De volta ao passado: música

Nas últimas postagens, tenho tentado desmistificar um pouco o passado, tarefa sempre dificultada pela tendência nostálgica dessa grande pasta de arquivos chamada memória. Na maioria dos casos, o passado não é tão bom quanto parece nem o presente tão ruim a ponto de não se tornar, no futuro, um passado de boas recordações. Na maioria, não em todos. A música surge para mostrar que, em alguns casos, o passado foi sim infinitamente superior ao presente.

Para não alongar demais a discussão, correndo o risco de cair na armadilha de comparar o incomparável, vou deixar de lado a música clássica, reservando a artistas como Mozart, Beethoven, Chopin, Wagner, Tchaikovsky e Bach o lugar privilegiado que merecem, algo acima da música atual. Reservemo-nos, pois, à música contemporânea.

Aqui ou acolá, a qualidade da música de hoje não lambe os calcanhares da de ontem. No Brasil, isso talvez seja mais notório, devido ao extremo mau gosto que infesta o país desde meados da década de 90, a partir de quando gêneros “musicais” como axé e funk entraram, infelizmente, em cena. Mas não se restringe ao recanto tupiniquim. Lá fora, berço de coisas como aqueles sons desconexos, incompreensíveis e irritantemente repetitivos (putz, putz, putz,…) aos quais determinadas pessoas têm a audácia de chamar “música” e que constituem as chamadas raves, o negócio é semelhante.

Cá, chega a ser desalentador tentar contrapor a Bossa Nova – maior e melhor movimento musical brasileiro e um dos melhores do mundo em todos os tempos -, o Tropicalismo e a tantas vezes criticada Jovem Guarda ao axé baiano, ao funk carioca, ao rap e ao pagode paulistas, ao forró e ao sertanejo “universitários”, estes dois últimos, aliás, mostra fiel do triste nível médio de nossos universitários.

Lá, não é menos melancólica a tentativa de colocar sob um mesmo prisma Elvis, Beatles, Ray, Sinatra, num vértice, e Snoopy Dog, Beyoncé, Jonas Brothers, 50 Cent, Britney Spears, no outro.

Sintomático da amplidão do elo perdido entre a qualidade da música do passado e a do presente é  que, até onde vai minha memória, todos os artistas do passado que se mantêm ou se mantiveram na ativa até há pouco pioraram univocamente ao longo dos anos, tornando-se reféns dos sucessos do passado. A lista é gigantesca: Rolling Stones, Michael Jackson, Aerosmith, U2, Guns´n Roses, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque, Roupa Nova, e vai embora.

Se fixamos um gênero e caminhamos na linha do tempo, o resultado é basicamente o mesmo. Em geral, o gênero original foi de tal forma deturpado que acabou gerando fetos mal formados que, contrariando a ciência, teimam em sobreviver.

O caipira de raiz, símbolo do interior brasileiro, com suas histórias cantadas, virou o sertanejo, sem qualquer cara, monotemático na dor de amor do homem abandonado. Mas ele, o homem abandonado, cansado de ficar pra trás, vingou-se. Nasceu o sertanejo universitário. Agora é ela quem fica atrás e ele quem não quer. Um porre.

O samba carioca, estandarte da boa malandragem, da sombra e da água fresca, de Noel, Cartola, Paulinho da Viola, de Martinho, ainda mantém uma tênue linha no presente, bem representada por gente como Zeca, Dudu Nobre, Diogo Nogueira e Teresa Cristina. Em compensação, também gerou o seu alien, o pagode paulista, que copiou do sertanejo o talento para falar única e exclusivamente de casos de amor mal terminados.

Exceções existem. Ana Carolina, Seu Jorge, Maria Rita, James Blunt, John Legend, Jamie Cullum, Coldplay, entre outros, estão aí e servem para salientar ainda mais o quanto são raras coisas boas na música de hoje. E não é uma questão de gosto. É uma questão de mínimo senso crítico. As obras do passado e as “obras” do presente têm um abismo que as separa esteja o foco na melodia, na letra, na composição, na extensão do vocabulário utilizado ou em qualquer outra coisa relacionada à música.

Explicação para isso? Não é fácil, mas arrisco que seja um dos frutos de um momento histórico mais amplo. Tempos de muito corpo e pouca alma. De boa forma e péssimo conteúdo. Todos são muito ocupados, precisam desestressar. Muito ocupados para pensar, muito ocupados para refletir.

A música deixa de ser cultura e passa a simples ferramenta para fugir do dia-a-dia. Fugir da tensão. Ferramenta para suar, para esquecer o chefe. Se possível, ensurdecedora, porque assim se torna ferramenta também para não falar com os outros, para se fechar no mundo cada vez mais virtual. Eu e a tela. Você e a tela.

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Sobre Thiago B. Ribeiro
Thiago Barros Ribeiro tem 32 anos, é paulistano, sampaulino e, segundo as boas e más línguas, quase insuportavelmente chato. Mestre em Economia por formação, gestor público por profissão, metido a besta em esportes por paixão.

6 Responses to De volta ao passado: música

  1. Mateus says:

    Você disse sobre as pessoas usarem a música para fugir da tensão, desestressar…que ouçam então Bach, Beethoven, Mozart (que como disse são incomparáveis), ou outras bandas e grupos que prestam…
    Eu faço isso…a música clássica é minha aliada para diminuir a tensão…
    Só não vai querer desestressar ouvindo Banda Dejavu ¬¬

  2. Thiago says:

    Parabéns por ser uma exceção, Mateus. Infelizmente hoje a música clássica não é opção de muitas pessoas. Melhor remexer o esqueleto ao som do funk, do axé…

  3. Foca says:

    Thiago, a culpa dessa depressão musical está nos anos 90, o período mais sem graça dos últimos cem anos.

    Nesta década, a música foi péssima (como você bem mostrou), o moralismo foi predominante e até uma final de copa do mundo foi decidida nos penaltis sem nenhum lance mais “artístico”.

    E os filmes? Esqueceram de mim, Exterminador do Futuro, Independence Day, os piores batmans de todos, etc. Enfim, anos a serem esquecidos.

    • Thiago says:

      Foca, concordo em geral e discordo apenas em detalhes. O (falso)moralismo de fato apareceu com força nos 90, mas, especificamente em relação à música, digamos que o axé e o funk não são as coisas mais moralistas do mundo… No cinema, acho os anos 90 melhores do que os 80. Tem coisas bastante ruins, como as que você citou, mas também coisas boas. De bate-pronto, destaco Se7en, Coração Valente, Matrix e O Poderoso Chefão 3, que foi ali na fronteira, 1990. Abraço e continue por aqui!

  4. Anônimo says:

    Thiago, a promessa de Roupa Nova como trilha sonora ainda tá de pé?

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