envolvendo a troca de pneus. Ainda é cedo para uma conclusão definitiva, mas os compostos da Bridgestone mostraram boa durabilidade e aparentemente nenhum piloto teve grandes problemas com eles.

Fernando é Alonso, não é à toa que o cara é bicampeão. Com os problemas de Vettel, ele estava, desculpem o clichê, na hora certa e no lugar certo. A camisa vermelha não pesou nem um pouco. Massa, apesar de fortemente gripado, acompanhou o ritmo do espanhol. Mas… se quer mesmo ser laureado, acompanhar o companheiro de equipe é insuficiente. Na McLaren nenhuma surpresa, Hamilton é mais piloto e ponto final. Pelos resultados dos treinos, pensou-se que Nico iria arrasar Miguel, o que não aconteceu. Mais uma vez, prefiro esperar o fim dessa fase asiática.

De qualquer forma, a expectativa de um grande campeonato permanece. O GP da Austrália, daqui a duas semanas, é tradicionalmente cheio de alternativas.

Por fim, um absurdo. A proibição de testes entre as corridas é uma completa insanidade. Impede, principalmente, que as novas equipes tenham vida digna na pista. Sem falar no risco de acidentes (toc-toc-toc na madeira). Não esqueçamos que o acidente de Massa ano passado foi provocado por uma mola de amortecedor que simplesmente se desconectou de um carro.

Daniel Marchi, 29 anos, é natural de Tabapuã/SP. Economista, fã da Escola Austríaca, funcionário público e residente em Brasília/DF, jura ser inocente de todos esses pecados. Entusiasta de automobilismo e jogador de gamão (alguém mais?), interessa-se especialmente pelos pequenos detalhes que geram grandes histórias.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

3 Responses to Fórmula (2 em) 1

  1. Mateus says:

    É, parece que vamos sofrer torcendo contra o espanhol, aqueles que assim fazem…
    Por mais que ele tenha uma grande empáfia, tem que se admitir, o cara é féra.
    Ontem ele mostrou um pouco disso na largada…se posicionou de uma forma que mesmo o Massa se protegendo na primeira curva, na segunda, “a mão” era dele…
    Mas vamos torcer para que você queime a língua Thiago, rs
    Abraço

    PS: você podia falar sobre a aula de futebol de ontem, na Vila…

  2. Marcelo says:

    Devemos discutir um pouco sobre as consequências do fim dos reabastecimentos. Nós reclamávamos que as ultrapassagens aconteciam somente por questões de estratégia. Agora reclamam que a falta de estratégia impede as ultrapassagens… estranho não?

    • Thiago says:

      Grande Marcelo, já estava sentindo falta de seus comentários! Não posso perder uma das 5 pessoas que ainda perdem tempo comigo…
      Eu reclamava das ultrapassagens apenas nos boxes sim, mas não acho que agora haja falta de estratégia e nem que isso impeça as ultrapassagens. Pessoalmente, acredito que agora há mais opções de estratégia (pneus+combustível) do que antes, que variam de circuito a circuito e ainda não foram exploradas pelas equipes. Mas, mesmo se eu estiver errado, e não houver tantas possibilidades assim, ainda acho que haverá muito mais ultrapassagens na pista, que é onde elas devem ocorrer. Abaixo a ditadura dos boxes, abaixo o tempo em que os estrategistas dos boxes eram tão importantes quanto os pilotos na pista.
      Abraço!

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